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segunda-feira, maio 29, 2017

ALFARRABISMO E KISALU DAS LETRAS: UM RESGATE NECESSÁRIO

Por: Soberano Canhanga, 2012
 
Ela é paciente. Está todas as noites, das 18 às 22horas, no pátio da escola do II nível de Saurimo onde a Escola Superior Politécnica da Lunda Sul (unidade orgânica da Universidade Lweji A Nkonde) tem salas emprestadas para estudantes nocturnos. Paciência Sanâmbua sabe que os estudantes universitários têm uma carga de conhecimentos muito diminuta devido à falta de bibliografia, aliada à inexistência de hábitos de leitura. Ela não só vende livros, como também aproveita retirar deles o conhecimento que têm.
Na sua bancada, Paciência expõe livros de escritores e autores angolanos editados pela Mayamba. É única em Saurimo a fazer este negócio. A cidade dispõe apenas de uma livraria situada em local de difícil reconhecimento. Não há divulgação/publicitação da mesma e acções tendentes a elevar os níveis de literacia são desconhecidas. Os alfarrabistas inexistem. Feiras de livros e outras artes também são inexistentes na cidade. Os leitores são poucos. Pouquíssimos. “vendo por dia (noite) entre 3 a 5 livros ou menos do que isso”, diz ela rasgando um sorriso característico de quem gosta do que faz. É como quem corre por gosto (não se cansa) e por isso Paciência não desiste da venda de livros.
Alguns professores, preocupados com as causas do tão fraco nível de conhecimentos dos estudantes, vão apelando à leitura e recomendando livros (gramáticas, dicionários, romances, contos, livros técnicos em função da especialidade, etc.). Uns, que já deram conta do quão atrasados estão e vão aplaudindo aos conselhos e adquirindo livros para a elevação do seu nível intelectual. Outros fazem “ouvidos de mercador”, mas é assim a vida. “Nem todos estão atrás do conhecimento”, como desabafou um dos meus estudantes preocupado com os colegas que, mesmo estando na universidade, desconhecem a definição do que é o sujeito de uma oração. “Uns querem apenas obter os certificados para serem chamados de doutores ou para terem os salários elevados”, rematou o insigne estudante.
"É o conhecimento que difere o doutor de fato e o Dr. de facto", tenho dito aos meus amigos, em todas as salas por onde ministro.
 
E, aqueles que pretendem ter um “canundo” cheio de conhecimentos têm de ir à barraca da Paciência e outras barracas/livrarias (quitandas das letras) para enriquecerem as luzes/pistas que os professores dão sobre o conhecimento científico.
* Kisalo: o mesmo que kitanda em kimbundu (mercado em português)


Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 01.06.2017

quinta-feira, maio 25, 2017

PESQUIZANDO MINHAS ORIGENS


Muitas vezes fui abordado, por cibernautas e amigos reais, por que adoptei o pseudónimo literário de Soberano Canhanga?

Quanto à minha origem materna já escrevi e expliquei. Faltava o lado paterno, pouco divulgada nos meus escritos.

A minha mãe (Maria Canhanga) conta que o meu avó Ñana Muryangu (Fernando Ndambi como ficou registado no civil) era procedente de Karyangu, aglomerado populacional que conheci aos 39 anos.  

- Kukwi mungwa mbonge Yaryangu!- Diz sempre que questionada sobre o assunto (vosso avô era procedente da sede de Kariangu).

Lendo http://francismundo.comunidades.net/origem-dos-kibala-1sintese (01.02.2017), sobre a origem e alguns ritos dos povos Kibala, cheguei a algumas conclusões, não pouco importantes, sobre aquele que terá sido Fernando Ndambi, bem como algumas práticas por ele evidenciadas.

Vejamos:

“Sempre que um homem tomava uma mulher, era aconselhado ir viver num outro ponto do território para terem filhos e formar uma família lá, criando tribos e clãs com o prepósito de expandir o reinado de kipala o “Ñana Inene” e o seu povo. Não há evidência de que este povo era tributário há um determinado reino”...

Meu avô, já em terceiras núpcias, abandonou o seu homeland e migrou para a região de Kuteka, onde já tinha alguns parentes também eles migrados. Mas não se juntou na comunidade parental. Procurou um sitio com mata serrada e água abundante, atraindo caça, local propenso ao desenvolvimento de uma agricultura que propiciasse boas colheitas. Ao rio Kitumbulu, que encontro sem peixe, fez questão de povoar, pescando no Sangana e descarregando os peixes à montante do Kitumbulu.

“... Kipala Kia Samba teve 15 filhos, dos quais seis (06) eram com sua primeira mulher “Nzumba Muriango, muñambo-a-Čipalá”. Cada filho ia tomando a sua mulher conforme os rituais e a levava já concebida a uma outra terra para formar a sua família... Depois da morte de seu marido passou a ser chamada de Nzumba Čipalá, fazendo papel de rainha”...

O sobrenome Muriangu que configurava o título nobilístico de meu  avô, indicia ter descendido directamente da linhagem de Nzumba Muryangu ou Nzumba-Epala (Nzunba-esposa de Cipala). Pois o título nobilístico de Ñana Muryangu, nunca viria do nada e jamais lhe seria atribuído e reconhecido, se não fosse do grupo dos herdeiros de Cipala kya Samba saídos do ventre de Zumba Muryangu.

Portanto, sou um libolense, de Kuteka, onde meu avô materno, Ñana Ngunji,(Canhanga) era o regedor (soba grande) do Kuteka (margens do Longa), e sou igualmente descendente da nobreza de Cipala kya Samba (Kibala).

 

segunda-feira, maio 22, 2017

MALAVU OU LUNGILA?

Essa é uma pergunta comum quem visita as aldeias interiores do Uige. O café também conhecido como bago vermelho é, sem dúvida, o ex-libris do Songo e outros municípios do Uije. Mas, não é tudo. No Songo, por exemplo, também se vêem montanhas que desafiam os céus como na aldeia de Zulumongu (o céu é a montanha) e se bebe malavu (designação do vinho de palma em Kikongu)ou lungila (aturem-me em Kikongu) que é um fermentado a base de sumo de cana de açúcar.
- Então, vai uma bebida?
- Sim. Sirva Lungila!
Nesta viagem turística e exploratória sobre os usos e costumes dos nossos povos, também pude constatar que os topónimos, no Uige, regra geral emergem de hidropónimos, de antropónimos de fundadores das comunidades ou de eventos sociais, culturais ou naturais relevantes, uma característica que se pode dizer: geral em Angola, sem muita margem de erro.
 
Exemplos:
Zulumongu (o céu é montanha), Uije.
Kipala kya Samba (rosto de Samba), Kwanza-Sul.
Kambambi (friozinho), Kwanza-Norte
Baixo Longa (rio Longa) no Kwandu nyi Kuvangu
Ngonguembo (Ngonga yo wembu) Kwanza-Norte
babaera/Ovav'ayela (água límpida/cascata) Ganda/Benguela
Pedra Escrita (anúncio publicitário feito em pedra deu nome à aldeia) no Libolo), etc.

Outra constatação, cuja reflexão se espera melhor desenvolvida e fundamentada, tem a ver com as línguas faladas na extensão do Uije e as zonas de "penumbra linguística". Busco aqui uma analogia com a física, uma ciência da natureza para procurar explicar o que se passa com as imagináveis fronteiras linguísticas cujos marcos (inexistentes) nada têm a ver com as fronteiras político-administrativas. Se para separar os territórios das aldeias, comunas, distritos urbanos (têm estatuto semelhante às comunas rurais), município e províncias servem como separadores as ruas, avenidas, elevações, rios, cadeias montanhosas, etc., com as línguas, seja no Uije ou outro território, acontece de forma diferente. Não há fronteiras tangíveis. no Negaje, por exemplo fala-se Kimbundu! No Noroeste do Uije locuciona-se em Ucokwe ou língua aparentada. Na zona de fronteira imaginária entre dois grupos etnolinguísticos há sempre uma zona de transição que é, nada mais do que, a fusão de elementos lexicais dos dois grupos predominantes, sendo que essa "penumbra" se vai dissipando enquanto mais nos aproximarmos do núcleo de uma determinada língua.

Por isso, política é política. Entre os do Uije nem todos são bakongu!


Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta, 11.05.2017

segunda-feira, maio 15, 2017

UMA “CARTA” AO FUNCIONÁRIO PÚBLICO


Desde Frederick Taylor, considerado "o pai" da Administração Científica, que a ciência da administração e da gestão de pessoas no trabalho vem sofrendo uma evolução sem precedentes.

Para Taylor, a primazia recaía na tarefa. Homem-tarefa-ferramenta. Cada um procurava executar, com o máximo de destreza, a tarefa única que lhe era incumbida, chegando a executá-la de olhos fechados; a produção industrial ganhava corpo. Charles Chaplin satirizou essa época.
Henry Ford, fundador da Ford Motor Company, e o primeiro empresário a aplicar a montagem em série de forma a produzir em massa automóveis em menos tempo e a um menor custo, encarou o homem como ser pensante, social, com desejos e anseios. Teorizou que o homem devia ser o centro da atenção e não apenas a tarefa e a ferramenta de trabalho.

Já Max Webber,
considerado um dos fundadores do estudo sociológico moderno, foi mais além, afirmando: “O homem formado, capacitado, motivado e remunerado à medida do seu desempenho é factor de produção e criação de lucro que proporciona o crescimento das organizações e das sociedades”. Porém, que tal se os procedimentos para a execução da tarefa fossem descritos em uma pauta, de tal sorte que qualquer que venha contratado possa executar a mesma tarefa sem desperdício de tempo para a aprendizagem e sem margem para grandes erros na execução da actividade que estava acometida a uma outra pessoa? A pauta ou a sistematização de Webber constitui-se num avanço à ciência da administração.

Olhando para esse percurso histórico de mais de três séculos, notamos, entretanto, que todas as teorias não se anulam entre si. Antes, se complementam.

O pensamento moderno leva-nos a valorizar a equipa ou o grupo. Tanto mais que em muitas organizações fazem-se contratos de trabalho em grupo, criam-se organizações que velam pelo grupo, e mesmo na realização de tarefas a primazia vai para o trabalho colectivo, cujo resultado deve ser mais do que a soma de todas as partes (cada uma tem tarefas específicas, interage com outros integrantes da equipa, comparticipa noutras tarefas, sugere, etc.).

Mesmo assim, o foco na tarefa, de Taylor, não ficou ultrapassado, pois, nos dias que correm, escasseiam pessoas que executem tarefas no tempo certo, com o resultado ansiado e sem inundar o líder de exigências e questionamentos prévios.

Essa reflexão induz-nos a revisitar o livro de Elbert Hubbard “Uma carta para Garcia”, que é somente um dos cinco livros mais vendidos em todo o mundo:

“Estava-se em finais do século XIX, e desenvolvia-se a luta pela emancipação de Cuba. Os Estados Unidos estavam em guerra com a Espanha (potência colonizadora de Cuba). Garcia era o general cubano revoltoso contra Espanha, suposto aliado dos EUA que também guerreavam Espanha por uma outra causa. Com a Espanha sufocada, os EUA pretendiam encontrar Garcia que se encontrava incerto nas montanhas interiores da ilha. Que fazer? O Presidente dos EUA precisava de um emissário que levasse a carta a Garcia que se achava em sítio incógnito. O homem que lhe foi apresentado, simplesmente pegou a carta, a impermeou, pegou numa canoa e, onde não pôde navegar, meteu-se no sertão até encontrar Garcia”.
Quantos de nós ainda cumprem tarefas sem questionamentos e exigências prévias?
Homens assim, que “levam a carta ao Garcia”, são ou não imprescindíveis à organização?
“Uma carta para Garcia” é também a nossa sugestão complementar de leitura.
Escrito para e publicado pelo InfoGeoMinas, enquanto Dir do GRH
 
 

domingo, maio 07, 2017

O PRATO DO VELHO LUMINGU

(In: O gajo do pastor)

Naquela manhã abafada, no Bairro Kaputu, quando os galos ainda discutiam com o sol o direito de nascer, o pregador Kapitia bateu com a palma no púlpito e anunciou:

— Minhas irmãs, meus irmãos… hoje vou-vos contar a história de Wazedywa e do velho Lumingu. Isto não é invenção. Isto é vida a falar. É Cristo que manda informar!

O povo aproximou-se.
Kimone cruzou os braços como quem prepara tempestade.
O velho Kafejá e a velha Nvundi trocaram olhares cúmplices de riso escondido.
E no canto, abanando a Bíblia como se espantasse mosquitos espirituais, estava o Irmão Pirigo — pronto para meter opinião onde Deus não tinha pedido.

Kapitia levantou o dedo:

— O velho Lumingu já não tinha mão firme. Por força da idade, tremia como folha de mulemba ao vento. À mesa, caía prato, caía copo, caía talher… só não caía ele porque o Altíssimo o sustentava!

— Aleluia! — disparou o Irmão Pirigo, mais rápido que o pensamento.

Kapitia prosseguiu:

— Mas quem não sustentava era a nora dele, Kimone. Bastava o velho deixar cair uma colher, e ela já começava: “O meu enxoval está a desaparecer mais rápido que salário em casa de endividado!”

Aida soltou um “Amém!” mais alto que a própria convicção.
Kaxinda, recém evangelizada e dona do pão mais falado do bairro, comentou baixo:

— Essa mulher precisa de jejum de três dias…

Wazedywa, o filho, tentava equilibrar tudo. Ora comprava louça nova, ora respirava fundo pedindo paciência divina. Mas, levado pela pressão da esposa, começou a comprar pratos e copos de plástico. Até aceitou fazer pratos de madeira para o pai. Consentiu, e esse consentimento doeu mais que loiça partida.

O irmão Pirigo, sentindo oportunidade de parecer sábio, exclamou:

— Cada um come conforme o destino que plantou!

Kapitia olhou para ele com firmeza:

— Irmão Pirigo, deixa Cristo falar primeiro.

E continuou:

— O velho Lumingu nada dizia. Nem força tinha para reclamar. Comia devagar, bebia resignado… e só olhava para quem o entendia: o neto Mesu‑a‑Yadi.

Mesu‑a‑Yadi percebia tudo. A dureza de sua mãe Kimone, a hesitação do pai, a tristeza do avô.
Foi assim que encontrou consolo na madeira: primeiro fez brinquedos, depois colheres, depois pratos tão perfeitos que até o Kaxikana, bêbado de kaporroto, diria: “Isto é dom celestial!”

Um dia, o rapaz levantou-se resoluto.
Não tomou o pequeno-almoço.
Não respondeu ao chamado da mãe.
Nem parou na banca da Kaxinda.
Foi direto ao quintal. E martelou, talhou, lixou… como quem cumpre missão recebida em sonho.

Quando Wazedywa e Kimone foram ver o que ele tramava, encontraram-no cercado de talheres, pratos e copos de madeira, tudo tão bem trabalhado que parecia obra de artesão.

— Filho… para quê isso tudo? — perguntou Wazedywa, a voz trémula.

E Mesu‑a‑Yadi respondeu, sério como profeta:

— É para vocês. Para quando tiverem a idade do vovô. Quero adiantar, não vá eu já não ter mãos firmes nessa altura.

Kimone ficou sem voz.
Wazedywa sentiu o coração tremer.
E o irmão Pirigo abriu os braços:

— Estão a ver, meus irmãos? A colheita já começou!

A congregação murmurou um “amém” desconfiado, porque conselho vindo do irmão Pirigo sempre precisava de sal e discernimento.

O pregador continuou: queridos irmãos, naquela mesma tarde, Wazedywa e Kimone desfizeram-se da loiça de plástico e dos copos de bambu. Pediram perdão ao velho Lumingu. Devolveram-lhe o respeito, a dignidade e o lugar dele na mesa.
E o sorriso do velho, naquela noite, iluminou a casa como candeia nova.

Kapitia fechou a história, mas abriu o coração:

— Meus filhos na fé, aprendam o que a vida está a gritar aqui! Hoje é o velho Lumingu… amanhã seremos nós. Hoje é ele que treme… amanhã serão as vossas mãos a falhar. Não desprezem quem vos deu mundo, porque o mundo devolve tudo o que recebe.

Levantou a Bíblia:

— Está escrito, em Gálatas 6:7:
“Não vos enganeis: Deus não se deixa escarnecer. Tudo o que o homem semear, isso mesmo colherá.”

E acrescentou, com voz firme:

— Jovens, escutem: quem planta desprezo pelos seus pais, aos olhos dos seus filhos, colherá o mesmo desprezo na sua velhice.
Quem trata o seu velho com desonra, está a ensinar o futuro a desonrá-lo também.
Mas quem cuida… quem ama… quem respeita… esse semeia descanso para a própria velhice.

Olhou para o rebanho e concluiu:

— Lembrem-se: acolher os nossos velhos é acolher Cristo.
Que cada um aqui plante honra, para colher misericórdia.
Plante cuidado, para colher companhia.
Plante amor, para colher paz na última estação da vida.

Ergueu a mão e finalizou:

— Que Deus abençoe a Sua Palavra!

segunda-feira, maio 01, 2017

MEMÓRIAS DE REPÓRTER

1998
A transportadora aérea nacional reiniciou os seus voos civis para a cidade do Kuito, capital do Bié, depois de um longo cerco e combates rua a rua, homem-a-homem, cidade dividida. Foi depois das eleições de 1992.
 
Do aeroporto à cidade, que eu visitava pela primeira vez, tudo parecia fantasmagórico. Casas todas estropiadas, tropas em todo o lado. Civis também andando e vivendo como militares. Crianças rotas, quase nuas... O PAM (Programa Alimentar Mundial, Órgãos da ONU) parecia ser uma planta divina, comparada ao maná dos tempos de Moisés, no Ermo. Dele "brotavam" o milho, o feijão, a soja e demais mantimentos. Os voos do PAM eram regulares, mas tinham de fazer-se aos céus do Kuito em sistema espiral (várias voltas num raio apertado até atingir a altitude necessária), a aterragem era feita no mesmo sistema. Os ares estavam, até aí vetados aos voos comerciais.
 
- Ó puto, donde provêm o milho? - Questionei, esperando ouvir "do milheiro". Ledo engano. A resposta do garoto, oito anos, mais ou menos, saiu "é no PAME, mano", guardei o sorriso.
 
"Aqui, as forças armadas defendem o povo e o povo se autodefende", fomos informados à chegada no aeroporto por um chefe militar, seguido da questão "quem sabe disparar?", ao que alguns dos jornalistas que foram "cobrir" aquele reinício responderam afirmativo. Eu estava entre os que sabiam premir o gatilho e desmontar a culatra de uma kalashenikov.
 
Postos na cidade, alojados nos anexos da casa do Governador, de onde também era emitida a famigerada "Rádio Kambulukutu" (assim designada porque se diz que o sinal chegava apenas ao bairro Kambulukutu), diviso um clima horrível: canteiros separadores das vias transformados em campas e ao mesmo tempo lavras. Cacimbas que davam água serviam de túmulos. Faltava quase tudo. E o pior, o avião não pôde voltar à procedência, pois tinha registado uma avaria. Como a guerrilha estava a pouca distância, não se podia informar na comunicação social que o aparelho estava na pista, sob risco de bombardearem o aeroporto. E ficamos três dias no Kuito.
 
No dia de regresso, foi quase festa. Sobretudo, quando a cidade já se via "bonequinhos lá em baixo". Só alegria. Quando voltei ao Kuito, em 2004, já decorria o PERMK (Programa Especial de Reabilitação Mínima do Kuito) dando outra alegria às edificações ao longo das ruas principais. O cemitério monumento já era realidade.
Nota: texto publicado pelo semanário Nova Gazeta a 09.03.2017

sábado, abril 29, 2017

SOBA KEXIKO E CA FINA

OU
A IMPORTÂNCIA DO DOMÍNIO DAS LINGUAS LOCAIS NO TRABALHO COMUNITÁRIO
Conta-se que um governante enviado ao planalto central para governar Wambu Kalunga decidiu levar a sua secretária, jovem esbelta e fina no falar e atender. Fineza trabalhava com o chefe havia anos e era tida como "filha do Senhor Governador",  encarregada também de resolver determinados assuntos "protocolares, diplomáticos, familiares  e particulares". Foi numa dessas "missões especiais e de elevada confiança" que Fineza foi enviada a uma aldeia entre Wambu Kalunga e Kahala para levar uma encomenda a uma diaconisas que era fazedora de opinião na comunidade religiosa, sendo muito prestigiada e respeitada.
O governador, neófito na província, mas com um estilo de governação dialogante e cooperante, procurava aproximação aos líderes comunitários e transmitir-lhes o seu plano de governação.
Chegada ao local, Fineza, com toda a finúria declarou: 
- Sua excelência, Senhor Governador, mandou-me entregar essa encomenda e essa carta que contém também um contacto telefónico. A diaconisas que se encontrava em rezas, agradeceu e finalizou com uma interjeição em Umbundu, ca fina! (Que bom!)
Chegada junto do chefe, Fineza, que nunca quis aprender línguas africanas, explicou que havia sido recebida pela "tia Fina" (tcha fina) que ligaria ao governador no final do serviço religioso.
O governador que era nativo percebeu a calinada e pensou em um outro exercício que levasse a sua secretária a descobrir e agregar à sua a beleza a beleza das nossas línguas.
A leste da província estava uma pequena comunidade tucokwe (tutchocue) entre povos ovimbundu que resistia à assimilação progressiva. O governador mandou Fineza levar uma missiva, informando que só ao soba daquela comunidade devia ser entregue.
- Bom dia mamã! - Saudou Fineza.
- Menekenu yaya. Yeswe tuli kanawa. Kuci yena?! (Bom dia irmã. Nós estamos bem. E vós?!). - Respondeu a mulher do soba que entendia português, mas é costume não responder em língua não local (Ucokwe ou Umbundu).
- Gostaria de falar com o soba.  - Solicitou Fineza, a secretária do governador.
- Soba kexiko (o soba não está).
Eventualmente, os gestos terão levado  Fineza a depreender que o régulo se encontrava ausente, não podendo avançar com a diligência. Porém, mais uma vez, o desconhecimento da língua fê-la transmitir ao chefe que não tinha encontrado o "soba ti Chico" (soba kexiko).
O governante teve de arranjar cursos de línguas africanas faladas na região, sendo hoje Fineza uma jovem cada vez mais fina no tratamento aos mais-velhos que procuram por serviços do Governador.

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta
 
 

sábado, abril 22, 2017

CHORANDO POR ALGO ALHEIO


Conheci Panguila no início da primeira década do séc. XXI.

Primeiro, foi para alimentar a curiosidade de conhecer o famigerado Kifangondo, onde "os mercenários zairenses e outros tantos angolanos que pretendiam impedir a proclamação da independência, pelo MPLA, a 11.11.1975, foram travados". Depois, foram as "cacussadas" que o meu amigo AML me proporcionava de vez em quando, e ainda idas à CAOP para ver os pais do meu compadre Martins.

O momento mais marcante dessas idas a Cacuaco, Kifangondo, CAOP e Panguila foi quando a UNITA ATACOU Caxito. Eu tinha acabado de receber o telefone "Repórter LAC". Xê, só banga?! Não vale a pena!! Acabei fazendo um directo e exclusivo para o noticiário das 12 e 30. Parece que uns tinham receio de informar o sucedido para não amedrontar o povo de Luanda. As pessoas chegavam ao Panguila exaustas, sem saber dos seus familiares e haveres. O clima era de medo e preocupação. Falei com alguns deles. A má-nova não tinha ainda sido veiculada na emissora pública. Liguei ao Director de Informação, "Zé Roda", e fiz o directo. Foi um "show". Às vezes, "a inocência do repórter e a ousadia do chefe" resultam em bons trabalhos. Fomos os primeiros a informar Luanda e arredores daquele bárbaro ataque.

Nos últimos 15 anos, visitei o Panguila (aldeia) só mais duas ou três vezes: o bairro em construção, onde esperava por uma mão caridosa e um tecto (enquanto não tive casa, qualquer servia) e visita a um casal amigo que lá mora.

Em abono da verdade, nunca tinha adentrado o bairro. Nunca fui às zonas mais profunda daquela "urbanidade"(?!), como o Sector Sete (de baixo e de cima), Sector Oito, entre outros mais distantes da estrada Cacuaco-Caxito.

Se o mercado que acolhe os vendedores do antigo mercado Roque Santeiro é um encanto, o mesmo não se pode afirmar, com todas as letras, quanto ao bairro interior. Algumas casas a despencar por causa da erosão da argila, traçados para ruas repletos de capim, lodo e buracos se revezando aí onde se circula, etc.

Acho que o Panguila é uma "urbanidade" muito nova para ficar do jeito em que os meus olhos o enxergaram. É também muito próximo de Luanda e não devia se transformar numa aldeia rural (que pode vir a ser, caso aquele estado se mantenha progressivo).

Texto publicado no Semanário Nova Gazeta.

sábado, abril 15, 2017

PENSANDO EM PESSOAS E ORGANIZAÇÕES

Por que perdem as organizações os clientes e a estima?
Um estudo realizado por uma agência brasileira que estuda o comportamento organizacional aponta que 65% (sessenta e cinco por cento) das causas da perda de clientes por parte das organizações é por indeiferença de quem os atende.
Um cliente pode ser também entendido como um utente de serviços prestados por entes privados e ou públicos, como é o nosso caso. As pessoas internas ou externas que se dirigem aos nossos serviços são utentes ou, na perspectiva mais lata, nossos clientes.
A perda do utente/cliente ou a perda da consideração, respeito e estima que o mesmo tinha por nossa organização e por nossa pessoa é um aspecto a ter em conta quando se analisa o comportamento organizacional, onde as acções e atitudes do Capital Humano são fundamentais. Afinal, o Homem é a razão do sucesso e insucesso das organizações.
Reflita um pouco.
Você faz o máximo para manter o cliente/utente e a estima que esse tem sobre a sua organização e sobre você no seu local de trabalho?
Os culpados pelos nossos insucessos, bastantes vezes, somos nós mesmos. Se o seu utente ainda não é tratado como a peça fundamental do seu sucesso e do sucesso da sua organização, dê mais atenção a quem procura por si e pelo seu trabalho. Explique mais. Seja simpático e crie empatia.
Às vezes, ele(a) só precisa de uma boa atenção ou explicação!
Comece a tentar hoje mesmo. Você verá que o seu dia melhora e a reputação da sua Organização ou Direcção também. Até você passa a ser estimado(a) como nunca.
 

sábado, abril 08, 2017

FIM DE MISSÃO


Já lá vão três anos que Mangodinho teve a arriscada ideia de construir instalações para o que pode vir a ser o Posto Médico da aldeia. Como homem avisado, cuidou também de mandar à Huíla miúdo Russo e Sembe, jovens da aldeia que não hesitaram em aproveitar a oportunidade de crescer na vida e ajudar o povo. Aliás foi mesmo esse o discurso de Mangodinho quando os abordou.

- Miúdo Russo, como vês, aqui as pessoas morrer é tipo cabrito. Não há enfermeiro nem Posto. Não queres estudar saúde? Já falei com o meu pai que foi trabalhar no Lubango e ele pode ajudar. Pelo menos cresces na vida e ajudas o povo.

miúdo Russo, miúdo de visão, não hesitou.

- Obrigado Tigodinho. Muito obrigado. Vou já avisar a mãe. É mesmo avisar.

Mangodinho falou também com Sembe sobre o assunto e nos mesmos termos. Sembe, miúdo crescido e já um pouco viajado, viu naquela proposta a vez da sua vida.

- Já aceitei, tio. Não precisa só se dar massada de explicar. Não aproveitar é ser burro e continuar na lavra e nos alambiques. - Concluiu Sembe, fazendo-se à casa para avisar os familiares.

Já não era boato. Era certeza. O chefe Sabalo, tio de Mangodinho que foi ao Lubango trabalhar na ordem e segurança, cuidou de os inscrever na Escola Técnica e instalar no internato de Tchivinguoro. Vezes tantas levou apoio moral e material para suprir carências de visita e de quem vive de braços estendidos.

Mangodinho, hoje distinto daquele que aportou à Ngwimbi em situação de óbito, é homem diferente, iluminado.

Com as instalações erguidas e os dois técnicos formados, mesmo que venham a ser pagos apenas pela comunidade, só restará pedir à administração os equipamentos e medicamentos. Mangodinho é, ao que diria Salas Neto, "um filósofo de bairro" ou um "mago no escuro da aldeia rural". Ele foi felicita-los pelo empenho e leva-los de volta à Pedra Escrita.

- Epá! Ti Godinho e chefe Ti Sabalo! Muito gosto. Obrigado por nos darem o estudo e virem nos visitar. - Soltaram em coro miúdo Russo e Sembe.

- Nós é que agradecemos o vosso espírito de entrega é de sacrifício. Sabia que a vossa vida aqui, longe da família, não seria fácil mas confiei também na vossa resiliência, enquanto jovens comprometidos com o bem-estar da população. - Agradeceu Mangodinho.

- Tio, só o começo é que foi duro, explicou miúdo Russo a desembrulhar os certificados, mas o resto foi fácil, porque o chefe tio Sabalo estava sempre aqui ou íamos com ele à cidade comer e beber.

Cumprido o protocolo junto da direcção do lar de estudantes, fizeram as imbambas e rumaram à cidade onde fariam a compra de algumas lembranças. Tchivingiro fica para a história. Dentro de uma semana, será a aldeia de Pedra Escrita a construir outras páginas em suas vidas.

Pacientes: feridos, encolerados, doentes de pele, crianças de barrigas fartas, todos pacientes. Eles também pacientes. Aguardavam-se uns aos outros.

A notícia da formação dos dois enfermeiros gerais tinha chegado cedo à sede do

município. Camas, medicamentos e lençóis chegaram 24 antes e, no dia do desembarque dos dois "kimbandas", o administrador já os esperava para as boas-vindas, apresentar o material de trabalho, as guias de colocação e abrir o Posto.

Mangodinho aproveitou pedir ao Cda administrador comunal para deixar a função de coordenador do bairro e se dedicar exclusivamente ao Partido. Afinal, era ano eleitoral.

Texto publicado no Caderno Fim-de-semana do Jornal de Angola, 10/12/2017
 

sábado, abril 01, 2017

ALMOÇO DE NATAL

(Mangodinho)
Como excelente homem de caça, com muitos cães, armadilhas e boa pontaria na hora de levar o dedo ao gatilho da caçadeira ou da flecha, Mangodinho é apreciador de carne, mas a seca ou defumada fazem melhor o seu engodo.

Natal e ano novo chegaram. No mato é tempo de chuva, capim já alto com as presas distantes do olhar humano. Mangodinho e sua kalumba decidiram ir ao Lubango, visitar os tios e fazer-lhes companhia, num ano em que não havia motivação para festim. Os rapazes que foram cursar enfermagem ara a atender o  Posto da aldeia também avisaram em carta que enviaram no meio de Dezembro:

- Ti-Godinho, no começo do ano, vai nos buscar porque vamos já terminar a formação. O tio que nos ajudou, não dá para toda hora lhe pedir isso e aquilo. O tio, se puder, vem e , com ele, cuidam já de nos levar e tudo.

Até Luanda Mangodinho e a mulher foram de autocarro mas da capital às terras altas de Chela foram transportados num jeep V8 do chefe Sabalo. O motorista estava em Luanda e aproveitaram a boleia.

Pelo caminho, Kilombo, a kazola de Mangodinho, primeira viagem longa de sua vida, só espanto. Era capim, árvores, montanhas e tudo a correr para traz, enquanto as travagens tanto faziam-lhe vertigens quanto aproveitava dar uns bicos ao banco de frente, como se injectando a travagem.

Chegaram 18 horas, quando o sol já envergonhado, se escondia de trás da cordilheira. Casa vasta e arejada. Kilombo, boca aberta de convidar moscas. Pena ou sorte, não havia insectos na vivenda unifamiliar de portas e janelas enredadas.

No dia seguinte, domingo, dia de família, Mangodinho e Kilombo estavam sós. À volta, só aquele casão e as árvores a dançarem com o vento, parecendo que se iam partir, mas sempre flexíveis e a deixá-lo passar. As empregadas haviam sido dispensadas.

- Não precisam vir amanhã, nem façam turno. Aqui não haverá festa e vocês podem conviver todas, cada uma com sua família. - Ordenou Ita, a dona de casa. Kilombo só na contemplação e Mangodinho quase se instalou na adega. Desde aquele episódio do "dia da janta" que já não bebia vinho como água. Maneirava gestos delicados ao servir e entornar a água tinturada ao estômago carente.

- Vamos levar umas ofertas ao lar dos órfãos e visitar os dois meninos que estão a fazer enfermagem no lar de estudantes. Comam o que quiserem que nós comeremos pelo caminho ou algo rápido à chegada. Disse Sabalo, o tio, a despedir-se do casal.

Mangodinho na cave. Vinho pedia petisco. Já tinha provado o cheiro e sabor de presunto que se achava pendurado na cozinha. Cortou pedaços e levou consigo. Kilombo pensou em fazer almoço. Embora a arca estivesse a cuspir carnes e peixe para fora, técnica de descongelar e temperar não tinha ainda. No mato ou se come fresco ou seco. O .rio termo é somente o defumado. Assim como se apresentava aquela perna de porco, curada e já sem banha. Pensou na satisfação de seu marido ver à mesa carne seca de porco sarado, molho ajindungado de tomate e funji de bombó.

- O homem, com os vinho dele na cabeça, vai me gostar ainda mais e até vai andar me convidar nas reuniões do comissariado e nas visitas ao pai. - Pensou Kilombo.

O fogão cantava contente e o lume chiava. A panela brilhava e o molho corava. Presunto duro, duro como porco que resiste à morte. Mangodinho até gostou e lambeu os beiços. Meio sério, meio alcoolizado, ligou o leitor de DC e acompanhou Robertinho no"amor canarinho", improvisando uma serenata à Kilombo. 

Ita, Vanito e Sabalo entraram sem se fazerem denunciar. Não foi a pé de galo, não. A música que Godinho ouvia e acompanhava para agradecer o repasto servido por Kilombo é que estava mesmo alta.

- Ó Zequeno (assim é também tratado no seio familiar)?! - Chamou o tio.

- Pai!

- Para petiscar, precisavas levar a perna de presunto ao meio?

- Não, pai. Comi um pouco de carne crua com aquele vinho que me indicou e a sua nora cozinhou também outro bocado para o almoço.

 Ita, Vanito e Sabalo quase morreram de risos ao saber qual tinha sido o "gostoso pitéu" de Mangodinho naquela tarde de natal.

- Funji com presunto refogado em molho ajindungado de tomate?!


Publicado pelo Jornal de Angola de 15.01.2023

segunda-feira, março 27, 2017

O CARNAVAL NO RANGEL E A HOMENAGEM A MAN-BRÁS


— Mamá, atuzemba… Atuzemba, atuzembel’anyi?!
A voz do miúdo corta a manhã quente, misturada ao cheiro de poeira molhada e fritura de rua.
— Calma, meu filho, responde a mãe, sem parar de varrer. Eles gostam, só não sabem dizer…
No Rangel, o carnaval nunca foi só desfile. Era vida. Era rua. Era gente.
— Quando vai lá, dizem que Atuzemba é do povo… quando vem aqui, já é de todos, resmunga o mais velho, encostado à parede descascada da casa.
— Eh pá, isso é política de batuque, ri outro, batendo numa lata vazia.
O refrão ecoa como sempre ecoou. Décadas depois, ainda pulsa. O grupo Atuzemba não precisa de palco — precisa de chão. E chão é coisa que o Rangel sempre deu.
— Mas ouviste? Dizem que agora o carnaval é lá na Marginal…
— Naquela nova?
— Sim, com luz, tribuna e gente engravatada e polícia para parar ngadyama.
— Então não é o nosso carnaval, responde seco o homem da camisa aberta. O nosso é aqui, com poeira e suor.
E de repente, como se o tempo abrisse passagem, alguém puxa pela memória:
— Lembras do Man-Brás?
Silêncio. Depois, risos soltos.
— Man-Bragéé-é! Man-Bragéé-é! — entoam dois miúdos, sem nunca o terem visto.
Man-Brás não desfilava. Ele acontecia.
Surgia do nada, vindo da Rua Pernambuco, junto à Praça Nova, tambor debaixo do braço, olhar perdido e corpo entregue ao ritmo. Batia na ngoma como quem conversava com os espíritos da cidade.
— Eh, Man-Brás, toca aí! — gritava uma quitandeira na Praça das Corridas.
Ele não respondia. Tocava.
A Praça das Corridas fervilhava. Peixeiras, zungueiras, crianças descalças — tudo parava para ver.
— Há uma gordurinha? — perguntava no fim, com um sorriso torto.
E havia sempre. Um pedaço aqui, outro ali. O suficiente.
— Mamã, vou só ver o Man-Brás!
— Não vais nada! Ficas aqui!
Tarde demais. O miúdo já corria atrás do batuque.
— Nanyi wa ngi bongela kamona ka dyal’ê?! — gritava depois uma mãe aflita pela rua.
Man-Brás levava crianças como o rio leva folhas: sem pedir licença.
— Esse homem é doido…
— Doido nada, corrige o outro. Ele é carnaval puro.
No Rangel, ninguém lhe faltava ao respeito. Podia não ter casa certa na cabeça, mas tinha lugar garantido no coração do bairro.
— Hoje o carnaval tem patrocínio, comenta alguém.
— Tem dinheiro, mas não tem alma, responde outro.
Em 2014, o União Sagrada Esperança do Rangel levou a coroa. E bem. Trouxe o orgulho de volta ao bairro.
Mas ali, na sombra de uma mangueira antiga, alguém insiste:
— E o Man-Brás? Já fizeram homenagem?
— Homenagem? — ri-se um jovem. Hoje só homenageiam quem aparece na televisão.
O velho abana a cabeça.
— Errado. O carnaval começou com gente como ele. Sem palco, sem dinheiro, sem convite.
O batuque parece voltar, imaginário, mas vivo.
Tum… tum… tum…
— Man-Bragéé-é… — murmura alguém, quase em reza.
Na Luanda moderna, de avenidas largas e desfiles coreografados, há nomes que ficaram para trás. Mas não deviam.
Man-Brás não pediu estátua. Nem desfile. Nem medalha.
Só pediu uma “gordurinha”.
E, ainda assim, deu tudo.
— Sabes o que falta? — pergunta o mais novo.
— O quê?
— Memória.
O outro sorri, devagar:
— Então escreve isso… antes que o batuque se cale de vez.

quarta-feira, março 22, 2017

CONFUSOS E PROFUSOS

Dias inteiros sem energia eléctrica e duas tardes de chuva, em Luanda, foram bastantes para que o ambiente ficasse profuso e as ideias confusas. Entre chuva e estiagem, afina de contas, o que mais nos vale?

Estudei o ciclo da água na terra estudei-o na quinta classe dos anos oitenta do século passado, é mesmo cíclico: água nos rios, mares, lagos e lagoas; evaporação; acumulação de nuvens carregadas de partículas combinadas de hidrogênio e oxigênio; precipitação. E a roda continua a girar. Anos com maior e anos com intensidade. Em Luanda é igualmente assim. O ano de 2016 foi de intensa pluviosidade, trazendo o famigerado "caso Coelho" que este ano se vai, com certeza, aguentar, pois apenas agora a chuva nos visita com "alguma fúria”.

Mesmo sendo filho de camponeses, que por pouco nascia numa fazenda cafeícola familiar, vezes há em que defendo a estiagem para Luanda. Para quem vive os problemas infraestruturais da capital, bastaria chover intensamente no médio Kwanza e ai onde se faz agricultura de sequeiro. Luanda precisa é de água nos rios que a abastecem e de energia que "tudo move".

Apesar do esforço dos últimos tempos em se diminuir ou mitigar o impacto das quedas pluviais nos bairros da capital, são ainda incomensuráveis os efeitos perniciosos sempre que "São Pedro abre as comportas": estradas que deixam de cumprir a sua missão, viaturas e casas soterradas, quando não arrastadas pela corrente e deixando coros profusos de "ais"...
Passei por um grupo de homens e mulheres, à beira da Avenida Deolinda Rodrigues, que clamavam por mais chuva. Não que estivessem satisfeitos pela descarga do dia anterior e outra que se fazia anunciar. Era por que estavam sem como chegar ao local de prestação de trabalho e pior, descrentes em como conseguiriam voltar a casa, a tempo de apanhar os filhos nos centros de ensino.
Afinal de contas, entre chuva e estiagem, o que mais nos vale?
É obvio que essa escolha se torna impossível aos humanos. Só ao ciclo de água na terra e sua sazonalidade diz respeito. Mas continuo a pedir, sempre que falo com o altíssimo, que nos dê tantas bênçãos como chuva em Kangandala, porém menos chuva em Luanda.

Nota: Texto publicado pelo semanário Nova Gazeta a 29.03.2017. 

quarta-feira, março 15, 2017

DESANUVIANDO NO KM 32

"O mar é bom. Tira stress, cura sarna, mata piolhos e muito mais. Mas também dá más notícias. Quando não une famílias pelo convívio as separa do convívio" (in Mangodinho).
 
Conheço e frequento as praias atlânticas, junto a costa de Luanda desde 1984. Naquele tempo, todas as instâncias balneares  eram públicas. Bastavam umas moedas para o autocarro 33, 43 ou 45 e chegava-se ao largo da Amizade (Baleizão), caminhando depois para a Chicala ou mesmo adentrando a Ilha do Cabo.
 
Com o andar do tempo, o crescer do cimento privado sobre a costa fez com que só quem tenha dinheiro para desfrutar do luxo alheio possa frequentar as praias do istmo luandense. E, assim começaram as viagens ao sul: Corimba, Morro dos Veados, Museu da Escravatura, Km 27, Km 32, Ramiro, Foz do Kwanza, sempre a descer.

A maka dessa prosa tem a ver com as cobranças que uma dita Comissão de Bairro faz aos banhistas que se fazem transportar em viaturas para aceder à praia do Km 32. O cidadão encontra uma corda esticada, na altura de um metro, atravessando a picada. É preciso desembolsar Kz 200,00, ao que se diz, para limpar a praia que tem mais lixo do que limpeza.
São se discutiria a pertinência da ideia se as praias fossem limpas. Seria uma forma de ajudar a edilidade. Sobretudo, se esse dinheiro fosse devidamente controlado e depositado em erário de onde sairia para ajudar quem administra a fazê-lo melhor.

A questão é que as fichas de cobrança atestam uma "contribuição mínima de kz 200" e as mesmas não se acham numeradas para permitir um maior controlo. Outra suspeição que se levanta vem do facto de os talões serem passados pela "Comissão de Moradores" e não por um órgão da administração legalmente mandatada para o efeito.

Não haverá aí um "ChicoEsperto" querendo colher onde nunca semeou? E que tal se esse dinheiro, bom nos tempos que correm, fosse atender o que falta às nossas praias (higiene e segurança), mas passando por uma regulamentação e sendo cobrado pela administração tributária ou outro órgão afim? Por que não é canalizado para a CUT (Conta Única do Tesouro) e dá sair a percentagem devida à administração local?

Não sendo a praia do Km 32 distante de Luanda, quem tiver dúvidas pode ir ver e aproveitar fazer um banho de água salgada que a água está quente e convidativo. Mas deve levar um saco para acondicionar os descartados!

Obs: publicado pelo Jornal Nova Gazeta

terça-feira, março 14, 2017

PENSANDO IMAGEM INSTITUCIONAL

Nenhum dinheiro particular,
Nem a soma de tod'os ordenados é mais importante do que a imagem da Organização.
Pense nisso.
SC

Esta mensagem aqui colocada, não obteve nenhum comentário até 17.03.2017. Porém, quando enviada, via whatsup, a duzentas e cinquenta pessoas, entre eles jornalistas, juristas, gestores públicos, gestores empresariais de topo e média escala, produziu diversas reações, dentre elas:
 
a) Entendimento e concordância e agradecimento pela reflexão (a maioria eram gestores de empresas e de comunicação institucional);
b) Desconhecimento e desenquadramento (resultando em questões como: qual organização, que ordenados, de quem te referes, etc. Alguns até eram formados em comunicação social);
c) Incómodo e azedume (pessoas há, entre os gestores públicos de topo e intermédios de empresas, que ligaram para mim, procurando por esclarecimentos, demonstrando estar ofendidos).
 
Aqui chegados, só podemos concluir que:
Ou temos de difundir cada vez mais a necessidade de todos os gestores (de alguma coisa) e funcionários em geral conhecerem o VALOR DA IMAGEM DAS ORGANIZAÕES,  a começar pelas famílias, ou há gestores que se assustam por nada, demonstrando ter alguma fraqueza pelo alheio.
   

quarta-feira, março 08, 2017

PESQUIZANDO NAS MARGENS DO RIO

Conta a lenda: duas manas, Kimone e Samba, saídas das terras banhadas pelas águas do Lukala e Kwanza, lá pelas bandas de Kakulu nyi Kabasa, decidiram distanciar-se e constituírem seus “reinos”. Kimone correu em direcção à rota do Sol e fixou-se no médio Kwanza. Samba foi para sul, percorrendo a rota oposta à trajectória do sol, e encontrou terras vastas com vegetação farta que indiciavam ser de elevada fertilidade. Encontrou também sossego entre o Longa e Nyiha. Fazendo-se ao centro daquele território de água e caça abundantes, fixou nele a sua morada.

Com o correr do tempo, a saudade, quer de uma quer de outra, foi aumentando, chegando quase à exaustão. Recadistas não havia e aqueles que transmitiam “mensagens de ouvir contar” também rareavam. A travessia dos rios, em tempo chuvoso, era penosa. Kimone, a irmã mais velha, possuída de saudade, fez-se ao sertão, à procura da irmã. Terá sido em tempo de queimadas, normalmente entre Agosto e Outubro. Viam-se as planuras, as montanhas, os contornos dos rios, e os animais ferozes estavam distantes de terrenos lavrados pelo fogo.

Quando se achavam próximos da aldeia fundada pela irmã, Kimone mandou um emissário confirmar se o povoado à vista era o de Samba, ao que ergueu uma tenda onde aguardou pela resposta que veio afirmativa.

Samba, o emissário de Kimone e mais uns tantos aldeões saíram carregados de presentes e ali mesmo, onde Samba mandara erguer uma tenda para descansar e aguardar pela confirmação, se fez uma grande festa de recepção.

Para levar à posteridade aquele momento ímpar, no local foi construída uma casota que evoluiu até se constituir em aldeia, ganhando o nome da irmã visitante.

Kimone permaneceu na aldeia fundada pela irmã mais nova algum tempo. Dizem mesmo que foi quase um ano, nova época de queimadas, até afogar a saudade.

De regresso à casa, quando perguntada sobre "onde estivera todo aquele tempo", ela simplesmente respondeu:

- Ngwe(nde)le kumona ipala kya Samba (fui ver o rosto de Samba).

A terra conquistada por Samba ficou conhecida, até hoje, por Kipala-kya-Samba (Kibala). No local onde Kimone descansara surgiu uma aldeia registada com o seu nome. Antes da vila da Kibala (Quibala) está a aldeia de Kimone que possui um templo da Igreja Metodista Unida em Angola, baptizado por Boa Esperança-Kimone.

NB: Texto recriado. Publicado pelo semanário Nova Gazeta.

quarta-feira, março 01, 2017

A REVOLUÇÃO NA ALDEIA

- Ndjuce, Sami, Russo, Katambi! Acordem, rapazes. Acordem.

Mangodinho, cinco e meia, parecia louco na aldeia. Enxada na mão, picareta no ombro, o homem estava decidido.

- Temos de evoluir. Luanda é linda, mas toda aquela boniteza é por causa da nossa burreza. Nós vamos lá, estranhamos. Em vez de fazer também aqui, não! Ficamos só assim na saudade, juntar macroeira e voltar a Luanda. Nossos filhos que estamos a fazer aqui para ficarem espertos têm também de ir à capital? Vamos trabalhar.

Os rapazes, aqueles convocados em primeira instância e outros que se juntaram ao chamamento, fizeram uma roda em torno de Mangodinho.

- Estão a ver essa lagoa no quintal do meu pai? - Exibiu a foto. - Nos também aqui podemos ter. Lá a água sai de um tanque, tem máquina que a manda à lagoa e sai. Se parece lagoa de um rio. Nós aqui vamos fazer directamente no rio.

- Fazer lagoa que não é de Deus no rio, Tizequeno? - Kabari, dúvida era como água do rio em tempo de chuva.

- Deixa ainda o tio falar e vamos sentar para ver o que dá para fazer. Ajudou o Russo, rapaz esperto que também conhece cidade. Tinha ido duas vezes a Tabela e Waku Kungu. Russo já era visto como um rapaz de visão. A casa dele é a única que se apresenta rebocada, dentro e fora,  e com janelas de vidro, mesmo sendo feitas de adobos. As pessoa que passam e até se perguntam: essa casa, no meio da aldeia, não é desperdício? Mas não é, não. As pessoas da Ngwimbi com casa tipo estão no mato, essas é que deviam voltar e o miúdo Russo ficar no lugar deles na cidade.

Pois é. Mangodinho continuou a explicar aos jovens:

- Vejam só. A pessoa vai ao rio tomar banho, nesse tempo, água que passa é bocado. Não estou a falar do rio grande, o Longa. Estou a falar desse karriacho aqui. - Apontava. - Se pegarmos enxadas, pás, picaretas, kangulos, etc., podemos abrir, tipo um tanque. De lado, vamos pôr tijolos com cimento. A água fica com um sítio de entrar e sitio para sair. Não acham que fica mais melhor?

- Fica tio. Afinal o Tizequeno viu boas coisas na capital. Eu também já vi coisa igual na televisão. - Disse Kabari.

- Eu, no Amboim, também já tomei banho nesses tanques que o tio mostrou na foto e que chamam "peixina". - Complementou o Russo.

- Mas, tio, se construirmos ao lado do rio, não no próprio rio a descer. Se construirmos de lado, dez metros fora, se metermos um tubo que faz a água entrar e outro que faz a água sair não fica mais melhor? - Perguntou Sami.

- É. Miúdo Sami. Afinal teu juízo não é de gafanhoto. Fica melhor, porque quando o rio estiver cheio, com a chuva, não vai arrastar a nossa piscina. - Já viram que vocês todos estão a evoluir? Vamos fazer a nossa lagoa de banhos, dez metros fora do rio Kisela. - Orientou Mangodinho.

Os rapazes já se preparavam para completar o material de construção. Era sábado, dia de trabalhos comunitários. Mas, Mangodinho entendeu expor outra ideia.

- Ó miúdos, esperem ainda. Nessa ideia já se entendemos. Falta só uma. Chamem o secretário do bairro para fazer uma carta bem escrita ao administrador comunal. A minha segunda ideia é ele mandar vir cá dois professores: um é para nós os mais velhos termos aulas de alfabetização. as aulas serão aos sábados e domingos naquela  capela da Igreja "Cheia". O outro professor é para as crianças. Vamos ajudar a construir a escola. Minha ideia é que cada pai ou irmão mais velho  vai fazer cinquenta adobes. Eu vou contribuir com as dez chapas de zinco que sobraram da cobertura da minha casa.

Katambi estava na zuna em direcção à casa do secretário. Era ele quem levava os assuntos da aldeia ao administrador comunal, já que a comunidade estava sem soba. No jango das conversas, o debate continuava. Ao grupo se tinham juntado outros jovens e adolescentes. As mulheres afinavam os ouvidos para se aperceber do que os homens estavam a tratar, mas não eram para lá chamadas, contentando-se com o que o vento arrastava e lhes chegava.

- E onde vão dormir os professores que o camarada comissário vai enviar, ó Tizequeno? - Indagou Kime que acabara de chegar.

- Olhem rapazes. A união faz a for... a força! Vamos construir um quarto e uma cozinha em anexo para eles. E, como todos nós somos camponeses, podemos fazer uma escala para darmos mandioca, jinguba, kizaca, rama de batata, fuba, mengeleka e outros comidas para que não passem fome, até que eles consigam ter as suas próprias lavras.

- Boa ideia, Mangodinho. – Comemoraram, antes mesmo de chegar o secretário a quem passaram todas as ideias.  

terça-feira, fevereiro 28, 2017

A COMUNICAÇÃO COMO POTENCIADOR DA MOTIVAÇÃO

 Numa dada comunidade, viviam três famílias: uma Rica, uma Média e outra Pobre. Cada família tinha um filho e esses eram amigos. Mané, Dodó e Jojó, apesar de diferenças económicas viviam no mesmo bairro e frequentavam espaços e brincadeiras comuns.
A família rica abastecia, conforme as suas enormes possibilidades, o seu filho único e explicava o fazia para ter os bens e o dinheiro de que dispunham, ensinando ao filho como proceder para duplicar e triplicar os haveres. Fruto dessa comunicação permanente, o Jojó conhecia as rotinas e esforço empreendido pelos pais para ter o que usufruía.
Por seu turno, Dodó, nascido em família pobre a pobre, não passava do bombo com jinguba ao matabicho. Mesmo assim, os pais de Dodó explicavam as desgraças por que haviam passado, o esforço que faziam para viver e se recompor, enfatizando também quanto ganhavam e o que pretendiam para o futuro do filho. Dodó, pobre, ouvia, acatava e compreendia. Sabia que tinha menos do que Jojó, cujos pais eram abastados. Tinha consciência de que apesar de ter um amigo resmungão, também tinha menos que Mané, o filho do comerciante Manuel Silêncio, que vivia permanentemente a reclamar dos pais.
Manuel Silêncio era um comerciante com posses médias. Talvez por causa do tempo que não tinha ou por ser sua natureza, poucas vezes se sentava à mesa com o filho, explicando o que fazia, o ganhava e o que podia gastar. A falta de informação fazia de Mané um permanente insatisfeito, mesmo quando os país proporcionassem para ele alguns bens que podiam ser extravagantes para o pobre do Dodó.
Mané pensava que até Dodó vivia melhor do que ele pois nunca reclamava dos pais enquanto brincavam.
Sabe onde reside a diferença entre estes três meninos?
Diálogo. Comunicação entre os integrantes da organização ou família.
Quando não se informa o que se tem e como se obtém, até os ganhos são colocados no "saco das perdas". É preciso ressaltar os ganhos mantidos e ou agregados nesse tempo de crise, a fim de serem conhecidos pelos integrantes da organização e servirem de elementos potenciadores de motivação.

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

MAKA NA SANZALA


Os três primeiros dias foram de experiência e não havia limitação de acesso. Homens e mulheres trilharam o caminho da piscina fluvial que dista a meio quilómetro da aldeia. Porém, ninguém retirava as roupas para provar a água, com excepção das crianças que não se coibiam em mergulhar, mesmo vestidas, ludibriando os mais velhos que não saiam do ver e imaginar aquele tanque a amansar o corpo ardente em dias de calor intenso. Enquanto o Mangodinho não tocasse o apito de partida, os homens e as mulheres adultas ficavam só a nadar com os olhos.
Festa grande acontecia mesmo no coração de Mangodinho que no seu canto festejava o feito que quase lhe custou o epíteto de louco.
Com os homens já a frequentar regularmente o sítio, algumas mulheres decidiram experimentar também a piscina, se bem que à revelia.
- Mana Cati, fica na montanha a ver se vem alguém. Se estiver a vir homem, assobia. Depois será a tua vez de experimentar a lagoa do Mangodinho. - Combinaram as mulheres que tinham Kilombo na linha da frente.
Mangodinho até estava a pensar em estabelecer horários para homens e mulheres frequentarem a e limparem a piscina, mas, aquelas fraldas deixadas às pressas por mulheres que se foram lavar no sítio dos homens deixaram-no enfurecido.
- Possas, esse abuso não. Essas senhoras, assim, na capital não vivem. São corridas. Um gajo tenta civilizar e ainda recebe "adubo" de agradecimento? - Vociferou. - Miúdo Russo, você viu a chacota que me fizeram. Todos me diziam "Zequeno é xoné". Você, por me apoiar, também apanhaste por tabela. Agora que o lugar está bem, surgem cavalonas a deixar porcaria na "peixina" e, ainda por cima, a mandar vir? Escreve só, por favor, nessa chapa o que te vou ditar.
Foi assim que Mangodinho pregou a chapa no barrote que plantou a trinta metros do rio, concretamente, no sítio em que as mulheres faziam plantão para espionar se vinha homem da aldeia. Mas as mamãs da OSA, organização das senhoras angolanas, queriam "tratamento igual".
- Não pode ser. Ou as mulheres frequentam a piscina de manhã: tomam banho, lavam os filhos e vão cuidar dos maridos e dos velhos ou os homens tomam banho à tarde, quando vêm dos seus afazeres. O Estado já disse que os direitos têm de ser iguais, senão vamos 'se' queixar no Quem-de-direito. - Ameaçou Kilombo, a senhora coordenadora da OSA.
Toneco Avelino, o responsável máximo da aldeia, a quem se deviam "subordinar" todas as organizações sociais, tinha um assunto bicudo.
Mangodinho tinha razão dele. O próprio Toneco tinha depositado algum descrédito quando lhe foi apresentada a ideia da lagoa. Apenas deixou acontecer para não refrear as ideias quentes que o homem trouxe da Ngwimbi e não prejudicar a revolução na aldeia. Era lema dele. Toneco apelava sempre “quem vai a uma terra distante, mais avançada do que a nossa, tem de trazer outras ideias que nos façam evoluir”. Dizia também, não sei quem lhe pôs tal ideia na cabeça, que “mesmo Luanda, quando começou, também era uma aldeia como a nossa. Apenas as pessoas é que evoluíram e começaram a fazer coisas novas e bonitas”. Por isso, deixou o Mangodinho avançar com a ideia dele da piscina no rio.
- No dia em que encontrou fraldas à beira da piscina e outros filtros usados somente pela camada feminina, esses objectos foram-me apresentados e estão devidamente registados e depositados em sítio localizável. Está a camarada Kilombo a solicitar reunião urgente. Que fazer? Assim digo que o Mangodinho tem razão dele ou as mulheres é que reclamam com razão?
Toneco foi dormir com cabeça quente. Tem de se acalmar para resolver o assunto que está a dividir a mana Kilombo, o Mangodinho e todos os apoiantes de cada ala.