Era um dia de distribuição de peixe "fresco" que, na verdade, era congelado e raro em Kalulu. O ano, que quase se perde na memória, era 1988. Para quem fosse em visita, a vila estava cheia e agitada. Para nós era apenas "dia do peixe fresco" que faria diferença no almoço e na janta durante a semana. A kizaka, a kabwenya e outros condutos vezeiros estariam, por dias, em gozo de férias, dando lugar ao peixe "cozinhado", grelhado e assado, até acabar, pois poucos tinham meios de conservação.
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quinta-feira, abril 28, 2022
UM "CARAPAU" NA CONSOLA
sexta-feira, abril 22, 2022
TRAVESSIA LESTE
Rio Longa, 06.03.2022 - O local fotografado fica à montante da "ponte do Lususu" que liga o Lubolu à Kibala. Levado pela curiosidade e exploração turística da região, meti-me, pela primeira vez, pela rodovia asfaltada (depois da guerra) que une os dois municípios do Kwanza-Sul, a leste da EN 120.
sexta-feira, abril 15, 2022
UM FANTOCHE NA FARRA
Havia semana e meia que o espião terrorista estava misturado entre as gentes, comendo e bebendo com eles, ouvindo as conversas, indagando e sendo respondido e, sobretudo, tomando as notas, corrigindo o "tiro" e planificando novas vias de entrada e saída.
O movimento e movimentação regular de tropas republicanas levavam, às vezes, as pessoas, até os mais avisados e treinados pela herdeira da pide, à desatenção, fazendo com que os espiões "terroristas", fardados com uniforme republicano ou à paisana, penetrassem em surdina e se instalassem entre a população.
Sorte madrasta teve o Nuryeji. Vivia a sua segunda semana no Dundo, de bar em bar e de festa em festa. Exibindo, às vezes, o seu walkie talkie, era um pequeno mwata aos olhos dos incautos convivas, pagando cigarros, walwa e chafurdando o que podia.
A cidade, abastecida de géneros alimentares pela empresa kamanguista, era das mais importantes e recebendo dirigentes da capital e de urbes vizinhas a sul, sudeste e sudoeste. Até os do Comité Central, que politicavam na grande avenida das heroínas e do carro de assalto, mandavam requisições disto e daquilo.
Por essa altura, os terroristas faziam já "visitas" de sabotagem em quase todos os projectos, roubando comida, danificando o transporte de energia e apossando-se de bilhas de concentrado. Estávamos a viver a década de oitenta do século XX. Já tinham surpreendido e neutralizado a guarda e a gestão de um projecto, queimando um Hércules que pousara carregado de comida e sobressalentes.
Um dia, conto a estória dos "escapes rotos" por causa das bebedeiras dos terroristas que confundiram vinagre com vinho branco. Leram vino. Era italiano. Bastou beberem-no com gula de kaporroteiro sedento para diarreiarem dias e noites sem tréguas.
O terrorista Nuryeji estava camuflado numa festa da cidade. As pessoas conheciam-se e os civis toleravam os militares. Ninguém conhecia o terrorista. Por isso, alguns olhos, na festa, estavam postos nele, embora, treinado, se calhar, na bófia israelense, fosse de poucos falares e comedidos movimentos corporais.
Foi que uns akwenze decidiram dar-lhe de beber.
- Beba Camarada, não se acanhe!
Entre a indelicadeza que podia acirrar as desconfianças e a aceitação, o terrorista preferiu a segurança.
Meio copo, mais um copo, mais copo e meio, até que a bebida lhe aqueceu o corpo, ao ponto de meter-se na batucada, à roda dançante do cinguvu e ngoma ya phutu.
À medida que se ia contorcendo, com aquele dançar estranho que borrifava as noites sunguradas de Likwa, as calças do fantoche foram subindo e as peúgas exibindo o macho da galinha.
Alguém atento soltou aos ventos "fantoche na roda!" Instalou-se grande algazarra.
- É fantoche!
- Agarra fantoche, prende fantoche, mata fantoche!
Bem tentou ainda dar um pulo e marcar alguns passos para se desfazer na mata que era a sua predilecta cidade. Porém, os homens em todos os lados fizeram-se floresta e cumpriu-se a sentença:
- Amarra fantoche, prende fantoche, mata o fantoche!
Caído em desgraça, toda a sua vida e conexões foi, depois, exposta pelas vozes que desfilavam na frequência do walkie talkie disfarçável que levava preso à cintura.
Passaram semanas, meses, se calhar, e não se falou em todo o nordeste de outra coisa que integrasse a estória daquele fantoche apanhado na farra.
Publicado pelo Jornal Cultura, 16.03.2022 e Jornal de Angola de 20.03.2022
sexta-feira, abril 08, 2022
NUM "MATONGÊ" DAS ARÁBIAS
Que o indiano é comerciante e emigrante por excelência, você, eventualmente, já sabia. Que os "zazás" não se lhes ficam atrás na kandonga e na exportação da sua cultura alimentar para aonde quer que estejam, também é líquido. A novidade deve ser o "casamento" entre o comerciante indiano e a tia congolaise que confecciona e vende fufu, sakamadeso e makayabu.
sexta-feira, abril 01, 2022
SOMEWHERE IN AFRICA WITH INDIANS
terça-feira, março 29, 2022
SUA CABRA!
Parece asneira, se a expressão for jogada com carga pejorativa por cima de uma mulher. Lá chegaremos.
quarta-feira, março 23, 2022
EU E O LIXO VOADOR
JURUMEMU! Aquele segmento, entre Zango 2 e Zango 3, já me está a envolver em muitas estórias.
sexta-feira, março 18, 2022
OUVINDO "PASSOS DE MILHARES..."
Os Metodistas dos anos oitenta do século XX sabem cantar "Oiço os passos de milhares;
Vi também a pobreza a deambular pela rua longitudinal da Missão. São meninos e meninas que vêm de aldeias próximas. As mangas verdes são apedrejadas...
domingo, março 13, 2022
UM LABORATÓRIO QUE "FAZIA MAL" A PRETENDENTES A GOVERNO
Vejamos:
Quem quer poder devia saber que, se lá chegar, precisará de tudo isso para governar: estradas e pontes para ele e seus governados se locomoverem. O atalho desenhado na mata pela mesmice do pé humano não será mais o caminho;
Precisará de escolas para eles mesmos, seus filhos e os governados se formarem. A ausência delas seria um retrocesso, pois as cabanas improvisadas ou a sombra de árvores no meio da selva deixam de ter serventia, sendo os laboratórios um aditivo imprescindível para garantir praticidade aos conteúdos teóricos;
As suturas realizadas sobre a pedra e os curativos apressados com iodo e mercúrio devem dar lugar a uma assistência médica e medicamentosa de qualidade e em instalações apropriadas, assim como toda a administração e o exercício do poder faz-se em instalações com o simbolismo e comodidade adequados. Aliás, sempre assim foi e, em África, é exemplo a tomada de antigos palácios coloniais;
Numa cidade, e para quem toma e exerce poder, a luz ténue do luar, das estrelas e dos notívagos pirilampos cede lugar à iluminação eléctrica, assim como a água barrenta, em que javalis e homens se revezam para afugentar a sede, é substituída pela água potável e de distribuição canalizada.
Por que será que amputaram Kalulu e outras vilas e cidades angolanas daquilo que lhes faria falta postos na situação de governo? Só pode haver uma razão: sabiam que nunca ascenderiam a governo. Agiram como se fossem estrangeiros que pretendiam impingir um sofrer eterno aos kalulenses e de cujo veneno nunca beberiam. Só pode ser!
Esses degraus (imagem 1) é o que sobrou do Laboratório de Biologia e Química da Escola Preparatória de Kalulu, rebatizada por Kwame Nkrumah no pós independência de Angola. Aqui passaram quadros do Libolo e do país. Um laboratório de Biologia, num município agropecuário como o Libolo faz uma incomensurável falta e diferencia a formação. Infelizmente, dele resta apenas o chão que acolhia as paredes.
Que razão levaria quem quer ascender ao poder destruir um laboratório escolar?
Nas suas investidas de 1983, 1989 e no pós eleições de 1992, entre minagens e dinamitações, os homens das selvas também deitaram abaixo a conservatória do registo civil. Provavelmente se tivessem e estejam ainda a gabar dos actos destruidores praticados, gritando aos quatro ventos que foi obra.
Sim. Obra de diabos!
terça-feira, março 08, 2022
O TRONC'O E O MICATE
(Estórias de uma viagem ao Mayombe)
quarta-feira, março 02, 2022
"DEIXEM SE MEDIR CAPACIDADE"
Nos meus tempos de garoto, quando dois miúdos ou miúdas de idades diferentes não se respeitassem como mandam os hábitos, os mais velhos deixavam (num ambiente de neutralidade total) que os adversários medissem forças ou "capacidade".



