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domingo, setembro 29, 2019

E SE EU FOSSE APENAS PROFESSOR?

 Eventualmente, fosse chamado kunanga ou biscateiro.

Certa vez, apresentando-me a uma jovem aparentemente esbelta mas cujo cérebro, cheguei a avaliar, era de gafanhoto, que me perguntou "o que é que eu era" e tendo-lhe respondido 'professor", a "cientista da petulância" teve mesmo a coragem de perguntar:
- Só és professor e não fazes mais nada?!
Tal é a forma mesquinha como os professores são muitas vezes encarados pelos entes sociais. Vamos ao...

s poucos.
Quando era jornalista no activo e ministrava aulas à tarde, a pergunta que as pessoas me colocavam quando se apercebessem das minhas ocupações profissionais era:
- Ah, tu és jornalista e dás aulas à tarde, nê?!
Vejamos: ser jornalista, eventualmente, por ser profissão liberal "equivale", no conceito de alguns, a um "não trabalho", pois para essas mesmas pessoas o trabalho significa passar todo o dia no local da prestação de serviço como o "fazem" os funcionários públicos ou colaboradores de empresas transformadoras/fornecedoras de produtos e de serviços.
Para os tais, ser, por exemplo, estivador no porto, pedreiro algures, desentupidor de fossas (também socialmente úteis) é o que equivale a ser trabalho/trabalhador, sendo o uso da força o maior qualificador profissional.
Em conversa com dois meus antigos mestres, foram unânimes num pequeno detalhe. Diziam eles que "ser professor já foi tido como trabalho de muito respeito e consideração social. Agora, desde que os fugitivos à tropa e outros sem habilidades para coisas mais sérias inundaram a nobre profissão de formar e transformar a nova geração, ela, a profissão, se tornou aos olhos de muitos como uma 'simples ocupação', um biscate ou 'refúgio dos que têm tempo de sobra"', fim de citação.
Já tive um período de aproximadamente cinco anos em que o regime de trabalho, a inexistência de escolas particulares de nível médio e/ou superior com aulas nocturnas e a distância entre o local em que trabalhava/habitava e a cidade mais próxima (Saurimo) me inibiram de "dar aulas". Nessa situação, eu era para as pessoas que retrato um trabalhador. No entender deles, entregava-me cabalmente ao patrão, à semelhança do que dizem fazer os funcionários públicos, bancários e outros.
- O fulano trabalha no banco xis. O beltrano trabalha no Porto do Dande. A sicrana trabalha no Maria Pia (hospital). O André dá aulas.
- A Andreia o quê que faz?
- É jornalista!
Vejamos o que me dizem/perguntam, agora que sou funcionário público e professor.
- Ai é? Trabalhas o dia todo e dás aulas à noite?
Veja bem. No entender deles, enquanto funcionário do Estado (administração pública), trabalho. Já como professor, mesmo que fosse em escola pública, não trabalho. Apenas dou aulas!
Nem juntando ao ofício da educação o de jornalista sou trabalhador...
E se fosse simplesmente professor, ministrando aulas à noite, o que diriam de mim?

Publicado pelo Jornal de Angola de 12.05.19
     

domingo, setembro 22, 2019

EKEPA NÃO É INGLÊS

No centro de Angola, do litoral ao nascer do sol, há um aforismo bem conhecido por todos os falantes da língua predominante, incluindo crianças que já, por algum motivo, se terão atrasado em algum evento de onde teriam benefícios, que reza: "O atrasado come ossos".
Esperando pela veiculação de um anúncio televisivo, atrasei-me ao jantar colectivo. Embora o restaurante tivesse monitores de televisão, a distância entre o quarto e aquele recinto roubar-me-ia mais de um minuto, mesmo que fosse a bom passo e velocidade, correndo o risco de erder a visualização do mesmo, caso passasse naquele intervalo de tempo.
- O spot pode passar nesse instante, enquanto faço a travessia, e não terei como aplaudir ou reclamar. - Pensei, acabando por assistir ao telejornal da televisão pública no aposento. 
Tal, fez-me chegar ao restaurante naqueles momentos em que o funji, pirão por essas paragens, aguarda pelo atrasado sem o respectivo conduto. Nem cabidela de galinha gentia, nem losaka, nem ramas de batata, nem nada. Apenas uns nacos grelhados de "galinha com pai e mãe", umas batatas do reino enfatiadas e fritas e salada que se estendiam sem clientes. E eu que sou "funjívoro"?
- Mano, tem pirão mas o conduto já não. Acabou. Posso pedir jantar "a la carte"? - Indaguei solícito ao jovem que se apresentava de humor ainda aceitável no balcão de atendimento.
  
- Conduto acabou? Como assim? - Retorquiu.
- É verdade. Eu gosto mesmo é de comer pirão e, mesmo que aceitasse galinha do kaputu, que ainda tem grelhada, já não há molho. - Expus.
  
O jovem parou por alguns instantes a procurar por uma resposta.
- 'Stá bem. Vou à cozinha ver o que se pode fazer. 
Passaram-se trinta minutos sem resposta, até que o voltei a chamar.
- Então, o mano não me deu resposta...

- Sim mano, ainda me desculpa. É mesmo um bocado de atrapalhação. A sala encheu. Assim mesmo que não mais importunei o mano, é resposta afirmativa. Ainda aguarda só mais um bocado.

- Bocado vem da boca como punhado deriva de punho. Que de lá surja algo. - Falei com os botões.
 
Não tardou, chegou uma kafeko. Magra e linda, se não fosse aquele cabelo emprestado, seria mesmo uma "amigável" para filho ou sobrinho. Num prato três restos de frango e noutro beringela (losaka).
- Jovem, você é mesmo do Huambo?
  
- Sim, senhor, nasci mesmo aqui no Santo Rosa.
- Sabe o que é ekepa?
- Não senhor. Não falo inglês!
  
Até a vontade de reclamar dos ossos que se estendiam famintos no prato passou-me pala "culatra". Como alternativa ao desejável conduto ausente, tive de os mastigar e aproveitar o molho, também escasso, para empurrar o pirão garganta abaixo, afugentar o bicho e esperar pelo matabicho do dia seguinte.

Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 09.05.19

domingo, setembro 15, 2019

O HOMEM DO CAMPO E A CATANA

Na cidade tornou-se raro ver um homem, mesmo idoso, sem o seu celular. Até a bíblia, inseparável dos homens de idade nos dias de culto e missa,  vai ficando para trás pois o pequeno e inteligente aparelho consegue incorporar o velho telefone de discagem, o rádio receptor, o leitor de música,  a bíblia, o hinário e a harpa, a máquina calculadora, o medidor de passos e da tensão ou ainda a bússola, o termómetro, a balança e o relógio. A máquina de escrever e as de fazer fotos e filmes também estão dentro do celular. E é isso que confere alegria ao homem da cidade que fica doente se, por distração alguma, se vir distante do seu brinquedo facilitador em quase tudo.

No campo é outra coisa. Os capinzais altos nos atalhos, as árvores derrubadas pelo vento e pela chuva, as cobras procurando sol nos descampados por onde o homem passa, as feras que procuram no homem o seu mata-fome,  o cultivo, a poda, a colheita, a auto-defesa e outras valias para a vida campestre remetem à catana a importância transcendental e inquestionável do dia-a-dia.

No campo, um homem sem catana não é Homem. É amador, desprevenido e vulnerável. Todo o perigo é com ele e de tudo quase se pavoneia.

Em mãos de homens do campo, encontramos catanas de diferentes figurinos: com extremidade dianteira curva (semelhante à usada no 4 de fevereiro/61 e por isso assim designada), a rectilíneas, umas mais largas do que outras diminuídas pelo afiar permanente da lima ou pedra, sendo transportadas na mão firme ou à cintura.

A catana para o homem campestre é como a tradicional caneta e bloco de notas no bolso do colete de um bom jornalista que, mesmo usando gravador de som, nunca põe de parte a memória cerebral (ouvir, interpretar e reter) e o seu bloco de notas, coisas que pouco se vão ensinando ou que a nova geração despreza, correndo, com isso, riscos desnecessários.

Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 25.03.19

domingo, setembro 08, 2019

PERMISSÕES E PROIBIÇÕES DE KATUTURA

Se a Chicala, no istmo de Luanda, é conhecida e recomendada pelo sabor que as senhoras dão ao peixe que confeccionam, o Oshetu Community Market de Katutura é famoso, sobretudo entre angolanos, pelo sabor da carne fresca e tenrinha que por lá é assada com esmero e alguma magia. Quando descrevi os ningoçus na Chicala, averbei que se a venda de peixe era um negócio formal, já os serviços e produtos suplementares oferecidos à volta eram inform...ais, não pagando nenhuma taxa ao Estado/Administração Local.
Aqui, em Oshetu de Katutura, não!
Tudo é formal. Desde os fornecedores de lenha aos assadores de carne, da tia que vende pirão de massango/massambala (note-se que carne e pirão são vendidos à parte e por pessoas distintas, assim como o molho de tomate e cebola) ao jovem que faz molho para aligeirar a deglutição, a/o fornecedor de tomate e cebola, etc. E o administrador da legalidade foi mais longe. Separou os serviços em lados diferentes: electrodomésticos, alfaiataria, fotos e impressão, cereais, peixe miúdo das chanas, katatu e, como era de esperar, a fuba acomodada em bacias escondidas em sacos de plástico transparente. Até da gosto. É diferente da banda onde a poeira arrastada pelos ventos de todas as lixeiras se junta à fuba que enche o estômago na hora da janta. Aqui, há preocupação máxima com a saúde e com a urbanidade. Álcool, por exemplo, no entry.
Um jovem, primeira vez a se dirigir à Katutura, sabendo que encontraria bons nacos, decidiu levar as suas birritas frescas para enfrentar os 38° graus de temperatura e abafar a fome e a sede que estavam a braçadas.
- Álcool no entry. - Disseram-lhe os seguranças, à entrada.
- O quê? Achas mesmo que vou pitar sem xupar, com esse calor todo?
- You can go, but without alcool drink. - Retorquiu o segurança-chefe, sempre calmo e a contrastar com a agitação do neófito mwangolê que já se prestava a usar a razão da força em vez da força da razão.
Chegou outro mwangolê, já cacimbado em frequentar aquele recinto e conhecedor das leis namibianas. Abeirou-se dele e, como quem acalma um nenê enfurecido, pegou-lhe o ombro e disse-lhe:
_ Conterra, olha só para essa barba e esse cabelo branco. Quando vim para cá eles ainda não eram independentes. É o respeito das leis que me faz desconhecer a cadeia. Lê a placa e pede desculpas, antes que a polícia chegue e acabemos todos rotulados.
O jovem levantou os olhos e, minuto depois, baixou a crista.
- Sorry my brother. Não sabia. Vou pegar take away e beber noutro lugar!

Publicado pelo Jornal de angola, 17.02.19

domingo, setembro 01, 2019

À CAÇA DE LUZ E MAKEZU

Em 1978, "Ano da agricultura", já António  Fernando e Manuel Carlos "Xika Yangu ou Raimundo" (primo dele) haviam abandonado a região  de Kuteka, nas margens do Longa, para se fixarem na Fazenda Israel, próximo da Estrada Nacional Luanda-Huambo, gerida na altura por João dos Santos "João Kitumbulu" (tio de minha mãe).
O meu mano Arnaldo Carlos, filho de Xika Yangu, diz que "os dois papás desde a independência que juntavam ideias para se fixarem o mais próximo possível da estrada", sinónimo  de luz e avanço económico.
 
A rodovia asfaltada, concluímos hoje, permite proximidade com os grandes centros. Permite produção autossuficiente, com excedentes colocados à venda, renda, poupança e aquisição de bens industriais. Nesse quesito, o soba Xika Yangu já tinha bicicleta e o filho mais velho, Jorge Kakonda, uma mota Suzuki.
A aldeia de Mbangu-de-Kuteka (perto de 30 km de picada) ou a fazenda nas matas de  Kitumbulu, onde meu pai vivia junto do seu progenitor, nada davam senão a mesmice da mandioca e derivados, pesca e caça abundantes e o café que foi, aos poucos, perdendo peso e valor.
Instalados na fazenda Israel, António Fernando empregou-se como braçal, juntando-se aos contratados ovimbundu, e Xika Yangu tratorista, uma profissão respeitável no trabalho agrícola.
O passo seguinte, conta ainda o mano Arnaldo, seria abandonarem a fazenda e constituírem uma aldeola familiar, no Limbe, perto de quatro quilómetros da fazenda, onde reconstituiriam suas vidas. E assim fizeram em 1980.
A viver no acampamento, privei com outros meninos, filhos de ex-contratados ovimbundu, e com eles aprendi a língua e os hábitos de seus papás, pois em nossa pequena comunidade ambundu o Português era exigido a todo o tempo, já que estava à espreita a entrada para a pré-kabunga.
Assim, conheci a Pedra Escrita da Munenga (que nada tem a ver com a de Ndala Uzu que visitei uma década mais tarde) como suporte que continha/contém um anúncio publicitário da "Estalagem Boa Viagem", que fica no Lussusso, pertença  da família Olímpio, descendentes de Cabo Verde (conheci um dos donos em 1990, vivendo no Prenda, junto à Clinica/Hospital com o mesmo nome).
Certa vez, estávamos ainda no ano de 1979, "Ano da Formação de Quadros" (e eu ainda não frequentava a escola do povo), Arnaldo Carlos, Sabalo Kambota (primo Zito), Augusto João "Kapayu" mais tarde conhecido como "Gasolina" (filho do gerente da fazenda) e talvez o tio Beto Santos ou Zé Borracha (sobrinho da avó Emília, a mãe do tio Gasolina) decidiram ir à caça de "makezu" ou canta-pedras (uns animais roedores com três  dedos, do tamanho de um gato bem nutrido) no gigante paleolítico conhecido como pedra escrita. Era tempo de capim de altura intermédia,  Fevereiro talvez.
Munidos de cães de caça,  zagaias e flechas e outros utensílios para desalojar os animais de suas tocas, conseguiram uma boa caçada. Ao mais novo, no caso eu, cabia levar alguma das peças abatidas.
De regresso à casa (Fazenda Israel), perto de dois ou três quilómetros, o passo apressado e faminto de adolescentes descompassava com o lento, faminto, sedento e cansado do infante que, aos poucos, os foi perdendo de vista e na distância.
Como perigo não havia, pois sobre guerra nem na rádio ouvíamos ainda falar, eles foram na galhofa andando e pensando que o rapaz os seguia e cedo a eles se juntaria.
Postos no acampamento, Arnaldo e Sabalo (sobrinho da minha mãe), Kapayu e o primo Beto na casa particular de seu pai (havia a vivenda da fazenda que só se abria para trabalho) terão  notado a minha ausência prolongada.
Até hoje, nem o meu mano e amigo de todos os tempos Arnaldo, nem Kapayu que era um tio-amigo, nem o primo Zito (os dois últimos  já não vivem), ninguém me confidenciou se terão  levado alguma reprimenda dos mais velhos. Só sei que fizeram caminho inverso, procurando por mim, encontrando-me dormitando à sombra de um arbusto que crescera no então "campo aviação", meio-caminho entre a "pedra escrita" e a Fazenda Israel (rebaptizada no pós-independência por Fazenda Hoji-ya-Henda). A sede, a fome e o cansaço foram tão fortes que força não sobrara nas pernas e pés descalços sobre areia quente e movediça da tarde ensolarada.

Quanto à aldeia de Pedra Escrita, que hoje se mostra  junto ao gigante paleolítico, foi obra do comandante António Infeliz João (filho de João dos Santos ou João Kitumbulu) que perante a dispersão pelas lavras dos antigos trabalhadores das fazendas da região e face às incursões dos militares rebeldes (Unita) que entre os ovimbundu encontravam fonte de abastecimento logístico e informações sobre a movimentação das forças armadas angolanas (FAA), decidiu, à força, juntar todos os povos dispersos em um conglomerado no território da fazenda que mais tarde passou a ser sua. Assim nasceu, no início da década de noventa, séc XX, a aldeia que é das maiores da comuna da Munenga, juntando, para além de povos recuados há muito do Ki(s)songo, Kis(s)ala, Longolo e outras regiões distantes, aldeões de Kalombo, Tumba Grande, Kipela, Kototo e Kuteka.
 
Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta de 11 Abril 2019
 e J.A de 28.04.19

quinta-feira, agosto 29, 2019

QUANDO ADMINISTRAR WHATSAPP É VANTAGEM

Nas grandes cidades, como Luanda e Sumbe, "mijam" os governadores nelas estão instalados, não sendo, contudo por todos conhecidos. Assim também é nas sedes municipais. Quem "mija grosso" é  o administra-a-dor.

Man-Barras, considerado "um organizador" da polícia de viação e trânsito atendendo aos novos ventos que nos sopram a partir da Colina de São José, em Luanda, foi transferido de uma cidade para outra com tal propósito de organizar e baixar os níveis de sacarose contidos na "gasosa". Tão  grande era a sua fama e o temor que os automobilistas sem carta ou com carros indocumentados tinham dele. Man-Barras, homem vertical, sempre cabeça rapada, uma Barrabás. Gasosa para ele era algo com "sal e veneno", daí que, a quem estivesse em falta, mais valias entregar-se, confessar e levar a multa ou ser encaminhado à cadeia, se fosse cado disso, do que procurar subornar o novo chefe da policia de transito do Lubolu que fazia questão de trabalhar diariamente duas a três horas no terreno e sempre em pontos distintos.

Mangodinho que vivia na aldeia de Pedra Escrita, embora mesma subscrição administrativa,  não conhecia ainda Man-Barras nem esse a Mangodinho. O calhambeque de Mangodinho, um "acaba de me matar" de cor azulada e matricula AMF, e ele mesmo estavam documentalmente em dia. Livrete, título de propriedade, piscas e faróis, stop e travões,  taxa de circulação e seguro contra terceiros, tudo. Mangodinho não gosta de kavwanza e prefere pagar muito mesmo que tenha de usufruir pouco.
- Mais velho não se pode mais meter em encrencas.- Costuma afirmar nas conversas com os  jovens da aldeia.
Estava tudo em dia, estava! Mas, ao sair apressado de casa, se tinha esquecido da pasta que continha os documentos todos.
Pelo caminho, tinha já deixado uns cinco postos policiais. No Lubolu é como no Longonjo. A polícia monta postos de fiscalização de cinco a cinco quilómetros. Felizmente,  sendo um mais velho e um carro conhecidos, não  foi parado para as devidas averiguações. Porém, a  entrar, quase-quase, em Kalulu, lembrou-se que ali "a coisa era mais diferente e custosa". Enfiou a mão no porta-luvas para confirmar se a pasta estava lá e a mão  voltou vazia.
Os documentos ficaram. Ficou com as ideias a gira-girar.
- Regresso? E se encontrar uma malandro que me mande parar? Avanço? E se me encontrar com o novo chefe da polícia de trânsito que dizem nem gasosa bebe?
Decidiu avançar e confiar no socorro intangível de seus ancestrais e nos apelos aos santos e arcanjos cristãos  que já ouvira falar.
- Vou só. Já andei 58 quilómetros e só me restam 2 km. - Decidiu e assim agiu.
Para a sua desventura, era Man-Barras quem estava no "controlo" de Kambuku.
Mangodinho atrapalhação entrou-lhe nas pernas e nos cérebro. Pior é quando você sabe que está  em falta.
Estacionou diligente o mais próximo da berma, sinalizando antes a operação,  mesmo não tendo veículo  nenhum à sua rectaguarda.
Quando o chefe Barras o ia abordar, eis que apareceu um sub-chefe de motorizada, de quem Mangodinho era amigo desde os tempos da escola  Kwame Nkrumah e com quem trocava mensagens regulares via grupo whatsapp.
- Então,  camarada administrador, Como está? - Saudou Velhinho Toneco, o sub-chefe da polícia.
- Bom dia camarada Velhinho.
- Como está  a nossa comuna da Munenga? - Indagou de novo o polícia, pronto a partir, deixando o seu superior fazer as averiguações a Mangodinho.
Nisso, Man-Barras julgando tratar-se do administrador comunal da Munenga, apenas se limitou a abrir a cancela e fazer a habitual vênia.
- Boa viagem e tenha boa reunião, Senhor Administrador!

terça-feira, agosto 27, 2019

EXPLORAÇÃO DE TRABALHO INFANTIL NA BAIXA DE LUANDA

Os rapazes e algumas raparigas que vendem água, refrigerantes e algumas bugigangas pelas ruas da cidade de Luanda nem todos e nem sempre o fazem para ajudar os pais, dada a precariedade financeira dos progenitores e/ou tutores. Entrevistei alguns, na Rua Direita de Luanda, e soube que "o negócio é do patrão" que paga ao fim-de-semana uma quantia módica.

Quanto à origem dos mesmos, é diversa: Namibe, Huila, Huambo, Benguela, Bié e até Kwandu-Kuvangu.
Uma boa perícia pode apurar quem são os que "abusam" estes memores, expondo-os a todos os sóis, sede, poeria e fome, bregando pela sobrevivência, num ambiente em que proliferam malfeitores.

Nesta, terça-feira, 27 de Agosto, um desses meninos, recém-chegado dos gambos, onde provávelmente seus pais terão perdido o gado que ele ajudava a pastorear, foi vítima de um futo. Um "diamporô" exibiu Kz 2000, pedindo 4 refrigerantes (ao preço de cada Kz 100) e o respectivo troco de 1600. Sem que tivesse entregue a cédula de kz 2mil, deu Kz 100 ao rapaz para que fosse comprar um saco para ele transportar as ditas gasosas. Desavisado, o rapaz foi à procura de saco e quando voltou ao local em que deixara o cliente e a mercadoria, "só encontrou vento". O aludido comprador, bandido de primeira hora, pôs-se ao fresco.

Se é preciso "caçar" os bandidos todos que inundam Luanda, é, de todo mister, que se chegue, de igual sorte, aos exploradores de trabalho infantil, que podem também ser raptores de menores para as usar como "mão-de-obra escrava".

quinta-feira, agosto 22, 2019

SONGO NA ESTRUTURA DA ALDEIA RURAL TRADICIONALISTA

  (tentativa de descrição da divisão político-administrativa da aldeia rural tradicionalista)
A vertente "positiva" da divisão político-administrativa do Estado angolano, apresenta-nos o país subdividido em regiões (norte, sul, centro e leste e costeira/oeste), províncias, municípios, comunas/distritos urbanos, cidades, sectores/zonas, quarteirões, aldeias, etc.
Olhando para a organização do que foi/é o potentado de Kuteka, nas margens do Longa, abrangendo territórios adstritos à comuna de Munenga (Libolo) e comuna de Dala Cachibo (Ndala-ya-Xipo, município da Quibala), noto que o soberano (designado rei) exerce poder sobre as aldeias de Hombo, Mbango, Kabombo, Kipela(?) e Mbanze (a capital), podendo cada aldeia ter outras aldeolas (unidades dependentes e de menor aglomeração populacional), podendo ainda subdividir-se em sectores residenciais ou zonas, também designadas (no caso de Mbango) por "songo" (comunidade afectiva).
Sendo "songo" a menor unidade de organização territorial nas comunidades rurais tradicionais, pode equivaler, quando comparada com a comunidade urbana, a bloco ou quarteirão.
Na antiga aldeia de Mbangu-yo-'Teka (Mbangu-de-Kuteka), Kinhendu, Kitinu, Kabota e Zawlena Kilombo, todos parentes próximos eram do "songo/quarteirão" de Ketele, enquanto outros aldeões como Kyuma Albano eram do Nguya.
O "songo" é/era fundado na base de um parentesco mais intrínseco (consanguinidade e/ou amizade pura), credo (religioso ou animístico), origem migratória, ocupação socio-profissional (pescador, caçador, etc.), entre outros quesitos, não estando dissociado de um todo que é a aldeia, unidade administrativa do potentado (reino).
Nessa reflexão/busca, trago à colação um extracto do cancioneiro popular que cita:
"Bu songo yeto twoso twatata, kabwete otuxitila, so tulizek'ayo" (no nosso sector/comunidade todos somos homens, não há quem moa fuba, por isso passaremos noite com fome).
Um exemplo da ex(pers)istência de "songo" é encontrado na aldeia de Pedra Escrita, no Libolo, que cresce por via da migração de povos de aldeias afastadas da via asfaltada para essa, com destaque para os povos de Kuteka que, regra geral, erguem as suas habitações ao lado dos primeiros emigrantes da mesma procedência. Assim, quem se dirige à Pedra Escrita e procure por alguém que tenha nome redundante é questionado sobre a origem do procurado.
Explicando, por exemplo, que "procura pelo domingos do Mbangu" torna-se fácil ao "cicerone" percorrer mental e visualmente o "mapa da aldeia e suas sub-unidades/comunidades" e passar uma informação assertiva.
Voltando ao "Estado" tradicional de Kuteka, verifica-se que o soberano (Kañane ou Phela) exerce poder sobre a população das aldeias acima citadas, e estas possuem jurisdição sobre as terras (cultiváveis e não agricultáveis, montanhas, florestas/muxitu), rios, coutadas para caça, etc. Os limotes do potentado são físicos (acidentes naturais) mas conhecidos por toda a comunidade, sendo sua invasão por estranhos (sobretudo em termos de caça) passível de multas.
O povo desse potentado internaliza aspectos comuns como língua, credos e um sistema de jurídico-administrativo próprio.
Importa aos historiadores contemporâneos resgatarem esses relatos histórico-sociais e político-administrativos das nossas comunidades para que se possa compreender a genesis da estrutura e organização das comunidades rurais tradicionalistas do nosso país.

Publicado no jornal Nova Gazeta a 30.05.19 

quinta-feira, agosto 15, 2019

O KASIMBU DA MINH'INFÂNCIA

Naquele tempo, Setembro era o mês do retorno à escola, depois de três meses de "licença". Por isso, Maio, mês do início do Kasimbu (cacimbo ou estação seca) que se estende até Agosto, era o mês das provas finais de conhecimento e exames. 

Chegado o mês das férias prolongadas, os que atingissem a idade da circuncisão (no Libolo, era normal dos cinco aos dez anos, podendo acontecer, excepcionalmente, antes ou depois desse intervalo) estariam a contar os dias (se cônscio disso) ou à espera de serem surpreendidos pela chegada do "mestre da faca afiada". Os mais crescidinhos, já talhados para a caça, começavam a preparar os instrumentos de caça (por queimada de capim), a alimentar os cães e a consertar as alparcatas. Nalgumas casas e famílias, kasimbu é período de conduto abundante, dado que os rapazes estão libertos da escola e empenhados em mostrar toda a sua mestria na fabricação e montagem de engenhos ardilosos para capturar tudo o que se mova e que os hábitos alimentícios admita à mesa: puku, ngwari, kandimba, hima, xiwe/kambwiji, ngwingi, hala, kezu, ngulungu, kyombo, moma e toda a sorte de viventes terrestres, aéreos e aquáticos.

Os que se tenham dado bem na escola, alguns eram presenteados com viagens a uma aldeia mais vistosa ou a uma capital qualquer: a sede comunal, a sede municipal, a capital provincial e, se os pais mais pudessem e quisessem, a capital do país. E quando voltassem à aldeia natal, era recorrente dos viajantes a expressão:

- Ewo, mu Luanda Uwabeee! (quão linda é Luanda!)

E contavam-se cenas de roer as unhas para quem nunca tinha deixado a aldeia nativa, umas verdadeiras e outras de enfeitar a línguas e os ouvidos da audiência. Faziam-se círculos, dias sim, dias sempre, para ouvir os aguçadores de curiosidades contarem estórias até que outras cenas ou motivos se sobrepusessem.

- Quão linda é a cidade!

Na estação seca, rios com menos água e menos alimentos para a vida aquática, mais faina nas nassas (muzwa) carregadas de dendém e outros restos que atraem os cardumes às armadilhas. Outras quantas vezes, rios barrados ou recortados pela escassez de pluviosidade, cestos preparados. Mulheres, crianças e adolescentes valentes. Os homens adultos têm a caça, numa comunidade com papéis socias bem distribuídos, como actividade distribuída. Cascas de árvores trituradas e ervas ou folhas entorpecentes como "twa" ou "kalembe". E o peixe em área delineada e circunscrita de um trecho de rio ou lagoa flutua ébrio para garfadas alegres, noite adentro e manhãs seguidas.

Com a realização das picadas à volta das fazendas e das lavras (para que fogo posto ou acidental não devore o fruto do trabalho árduo de todos os tempos) e depois das queimadas, iniciava-se a preparação do ano agrícola.
 Preparar o "kibembe" (terreno que esteve em sistema de pousio) para o milho, a batata-doce, o feijão e a jinguba. 

Ainda durante o kasimbu (cacimbo) os deltas dos rios e outras partes mais baixas (sem que haja rios) chamadas "kitaka ou naka" ganhavam o verde da rega. O cultivo de hortaliças acontece com maior intensidade no período de estiagem para os campos altos e rega nas zonas ribeirinhas. E o milho, a jinguba, a batata, o tomate, a cebola e alho, enfim... tudo volta, mesmo sem chuva!
 
Publicado no Jornal de Angola de 09.06.19

quinta-feira, agosto 08, 2019

A ORIANA DE ENTRECAMPOS

A Camponesa é uma "tasca de esquina" (Av. 5 de Outubro, 347, 1600-035, Lisboa), cuja sinalética aponta como sendo "Pastelaria, Cafetaria e Snack Bar". Localizada em Entre Campos, a casa está sempre apinhada, apesar de ter (diga-se) espaço de acolhimento interior minúsculo (para o número de frequentadores), mas sempre bem arrumado de forma a poderem nele caber mais pessoas sentadas.
À entrada, no largo passeio a olhar para a estação de comboios, um sombreiro acolhe os utentes que preenchem outras mesas com cadeiras. É, normalmente, aqui que se sentam os fumadores e aqueles que ficam por uma bica.
Mas quem faz "A Camponesa" encher o recinto e os bolsos?
Há uma jovem que trata todos os angolanos que adentram o espaço por tio. A jovem simpática que corre de um lado ao outro, conversando e atendendo com mestria, é Oriana e é angolana. Ela sabe quando intervir e quando deixar os clientes em paz. Conhece as dores e, às vezes, age como bálsamo.
Diz que "ganha pouco" mas a sua simpatia cativante, que faz o espaço encher, proporciona-lhe alguns cêntimos de euros que, ao longo do dia todo, podem pagar uma refeição.
Quando perguntada "se não se cansa e não tem tido dias tristes", Oriana apenas responde:
- Gosto do que faço e com o sorriso que vocês dizem que esboço encapuzo as minhas mágoas.
Essa jovem angolana, há mais de 15 anos em Lisboa, habituada a ter o cliente como a razão do seu trabalho e de seu sustento, bem podia ser modelo para muitos empregados em hotéis, restaurantes e similares em Angola, que fingem trabalhar ou que erradamente pensam que fazem favor ao utente/cliente. É uma pena que Lisboa "fica longe" e a Oriana uma apenas, embora se possam encontrar em Portugal outros bons profissionais do ramo da hotelaria, idos de Angola, dada a vocação turística do país.
Pessoas como a Oriana devem ser contratadas para formar (formal ou informalmente) angolanos que trabalhem no nosso país nesse segmento de negócio, de modo a conferir qualidade ao serviço que as nossas casas prestam. É que há muito a ciência empresarial comprovou que para ter uma boa clientela (grande e regular) não basta a qualidade inferida do produto. O serviço tem de ser de elevadíssima qualidade, sendo que esse desiderato é atingível apenas com pessoas que tenham vocação, formação, que gostem do que fazem e que estejam comprometidas com o trabalho.
A Oriana mostrou que um bom atendedor de cafés pode, ao fim da jornada, ganhar mais do que um Ministro ou Deputado à Assembleia do Povo!

Publicado no jornal Nova Gazeta de 25.04.19 e JA de 19.05.19

quinta-feira, agosto 01, 2019

UM BIENO NA EUROPA

Enquanto escrevo essa prova, estou a pensar num jovem do Bié ensinado e educado a cumprimentar tantos quantos encontre.
Wandalika está no aeroporto de Viena, à tarde um formigueiro, a cumprimentar tudo e todos quanto vê, até estátuas e manequins nas boutiques.
- Mboa tarde, mano!
- Mboa tarde, mana!
Não atentos e nem habituados a tal, todos quantos percorriam os terminais do aeroporto pareciam-lhe mal humorados e deseducados.
Wandalika não deixava, entretanto, de os saudar amistosamente, tão pouco de reclamar pelo silêncio que recebia em troca:
- Ainda aqui são assim mal 'indixipilinados' por cá-di-quiê? Pessoa 'combrimenda' com toda vontade e ninguém 'arresponde'? Kalye aniña, pa!

segunda-feira, julho 29, 2019

UMA TARDE À BOLA

O futebol é-me uma praia alheia. Tirei, porém, uma tarde para ver jogar os meninos do Barreirense contra seus coetâneos da academia do Sporting (11anos, escalão de formação). Zélio Mambo Sebastião, cujos pais visitei estaria em campo.
- Vou ver o sobrinho a jogar e preparar o coração para as suas participações no CAN e Mundial (caso os tugas não o "comprometam", pois nasceu no Barreiro). - Disse para mim mesmo, alinhando, depois, para a academia leonina.
E foi muito bom ver a forma tão íntima como os rapazes cuidam da bola. No final, Sporting 2-Barreirense 12.
Outro dado que me escapava é o facto de todas as equipas dos melhores clubes serem "autênticas selecções dos melhores de cada tempo e idade".
- Todos os anos é assim. As pequenas equipas são desfalcadas a favor das grandes. Vivemos a formar e a perder jogadores em todos os escalões. - Disse-me o pai de Caio, orgulhoso de seu filho, por ter marcado mais do que metade dos golos do Barreirense.
E os treinadores da "selecção do Sporting" não só tomavam notas sobre o desempenho dos seus meninos como também redobravam a atenção aos meninos da equipa convidada.
Apesar de benfiquista, foi bom estar em Alcochete, a 10.03.19.

segunda-feira, julho 22, 2019

CONTANDO A HISTÓRIA DA MANGUEIRA (IV)

Em 1987, Junho, regressei ao Libolo (tendo como destino inicial a aldeia de Perda Escrita, recém criada), procedente de Luanda.
Na mesma semana plantei um abacateiro no alambique (lavra do Limbe) e o "pai Raimundo" (Manuel Carlos da Silva) plantou a mangueira no terreiro de sua casa. Ainda ajudei a regá-la até que parti para Kalulu, onde permaneci até 1990, deslocando-me parcas vezes à Pedra Escrita em ocasiões de férias escolares. A mangue...ira, única árvore de longa vida que se vê na aldeia, ainda está aí, a reclamar companhia de outras frutícolas.
É debaixo dela que os meus familiares se reúnem. Afinal a velha Nzumba (Alcinda Cazenza, na foto) é a matriarca da família.
Na aldeia, para abordar assuntos comunitários, como sempre, beneficiei, mais uma vez, da sombra dessa árvore e perguntei-me (a mim mesmo): por que não se plantam mais árvores, tendo as crianças como padrinhos?
Se assim se fizer, a aldeia ganhará vida. Pois água não falta (apesar dos cabritos que ameaçam as plantas de pouca altura).

segunda-feira, julho 15, 2019

PORTUGUESES, ANGOLANOS, EUROPEUS E NEGROS

Homenagem aos calceteiros de Lisboa
Durante as minhas caminhadas matinais, e sempre a falar com os botões, fui desmontando e montando cenários.
Nem todos os negros são angolanos, havendo mais negros não angolanos do que deste pais.... Tal se explica por confluírem emigrantes de várias nacionalidades afro-lusófonas e não lusófonas, como acontece em todos os demais países europeus e do mundo.
Nem todos os negros são africanos, pois alguns, e já não são poucos, nasceram em Portugal e ou noutros países da Europa, Ásia e América.
Nem todos os brancos e ou mestiços são portugueses ou europeus, pois alguns deles, e são em número considerável, nasceram em países africanos, asiáticos ou americanos.
Há grande tendência para que nos próximos vinte anos a população negra e mestiça supere a branca, tendo em conta a elevada taxa de crescimento populacional entre esses dois grupos, em desfavor da cada vez mais envelhecida população branca.
Com isso, a "relação de força" e até política acabará por mudar, tendo em conta que o negro deixará de ser sinónimo de africano e decidirá, em maioria, sobre questões políticas (de nações) europeias.
A população branca pode passar à minoria e deixar de se alcandorar como o (único) "dono (do país) da Europa".
Pelas ruas e transportes públicos de Lisboa discute-se, de forma aberta ou em surdina, se qual é a cidadania que mais predomina naquele país, se PORTUGUESES, outros europeus, angolanos ou africanos (aqui a olhar para a pele mais enegrecida).

segunda-feira, julho 08, 2019

O SILÊNCIO E A PAZ DOS OUTROS

 Oitavo andar de um edifício hoteleiro, no pais que fica a sul da terra de Bismark. Pela enorme janela que acompanha a parede do quarto, dá para reparar o que se apresenta à frente, num ângulo de aproximadamente 90 graus, e dá também para ouvir o barulho inexistente, quando o relógio caminha apressado para as nove da manhã. É domingo.
Na banda, minha banda amada, pois não tenho outra, estaria o vizinho a afinar os altifalantes da sua igreja, com os seus "aleluia igreja, amém!".
Aqui, vi muitas kirtchen, sobretudo as Nova Apostólicas. Eles também oram muito e são fervorosos. Mas sabem que Deus, o altíssimo, ouve tudo "até os pensamentos dos nossos corações ", por isso, não gritam, não incomodam, nem montam "igrejas de dinheiro" em qualquer esquina. Cada coisa deve estar no lugar certo e sempre sob o olhar da autoridade competente.
Aqui, seria dificílimo aquele vizinho, que atravessou a fronteira norte de Angola, chegar, ocupar terreno e instalar, no meio do bairro civilizado, uma igreja construída apenas com simples folhas de chapas metálicas. De onde lhe sairia a coragem?
Os de cá, tal como amam o desporto, a exercitação física e o bem-estar entre os cidadãos, promovem o silêncio e respeitam o descanso alheio. Nada de kavwanzas como em Viana, Mabor ou Katambor. Viena é outra coisa! Preferem passear, andando ou pedalando. Os carros, poluidores por excelência, só mesmo quando necessário e vão dando lugar a outros movidos à energia eléctrica.
Entre nós, mwangolês, infelizmente, até se promovem concursos "do carro do mais barulhento do bairro, do cão que mais ladra, do galo que mais canta, do gato que mais mia, do filho que mais grita quando arreliado pelo pai e do batuque da igreja que mais incomoda o vizinho que queira dormir". E chamamos a isso e muito mais de "normal".
- Que se retirem os incomodados, nê?! Não é assim que nos respondem quando reclamamos?
Mas quem instituiu a convivência sadia, pensou e sabe porquê. Eles, os povos há muito civilizados, também tiveram uma vida parecida à selvageria. Tiveram de, durante muito tempo, reflectir e encontrar antídotos. Criaram campanhas de educação cívica a que se seguiram campanhas ou operações de repreensão e até repressão aos incumpridores do que ficou legislado e violadores do que ficou convencionado como "moral pública ".
E nós?
O tipo, come banana e joga as cascas na rodovia.
O carro de recolha de lixo, sem rede protectora por cima do amontoado sobre a carroça, espalha o quanto pôde pelo trajecto. A festa de aniversário do bebê conta com mais álcool do que sumos e é motivo para encerrar a rua que se torna local de festa. Ai do vizinho que pretenda sair com a viatura e "importunar" os convivas autoproclamados donos da rua.
- Tem inveja! Atestam.
Para mim, o nosso "Resgate" não devia ter tréguas para não engordar os vícios nem permitir que os inventores de más práticas produzam outros males sociais maiores do que já assistimos com o "quem de direito" ainda impávido.
Só opinei.

segunda-feira, julho 01, 2019

MALAMBANDO DISTANTE

 Em Viena, onde o frio e o silêncio se casam e cantam mais alto, Mangodinho é campeão dos solilóquios, a provocar inveja aos maus alunos de Sócrates, o filosofo helênico que amava a pergunta e auto-resposta como forma de "cavar" o conhecimento da cosmovisão.
- Então, Mangodinho, desde as onze e trinta que desceste do quarto, sempre nessa cadeira da recepção do hotel, não te vais embora?
- Desci apenas para evitar que me debitem mais uma diária no já parco orçamento que tenho disponível. A diária termina ao meio-dia, mas como esses gajos estão sempre com o olho no relógio e no dinheiro, preferi descer mais cedo.
- E por que não pões à guarda deles as tuas imbambas e vais sacudir um pouco as pernas, andando por aí?
- Xê, te mandaram ou quê? Aqui, a polícia é rigorosa nas multas. Andas só um pouco a toa, já te vêm em cima.
- Como assim, Mangodinho? Polícia põe ordem ou fica a atrapalhar a vida dos cidadãos?
- Ordem deles é, para nós, uma ditadura. Então veja só: doutra vez, quase me multaram por ter atravessado a passadeira, em sinal vermelho, mesmo sem vir carro em nenhum dos lados.
- O pólice estava por perto ou quê, Mangodinho? O que aconteceu para te identificarem?
- Aqui é já regra deles, se alguém notar alguma anormalidade qualquer, pensando na cultura e nos hábitos que eles meteram em suas cabeças, dizia, esse alguém pode ligar à polícia e essa, no palavra-passa-palavra, via rádio, chegar ao denunciado.
- Mas como é que te atuaram então? Foste acusado de quê, Mangodinho?
- Veja. É tempo de frio. O queixoso terá pensado: esse preto para atravessar assim, deve estar coado. Ligou à polícia. O carro mais próximo foi ao encontro e fez o resto. Só ouvi já: "DEUTCH OR ENGLISH"?
- Português. -  "Se" complicamos ainda um bocado. Depois começamos mesmo a soletrar na língua intermediária, o inglês, até darem conta que não estava coado, mas me encurralaram na travessia.
- Passport, please.
- Entreguei.
- Visa, please?
- Mostrei-o ao magala que tinha dado quatro voltas ao documento sem encontrar o visto.
- Where is your hotel?
- Near. Aqui próximo. Mostrei.
- What are you doing here?
- Looking for my dad who is dead a long time in Angola.
Essa parte já é que meteu os três gajos enfurecidos, ao ponto de me exibirem a caderneta das multas: thirty euros!
- Porra! Tudo isso?!

- Yá. Mais ou menos assim. Quando chegar à Ngimbi vou passar a dica aos nossos polícias para incluírem nos seus conselhos úteis ao cidadão a cultura da denúncia dos vândalos e outros actores da incivilidade. 

Texto publicado no Jornal de Angola de 14.04.19

sábado, junho 29, 2019

UM OLHAR AO EMPREGO TEMPORÁRIO NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

A resolução do problema da falta de emprego, sobretudo para a juventude, é um Grande Desafio para o Presente Executivo, sendo uma questão que depende da combinação de múltiplas variáveis como a promoção do empreendedorismo, aposta na indústria extractiva e de transformação, nos serviços, etc. Para se atingir tal desiderato, acções concretas estão a ser tomadas, de modo a promover o investimento no país, propiciador de postos de trabalho.
A criação de postos de emprego, a meu ver, não deve ser pensada a olhar somente para a Função Pública, de si já muito pesada e lenta. Aliás, ela nem é atractiva do ponto de vista salarial.
No "antigo regime", foram tomadas algumas medidas "paliativa" que reclamam agora por uma solução definitiva e urgente e coerente. Alguns jovens (e nem todos com Conhecimentos Habilidades e Atitude), foram acomodados em algumas instituições públicas para, em tempo determinado por Lei, "realizar trabalho temporário e específico" (pelo menos assim devia ser), nalguns casos, ao arrepio da legislação aplicável, esses cidadãos permaneceram nas instituições mais do que o Decreto Presidencial 104/11 de 23 Maio (Art. 10º) permite.
Não havendo vagas e não podendo as instituições realizar concursos de ingresso, esses cidadãos têm, técnica e juridicamente, os seus contratos findos (são apenas 12 meses não renováveis). Aqui, surge o busílis da questão.
- Como manter em tais nos organismos públicos capital humano não contemplado no fundo salarial da função pública?
- Como manter funcionário sem contratos válidos e sem vínculo permanente com a Administração Pública?
- Que trabalho sazonal e específico é esse (para qual foram contratados) e que perdura, às vezes, mais de cinco anos?
Alguns líderes de instituições que se encontram na situação em narração que tomaram a decisão de dar fim a esses contratos (alguns feitos para mera acomodação de parentes, ressalvando-se alguns excelentes quadros e sem parentela nas instituições contratantes), são tomados como os "maus de uma fita" que há muito vinha riscada de imperfeição/ilegalidade.
A correcção de práticas e procedimentos errados exige coragem e determinação. A chantagem, com supostas cartas a Instâncias Superiores, atirando culpas ou acusando de insensibilidade a quem nada tem a ver com "maracutaias" e pretendendo somente REGULARIZAR o capital humano nas instituições que dirigem, é perpetuar um cancro que pode ser debelado e com menores prejuízos.
O emprego, sobretudo para os jovens, está dificílimo. Disto sei e confirmo. Porém, repito, a solução não passa pelo refúgio ou aglomeração na Função Pública. É preciso olhar para além da ponta do nariz.
É preciso pensar juntos e encontrar soluções definitivas e eficazes. Por mais que haja trabalho por fazer, sem que haja dinheiro, não se fazem contratos e, ao existirem contratos, têm de ser feitos em obediência à lei que contratados e contratantes devem dominar e respeitar.
Sou (ainda) um jovem. Felizmente empregado desde os 22 anos, tendo passagens pelo sector empresarial privado, aliás onde tenho feito o meu percurso profissional. É para lá que devemos mirar.
Ao Estado cabe promover boas políticas que fomentem a produção e o emprego. Não nos devemos envergonhar de trabalhar numa "usina" que obrigue os seus integrantes a usar fato-macaco ou uniforme. O fato e gravata, muito apreciados entre os jovens de hoje, podem esperar por nós quando atingirmos a maturidade técnica e profissional, mais adiante. Há exemplos bastantes de pessoas que começaram a partir caroços e que se tornaram em homens respeitados e gerindo Grandes organizações.
Pensemos também fora de caixa. Quem sabe, assim ajudemos os dirigentes que pretendem corrigir os erros do passado e fazermos de Angola um país onde impere a ordem e a lei?

Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 29.11.18

quarta-feira, junho 26, 2019

CONTANDO ESTÓRIAS PARA AJUDAR A CRESCER (III)

 Quando menino, entre 1980-84, passei várias vezes pelo local onde surgiu o conglomerado habitacional de Pedra Escrita (1986_7). Era de imensa vegetação nativa (entre árvores, arbustos e capinzais) que foram desaparecendo aos poucos, fruto da acção humana.

As árvores nativas foram cortadas para "dar lenhas" ou campos agrícolas, sendo que outras não foram plantadas. Hoje, a aldeia e sua envolvente apresentam-se completamente desarborizadas, não abonando a uma vida sadia.
Sempre que nos deslocamos à região, os nossos reparos e sugestões têm sido para, pelo menos, serem plantadas árvores com utilidade alimentícia, cuja acção seria antecedida de campanhas de sensibilização da população (com ênfase nas crianças, adolescentes e jovens) sobre as vantagens (económicas, sanitárias, ambientais, paisagísticas e outras) da arborização.
 
Tal sentimento levou-nos a plantar uma árvore frutícola no acto que marcou aquilo que seria o "lançamento da primeira pedra" para a construção da "biblioteca comunitária" de Pedra Escrita (Libolo, Munenga, EN240).
A cajá-mangueira é uma planta tropical, oriunda do Brasil, e que, com certeza, se vai adpatar às "terras lubolenses".

 Uma das vantagens para se poder desenvolver projectos sustentáveis na aldeia em referência é a receptividade dos aldeões que aspiram pelo crescimento da sua comunidade.
São, por isso, convidados todos quantos possam fazer alguma coisa inovadora na aldeia de Pedra Escrita na região.

terça-feira, junho 25, 2019

CONTANDO ESTÓRIAS PARA AJUDAR A CRESCER (II)



Ainda em meados da primeira década deste século, estávamos, por via da página www.mesumajikuka.blogspot.com, a fazer advocacia para que a aldeia de Pedra Escrita (Libolo, Munenga, EN 240) pudesse ter uma escola e uma Posto Médico. Para o efeito, gritámos alto (escrevendo) e apelamos, inclusive, a ONG como a ACM (liderada pelo Ernesto Cassinda) sem que tivéssemos logrado. Veio a pré-campanha para as eleições e a aldeia (com perto de... mil habitantes) foi inscrita no PIP (Projectos de Investimento Público) municipal, com escola de três salas, um Posto Médico e um fontanário (água não tratada).
Os aldeões contam que "naquele ano, rir era só rir" quando comparada a aldeia a outras que não tinham ganho nenhuma obra.
"As obras começaram juntas, mas só a escola e o chafariz terminaram", conta um dos anciães da aldeia.
A escola foi projectada para três salas de aulas, um gabinete, uma arrecadação e dois lavabos. Porém, não sendo a aldeia autónoma em termos de professores e técnicos de saúde, "demandava uma casa para professores e outra para enfermeiros", tão logo terminassem as obras, conta ainda o interlocutor.
Inaugurada em 2012, deparámo-nos com a falta de material de leitura para os alunos. Procurámos angariar livros, tendo recebido por parte do General Rui Ramos resposta promissora, "desde que a escola tenha espaço para guardar os livros e colocação de mesas e cadeiras".
Vimos que nada disso havia e fomos alimentando a ideia de construirmos (nós mesmos) uma sala para acolher os livros e os leitores e depois pedirmos os livros para as crianças e os adultos letrados que se vão transformando em analfabetos funcionais.
Entre a ideia e o início da sua materialização transcorreu algum tempo, pois a acção envolve dinheiro e uma caminhada (que pode ser) a solo.
Em Maio deste ano (2019), fizemos o anúncio público (Jornal de Angola e Face Book) da decisão de erguer naquela comunidade a "biblioteca comunitária" e já começamos a juntar os blocos, a que seguem a areia e o cimento para o início efectivo da obra. Antes disso, falámos com a comunidade, que acolheu a ideia, e endereçámos ao administrador comunal da Munenga uma carta a formalizar contactos orais. O terreno indicado é o adjacente à escola, devendo a "biblioteca" posicionar-se entre o Posto Médico (inconcluso) e a escola.
O projecto arquitectônico está sob responsabilidade de Mohamed Canhanga (finalista de Arquitectura e dono da Arquitect'Art 97).

Nota-se que a "área nobre" em que foram projectados os equipamentos sociais como escola, Posto Médico, Jango comunitário (também já existente) e fontanário carece de vedação ou delimitação que evitasse a sua ocupação pelos aldeões e consequente subaproveitamento. A invasão (in)voluntária do espaço na "zona nobre" da aldeia levou-nos a encarar alguma dificuldade em "assentar" o projecto da biblioteca já que era intenção do projectista que a biblioteca não prejudique visual e esteticamente o Posto que, ao ser concluído, ficará na parte traseira.

A aldeia de Pedra Escrita (Libolo, Munenga, EN240) clama ainda pela conclusão do Posto Médico, casas para enfermeiros e professores que fizeram dos lavabos da escola seus dormitórios e precisa também de educação ambiental, pois verificámos uma gritante ausência de arborização na comunidade.

domingo, junho 23, 2019

CONTANDO ESTÓRIAS PARA AJUDAR A CRESCER (I)

O menino (na foto) estuda a segunda classe e não tem o que ler. Quando não vai à escola, frequenta a lavra ou brinca com os amigos usando o seu "hola-hola" (trotinete rudimentar) que também o ajuda a carregar mantimentos da lavra à aldeia de Pedra Escrita (Libolo). Como ele, estão dezenas de outros rapazes e raparigas que nem jornal encontram para adestrar as práticas de leitura que os professores vão tentando transmitir nas aulas de ...Língua Portuguesa. A falta de material de leitura faz com que os mais velhos, há muito alfabetizados, se tornem também analfabetos funcionais, por falta de exercitação da leitura e da escrita.
- Hoje, com os telefones, nem bilhetes se escreve e quem sabe ler e escrever está empatado com aquele que não sabe. Todos se limitam a ligar e falar. - O desabafo é de Gonçalves Carlos, antigo professor que, impossibilitado de retornar à educação, depois de anos de calvário, preferiu cuidar do campo.
Se a educação vai como vai, a saúde "está no chão". A construção do que viria a ser o Posto de saúde foi abandonada em 2011.
- Era para ser Posto. Estávamos já todos contentes, mas só terminaram a escola. - Narra um aldeão que acrescentou: por favor, sei que você, para além de nosso irmão, é jornalista e escritor. Não põe meu nome no jornal nem no livro. Aqui no mato as coisas mudam muito.
O Posto Médico ficou pela décima fiada (viga geral) e, passados 8 anos, "nunca mais o empreiteiro apareceu", nem a edilidade municipal, responsável pelos programas de investimento público, vulgo PIP.
Sem quem cuida dos doentes, as doenças todas possíveis, sarna, "lombrigas" (oxiúros), anemia, paludismo, incluindo tênue desconfiança de cegueira dos rios, fazem morada, sem que a aldeia, com mais de mil almas suplicantes, possa ser socorrida em tempo e de forma permanente.
Essas estórias reais (nuas e cruas) visam tão somente despertar quem, para essas gentes do Libolo (comuna da Munenga, EN240), possa "mover uma palha".
Quase tudo é necessário e urgente.
O autor dessa prosa já iniciou a concentração de material para a construção de uma Biblioteca Comunitária.
São chamadas as ONG para acudirem a questão da saúde e dormitórios para os professores (contratados de localidades distantes) que ocuparam os 2 wc, fazendo com que as meninas e os meninos se desfaçam do "incômodo estomacal" na mata.