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quinta-feira, abril 28, 2022

UM "CARAPAU" NA CONSOLA

 Era um dia de distribuição de peixe "fresco" que, na verdade, era congelado e raro em Kalulu. O ano, que quase se perde na memória, era 1988. Para quem fosse em visita, a vila estava cheia e agitada. Para nós era apenas "dia do peixe fresco" que faria diferença no almoço e na janta durante a semana. A kizaka, a kabwenya e outros condutos vezeiros estariam, por dias, em gozo de férias, dando lugar ao peixe "cozinhado", grelhado e assado, até acabar, pois poucos tinham meios de conservação.

Calhava vez sim, meses nunca, a chegada da câmara frigoríficas com peixe congelado que era distribuído pelas delegações municipais, empresas públicas, empresas privadas reconhecidas pelo governo e destes para as secções e destas aos trabalhadores.​
O autor desta prosa vivia com um primo professor primário na escola nº 3, na Banza de Kalulu. Por isso, estando ele a ministrar aulas, orientou o "irmão", que já era conhecido dos colegas, para ir à fila e receber as unidades que lhe eram "de direito". Vivia-se ainda o tempo da igualdade entre os iguais, embora havendo já diferença entre os que se mostravam diferentes do "povo em geral".​
Quem vai hoje a Kalulu, encontra, depois da Pensão da Tia Ká uma entrada. Era um largo quintal onde estacionava o camião frigorífico em que eram retiradas as caixas de carapau congelado, distribuído às delegações municipais, administrações comunais e outros organismos públicos e privados. Recebidas as malas, encontravam-se outros espaços para o retalho equitativo pelos
trabalhadores, salvaguardo o estômago largo dos delegados, comissários, chefes de secções e outros que recebiam mais do que a maioria.
Como em todos os tempos, Kalulu já tinha os pequenos "gregos" que andavam com uns artefactos de madeira com um um pico de metal com que "pescavam" nos locais de distribuição.​ Fazia sol e um pouco de poeira. Um dos grupos que procedia a abertura das malas de peixe congelado e distribuição unitária abrigava-se no passeio, debaixo da consola do edifício que comportava a EDIL (foto), hoje Pensão e restaurante. À frente estava o PCU (Posto Comando Unificado), cujas instalações acolhem o comando municipal da polícia.​

Um rapaz desconhecido controlou a desatenção dos distribuidores e receptores de carapau e, sem ser visto, pescou com o seu artefacto um peixe, colocando-se em fuga no meio da multidão.
Um kota, daqueles reguilas que não gostava de perder nenhuma contenda, pôs-se ao encalce do rapaz, desferindo-lhe um veloz pontapé que falhou no menino e acertou no vazio. O sapato, único do dikota, que era funcionário público, voou e encontrou descanso no cimo da laje consola.​ As horas que se seguiram foram para o mwadyakime encontrar uma escada que lhe permitisse reaver o pé direito do sapato castanho.
A rapaziada "pescadora" ficou dividida entre o olho no peixe e a estiga ao kota que perdera o sapato camossim​ por causa de um carapau.​ De lá em diante, os "sapatos de recreio com duas flores", que vinham da Jugoslávia, passaram a ser chamados "carapau".

Obs: publicado pelo Jornal de Angola de 17.04.2022

sexta-feira, abril 22, 2022

TRAVESSIA LESTE

Rio Longa, 06.03.2022 - O local fotografado fica à montante da "ponte do Lususu" que liga o Lubolu à Kibala. Levado pela curiosidade e exploração turística da região, meti-me, pela primeira vez, pela rodovia asfaltada (depois da guerra) que une os dois municípios do Kwanza-Sul, a leste da EN 120.

Até aqui, tinha parca memória daquela via que me levaria à aldeia de Kisangu onde vivia o meu homónimo (irmão do meu pai) que terei visitado em 1977. Lembro-me apenas que fui carregado ao ombro do meu pai e a aldeia tinha uma lagoa por perto, onde apareciam patos selvagens que chamávamos por pato d'água.

Depois do falecimento do meu "pai pequeno", na década de noventa do século passado, o filho Manuel Luciano (também finado) mudara-se para Kisangu, onde deixou a viúva e o filho.

Saído do Kisongu, juntei ao útil o agradável: conhecer a primeira estrada e primeira ponte sobre o rio Longa, por onde se trafegava de Luanda à Nova Lisboa (Huambo), passando pela ponte Filomeno da Câmara (travessia sobre o rio Kwanza), rio Longa (ponte que antiga na imagem), Kibala-Santa Comba (Cela) e daí em diante. Foi também uma oportunidade para conferir as imagens que conservava da visita ao Kisangu e ver os parentes.

Sendo a primeira passagem e sem estórias e história sobre o tabuleiro, a visualização de destroços no rio forcou a paragem.
- Ela foi destruída pelos maninhos na guerra de oitenta. - Contou o ancião Kime que pescava à linha no rio Longa.

Engoli desapontado com os autores, mergulhando num caudal de interrogações:
- Por que a destruíram, se ela até andava bem escondida numa picada remota?
- Quanto dinheiro se terá gasto na sua substituta?
- Por que não se pouparam coisas que a todos faziam e fazem falta?
Continuei a marcha, num asfalto sem mácula. Dois quilómetros depois, parei para perguntar se já estava no Kisangu, ao que as senhoras que marchavam de regresso para casa disseram sim.
- Ka mon'Andono K'aphuku. Luciano Kajila nduku yami¹.- Apresentei-me, ao que me indicaram onde vive a viúva e o filho do meu finado primo Manuel Luciano.
Uma casuarina de flores vermelhas convidou-me a adentrar uns 15 metros que separam o conglomerado habitacional familiar da rodovia. Plantar flores é um hobby da minha família paterna e "não podia ser outro lugar". Falei para a mulher que me acompanhou na viagem.
- Como é que sabes que é aqui a entrada?
- Vamos. Eu sei que o Manuel gostava de Plantas. É um hábito de família.
Encontrámos o Mingo, meu sobrinho a colocar barro numa parede feita de adobes. A casota tem cobertura de chapas de zingo.
Apresentou-me a sua avó materna que fomos saudar, apresentando-me num Kimbundu aportuguesado e usando o mesmo discurso. Sou filho de António e chará do finado Luciano.
A idosa, já com pouco foco nos olhos, passeou a memória pelo tempo. Vieram-lhe as imagens e as conversas. Agradeceu a visita surpresa e desejou-nos boa viagem.
Já a sair, depois de ter deixado ao sobrinho umas patacas, surgiu a mãe dele que recebera recado de que iam pessoas num carro à casa dela. Chegou ofegante. Quase não conseguia falar. Não lamentou a nossa ausência, o que era de esperar. Afinal o Kisangu já não fica longe. É fora do tráfego normal (EN 120) mas tem também estrada asfaltada e a ponte que fora destruída já foi reposta há maus de dez anos. Aliás, foi isso que levou alguns dos Kisangwistas, que se encontravam refugiados em outras paragens, de volta à aldeia natal.

A "cunhada" queixou-se do miúdo que, sendo órfão de pai, decidiu arranjar mulher.
- Não há problema, cunhada. Vamos ajudar. Ele é teu filho único e precisas de alguém por perto para se ajudarem. Não fez mal. está é a fazer bem. Tinha já deixado umas moedas mas, agora que me falou do pedido, acrescento mais essas moedas para ver se ajudamos na compra das coisas do alembamento.
Vieram-me à mente imagens de conversas (poucas) com o meu homónimo e de meu primo Manuel Luciano, da vez que fora rusgado pelas FAPLA e levado a Kalulu. - Os olhos quase se emocionavam e despedi-me prometendo não desperdiçar a próxima oportunidade para visita-los.
- Já sei onde vocês estão. Fiquem bem, cunhada!
Com a estrada a inclinar para Oeste, atingimos a EN 120, próximo de Mbumba-Alunga, onde se instalou uma grande empresa agrícola. Lá vive a irã mais nova de António Fernando, meu finado progenitor. A terceira paragem foi na aldeia Xele (Shell), mais a norte, onde vive uma das minhas irmãs, a única que decidiu viver na Kibala. Quer a tia Kambandu, quer a Júlia tinham ido às lavras.
Com o sol a afundar-se no Atlântico, Luanda ficava a 4 horas.

=
1- Sou filho de António Kaphuku. Lucianop Kajila é meu homónimo (chará).

Publicado no Jornal Cultura de 11 de Maio de 2022

sexta-feira, abril 15, 2022

UM FANTOCHE NA FARRA

Havia semana e meia que o espião terrorista estava misturado entre as gentes, comendo e bebendo com eles, ouvindo as conversas, indagando e sendo respondido e, sobretudo, tomando as notas, corrigindo o "tiro" e planificando novas vias de entrada e saída.

O movimento e movimentação regular de tropas republicanas levavam, às vezes, as pessoas, até os mais avisados e treinados pela herdeira da pide, à desatenção, fazendo com que os espiões "terroristas", fardados com uniforme republicano ou à paisana, penetrassem em surdina e se instalassem entre a população.

Sorte madrasta teve o Nuryeji. Vivia a sua segunda semana no Dundo, de bar em bar e de festa em festa. Exibindo, às vezes, o seu walkie talkie, era um pequeno mwata aos olhos dos incautos convivas, pagando cigarros, walwa e chafurdando o que podia.

A cidade, abastecida de géneros alimentares pela empresa kamanguista, era das mais importantes e recebendo dirigentes da capital e de urbes vizinhas a sul, sudeste e sudoeste. Até os do Comité Central, que politicavam na grande avenida das heroínas e do carro de assalto, mandavam requisições disto e daquilo.

Por essa altura, os terroristas faziam já "visitas" de sabotagem em quase todos os projectos, roubando comida, danificando o transporte de energia e apossando-se de bilhas de concentrado. Estávamos a viver a década de oitenta do século XX. Já tinham surpreendido e neutralizado a guarda e a gestão de um projecto, queimando um Hércules que pousara carregado de comida e sobressalentes.

Um dia, conto a estória dos "escapes rotos" por causa das bebedeiras dos terroristas que confundiram vinagre com vinho branco. Leram vino. Era italiano. Bastou beberem-no com gula de kaporroteiro sedento para diarreiarem dias e noites sem tréguas.

O terrorista Nuryeji estava camuflado numa festa da cidade. As pessoas conheciam-se e os civis toleravam os militares. Ninguém conhecia o terrorista. Por isso, alguns olhos, na festa, estavam postos nele, embora, treinado, se calhar, na bófia israelense, fosse de poucos falares e comedidos movimentos corporais.

Foi que uns akwenze decidiram dar-lhe de beber.

- Beba Camarada, não se acanhe!

Entre a indelicadeza que podia acirrar as desconfianças e a aceitação, o terrorista preferiu a segurança.

Meio copo, mais um copo, mais copo e meio, até que a bebida lhe aqueceu o corpo, ao ponto de meter-se na batucada, à roda dançante do cinguvu e ngoma ya phutu.

À medida que se ia contorcendo, com aquele dançar estranho que borrifava as noites sunguradas de Likwa, as calças do fantoche foram subindo e as peúgas exibindo o macho da galinha.

Alguém atento soltou aos ventos "fantoche na roda!" Instalou-se grande algazarra.

- É fantoche!

- Agarra fantoche, prende fantoche, mata fantoche!

Bem tentou ainda dar um pulo e marcar alguns passos para se desfazer na mata que era a sua predilecta cidade. Porém, os homens em todos os lados fizeram-se floresta e cumpriu-se a sentença:

- Amarra fantoche, prende fantoche, mata o fantoche!

Caído em desgraça, toda a sua vida e conexões foi, depois, exposta pelas vozes que desfilavam na frequência do walkie talkie disfarçável que levava preso à cintura.

Passaram semanas, meses, se calhar, e não se falou em todo o nordeste de outra coisa que integrasse a estória daquele fantoche apanhado na farra.

Publicado pelo Jornal Cultura, 16.03.2022 e Jornal de Angola de 20.03.2022

sexta-feira, abril 08, 2022

NUM "MATONGÊ" DAS ARÁBIAS

Que o indiano é comerciante e emigrante por excelência, você, eventualmente, já sabia. Que os "zazás" não se lhes ficam atrás na kandonga e na exportação da sua cultura alimentar para aonde quer que estejam, também é líquido. A novidade deve ser o "casamento" entre o comerciante indiano e a tia congolaise que confecciona e vende fufu, sakamadeso e makayabu.

A geografia aponta para Deira, uma zona comercial do tipo São Paulo de Luanda ou Hoji-ya-Henda dos anos 90/2000. Aqui, os indianos, paquistaneses e outros "eses" ficam quase num "chega-chega" à minha lojeca, com produtos sem preço que vendem ao critério da pressa ou desatenção do putativo cliente, sobretudo na hora da pausa para o almoço e ou reza muçulmana em que quase tudo fecha.
Uns até chegam a fechar os clientes na loja para melhor os convencer a comprar e ou desistirem de perguntar/procurar por preços mais convidativos.
Mas deixe-me narrar o "matongê".
A fome daquele dia e hora era intensa e não havia mais tempo a perder. Quando o vendedor de periféricos electrónicos nos abordou, apontámos-lhe apenas a boca e a barriga, o que o levaria a perceber a nossa angústia e desistir, temporariamente, do seu "come in, i'l give you a very good price".
- We want eat. - Falei-lhe.
O homem olhou para nossa tez amelaninada e terá também medido o "volume" da nossa fome.
- Came on. I will show you where you can find what you need", disse, num inglês de tom arranhado e de fácil compreensão para um beginner.
Atravessámos um prédio na diagonal, adentrámos outro, subimos num elevador e no terceiro piso, que se parecia a uma vivenda, adentramos um restaurante(?) sem o cuidado que os asiáticos e europeus conferem a lugares para servir comida. Parecia algures no Palanca e tinha de tudo quanto a foto mostra e muito mais: cabritê, sakamadeso, mfúmbwa, fufu, mKaybu, peit'alto, carne seca e, se calhar, até carne de "primo" e makoso!
Por mais caricato que possa parecer, enquanto levávamos ao estômago as "bolas" de fufu, embrulhadas em folhas de maniôc, o comerciante espreitava de cinco em cinco minutos, apelando que não deixássemos de passar pela sua lojeca de bujingangas e outras modernices de curta duração e serventia.
É como se pretendesse deixar clarificado: mostro-vos a comida de vossa terra mas tendes de deixar moedas no meu mealheiro!

sexta-feira, abril 01, 2022

SOMEWHERE IN AFRICA WITH INDIANS

- Hello! You look like south african. Where are you from?
- Not South Africa. We are from Angola
- Oh! Angola. You've a very long war. How many Savimbi have in Angola?
- Only one.
- Oh! only one?! He's fighting, fighting not stop. He destroyed my business in Kwandu-Kuvangu and Moxiko. Why you don't put hin in a container?
...
In another East African country, an Indian, seeing that his wife was in a terminal pregnancy, decides to take her to Daman for delivery.
- He's not my son! - He exclaimed grumbling to see the baby full of melanin, while the woman swore and cried to all the saints, angels and archangels that she would never betray him.
The hospital advises on DNA testing, and both the accusing husband and the wife accused of "androidism" constitute attorneys.
- Let us put it clear. - He announced, while rehearsing the sanction.
Hours later, a little crestfallen, his lawyer arrived.
Doctor, this baby is your 99.99 percent.
- You are telling that but I don't believ. Look at me and look at her mother from her. We are yellow and baby is black. It isn't possible. - He sustained.
- But, why, Doctor, do you think it's impossible? If DNA test says that is yours? - Asked the lawyer perplexed.
- Pay attention! - He appealed, justifying then:
- when you plant tomato you get tomato. You don't get piri-piri. Isn't it? Why me and my wife yellow we have black son?
After all, it turned out that he was of black descent!
Photo: flying over Mbuji-Mayi (DRC)
Pode ser uma imagem de texto

terça-feira, março 29, 2022

SUA CABRA!

Parece asneira, se a expressão for jogada com carga pejorativa por cima de uma mulher. Lá chegaremos.

Sabalu Lumbu, 60 anos, natural e residente em Ndalambiri, Ebo, é um tio que, até hoje, ainda não sabemos quem adoptou quem.
Nutrimos uma estima recíproca, sendo ele irmão mais novo da mãe do meu compadre João Martins. Conhecemo-nos na CADA. aonde, em 2018, fomos visitar a irmã do compadre João Martins que se encontrava internada no dispensário de TB. Falámos sobre uns assuntos circunstanciais. e, sem demora, nasceu uma empatia de tio para sobrinho.  A finada tia Mariana Almeida, irmã mais velha de Sabalu Lumbu,  é que já me conhecia.

Posto na sede do Ebo, a 12.02.2022, decidi que não sairia de lá sem o ver. Já lhe tinha ofertado um facto, em Novembro de 2021, quando fomos ao óbito da tia Mariana, o que o deixou maravilhado.
- Nessa aldeia, e mesmo na vila, ninguém tem fato como o meu! - Gabava-se de pessoas a ventos.
Desta vez, levei um presentinho para ele, mas me tinha esquecido do mesmo no albergue em que estava alojado. Saído do rio (do banho), Sabalu Lumbu, encontrou-nos já sentados em sua casa, pondo a prosa em dia (mahezu) com a esposa e a irmã  que saíra de sua aldeia (próxima) para visita-lo.
Mal chegou, como que procurando cumprir uma promessa antiga, meteu-se a rondar o matagal à volta de casa, intentando procurar por algo que somente ele sabia.
- Ti Sabalu, não está a sentar. É o quê então? Será que já deixou de beber? - Provoquei-o.
- Não meu sobrinho. Isso não se deixa. Se trouxe uma garrafita, pode tirar. - Respondeu.
Enfiei os dedos na algibeira e de lá saíram mil Kwanzas que ele recebeu com vênia. Porém, não se assentou. Transpôs uma esquina e desfez-se de nosso horizonte visual, voltando momentos depois ofegante.
- Já bebeu! - Pensamos todos sem o verbalizar.
A conversa seguiu rumo, intensificando-se à medida que fossem chegando pessoas a quem João Martins brindava com recordações dos anos 80 e 90 do século findo, antes de deixar Ndalambiri para instalar-se na Cela e depois em Luanda.
Depois da despedida, e já junto ao carro encontrámos um saco contendo batata-doce e uma cabra amarrada que seria transportada no SUV, o que me levou a  perguntar atónito:
- De quem e p'raonde vai esse cabrito?

- Sua cabra! - Respondeu, sem mais acrescentar.
A LuSa, assim baptizada em alusão às iniciais de nossos nomes (Luciano e Sabalu), ficou no Ebo a fazer companhia ao cabrito do João Martins, contando que dentro de dois anos me venha a dar um bode.
Por coincidência, na mesma noite, navegando pelas redes sociais, chegou-me uma estória sobre dois rapazes a quem foi dado dinheiro para a compra de tênis. Um comprou um par de tênis que perfilava na primeira linha da moda. O outro comprou uma cabra. Passados dois anos, o primeiro tinha os tênis rotos e andar quase descalço, ao passo que o segundo tinha já sete cabritos, podendo comprar igual número de tênis.
Fiquei a reflectir, para além do alcance simbólico e da consideração que se tem por quem recebe de oferta uma cabra, no valor comercial e multiplicador daquele presente do ti Sabalu Lumbu. Foi mais do que um simples caprino!

Publicado pelo Jornal de Angola, 06.03.22

quarta-feira, março 23, 2022

EU E O LIXO VOADOR

 JURUMEMU! Aquele segmento, entre Zango 2 e Zango 3, já me está a envolver em muitas estórias.

Há uma semana, foi a caravana de uns chicoespertos escoltados por dois motoqueiros da polícia a mandarem todos a "abrir alas" para eles passarem...
Ontem,  foi o cobrador que jogou uma pet do carro para a rua. Quantas vezes você terá assistido a pessoas que deviam ser gente a jogar livro à rua? A mim inquieta. E a si?
Íamos a 30km/h, mais ou menos. O sentido era Zango-Viana.
O Toyota Hiace ia à frente de mim e levava apenas duas pessoas, sendo o condutor, em fato-macaco escuro e sujo, e outro maltrapilho que aparentava ser cobrador. Quando nos prestávamos para fazer aquela curva à direita para apanhar outra faixa ascendente, o suposto cobra-dor jogou uma Pet à rua, trazendo para fora a dor que minh'alma sente quando tal acontece.
- Pim, pim. - Buzinei duas, três vezes.
Olharam para mim, um e outro, e fizeram sinais deselegantes que me soaram a um "vá-pô!". O caro leitor sabe do que digo. Se não sabe, saberá quão doloroso é ouvir um "vá-pô!"
Acelerei e encostei-me ao lado do condutor. Expliquei-lhe que vi sair do seu carro para a rua uma garrafa vazia e que jogar lixo na via era acto reprovável.
- Só uma garrafa e o senhor vem reclamar? O  senhor está a perder o seu tempo ou pensa que vamos parar o carro por causa de uma garrafa?
Confesso. Senti-me deslocado. Quando a ignorância é tamanha, chegamos a pensar que nós, detentores de conhecimentos e regras de higiene, é que estamos deslocados no tempo e socialmente.
Passei à frente do Hiace. Costuma ficar, mais à frente, um polícia. Pensei em encontrar o agente educado que me brindara com uma vênia, sete dias atrás. Não o vi. Pretendia pedir-lhe que parasse o carro e mandasse o cobrador, que se ria à brava da minha "ignorância ou implicância", recolher aquele descartado e colocá-lo em local apropriado. Não tive, desta vez, a mesma sorte.
E os dois sacanas, sim,  isso mesmo, ainda ultrapassaram-me a rir-se de mim.
- Kota se não sujarmos o quê que o vosso governo do MPLA vai limpar?! - Atirou-me o condutor, levando-me a engolir em seco tamanho batráquio.
- É a casa mais limpa aquela que mais se varre ou a que menos se suja?! - Continuo a gritar para mim mesmo.
É no que da "quando se poupa muito na educação", ganhando-se analfabetos funcionais, latrocínios, dislateiros e outros antissociais, conforme escreveu, e muito bem, Filipe Zau.
Às vezes, sinto-me deslocado perante o quadro de desvio social posto aos meus olhos.

sexta-feira, março 18, 2022

OUVINDO "PASSOS DE MILHARES..."

Os Metodistas dos anos oitenta do século XX sabem cantar "Oiço os passos de milhares;

Uma herança resgatada;
Firme Ndondo, Nyanga-a-Pepe, Kyôngwa, Késwa, Kela..."

Visitei a Missão que é para nós Metodistas o mesmo que deve representar Dondi para os irmãos da IECA. E foi a pensar no simbolismo das duas missões que levei, 31.10.21, a minha esposa que é da IECA.
Era domingo, eu trajava calções (não podia adentrar o templo). Os irmãos realizavam um culto. Não deu para fazer melhor do que estas imagens.
Aos meus olhos, a Missão, que também acolhe o Instituto Médio Agrário (desde 1992), mostra que teve um período de "adormecimento" que levou à destruição de alguns de seus equipamentos assolados pela velhice e algum descaso. O cerco militar (movido pela rebelião) a que a região esteve votada pode também ser tido em conta.
Felizmente, já se vê alguma tinta. Embora se peça mais ferro, cimento e arado para os campos.
Vi Faculdade de Teologia, Centro de Formação em Ciência Doméstica, Colégio, Centro Médico, Suinicultura, campo agricultado, escola primária e obras paradas de instalações que, pela sua configuração, devem ser de uma outra escola...
É bom que a vida volte. Que os sobreviventes dos que conheceram o Quéssua nos seus tempos áureos o visitem e debitem ideias. Será bom que os gestores da coisa nostra saibam ouvir, apontar e pôr em prática.

Vi também a pobreza a deambular pela rua longitudinal da Missão. São meninos e meninas que vêm de aldeias próximas. As mangas verdes são apedrejadas...
A ocupação dos campos, antes de se atingir a Missão, é um facto. Crescem casas, lavras e até vi uma denominação religiosa que não é Metodista.
Aprendi e acredito que A CHAMA VIVA DO METODISMO É INAPAGÁVEL!

domingo, março 13, 2022

UM LABORATÓRIO QUE "FAZIA MAL" A PRETENDENTES A GOVERNO

Há muito me tenho perguntado sobre o sentido de os fazedores de guerra interna destruírem infraestruturas como pontes, escolas, hospitais, palácios, energia e água, entre outros.

Vejamos:

Quem quer poder devia saber que, se lá chegar, precisará de tudo isso para governar: estradas e pontes para ele e seus governados se locomoverem. O atalho desenhado na mata pela mesmice do pé humano não será mais o caminho;

Precisará de escolas para eles mesmos, seus filhos e os governados se formarem. A ausência delas seria um retrocesso, pois as cabanas improvisadas ou a sombra de árvores no meio da selva deixam de ter serventia, sendo os laboratórios um aditivo imprescindível para garantir praticidade aos conteúdos teóricos;

As suturas realizadas sobre a pedra e os curativos apressados com iodo e mercúrio devem dar lugar a uma assistência médica e medicamentosa de qualidade e em instalações apropriadas, assim como toda a administração e o exercício do poder faz-se em instalações com o simbolismo e comodidade adequados. Aliás, sempre assim foi e, em África, é exemplo a tomada de antigos palácios coloniais;

Numa cidade, e para quem toma e exerce poder, a luz ténue do luar, das estrelas e dos notívagos pirilampos cede lugar à iluminação eléctrica, assim como a água barrenta, em que javalis e homens se revezam para afugentar a sede, é substituída pela água potável e de distribuição canalizada.


Por que será que amputaram Kalulu e outras vilas e cidades angolanas daquilo que lhes faria falta postos na situação de governo? Só pode haver uma razão: sabiam que nunca ascenderiam a governo. Agiram como se fossem estrangeiros que pretendiam impingir um sofrer eterno aos kalulenses e de cujo veneno nunca beberiam. Só pode ser!

Esses degraus (imagem 1) é o que sobrou do Laboratório de Biologia e Química da Escola Preparatória de Kalulu, rebatizada por Kwame Nkrumah no pós independência de Angola. Aqui passaram quadros do Libolo e do país. Um laboratório de Biologia, num município agropecuário como o Libolo faz uma incomensurável falta e diferencia a formação. Infelizmente, dele resta apenas o chão que acolhia as paredes.

Que razão levaria quem quer ascender ao poder destruir um laboratório escolar?

Nas suas investidas de 1983, 1989 e no pós eleições de 1992, entre minagens e dinamitações, os homens das selvas também deitaram abaixo a conservatória do registo civil. Provavelmente se tivessem e estejam ainda a gabar dos actos destruidores praticados, gritando aos quatro ventos que foi obra.

Sim. Obra de diabos!

terça-feira, março 08, 2022

O TRONC'O E O MICATE

(Estórias de uma viagem ao Mayombe)

O tronc'oco é conduta par'água que se recicla nas operações mineiras (Buco-Zau). Quando assim acontece, a natureza reclama menos dos golpes, alguns rudes, que os seus gestores, homens, infligem contra si. E quando a actividade humana, imprescindível, reconhece repor a parte afectada da floresta, melhor ainda. Só se ganha em consciência colectiva e reposição do bem maior: vida!

O palácio que os holandeses deixaram na cidade mais a norte de Angola é um "monumento" que faz reflectir o quanto arquitectos e engenheiros civis já foram engenhosos (Cabinda). Felizmente, a consciência humana tem se esforçado em "perpectuar" para largos anos aquela marca secular de navegadores/exploradores que passaram por nós com algumas décadas de permanência.

Já comeu micate com jundungu? Em Belize é iguaria oficial na administração municipal. Quem for ao município mais setentrional de Angola e não provar dos micates e jinguba torrada é porque não se apresentou à administradora Suzana Abreu faz questão de dar a provar a seus hospedes temporários: micates, chá de kaxinde, jinguba torrada e jindungu. Houve quem tivesse feito sandes de micate, colocando jindungu no meio.

E o Mayombe, que beleza! Arvores que disputam o sol, esticando-se dia sim, anos tantos, sugando o humus das próprias folhagens recicladas pelo poder natural e intemporal. E, mais abaixo, polimetais que se escondem entre raízes fortes do Mayombe e águas fartas que se dirigem pachorrentas ao Atlântico.

É, sim, Cabinda do ananás que se diz melhor, do pau que se diz forte para levantar cansados e do kintweni sem adversários na doçura do ritmo, ao meu ouvido folclórico.

quarta-feira, março 02, 2022

"DEIXEM SE MEDIR CAPACIDADE"

Nos meus tempos de garoto, quando dois miúdos ou miúdas de idades diferentes não se respeitassem como mandam os hábitos, os mais velhos deixavam (num ambiente de neutralidade total) que os adversários medissem forças ou "capacidade".

Uma peleja aberta, sem que alguém pusesse "colher", até que o mais fraco apelasse por perdão do mais forte, ao que os mais velhos entravam a apaziguar, reconhecida a vitória de um sobre o outro.
Tal peleja abria um novo tipo de relacionamento entre os oponentes que passava de adversários (se desafiando) à submissão respeitosa por parte do mais novo/fraco e tratamento igualmente respeitoso (meu mais novo) da parte do vencedor.
Uns eram tidos como "dikota" porque "bilavam bwê). Não eram "dikota" por causa da idade. A "pulungunza" também ditava regras de coabitação social.

Às vezes, o derrotado pedia uma segunda jornada que lhe era aceite com o mesmo júri ou adicionando outros. O resultado ditava sempre uma nova ordem.
"Deixem se medir capacidade e ninguém acode", fosse no primeiro "kibeto" ou na busca de desforra.
- A Rússia e a Ucrânia estão a se "medir capacidade bélica"?
- Deixem-nos lutar, sem se imiscuir. A neutralidade é aqui chamada. Nossos "bilos" aconteciam, regra geral, quando fôssemos à caça ou à pesca.
Quando os russos e ucranianos terminarem a peleja, alguém vai tratar o outro por "mano", surgindo uma nova ordem regional.
Jogar areia nos olhos de um dos lutadores, molhar o espaço vital dele, pôr kibyona e outras malabarices é inclinar o campo.
Deixem "se medir capacidade" e curem-se, posteriormente, as feridas do perdedor e do vencedor!
Perante uma situação análoga de conhecida intransigência entre os contendores, a minha mãe diria: deixe-os lutar para se respeitarem!

segunda-feira, fevereiro 28, 2022

VALE DO PARAÍSO: ALDEIA DE MILITARES

Dande, 30.11.2021 - Próximo da 70ª Brigada de Infantaria Motorizada das FAA, 5 km da rodovia asfaltada que nos leva ao Ambriz e terras além, está o Vale do Paraíso. Militares vindos de vários pontos do país, alguns com passagem pelo Wambu, Huyla, Kwandu-Kuvangu e Vye, construíram, no meio de imbondeiros e arbustos espinhosos, uma aldeia em que instalaram suas mulheres e parentes trazidos do Centro e Sul do país.

O Umbundu e suas línguas primas são, a par do Português, os idiomas mais falados entre as mulheres adultas. Os homens são de diversas origens e que se vão revezando na Brigada, revezando também, às vezes, a chefia das famílias instaladas no Vale do Paraíso.

A caminho da aldeia, saindo do cemitério (perto de 2 quilómetros) Amélia e Maria (nomes fictícios) conversavam em Nyaneka. Foi fácil saber que não eram Ambundu. Aproximamo-nos e indagámos como haviam aí chegado.
- Viemos da Matala com o nosso irmão que é tropa. Ele foi agora transferido para outra Brigada e nós acabámos por manter aqui com outros tropas. - Contou Amélia.
- A vida é assim. Alguns tropas levam as mulheres aonde vão. Outros deixam e a mulher acaba casando com outro. - Acrescentou Maria.

A aldeia é também conhecida por Sete Imbondeiros e fica a caminho do rio Lifune (perto de 2 quilômetros). É de lá que sai a água para o consumo.
- São os militares que ergueram o bairro e lhe dão vida. - Explicou um aldeão, ex-militar licenciado à reforma, acrescentando que "a última semana do mês e a primeira do mês seguinte têm sido os período de maior movimento comercial e de pessoas".

As casas, maioritariamente de adobe, algumas rebocadas com argamassa de cimento e outras construídas com blocos de cimento, estão numeradas e contam-se às centenas. A energia eléctrica ainda está por chegar. Há sinais. Os postes que saem da Unidade militar já estão implantados. Os aldeões dizem "que falta pouco", embora reclamem também que "a empresa que estava a trazer a energia nunca mais foi vista".

Há uma escola (em ampliação), um posto médico (erguido pelo FAS) e outras residências em construção definitiva. A quantidade de petizes indicia taxas e fecundidade e natalidade elevadas.

Os comerciantes são cantineiros oeste-africanos que não medem distâncias, vendendo desde comida às bijuterias e produtos de higiene e adereços. Dentre eles está Dialó, jovem aparentando 20 anos e que já está em Angola "desde 2012".
- Já vivi em várias aldeias onde fui substituído por outros conterrâneos. - Explicou, num Português que inveja muitos angolanos.

Dialó é simpático e aprendeu a diplomacia de proximidade. Depois de trocarmos palavras em Português (aceitável do lado dele) e Francês (precário para nós), o jovem foi à montra e pegou em duas garrafas de água.
- É para os mais velhos matar a sede. Está calor! - Justificou, defendendo-se com argúcia para que aceitássemos a oferta.

Na nossa tradição (calculo que na dele também) quem te dá um presente deve ser retribuído com semelhante gesto.
- Temos aqui umas moedas que não pagam a água mas que podem servir para depois ofereceres rebuçados a outros amigos. - Argumentei.
Dialó meneou a cabeça e ficou-se pelo "nim".
- Está bem, chefe! Pode dar ao meu amigo que me veio visitar. - Rematou.
Voltámos a agradecer e saímos em passo lento e exploratório, até ao local em que se realizavam as exéquias de nossa cunhada Alzira Ngeve que foi trazida do Kwitu-Vye pelo ex-marido, militar, em 2001.

Publicado pelo Jornal de Angola a 05.12.2021