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segunda-feira, fevereiro 28, 2022

VALE DO PARAÍSO: ALDEIA DE MILITARES

Dande, 30.11.2021 - Próximo da 70ª Brigada de Infantaria Motorizada das FAA, 5 km da rodovia asfaltada que nos leva ao Ambriz e terras além, está o Vale do Paraíso. Militares vindos de vários pontos do país, alguns com passagem pelo Wambu, Huyla, Kwandu-Kuvangu e Vye, construíram, no meio de imbondeiros e arbustos espinhosos, uma aldeia em que instalaram suas mulheres e parentes trazidos do Centro e Sul do país.

O Umbundu e suas línguas primas são, a par do Português, os idiomas mais falados entre as mulheres adultas. Os homens são de diversas origens e que se vão revezando na Brigada, revezando também, às vezes, a chefia das famílias instaladas no Vale do Paraíso.

A caminho da aldeia, saindo do cemitério (perto de 2 quilómetros) Amélia e Maria (nomes fictícios) conversavam em Nyaneka. Foi fácil saber que não eram Ambundu. Aproximamo-nos e indagámos como haviam aí chegado.
- Viemos da Matala com o nosso irmão que é tropa. Ele foi agora transferido para outra Brigada e nós acabámos por manter aqui com outros tropas. - Contou Amélia.
- A vida é assim. Alguns tropas levam as mulheres aonde vão. Outros deixam e a mulher acaba casando com outro. - Acrescentou Maria.

A aldeia é também conhecida por Sete Imbondeiros e fica a caminho do rio Lifune (perto de 2 quilômetros). É de lá que sai a água para o consumo.
- São os militares que ergueram o bairro e lhe dão vida. - Explicou um aldeão, ex-militar licenciado à reforma, acrescentando que "a última semana do mês e a primeira do mês seguinte têm sido os período de maior movimento comercial e de pessoas".

As casas, maioritariamente de adobe, algumas rebocadas com argamassa de cimento e outras construídas com blocos de cimento, estão numeradas e contam-se às centenas. A energia eléctrica ainda está por chegar. Há sinais. Os postes que saem da Unidade militar já estão implantados. Os aldeões dizem "que falta pouco", embora reclamem também que "a empresa que estava a trazer a energia nunca mais foi vista".

Há uma escola (em ampliação), um posto médico (erguido pelo FAS) e outras residências em construção definitiva. A quantidade de petizes indicia taxas e fecundidade e natalidade elevadas.

Os comerciantes são cantineiros oeste-africanos que não medem distâncias, vendendo desde comida às bijuterias e produtos de higiene e adereços. Dentre eles está Dialó, jovem aparentando 20 anos e que já está em Angola "desde 2012".
- Já vivi em várias aldeias onde fui substituído por outros conterrâneos. - Explicou, num Português que inveja muitos angolanos.

Dialó é simpático e aprendeu a diplomacia de proximidade. Depois de trocarmos palavras em Português (aceitável do lado dele) e Francês (precário para nós), o jovem foi à montra e pegou em duas garrafas de água.
- É para os mais velhos matar a sede. Está calor! - Justificou, defendendo-se com argúcia para que aceitássemos a oferta.

Na nossa tradição (calculo que na dele também) quem te dá um presente deve ser retribuído com semelhante gesto.
- Temos aqui umas moedas que não pagam a água mas que podem servir para depois ofereceres rebuçados a outros amigos. - Argumentei.
Dialó meneou a cabeça e ficou-se pelo "nim".
- Está bem, chefe! Pode dar ao meu amigo que me veio visitar. - Rematou.
Voltámos a agradecer e saímos em passo lento e exploratório, até ao local em que se realizavam as exéquias de nossa cunhada Alzira Ngeve que foi trazida do Kwitu-Vye pelo ex-marido, militar, em 2001.

Publicado pelo Jornal de Angola a 05.12.2021

terça-feira, fevereiro 22, 2022

É SOBRE CAIMA QUE FALO!

Quem conheceu KIBALA antes de 1980 conta uma história diferente da dos nossos dias. Os edifícios tinham vida e cor. A vila tinha movimento de gente trabalhadora e empenhada. Parecia crescer ou pelo menos tendia a isso, todos os dias.

A sul da Kibala, a 13 ou 14 quilómetros ficava outra vila próspera, fundada por agropecuários madeirenses. Katofe tinha leite fresco, pão quente, manteiga e gente que acordava cedo para ordenhar, pastorear, agricultar e fazer as cidades jantarem.
A caminho do sol nascente, Karyangu que possuía uma mini hídrica sobre o Longa, gerava energia eléctrica para além de seus pardacentos campos agrícolas. Viam-se cabras e carneiros escalando montanhas pedregosas e dando carne com fartura. Karyangu também tem diamantes (Ngango) que nossos avós ignoravam ou simplesmente preferiam que a natureza os continuasse a guardar até um dia.
Em sentido norte, caminho que leva ao Libolo do café e dendém e Dondo das fábricas Eka, Satec e Bavin (e licores), destino do ananás kibalense, estendiam-se, do interior ao asfalto, grandes extensões de sisal, milho, feijão, batata e outros agricultáveis. Era incontornável a Fazenda América. Onde hoje se acha a albufeira que faz de Lucala uma aldeia à beira de lago é Mbumba-a-Lunga! Ndala Kaxipo, a 25 quilómetros do asfalto, rivalizava com os melhores e maiores da região no cultivo de milho e girassol.
A caminho de Gabela, sol poente, há poucos metros, estão os silos. CAIMA era moageira. A fuba canini, amarela e que se dizia "crescia na panela", era moída aí. E ia distante. Chegava às cidades para alimentar os operários e funcionários da máquina administrativa. Todos empenhados. Eram outros os vícios: a assiduidade e pontualidade, o trabalho abnegado, o respeito, a honestidade, a probidade, a religiosidade, o desejo de crescer e ver ANGOLA PARA OS ANGOLANOS.
Quem nunca ouviu falar de Fazenda Pombal ou Jorge Dimitrov, Fazenda Saidy Mingas, Revolução de Outubro, Fazenda Kambondo ou 1° Congresso (do Partido), Fazenda Kamana e Ndala Kaxipo (hoje Mato Grosso)? Quem nunca ouviu falar da Escola de Formação de Oficiais Superiores, vindos da guerrilha (alguns sem quarta classe concluída), e que se situava na Fazenda América?
Hoje, a vila de Kibala é um amontoado de esqueletos estropiados por uma "guerra com laivos comerciais", em que "diamantes também entraram nas contas" dos obuses que mataram famílias e destruíram a vila erguida no coração do Kwanza a Sul.
- Não te minto, mô irmão. Naquele tempo de guerra, você povo é capim e não tem escolha. Vem FAPLA te rusga. Vem Unita te rapta. Já servi os dois lados, até chegar a mini-paz de 1991. De 1993 a 2002 foi mais pior. Os chefes se combinavam. Atacavam a Vila para roubar gasóleo para as dragas. Depois, mandavam um carro com as pedras como pagamento. Os chefes sabiam e faziam negócio, enquanto nós morríamos. - Contou Manuel Kixindo, morador e agricultor em Ngango, antigo Cop, junto ao projecto Terras do Futuro.
Em visita à Kibala, vi alguns equipamentos no recinto do que foi a moageira CAIMA. Bem espero que seja o início da sua reconstrução, embora não deixe de preocupar a quantidade de fazendas abandonadas ou estagnadas desde que iniciámos a "caça aos madimbwende". Afinal, quem é que as detinha e de onde provinha o dinheiro?
Voltemos à CAIMA que estava para o milho, assim como a terra e a água estão à disposição dos agricultores da região. Ela olha, hirta, para os que apostam no milho e no país. Está a gritar que ainda existe, apesar dos assaltos e das revezadas intempéries.
Quem te viu e quem te vê, Kibala?!

terça-feira, fevereiro 15, 2022

NOVA PLANTA NA FAMÍLIA

Do Dondo a Luanda, antes de chegar à ponte sobre o Lukala, está uma aldeia que atende por Km 35. A fazer a descida, depois da curva, está sobre um montículo a casa do Tio João. Foi servidor público, em Luanda, até à sua reforma. Aposentado, preferiu o campo, regressando à sua área de origem.

Disse-me que tem um pomar: mangueiras, laranjeiras, limoeiros, tangerineiras, mamoeiros, gajajeiras, bananeiras, etc.
- Até mandioqueiras. - Acresceu o sexagenário.
De Malanje ao Dondo, fui sempre espreitando à beira da estrada onde encontrar uma gajajeira. Na viagem à Cabinda, descobri que bastava uma estaca e não semente.
Foi a descer a aldeia do Km 35, com a ponte sobre o Lukala à frente, que vi duas gajajeiras ainda jovens. A casa tinha a entrada principal aberta.
- Ó jovem, como se chama o dono desta casa? - Indaguei.
- É do avô João. Ele não saiu. Está mesmo aí. - Disse-me o adolescente.

Era sábado, 31 de Outubro de 2021. Estacionei bem o carro e liguei os intermitentes, para prevenir os que iam a descer, geralmente a zunar¹.
- Pá-pá-pá (palmas). Com licença nesta casa!
A resposta fez-se tardia. Mas insisti com palmas mais fortes e voz mais intensa, até que de dentro se ouviu uma voz adulta a perguntar:
- Kenhê?
- Desculpe. Meu nome é Kanyanga. Gostaria de falar com o Tio João. Não é por mal.
Passaram uns 3 minutos.
- Desculpa, filho. Estava a pôr camisa. - Explicou-se.
- Eu é que peço desculpas. Sou Kanyanga. Gosto de plantas. Estou a fazer um pequeno pomar no meu quintal, em Luanda. Venho de Malanje e só aqui vi gajajeira. Preciso de uma estaca. - Solicitei.
O mais velho, contou a sua graça, seu hobby e sua vida profissional na capitalíssima. Indicou-me as árvores. Eram duas no quintal.
- Podes cortar. É pena que não tenho aqui catana afiada. - Disse simpático.
- Tenho tesoura de poda no carro. Pelo menos, assim não firo a árvore. - Emendei.
Peguei a tesoura e amputei dois galhos pequenos. A árvore mãe também era muito jovem.
Parti para Luanda e os dividi em quatro que lancei à terra. Dois já mostram sinal de vida. Podemos ter gajaja!
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¹- Em alta velocidade.

terça-feira, fevereiro 08, 2022

O "HOTEL" EBOENSE

É único na vila. O outro (dizem que) está na picada que vai ao Waku. É obra de um filho da zona que poupou moedas, trabalhando em cidade grande, e decidiu enterrá-las próximo do seu cordão umbilical.

O "hotel eboense" tem instalação eléctrica e canalização de água. O investidor fez a sua parte. O problema é que a energia eléctrica de Lawka ainda não atende os eboenses que ainda dependem, para os serões, da simpatia da lua cheia, satélites mecanizados e estrelas com brilho mais intenso.
"Ela passa mesmo aqui e falta só desviar dois cabos (positivo e negativo)", dizem os moradores, como se a coisa fosse tão fácil assim.
"É preciso uma estação para converter a alta tensão em média e baixa. Da maneira como a energia sai de Lawka não pode chegar às casas", explicou o jovem gabelense que pernoitou no "hotel".
"O mano, aqui, disse que não é fácil meter energia de Lawka nas casas. Acha que sofrer de sede e ver toda a hora a água a passar é fácil? Levem então o nosso apelo aos que entendem da coisa e podem fazer por nós. Ndala Kaxipo e Kibala já têm", recomendou Fernando Joaquim.
Voltemos ao "hotel" do Ebo. Tem quartos com wc, que chamam de suite, ao preço de 10 e 8 mil Kwanzas cada, e outros sem wc ao preço de 6 mil Kwanzas por noite. Ao que vi, no Ebo não há requisitantes de "serviços diurnos de alta rotação e curta duração". Assim, sem hóspedes de curta e longa duração, a vintena de quartos "passa a vida" a receber poeira e infiltração de água, quando chove, não sendo poucas as vezes em que São Pedro abre as comportas dos céus. Um dos moradores e viajado por Luanda, Sumbe e Huambo explica que "é por ser uma vila pequena e todos se conhecerem, o que leva a não haver segredo!".  
Sem energia, a água não chega ao quarto e o banho, meu Deus, é de "chapadas"!. Quando o frio aperta, é só mesmo lavar o rosto, as axilas e a zona púbica, deixando o resto do corpo com o seu kibuzu1 de todos os fumos.
Os manos do "hotel", guarda e recepcionista, são de uma educação e simpatia inigualáveis. Estão sempre prontos a atender com um sorriso, mesmo que o frio prenda os lábios. Não dominam, porém, a técnica amealhadora de Luanda. Não lavam os carros dos hóspedes raros, nem se prestam a isso, mesmo faltando clientes e trabalho intenso.

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1- Cheiro. Geralmente, nauseabundo.
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Publicado no Jornal de Angola de 09.01.2022

terça-feira, fevereiro 01, 2022

KULA MUXITU & DICAS DA CIDADE

Em Dezembro de 1996, quando fomos pedir estágio à LAC, terminado o Curso Medio de Jornalismo, iniciámo-nos no programa "Dicas da Cidade", nome sugerido pela Leda Cristóvão, durante um brainstorming.

Colocado o programa no ar que, no fundo, era iniciativa privada (compra de espaço), a nossa remuneração dependeria da captação de publicidade para o referido programa que saia às tardes de um dia de semana que me escapa à memória.
O "repórter" devia angariar publicidade ao valor de USD 150/mês, dos quais USD 80 seriam o subsídio do angariador e os restantes para a LAC (entenda-se estação e coordenação do Dicas da Cidade) que, salvo erro, estava a cargo da Direcção de Produção.
Aqueles que conseguissem angariar mais do que uma empresa publicitária, recebiam na proporção de USD 30 sobre os 80, ou seja, 80 da primeira, mais 30 de cada uma adicional.
Das cartas/pedidos que levei a empresas para publicitarem suas marcas e/ou produtos no Dicas da Cidade, obtive a resposta positiva da MIAMOP, cuja sede ficava no largo do Kinaxixe. Uma outra foi efémera e perdi-lhe o nome. Mas a MIAMOP foi até ao fim do programa em que nos iniciámos como jornalistas: Jose Assuncao, Paulo Araújo, Leda Cristovao, Antónia Bartolomeu, Francisca Pacavira, Agostinho Santos, Isaac Antonio, Victorino Tchikunda Sócrates, Stela Marisa, Rossana Miranda, etc.
Faz tempo que já não via a MIAMOP publicitar na media, nem as suas madres¹ verdes pelas ruas de Luanda.
Alojado no Hotel Mbanza Marimba, bairro Kula Muxitu, à entrada de Malanje, apercebi-me tratar-se de pertença do "meu antigo patrão"². Deixo, por este facto, a merecida vênia!
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¹- Toyota LandCruiser de 3 portas e bancos traseiros corridos.
²- Verdadeiro patrão é quem disponibiliza o ordenado. Foi, no caso, a MIAMOP.

sábado, janeiro 29, 2022

A ARTE FÚNEBRE DOS EBOENSES

A imagem mostra uma cidade. Sim uma necrópole. A foto foi feita na rodovia que liga a comuna de Condé à vila sede do município do Ebo, Kwanza-Sul, Angola.

Aqui, a condição social do de cujus reflecte-se na última morada que pode ganhar a configuração daquilo que deixa ou contar a historia da relação havida entre o defunto e o tijolo, cimento e cal.
Visitando a necrópole, junto ao monumento dedicado aos heróis (governamentais) da Batalha do Ebo, é possível ver o engenho artístico dos nativos e aperceber-se de quem, em vida, era quem!
Avô Francisco, sexagenário, diz-se "muito viajado", na sua qualidade de camionista, comerciante e ex-militar, e atesta, sem pestanejar, que "dos muitos povos que conhece, os eboenses transcendem-se na arte de fazer campas".
Parecem arquitectos e engenheiros civis, sendo que "todo o óbito termina com a construção da campa", cujas dimensões e arquitectura dependem do valor social e económico detido, em vida, pelo defunto.
"Pode ser que tenha feito e deixado dinheiro, que tenha feito e deixado filhos, sobrinhos, netos e muitos bons amigos, que tenha sido soba ou outra pessoa notável e muito respeitada pela comunidade. São esses e outros atributos que determinam o tamanho e os contornos da campa", relatou.

sábado, janeiro 22, 2022

BOA TARDE, SENHORA NJINGA!

A chuva que caiu em Malanje, na comemoração da tarde de 30.10.21, tinha levado a energia por algumas horas. Tal fez escurecer o interior da sede do GPB, aonde me dirigi para um trabalho técnico com o mais velho Ngunza e o confrade Natalício.

Desde tempos imemoriais que "as malanjinas têm fama de "terem peitos alaranjados e corpo desenhado a lápis". Se é verdade ou makutu¹, nunca comprovei e nem sequer vou a tempo.
Verdade verdadeira é que sem as mawanas², esquecidas algures na Ngimbi, caminhei uns passos no escuro, até ver um vulto, uma silhueta que me parecia ser de uma "senhora" preta linda e excessivamente torneada.
Pretendendo ganhar tempo e simpatia para chegar ao andar onde me esperavam, larguei uma vênia;
- Boa tarde, minha senhora!
Aguardei pela resposta e debalde! Ouvi só silêncio.
Aproximei-me recticente com um mar de interrogações.
- Por que a senhora não me responde? Será surda?
Avancei mais uns passos até aonde ela se achava hirta. Qual o meu espanto?
Quase a sentir-lhe o perfume e a apalpar-lhe as dóceis malalanza, notei que era a "senhora" que vc vê!
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¹ Mentira
² Óculos

sábado, janeiro 15, 2022

CONTEMPLANDO O QUE O EBO EXPÕE AO VISITANTE

Há três anos que vinha prometendo a mim mesmo e à tia Mariana que iria conhecer o Ebo. Tentámos, Beto Martins e eu, em 2018, sem sucesso, pois, chegados à Kibala fomos informados que a anfitriã se encontrava no hospital da CADÁ a cuidar da filha adoentada.

A viagem que seria para o Ebo, à data ainda sem asfalto, acabou tendo como destino a Gabela e CADÁ, regressando no dia seguinte a Luanda.
Eis que a natureza surpreendeu-nos negativamente e levou a nossa mãe Mariana, forçando a nossa ida ao Ebo para a última despedida. Assim, num ambiente impróprio para turismo, pude ver o monumento (provisório) que homenageia os combatentes (governamentais) da célebre Batalha do Ebo, onde se expõem, entre outras sobras da guerra, três carros de assalto despedaçados que terão pertencido ao exército invasor sul-africano (ao tempo da segregação racial).
Vi também os cemitérios (vários ao longo da rodovia) que mostram a arte fúnebre desse povo. Os eboenses constroem sumptuosas necrópoles, dando formas habitacionais e de outras figuras geométricas às campas. Construir a campa de um defunto é um dos principais rituais deste povo, quando o assunto é homenagear quem nos deixou e manter a proximidade entre os que ainda vivem e os que se anteciparam no caminho sem volta.

Sendo povos vizinhos dos Kibala, os eboenses também têm sepulturas construídas em pedras e, às vezes, sobre pedras. Mas não é tudo! Lá estão também as pinturas rupestres de Dalambiri e uma minúscula vila que se acha no interland, a 25 quilómetros da comuna de Condé, estrada Kibala-Gabela.
Os eboenses, que só vêm iluminação eléctrica, gerada por fonte térmica, das 18horas às 22horas clamam por uma subestação, já que os condutores de alta tensão que ligam Lawka ao Wambu passam a metros da sede municipal.
"Aqui, o que mais nos faz falta é energia para fazer surgir a pequena indústria e conservar os alimentos", reclama Júlia Kixindo, trabalhadora da única hospedaria da vila.
A juventude também clama por escolas e não entende por que razão lhes "deram o PUNIV, quando não há universidade", sendo um "instituto que não forma técnicos médios".
Nas conversas com jovens e adultos, deu para perceber que um Magistério ou instituto Agrário teria melhor serventia e "resolveria mesmo, no caso do Magistério, o problema de escolas sem professores ou professores vindos de longe que abandonam os alunos por falta de habitação e mantimentos na comunidades em que foram despachados".
Outra petição dos eboenses tem a ver com a asfaltagem da picada (maltratada) que Liga Gabela-Ebo-Waku.
"É a solução para que a nossa sede municipal deixe de ser um enclave e destino final, pois os carros provenientes da zona costeira e com destino ao Waku ou Wambu passariam por aqui e dariam vida à vila", sugeriu Manuel André, um dos poucos professores da localidade.

Obs: Texto publicado pelo Jornal de Angola a 21.11.2021.

sábado, janeiro 08, 2022

NYANGA-A-PEPE: UM MARCO DO METODISMO ENTRE A FAMA E O DESCASO

Nyanga-a-Pepe é um dos pontos de paragem dos missionários americanos, propagadores do Metodismo. Pela sua importância histórica, devia ser, indubitavelmente, um ponto de peregrinação de cristãos Metodistas.

Em "Ouço passos de milhares" conta-se o roteiro das estações protestantes que, para além do ponto de partida, Luanda, incluem-se Dondo, Nyanga-a-Pepe, Kyôngwa, Késwa e Kela. Quanto a mim, faltaram citações a Estações ou Pontos de Evangelização na margem sul do Kwanza, como Mbangu-Wanga (Libolo).
Longe de ser um Centro de Formação e Evangelização, de Nyanga-a-Pepe terá ficado apenas e a fama de ter recebido missionários Metodistas que seguiam o curso do Kwanza em direcção à nascente.
Não vi escolas. Não vi Centro Social ou de Artes e Ofícios. Não vi instalações para acolher turistas e investigadores da História do Metodismo Angolano. Não vi nada atractivo ou que perpectue a fama da Estação Missionária de Nyanga-a-Pepe.

É importante fazer ressurgir a importância e áurea das Missões.
É preciso pensar-se em algo que leve excursões turísticas e de meditação aos pontos marcantes da nossa caminhada histórica!
Soube que as escolas das aldeias vizinhas estão sem professores e os infantes confinados às lavras e ao pastoreio de cabritos.
"Sem casas e sem lavras, os professores transferidos de longe, ausentam-se na primeira oportunidade para se juntarem às famílias", contou um polícia que frequenta a região.
Para mim, era um desiderato conhecer Nyanga-a-Pepe, nem que apenas passando, seguindo e ouvindo passos de milhares!

sábado, janeiro 01, 2022

UMA TROCA MELHOR DO QUE HÁ 31 ANOS

Na troca da moeda realizada em 1990, minha mãe, camponesa com filhos deslocados em Luanda, e meu tio João Bebeca ficaram mais pobres do que já eram.

A troca da moeda devia acontecer em apenas uma semana, sendo que as cédulas velhas deviam ser depositadas nas raras dependências do BNA ou BPA. Pior do que isso, era troca (5%) e retenção (recebendo títulos), pois, não se saia do Banco Popular de Angola com o total do valor a que se tinha direito.

De suas aldeias (Pedra Escrita e Mbango de Kuteca) para Kalulu eram, respectivamente, 68 e 103Km. Em Kalulu, as filas no BPA (edifício que acolhe hoje a Biblioteca) eram enormes e não possuíam parente nenhum para os abrigar na vila.

Maria Canhanga e o irmão adoentado decidiram, então, partir para Luanda onde tinham parentes e quantidade superior de agências do BPA.

Acontece que, com escassez de carros que se aventurassem às estradas esburacadas dum tempo de guerra ainda apertada, a viagem demorou mais do que o previsto, chegando a Luanda na noite do dia em que terminou a troca da moeda. Os 250 Km que separam Pedra Escrita (Libolo) do Rangel (Luanda) podiam gastar 4 dias de uma viagem com ataques da UNITA e avarias pelo percurso.

Nada mais havia por fazer. Perderam tudo quanto, com muito esforco e sacrifício, haviam ganho e poupado para os filhos e para cuidar da saúde. Tem corrido o tempo mas, sempre que se fala em troca de moeda, vem-me à memória o episódio que foi "poupar dinheiro para nada", como desabafou o meu finado tio João Bebeca.

Felizmente, desta vez a troca da moeda está a ser diferente. O Kwanza de duas caras está a ceder lugar paulatinamente, através de retenção bancária, às novas células mono-efígie de A.A. Neto e a autoridade do Banco Central dá seis meses para que quem esteja no Kuteka ou Njamba Kweyo (só para exemplificar) possa, nesses 180 dias depositar as células velhas de que não se puder desfazer numa conta bancária, concedendo ainda um outro período mais longo para se puder trocar as células dual-efígie pelas novas do Manguxi (apenas) em representações do BNA.

Creio que no final do processo, a autoridade monetária terá os seus objectivos cumpridos e entre a população menos lamentos. Bem pensado!

Pena é que o meu tio João Bebeca tenha morrido sem assistência médica adequada, por falta de dinheiro, embora deixando muitas notas vermelhas (Kz 1000 era a maior) sem valor, e a minha mãe, aos 75 anos, não tenha pensão, nem visão!
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quarta-feira, dezembro 29, 2021

OS VEÍCULOS E OS PA NA VILA DO EBO

São raros os carros, na vila do Ebo. Mais comuns, embora também poucas, se comparadas a outras cidades e vilas mais movimentadas como Kibala e "Sela" (ex Santa Comba Dão), são as motorizadas. Essas parece que vão conquistar espaço, agora que a rodovia de Condé ao Ebo (vila) foi alcatroada.

Quanto ao combustível, parece não ser ainda um negócio muito rentável para o proprietário do Posto de Abastecimento, dado que um consumo lento leva tempo a terminar o negócio.
O grande consumo pertence à administração municipal que tem a missão de fornecer, para além do hospital municipal e serviços administrativos, também às poucas casas electrificadas que contribuem com um valor mensal de Kz 5mil. Esta, a administração, não recorre aos Postos de Abastecimento para atender a demanda dos seus geradores.
Note-se que a energia para o consumo domiciliar é fornecida apenas das 18horas às 23horas, quando não há chuva que interrompa a segurança da prestação do serviço.
Passeando pela rua longitudinal saída de Condé e que morre junto à administração municipal do Ebo (foi-lhe acrescido um traço de aproximadamente 100 metros, fazendo um T), vemos duas bombas de combustível: a do Bairro Dongo (na imagem) que é o primeiro, à entrada, e outro Posto de abastecimento, já velhinho, com as cores da companhia nacional e que, dizem, "raras vezes tem os líquidos combustíveis".
Mesmo assim, algo despertou a nossa atenção: o turismo que se vê na imagem carregado de recipientes de 20 litros que eram cheios e levados para Condé e outras paragens.
Seguindo o rasto, pudemos nos informar que, mesmo nas barbas da vila, há gente que não se apercebe que as bombas têm combustíveis, comprando o litro de gasóleo a Kz 200 e o de gasolina a Kz 250. É o mesmo preço praticado na circunscrição administrativa de Condé, que fica a 25 km, em dias fastos, subindo o preço para Kz 250 e 300 em dias nefastos.
Se calhar, fosse bom instalar mais um Posto de Abastecimento, nem que contentorizado, no Condé, dada a importância do vilarejo que se situa na rodovia entre Kibala e Gabela.
Longe do asfalto deve haver outras estórias!

quarta-feira, dezembro 22, 2021

DISTÂNCIA DESINIBE QUEM QUER TRABALHAR

Entre Kakuzu e Kizenga, está Kambunze, um sector administrativo com edifícios (muitos) em ruínas que mostram a grande e viva vila que foi em tempos idos, quando o comboio era o principal meio de transporte colectivo no corredor Luanda-Malanje.
Pelo que já andei desta Angola, há sedes municipais que nunca tiveram um conjunto de infraestruturas ao quilate de Kambunze. A vila está afastada uns 2 ou 3 quilómetros da rodovia asfaltada que nos leva a Malanje. Mas é a 30 quilómetros de Kambunze, a caminho do rio Lukala, que um mukwaxi¹ foi "plantar sua árvore", de cuja sombra espera abrigar-se quando se reformar definitivamente.
Diferente dos que procuram terras para cultivo somente ao pé do asfalto, o mukwaxi adentrou o sertão 30 quilómetros até encontrar terra com mais planura do que declives que lhe permitiram instalar pivots de rega.
"A agricultura de sequeiro é insegura e pouco produtiva nesses tempos de secas e estiagem", disse.
A água permanente e em abundância era outro desafio. Aproveitou as formações do relevo que permitiram construir diques em pequenas nascentes e ou zonas de possível retenção de água pluvial, como também foi ao Lukala, 12 quilómetros do centro da fazenda, para alimentar os pivots que já vão a dezena e meia.
Uma conduta de 500 milímetros alimenta os diversos tanques e diques espalhados pelos milhares de hectares. O bombeamento é feito por potentes dínamos, movidos à energia eléctrica da rede pública que fez chegar a todos os pontos do empreendimento.
Só de olhar para os investimentos em energia e água é de se lhe aplaudir a ousadia até rachar as mãos.
"Hoje pagamos uma factura mensal de energia que vai a volta de 4 milhões de Kwanzas, mas não a deixamos por liquidar sequer 24 horas, pois, quando comparado ao que se gastava em gasóleo e manutenções, é um grande alivio", confidenciou o gerente do Projecto Pipe que existe desde 2010.
A soja e o milho, às vezes comprados antes de ser semeados, são as culturas mais visíveis, mas há um pouco de tudo: mangueiras, morangueiras, bananeiras, abacateiros, citrinos, nespereiras e batateira.
O empreendedor apoia a comunidade local, organizada em cooperativas, que beneficiam de preparação mecanizada de terras e sementes melhoradas de batata-doce que cuidam e colhem, repartindo os lucros da venda.
"Nós empregamos nossas máquinas que cuidam de toda a preparação da terra e fornecemos as sementes melhoradas. Eles têm gastos com o plantio, sacha, colheita, transporte e venda. É só depois de descontarem os seus gastos que vêm para dividirmos os lucros", contou o gerente, acrescentando que "há agricultoras cooperantes que já compraram carrinhas, fruto desta parceria".
Difícil seria toda essa empreitada sem estradas interiores em condições. O que observámos foram picadas largas (perto de 20 metros) em manutenção permanente e com varias ramificações, conferindo conforto e segurança ao condutor e durabilidade aos meios rolantes. Se a distância entre Kambunze ao rio Lucala é de perto de 45 quilómetros, a malha rodoviária interna pode chegar aos duzentos quilómetros.
É isso que alegra a todos e fazem todos crescerem juntos. Ao contrário dos que se confinam à berma da estrada asfaltada, pleiteando terra escassa com os aldeões nativos, não há distância que impeça quem tenha vontade de empreender.
A vontade de fazer vence a mata cerrada e faz nela emergirem autênticas rodovias que invejam cidades litorais!
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¹ Nacional, natural, local.
Foto: rio Lukala.

quarta-feira, dezembro 15, 2021

OS TECTOS QUE O VENTO LEVA

Andei por Malanje e Kwanza-Norte. Adentrei municípios, comunas e aldeias interiores, onde os passageiros de carros que passam apressados não se dão conta da existência de gente que trabalha, que devia estudar em condições melhores e que luta contra o sol, contra a fome, contra a falta de rodovias e contra o frio.

Em Kambunze (Malanje) e Ndanji-ya-Menya (Kwanza-Norte), só para exemplificar, vi imagens como esta (foto tirada na comuna de Ndanji-ya-Menya ou Dange ya Menha). Repare o tecto do equipamento social erguido pelo Fundo de Apoio Social, FAS. Ninguém faz nada?!
Como este vi muitos: mercados comunitários (em maioria), escolas e equipamentos escolares (alguns ainda com tinta fresca) estão sem tectos. Levado pelo vento, pelas mãos larápias ou por ambos?
E a comunidade vê e não reage? A autoridade do Estado inexiste? A administração local não repõe, quando é acção de força natural do vento? Não põe ordem com as forças para a manutenção da ordem, quando são mal intencionados destruidores de coisa pública quem arrancam os tectos?
É conhecido o destino de carteiras, quadros, secretárias, sanitas e outros meios das escolas sem cobertura?
É amparado o material médico de postos e centros de saúde visitados pelo vento e ou mãos gatunas de cidadãos que podem ser localizados e castigados à medida dos seus actos?
Infelizmente, tenho apenas olhos que vêem e mente que pergunta.

quarta-feira, dezembro 08, 2021

OFERTAS E CARÊNCIAS DE KALANDULA

Cascata encantadora!

O Lukala, nascido no Negaje, cai de uma elevação superior a cem metros, criando um cenário visual raro.

Enquanto a água enfeita de "branco" as paredes pedregosas, cá abaixo é o hongolo¹ que nos mostra "quantas cores tem o mundo"!
À chegada, os rapazes que se apresentam como "guias turísticos", uns maltrapilhos e outros exibindo t-shirts com essa inscrição, apontam três locais para contemplar a beleza ímpar: o miradouro, a parte baixa do rio, onde a água se reorganiza, após a quada, e a pousada do Sr. Faísca, única naquela instância, que se acha no lado oposto, sendo que a entrada é antes do desvio para Kakuzu.

João Domingos Manuel é guia. Tem 20 anos e estuda a décima segunda classe no institutos médio da igreja católica. Explicou o porquê da ausência de iluminação junto ao miradouro, "construído em 1927".
De sua voz, soube que "primeiro deixaram de pagar aos guardas e depois os populares de uma aldeia próxima roubaram as baterias e as placas solares".
Mesmo identificados, continuou, "não foram repostos os bens surripiados, pois as lâmpadas também reclamaram substituição".
O jovem explicou ainda que "não há taxa fixa" para o acesso ao local.
"O visitante paga o que puder/tiver", valores que "vão às mãos do soba".
- Ah! Não é a administração de Kangandala quem cobra e cuida do local? - tentamos ainda indagar.
- É com o soba que me divido o dinheiro. - rematou.

Havia outro infante que trajava uma camisola escura, já sem cor exacta, se foi preta ou castanha. Era um pouco veluda e trajada no avesso. Seus pés mostravam o quão ele e a água não se comunicam com frequência. Perdi-lhe o nome. Foi o primeiro a se apresentar como guia. Dizia-me que "o rio nasceu na província do Negaje, município do Uije" (inverteu). Não o dispensei, mesmo depois de encontrar o João Domingos Manuel, mais hábil e com conhecimentos melhor estruturados.

- Estuda, anda com os mais velhos para saberes e, quando fores grande, te tornares num bom guia. - Dei-lhe conselho e Kz 500, antes de deixar o recinto.

Naquele domingo, 31.10.2021, o local estava cheio. Viam-se até expatriados. Não vi apenas tonalidades de pele. Ouviam-se vozes em línguas europeias e asiáticas. A beleza e raridade do "acidente natural" são convidativos. Os filósofos deixaram escrito e clarificado que "o belo deve ser contemplado". Faltava, entretanto, algo que fizesse o visitante demorar: os serviços de restauração e toilette.
Tirando jinguba mal torrada com banana assada na brasa e umas kabwenyas fritas num óleo que nunca se deitava, nada mais havia. Nada mesmo!
- Que turismo é esse que apenas engorda o olho sem atender ao estômago e às necessidades da bexiga?


Do outro lado, na pousada que repousa majestosamente no morro, dizem que uma noite custa Kz 130 mil e paga-se também pelo acesso ao local e parqueamento da viatura.
- Come-se bem e há sono tranquilo. A vista também é maravilhosa! - Contou-me um mwadyakime² que agriculta pelos lados de Kakuzu.
Por isso, a Pousada de Kalandula será o próximo roteiro, ates de visitar outras quedas, menores, nomeadas Museleji que ficam a uns poucos quilómetros à jusante de Kalandula.
=
¹ Arco-íris.
² Mais velho.
Obs: crónica publicada no Jornal de Angola, 14.11.2021