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sexta-feira, fevereiro 08, 2013

VILA DE KATOFE RETRATADA POR QUEM A VIU NASCER

Katofe
Lúcio Flávio da Silveira Matos é natural de Katofe, município da Kibala, Kwanza-Sul, emigrado em 1975 devido ao clima antes e pós independência, para Portugal e depois para o Brasil onde entre muitas coisas desenvolve actividade académica numa universidade. Lúcio Huambo, como também assina algumas de suas crónicas, é um homem que reflecte sobre Katofe e que narra, nas suas prosas e poesias, a saudade, os mitos e os cantares da terra que o viu nascer.
Em tempos, o Lúcio publicou um artigo que ressaltava os homens adultos do seu tempo de meninice que deram cabo dum leão. Foi o motivo que accionou a minha já desperta curiosidade, resultando numa entrevista que tenho o prazer de publicar nesta página.
Caro Lúcio, Havia uma cidade, pequena, mas com este estatuto ganho em 1974, que é a Kibala. A dez quilómetros erguia-se a vila de Katofe com igreja sumptuosa e casas magestosas (naquele tempo) que comentário?
Comentário: O meu blog inclui uma resenha histórica, intitulada "A décima ilha", escrita pelo meu pai - com heróicos 92 anos feitos em Novembro de 2012 - em que ele narra a lenta mas sempre progressiva colonização açoriana na região do Katofe. A igreja que consideras "sumptuosa" realmente foi o último fruto de um progresso que se considerava imparável, à época; o meu próximo post abordará a evolução da arquitectura da igreja que teve três versões. A primeira foi uma pequena ermida sem torre de sinos (sineira) e a segunda já tinha uma torre com sinos, mas em 1964 mostrou-se exígua para o povo que a frequentava aos domingos e dias de Festa do Divino Espírito Santo, quando havia muitos forasteiros. O progresso das casas foi paralelo ao da igreja; as primeiras casas do Katofe foram de pau-a-pique, depois de adobe, e as primeiras casas de tijolo cerâmico cozido foram erigidas a partir de 1962. A casa de dois pisos no início da povoação, construída pelo Kimbaça Emílio Dias, um dos três pioneiros açorianos, era de adobe e foi construída no início da década de 1950. Ali, era a primeira pousada dos colonos que iam chegando livremente dos Açores, sem quaisquer apoios do governo português. A minha família só se mudou da casa de adobe para a de tijolo cerâmico em 1968. A luz eléctrica foi instalada na povoação em 1966. Ainda, em 1975, quando fomos obrigados a sair pela guerra civil, a nossa geleira funcionava a petróleo.

Katofe era uma colónia agrícola?
Resposta: Era uma colónia agro-pecuária, essencialmente baseada na pecuária de laticínios, que foi implantada de forma livre e espontânea por três açorianos que primeiro viveram alguns anos na Quibala. Ao se fixarem no Catofe, mandavam notícias para os Açores e assim de forma livre se foi estabelecendo um fluxo migratório por afinidade de famílias e não por incentivo governamental. A leitura do supracitado artigo do meu pai vai esclarecer muitas questões que tenhas sobre o desenvolvimento do colonato.

Eram os não nativos todos ou maioritariamente açorianos?
Resposta: Os colonos eram todos açorianos; havia cerca de setenta famílias originárias da ilha de S. Jorge, nos Açores. Entre os colonos havia dois da ilha Graciosa e um da ilha Terceira que casaram com mulheres jorgenses que já se encontravam no Catofe. Esses colonos não-jorgenses vieram originariamente para o Kwanza Sul para trabalhar na construção dos colonatos que o governo colonial resolveu implantar na Cela, a 60 quilómetros. Contudo, ressalte-se que nos colonatos estabelecidos pelo governo inicialmente era proibida a utilização de mão-de-obra nativa, enquanto no Catofe, por ser de colonização livre, os trabalhos de agricultura e pecuária eram feitos com a cooperação de mão-de-obra nativa.
Qual era a ocupação principal daquelas famílias?
Resposta: A ocupação principal sempre foi a pecuária de leite. Inicialmente, houve muitos revezes. O progresso começou a fazer-se sentir a partir de 1965, quando a ELA - Empresa de Laticínios de Angola, com sede na Cela, foi estabelecida com capital acionário igualitário do Estado, firma portuguesa Martins & Rebelo e dos lavradores das regiões da Cela e Catofe. O posto de laticínios construído no Catofe era só destinado à recepção de leite, que era encaminhado refrigerado em camião-tanque para processamento na fábrica da Cela.
Que outras infra-estruturas havia à data?
Resposta: As principais infra-estruturas estabelecidas até 1974 eram a escola, o internato escolar e o posto de saúde, todos frequentados também por população autóctone. Havia previsão para estabelecimento de uma agência de Correios na década de 1970, o que não se realizou até hoje.
Havia uma administração da vila?
Resposta: Não havia uma administração da vila. Os colonos organizaram uma cooperativa que era a principal voz representativa, através do seu presidente, junto às autoridades governamentais.
 
Como eram as relações entre os filhos dos brancos e dos negros de Katofe?
Resposta: Posso considerar boas com tendência a melhorar muito. A integração era maior no futebol, com a equipa da povoação, de brancos e negros, a realizar frequentes jogos nas cinco aldeias mais próximas, à volta da povoação - Hombe, Songue, Kikula, Kassala e Katoka; segundo relatos de quem foi ao Catofe, essas aldeias não existem mais.

Quando foi que a vila de Katofe começou a ser fundada?
Resposta: Penso que no início da década de 1940, com os três pioneiros André de Oliveira, João de Oliveira e Emílio Dias. O André de Oliveira morreu nos primeiros anos vitimado pelas febres, pois o terreno na época era bem infestado por mosquitos e mosca-do-sono.

Lembra-se dos primeiros habitantes não autóctones de Katofe?
Resposta: Os três pioneiros foram André de Oliveira, João de Oliveira e Emílio Dias. Depois, juntou-se a eles Vicente Teixeira de Matos, o meu pai, que foi apelidado pelos autóctones de Kilamba.

Por que razão foram lá parar (idos dos açores ou outros pontos do distante Portugal continental)?
Resposta: Os três pioneiros foram André de Oliveira, João de Oliveira e Emílio Dias foram inicialmente para Kibala trabalhar para o Capitão Sandão, que era um militar açoriano casado na Kibala com uma nativa negra e vários filhos; resolveram tornar-se independentes e estabeleceram-se nas baixas do Katofe porque, segundo as informações colhidas na Kibala, havia ali bastante terra livre e boa para a criação de gado leiteiro, que é a vocação primordial dos jorgenses. Depois, juntou-se a eles Vicente Teixeira de Matos, o meu pai, que foi apelidado pelos autóctones de Kilamba. O meu pai foi encontrado no serviço militar no Huambo, onde o meu avô paterno tinha uma fazenda perto do Forte da Quissala; o meu pai foi para Angola atrás do pai, tendo abandonado os estudos em Portugal, quando ia fazer o curso de Veterinária. Quando foi convidado para ir criar gado no Katofe, mal saísse definitivamente do quartel, e bem longe do pai, ele não titubeou, afinal era um jovem de vinte anos.
AS FÁBULAS DO LÚCIO
O Lúcio Silveira tem estado a publicar no seu blog, MUKANDAS DO KABIÁKA, poemas com conteúdo que retrata Angola e fábulas da nossa terra (Angola). O meu entrevistado não descarta a possibilidade de converter as lindas e ricas fábulas em livro impresso. Quanto à poesia, o livro está a caminho da gráfica.

domingo, fevereiro 03, 2013

FINALMENTE UM MURRO NA MESA: VENDEDORES DE FÉ SOB OLHO DO GOVERNO

Em finais do século XIX Angola era tida pelo sociólogo Émile Durkhein como “um espaço aberto à evangelização”, dando vazão ao surgimento dos Metodistas, Evangélicos, Baptistas e, mais tarde, igrejas messiânicas de origem africana.
Até ao final do século XX, Angola já não era aquele "corpo carente de evangelização", pois, apesar da guerra civil, os cristãos e até mesmo muçulmanos tinham preenchido todos os “espaços vazios”. Tudo o que veio a seguir, embora se apregoe como fé e tenha aderentes, é mais fruto de cisões e negócio com a crença alheia. Ou seja: uns crêem numa solução divina para seus fardos terrestres, através da confissão religiosa, e outros lucram com a “cegueira” alheia, prometendo um paraíso imediato na terra e solução de males como a pobreza.
O “negócio da fé” nunca prosperou tanto em Angola quanto nos últimos 20 anos com a Maná, Iurd e toda a gama de renovadas que surgem como cogumelos em principio da temporada chuvosa.
Era, e é, preciso pôr cobro à situação. Há gente que de tanto sofrer procura nas “igrejas” a solução e acaba ainda mais arruinado com falsas promessas de decuplicar os rendimentos caso deposite nestes vendedores de fé os seus já parcos bens. Uns surgem do Brasil e outras proveniências com uma Bíblia a cobrir a genitália e uma das mãos a tapar a nudez na bunda, mas remetem, todos os dias, avultadas remessas de dólares aos seus países de proveniência onde têm vidas de Lord.
Finalmente, embora de forma bastante tímida, alguém bateu por cima da mesa e exibiu uma cartolina amarela às "igrejas do pastor Murras" . Nem me ocorria pensar que só as "mundiais" já vão próximo de uma dezena!
A Iurd fica 60 dias sem “comercializar” fé, de forma aberta, decidiu o Governo angolano, em nota publicada no sábado, 02 de Fevereiro, enquanto as mundiais ficam interditas de “vender” o que não têm.
Fruto dum inquérito mandado instaurar pelo presidente da república, “a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) é responsabilizada pelo incidente ocorrido a 31 de Dezembro passado, no estádio da Cidadela Desportiva, que provocou a perda de vidas humanas e decidiu suspender a actividade da organização religiosa por 60 dias e argumenta que perante a gravidade dos factos o Executivo decidiu que a matéria dos autos seja remetida à Procuradoria-Geral da República para o aprofundamento das investigações e a consequente responsabilização civil e criminal”.
Segundo o documento a Comissão de Inquérito constatou que o incidente deveu-se à superlotação no interior e exterior do Estádio da Cidadela, causada pela publicidade enganosa, consubstanciada no slogan: “O Dia do Fim –venha dar um fim a todos os problemas que estão na sua vida; doença, miséria, desemprego, feitiçaria, inveja, problemas na família, separação, dívidas, etc. Traga toda a sua família”.
O Executivo faz saber ainda que “em virtude de se constatar que as Igrejas Mundial do Poder de Deus, Mundial do Reino de Deus, Mundial Internacional, Mundial da Promessa de Deus, Mundial Renovada e Igreja Evangélica Pentecostal Nova Jerusalém, apesar de não estarem reconhecidas pelo Estado angolano, realizam cultos religiosos e publicidade sejam interditadas de realizar quaisquer actividade religiosas no país”. Já Iurd, que numa actividade levou à morte 17 pessoas no final do ano, fica suspenda de efectuar o seu “comércio de fé e curas milagrosas” durante 60 dias.
A nota avança que “a suspensão e a interdição referidas nos pontos 2 e 3 sejam fiscalizadas pelos Ministérios do Interior, da Justiça e dos Direitos Humanos, da Cultura, da Administração do Território e da Comunicação Social e pelos Governos provinciais, devendo vigorar enquanto durarem as investigações pela Procuradoria Geral da República…”
Aleluia irmãos!

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

O ANO EM QUE OS PALANCAS NÃO "VIRAM O PAPA"

Foram 14º no CAN-2013 entre 16 equipas
Não encontrei outra analogia senão essa: “ir ao CAN e não marcar sequer um golo é o mesmo que ir ao Vaticano e não ver o Papa”.
Os palancas negras, designação oficial da selecção angolana de futebol, estiveram pela sétima vez numa fase final do campeonato africano de futebol, CAN, e, por mais incrível que pareça, sofreram mas não marcaram nenhum na baliza contrária.
Os jogadores da selecção angolana empataram a zero, em jogo contra o Marrocos; perderam por zero-dois, em partida contra os anfitriões, África do Sul; e perderam por um-dois, frente a Cabo-Verde, sendo que os três golos foram marcados por jogadores cabo-verdianos, um dos quais auto-golo.
Em sete participações, essa de 2013 foi a mais desastrosa, sendo as melhor conseguidas a participação do Ghana e a de Angola (2010) em que a seleção passou à fase de eliminatórias directas (4ºs de final).
Nada mais havendo por relatar, senão engolir a mágoa por termos uma das mais fracas selecções do continente, resta pedir àqueles que pensam futebol para apostarem nos palanquinhas. É no trabalho com os mais novos que pode residir a nossa alegria.
Mãos ao trabalho!

segunda-feira, janeiro 28, 2013

UM POUCO DE RESPEITO PELOS MORTOS NÃO FAZ MAL

Sou dum tempo em que óbito não era lugar para crianças e os jovens recolhiam-se, pesarosos, ao ver um cortejo fúnebre passar. Os mortos mereciam muito respeito e as campas, por serem últimas moradas dos de cujos, eram também respeitados.
Os tempos me parecem ser outros. Os a vida evoluiu e eu fiquei estagnado no tempo ou as coisas desandaram e eu cultivo modos que muita juventude desconhece.

Desloquei-me ao Alto das Cruzes, para “partilhar a dor”  de alguém que perdeu uma ente querida. Entre vândalos que pisam campas “alheias”, num desrespeito total aos finados e aos familiares, muitos aí presentes, uma idosa cuja atitude diária chamou-me à atenção.
 
Pipa, o filho dela, foi morto (assim reza a lápide) em Fevereiro de 1976, aos 17 anos. Pela foto, o jovem era militar. A sua campa diferencia-se das outras por ter o terreno adjacente pintado de cinza metalizada e a óleo. Há vasos com flores naturais e folhas verdes bem cuidadas. Não se vê poeira em canto nenhum daquele túmulo que se parece a uma casa. A idosa, desde Fevereiro de 1976 que faz companhia ao jovem soldado todos os dias, pelo menos trinta minutos. Já não chora. Chega, vassoura, balde d´água e pano de pó na mão: rega as plantas, limpa o pó, recolhe as folhas secas, senta num banquinho, olha para a campa, projecta um reencontro, que espera para breve, e faz uma oração.
 
E, comovido, chorei.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

QUEM MAIS TRANSFERE DÓLARES VIA WESTERN UNION?

Estou numa agência bancária e, como sempre, vejo muitos rapazes e raparigas a serviço de brasileiros (sobretudo teólogos), chineses, vietnamitas, portugueses e oeste africanos nas filas para transferências bancárias, via Western Union.
Cada estrangeiro, em média, transferem entre USD 5000 a 10.000, servindo-se de cidadãos nacionais pagos a preço de banana, o que multiplicado pelo número de vezes em que são vistos nos bancos, onde até já se tornaram familiares e constituíram amizades, pode dar em altas somas por mês.
Perguntar não ofende a ninguém:
- Onde tiram estes estrangeiros tanto dinheiro que remetem aos seus países?
-  O governo angolano, através das instituições financeiras e de ordem e segurança, controla estes traficantes?
- Que dizer dos nossos inertes explorados por chineses, revendidos aos angolanos, cujo o dinheiro vai para China?
- Pagam impostos?

sexta-feira, janeiro 18, 2013

SAURIMO: PRIMEIRA BIBLIOTECA PÚBLICA ESTÁ EM CONSTRUÇÃO

As obras caminham a bom passo e o edifício de dois andares, que se ergue defronte ao prédio que acolhe as direcções provinciais e outras repartições de serviços públicos, já tem as paredes erguidas, restando apenas a pintura, acabamentos internos e apetrechamento.
 A construção da Biblioteca Municipal de Saurimo é resposta a um vazio que se fazia sentir na cidade há já muito tempo, depois da degradação e desmantelamento da Biblioteca deixada pelo colono. “Quando terminar será um alívio para a juventude estudantil” disse entusiasmado Manuel Mutale, 25 anos, estudante da Escola Superior Politécnica, afecta à Universidade Lueji a Nkonde.
Tudo quanto se sabe, o apetrechamento da mesma em livros não será bico d´obra, uma vez que a municipalidade possui um acordo de geminação com a câmara de Trás-os-Montes, Vila Real, que tem já fornecido apoios do género à apêndice da Universidade pública e escolas secundárias da província. “Neste momento há mais de 60 mil títulos doados pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, no quadro do acordo de cooperação existente entre Saurimo e aquela autarquia portuguesa”, disse uma fonte ligada à ULAN. Grande parte dos livros estão por catalogar na biblioteca da Escola Superior que se debate com a falta de bibliotecários especializados e espaço físico, avançou a fonte.
A falta de uma biblioteca pública é um dos factores que contribuiu, até aqui, para os baixos indices de leitura entre os jovens e adolescentes, na capital da Lunda Sul.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

POBRE COM DINHEIRO EM JANEIRO É HOMEM(?)

- Trim, trim, trim… o telefone tocou. Na linha um amigo.
- Epá, fazes-me um reforço? A balança desequilibrou-se.
- Mô mano, estou mal. Lamento...
Nem terminou a conversa. Noutro telefone, pi.rim.rim.rim.rim.rim.rim… outra chamada. Na linha uma amiga de longa data.
- Epá posso fazer-te um pedido? És único amigo que me podes ser útil. Estou pior do que uma gata…
- Vai, fala amiga. Espero que a tua preocupação esteja ao meu alcance.
- Yá. Estou mal. Me empresta só dinheiro.
- Hum! Para pagar quando?
- Não sei, mas estou mal. Já nem dinheiro para táxi tenho.
- Amiga, esse pedido chega em hora imprópria… Tenho propinas dos miúdos. Sabes que tenho uma prole elevada…
- Yá entendo, mas…
Ufff. Até já dizem que pobre com dinheiro em Janeiro é Homem.
- Por que será que nesta fase todos estão sem reservas?
- Que tal passar a guardar o dinheiro do ordenado de Dezembro para ser gasto em Janeiro?

domingo, janeiro 13, 2013

O TI DOMINGOS MORTELADO

Era procedente do planalto angolano. Não se sabia se do Huambo ou Bié porque nunca o perguntamos e ele também nunca nos explicou, talvez porque se julgasse irrelevante. Angola não é dos angolanos? Que importa o local de nascimento se nestes 1246700km2 cabemos todos nós e mais uns tantos "chinocas" que já nos dão sobrinhos?

Uma arma destruidora bastante usada na
guerra civil
 O tio Domingos Mortelado não tinha um dos pés, perdido na guerra (calcula-se que tenha sido a guerra pela independência), em sitio e circunstancias que só ele sabia. Vivia da sua lavra e do esforço de sua mulher e filhos. Era único na aldeia a usar muletas embora fizesse quase tudo. Cortava lenhas, capinava e também tomava o seu copo com os outros homens da aldeia. Apenas não podia trabalhar na fazenda onde a labuta era mais agreste.
Todos os miúdos e miúdas da aldeia contígua à fazenda Israel (Libolo) hoje reagrupada e denominada por Pedra Escrita, tratavam-no por tio Domingos Mortelado. Até parecia que Mortelado fosse seu apelido. Nunca alguém questionou porque era mutilado e porque era assim tratado.
Perguntar? A quem? Havia espaço para tal?
- Podia ser entendido como uma discriminação o que era impensável naqueles tempos.
E a vida corria bem. Ti Domingos Mortelado p´ra cá, ti Domingos Mortelado para lá. Sem que ele se importasse do cognome.
Hoje já não vive. Mas fica na saudade de muitos miúdos e miúdas do meu tempo que só mais tarde se aperceberam que Mortelado não era seu nome, mas a condição que a guerra lhe tinha imposto. Na verdade ele era o tio Domingos, o mutilado.

terça-feira, janeiro 08, 2013

UM OLHAR AO MOVIMENTO LITERÁRIO NA LUNDA SUL

Uma cronologia* elaborada por Tomás Lima Coelho e Manuel Seca Ruivo, que lista os escritores angolanos desde o surgimento do primeiro livro escrito por um angolano (José Maia Ferreira), em 1847, até ao presente, ilustra que entre os cerca de 600 autores angolanos apenas 04 são da Lunda Sul a saber: Bula Mbungue, Fonseca Sousa, Valter Hugo Mãe e Victor Kajibanga. É Obvio que o estudo ainda recebe contribuições para se seja o máximo realista, mas é um indicador que nos deve preocupar e levar à reflexão.
Enquanto capital do distrito, no tempo colonial e capital de província de 1975 a esta parte, Saurimo teve sempre um ensino liceal e não faltou a diáspora académica ao longo dos tempos. Porém, apesar destes condimentos que são a formação intelectual e a criatividade que propiciam a existência da literatura, o número de escritores da província é de 04 e se juntarmos os escritores das duas Lundas teremos apenas um total de apenas 9 escritores. São ainda muito poucos os que mostram a cara através da escrita criativa ou académico-cientifica.

Só para se ter uma ideia, o Huambo tem 51 escritores listados; Benguela tem 47; Malanje, aqui ao lado, tem 32. O Kwanza-Sul tem 18; Cabinda tem 07; Moxico tem 09 e apenas Kwando-Kubango e Kunene têm cada 02.

Daí que julgo ser necessário pensar-se numa solução. É preciso incentivar os jovens a criar e registar em papel aquilo que criam. Mas, antes, temos de incutir nas crianças e jovens o hábito da leitura, do debate, da reflexão e do uso correcto da língua em que trabalhem: seja a língua herdada do colono (português) ou as nossas línguas de origem bantu. Julgo ser este o caminho para que possamos fazer crescer o número de escritores na província e no país.

É ingente que os jovens os mais velhos escrevam e publiquem as suas experiências e memórias, merecedoras de serem legadas às novas gerações. É urgente que os nossos professores “reinventem” o saber científico, o registem e publiquem.

É preciso também que as instituições públicas e os empresários locais apoiem aqueles que já escrevem para que possam publicar e servir de mola impulsionadora dum movimento literário ao nível da província.

Não havendo quem escreve, porque não habituamos as crianças a ler e a praticar a escrita, temos de fazer uma analogia com o futebol: É possível aspirar a primeira divisão nacional sem jogadores em quantidade e qualidade na praça local?

Se calhar, a solução seja criar uma espécie de “núcleos de leitura, debate e escrita” que nos darão talentos que nos permitam, no futuro, ombrear com os grandes que também tiveram de gizar políticas de formação, formal ou informal, ostentando hoje fama e a tradição que têm. Benguela é um exemplo no campo literário para não falar de Luanda.

Buscando o exemplo de Benguela, há dois anos que o governo daquela província instituiu o Prémio Provincial de Cultura e Artes, uma versão local do Prémio Nacional. Os vencedores de cada uma das sete categorias recebem Kz 700 mil. Sabendo que o artista que se empenhe com qualidade pode ganhar no principio do ano esse dinheiro, quem é que não escreve? Quem é que não pinta, quem é que não esculpe, quem é que não cria moda, quem é que não investiga sobre a nossa tradição e costumes do nosso povo? Quem é que não canta e quem é que não dança?

Entendo que não basta que existam as instituições artísticas sem o essencial que são os artistas porque já é sabido que sem panela não se faz o funje.

Sem leitores nunca teremos escritores.


(Texto escrito a propósito do dia da cultura nacional que hoje se assinala em Angola)
 
* Autores de Angola: Naturalidade e bibliografia (ebook), no prelo.

sábado, janeiro 05, 2013

AS LINHAGENS, OS POTENTADOS E AS DINASTIAS

Numa suposta “brincadeira de mau gosto” alguns originários do Kuteka me têm beliscado, de leve, para revitalizar o potentado de Kuteca, cuja capital é Mbanze-yó-Teka, onde meu avó materno foi rei entre finais dos anos sessenta e início dos anos setenta do sec. XX.
 
Dizem, estes conterrâneos, que eu seria o mais idóneo e mais habilitado para reclamar a coroa daquele potentado encravado entre montanhas, nas margens libolenses do rio Longa (Mbango-yo-´Teka, Kabombo, Hombo, Mbanze, etc).

Acontece que não cheguei a conhecer meu avó, embora lhe tenha herdado o apelido.
Nasci na semana em que ele morreu, tendo para o seu lugar sido indicado um sobrinho que também já é de cujos.
Calculo que, “de sobrinho em sobrinho, a monarquia tenha mudado de linhagem e dinastia”.
Distante dos hábitos e costumes mais intrínsecos do meu povo, estando aculturado, e mais: exercendo actividades para as quais me formei e me sinto bem, tenho respondido a esses meus “partidários” que agradeço a escolha mas devem procurar por um outro rei.

Pior do que isso é que a autoridade nas comunidades tradicionalistas como a que reporto é mantida através da crença no metafísico. É a crença no feitiço e no poder e veneração dos antepassados que mantém a ordem social. Conheço pessoas que temem mais o feitiço do que a autoridade pública. Um rei sem feitiço (ainda que fictício) é um rei sem autoridade. As leis ordinárias e a polícia quase não têm valor nas aldeias. O feitiço sim: ordena, comanda e condena.


E, já agora, por que não reflectir um pouco sobre a proliferação de potentados, sobretudo na era moderna (angolana)?

Me parece que a atribuição de "subsídio de sobado" tem contribuido para a dispersão das populações, dando lugar a uma multiplicação de sobas e regedores, em vez de se agregarem em conglomerados maiores.

Sem o subsídio teríamos a mesma coisa? É que já assusta o número de sobas em cada comuna, municipio e provincia de Angola, dificultando a construção de infra-estruturas sociais nas comunidades carentes de agregados populacionais que o justifiquem.

Imagine o que é cosntruir uma escola, um fontanário e um posto médico numa aldeola que apenas tem cinco famílias... Assim, vamos continuar a reclamar sem razão.
 

terça-feira, janeiro 01, 2013

O KIRIMBU (CARIMBO) QUE CARREGO NO ROSTO

Rainha Antonica ao centro
- A mon´u! mbezo okesula? Wango akuno in wango a ngongo oyo? (oh menino! Afinal tens faquinhas na cara? És daqui ou da outra margem (Malanje?)
Assim me interrogou a anciã Antonica Gregório, rainha de Banza Tamba (Mussende, K-Sul), depois do meu sorriso denunciante, quando abordou um grupo de “não locais” (Kwanza-Sul) que a seguiam a um ritual tradicional localidade de Kepala (município da Kibala).
- Ngoya ngondola, mu hane uvita! (vou pronunciar-me em ngoya e não me vão perceber). A isso respondi apenas com um leve sorriso que a levou a inspeccionar-me com maior profundidade e tendo reconhecido no meu rosto os sinais (kilimbo) que identificam o originário do reino de Ngola.
E não foram precisas mais palavras. Tinha sido reconhecido como “filho da casa”. Os traços no rosto, comummente conhecidos como “faquinhas”, frequentes entre povos de Malanje e Kwanza-Sul, em Angola, têm uma explicação histórica.
Eles foram sendo usados pelos povos Ngola, ao longo da história, por motivos diversos e até de forma profusa. Dados obtidos da oralidade destes povos (pesquisa no Libolo, Kibala e Kangandala) e registos escritos apontam que a aplicação de “faquinhas na cara” (tracejados horizontais e ou verticais no rosto) tinha uma dupla função nos tempos dos reis Ngola:
- Uma era mitológica, ligada à questões de saúde: pensava-se que o sangue mau (de baixa qualidade) era a causa de muitas doenças e devia ser extraído. Essa evocação se prolongou até há bem poucos anos, sendo ainda visíveis adolescentes e nalguns casos até crianças oriundas das regiões supra com estes sinais nos rostos. Porém, a extensão dos serviços de saúde às áreas mais recônditas diminuiu grandemente este tipo de pensamento mitológico que, mais do que curar, levou à morte muitas crianças que se viram anémicas devido à extracção sanguínea.
- A outra razão da aplicação das faquinhas no rosto de Malanjinhos e Kwanza-Sulinos de locução ambundu tem a ver com o “kirimbu” marca/sinal com que o soberano identificava os seus emissários: não havendo no passado comunicações escritas e nem telefónicas, era preciso autenticar os emissários para que fossem reconhecidos e valorizada a mensagem de que eram portadores. Assim, o rei Ngola começa por colocar o “kirimbu” no rosto dos emissários enviados a outros Estados/potentados. Sendo sinal único do rei Ngola apenas estes embaixadores/emissários assim sinalizados/identificados podiam ser credenciados.
 O procedimento dos reis Ngola foi anterior ao tráfico negreiro, iniciado no Sec. XV, e que o adoptou para estampar as "peças africanas" (escravos) que estavam realmente pagas antes de embarcarem para a América.
 
A palavra portuguesa carimbo, adoptada pelos portugueses, que muito se relacionaram com os reis Ngola, provêm do kimbundu “Kirimbu” ou "kilimbu" que equivale a “stamp” (selo) em inglês.
=
PS: solicitada a comentar o texto, recebemos da parte da Dra. Judith Luacute o seguinte comentário:
"Quanto ao texto​ devo dizer​ que as "faquinhas" que se faziam no rosto​ das pessoas,​ por questões tradicionais, podem provocar​ os seguintes​ danos às pessoas:
- Infecções, por falta de observação​ dos cuidados (assepsia) do material​ com que​ se fazem as incisões.
- Incisões feitas com uma profundidade que pode atingir os vasos sanguíneos​ e, assim, provocar​ sangramento que podem ser de tal intensidade, levando o indivíduo à morte​ por choque​ hipovolémico (baixa quantidade​ de sangue​ no organismo)
-Transtornos​ psicológicos​ aos portadores​ das​ cicatrizes​ por baixa autoestima, quando inserido num meio onde essa prática​ é​ desconhecida.​
Conclusão
Com todo o respeito que tenho pelas tradições,​ esta​ é​ uma prática​ ​ ​ que deve(ria) ser desincentiva".
=
Fontes escritas:
1- http://pt.wikipedia.org/wiki/Carimbo#Hist.C3.B3rico (24.11.2012)
2- Revista Austral: TAAG, 2011,

domingo, dezembro 30, 2012

KARIANGO: QUEM TE VIU E QUEM TE VÊ?


Kariango, comuna do município da Kibala, Kwanza-Sul.
Estou sobre a ponte do rio Longa (já a chamam de ponte antiga, pois a nova está a ser construída mais acima,na nova estrada asfaltada). Aqui, as pedras em forma de tartarugas, combinadas com o efeito da água e vegetação criam um efeito de beleza rara.
A isso se acresce a presença de mulheres cuidado da roupa e as crianças que lavam a loiça, aproveitando uns pinos na água que no tempo chuvoso ganha uma coloração semi-acastanhada.

A 50 km da vila de Kibala, Kariango é um vilarejo que ensaia os primeiros passos, depois do impacto nefasto da guerra que afectou toda a sua infra-estrutura. Pouco sobrou da guerra (1975-2002) e da força destruidora da natureza. Hoje, à excepção da administração comunal, as casas mais vistosas são aquelas reabilitadas pela construtora Queiroz Galvão utilizadas como alojamento para os seus trabalhadores não locais.

Os pequenos serviços e o pequeno comércio só agora vão dando sinais, fazendo adivinhar dias melhores. Em Kariango está projectada uma mini-hídrica que pode revolucionar a vila, pois a energia eléctrica é factor de desenvolvimento.

Sendo kariango uma comuna potencialmente agrícola e onde despontam fazendas como o Projecto Terras do Futuro, é de crer que, com a estrada asfaltada e a energia eléctrica projectada, surjam na circunscrição pequenas ou médias indústrias agrícolas que podem revitalizar a economia familiar e regional.

quarta-feira, dezembro 26, 2012

QUEM VÊ TUNDA-A-VALA NÃO ESQUECE LUBANGO

TUNDA-A-VALA: 20. OUT. 2012
 
Quis a natureza que ficasse no Lubango, Centro-Sul de Angola.
É um excelente lugar turístico e com uma história repleta de episódios, uns agradáveis e medonhos, nos tempos que marcam a nossa existência.
Dizem que aqui já se fuzilaram "contra-revolucionários". Será verdade?
Verdade ou mentira, não há vestigios de dor. Há é uma bela paisagem e vista agradável.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

KIBALA PODE TER “CARA LAVADA”


Edifícios em escombro tornaram-se o cartão de visita da "cidade" de Kibala (K-Sul). A guerra pós independência pós tudo abaixo e o que resta são escombros e edifícios fortemente estropiados. Neste "kaprédio" que a imagem mostra funciona, na parte inferior, o Restaurante Kandimba. Ao lado, foram, felizmente, erguidas bombas de combustíveis pertencentes à Sonangol. Têm uma loja e um restaurante, conferindo outra imagem à urbe.
 
 Contou-me o meu amigo, Pastor Vinte e Cinco, que em 1974 foi atribuída a categoria de cidade, feito publicado em uma portaria de então. É certo que haviam programas de desenvolvimento da "cidadela", embora tivesse apenas uma rua a cortá-la em dois blocos (EN120).
A malha rodoviária da Kibala forma uma bi-forcação, agora em forma de X: à direita (sentido Luanda-Huambo) está a estrada que nos leva à Gabela-Sumbe. À esquerda a estrada que nos leva ao Mussende-Malanje. Ao sul a estrada que nos leva ao Dondo-Luanda e a norte a que nos leva ao Wako-Huambo, pasando por Katofe que era, à época colonial, uma mui crescente vila agrícola que estava a ser erguida por camponeses madeirenses (Portugal) ali aportados em princípios da década de 60 (Sec. XX). Katofe fica a aproximadamente 10Km de Kibala e está hoje em escombros que se tentam reerguer com muito custo. Está a ser implantado no local um projecto agrícola, dada as suas potencialidades e a existência de infra-estruturas. 
Quem decretou a vila de Kibala como cidade em 1974 teve a sua razão. Kibala seria hoje uma média ou mesmo grande cidade, pois já contava com industria nascente como a mini-hidrica de Katofe (EN120) e a do Kariango (EN240), bem como a moageira KAIMA que transformava o milho, uma das principais culturas da região. Lembro-me ainda que havia uma unidade de empacotamento de arroz que era igualmente produzido na região (Fazenda América e outras que hoje só restam os nomes). Os ananazes da Kibala eram ainda a principal matéria-prima da fábrica de vinhos do Dondo, encerrada em finais dos anos 80 do século XX.
E, como os tempos são de mudança, indo ao encontro daquilo que já devia ter acontecido, o Pastor Vinte e Cinco, kibalista bastante respeitado na região e em Luanda, contou-me, no dia 05.12.2012, que tomou conhecimento dum plano director para o desenvolvimento infra-estrutural da Kibala, de modo a resgatar o seu estatuto de cidade que lhe foi atribuído ainda pelas autoridades coloniais. Segundo o reverendo metodista, os ocupantes dos imóveis estropiados têm um tempo para os reabilitar ou o Estado os vai deitar abaixo para nos locais serem erguidas outras infra-estruturas. Bem pensado!
Auguro que da visão à acção não haja um grande defeso.   

segunda-feira, dezembro 17, 2012

KEPALA: KIBALA OU MUSSENDE?


A caminho dum lugar sagrado dos povos de Kepala
Os sobas (autoridades tradicionais angolanas) têm uma visão territorial do seu espaço de influência que muitas vezes diverge com as fronteiras políticas e administrativas. É o que se passa na região de Kepala.
Administrativamente, Kepala é território da comuna de Kariango, mas grande parte da população é oriunda do município vizinho do Mussende (ambos da província do Kwanza Sul).

Há um aspecto que nos faz compreender melhor o que se passa no terreno e o que alimenta as disputas entre os sobas do Mussende e da Kibala e os ciúmes, muitas vezes fingidos, mas por todos conhecidos, entre as autoridades administrativas das duas circunscrições municipais.
A área de Kepala, passou a ser mais conhecida na última década por CAP. No tempo da guerra civil (1975-2002) os guerrilheiros da Unita instalaram na região uma unidade militar que se dedicava ao garimpo de diamantes, numa aluvião, que alimentavam a sua máquina bélica e administrativa. A região estava sob controlo dos rebeldes e a administração do Estado não se fazia sentir. O facto de Kepala estar mais próxima da vila de Mussende, sob domínio da rebelião, do que da vila de Kibala, sob domínio governamental, explica a razão da alteração de toda a correlação de forças e jogo de influências. Os povos nativos que tinham acesso àquela área eram, como é obvio, do Mussende, pois quem saísse da Kibala para Kepala podia ser conotado como “colaborador dos rebeldes”, sendo o inverso também aplicado e punido severamente.
Uma rua da vila do Mussende (foto: J.A.)
Tudo quanto me pude aperceber, grande parte da população que habita a área é oriunda do Mussende, enquanto o Soba se assume como kibalista e quer que a população se assuma como pertencendo à Kibala. "Daqui resultam os ciúmes entre as autoridades tradicionais e até administrativas", confidenciou-me um funcionário sénior da administração do Mussende.
Do ponto de vista da Divisão Político-Administrativo de Angola, a área de Kepala ou CAP, como é mais conhecida nos últimos anos, é parte do território da comuna de Karyango, município da Kibala. Carlos Barros, o administrador comunal de Karyango, não tem dúvidas e diz conhecer os marcos (rios) que separam os territórios da sua área de jurisdição ao município vizinho do Mussende.
A existência de riquezas no subsolo pode ser uma das razões, mas “não houve, até agora, uma redefinição dos marcos”, sustenta convicto o administrador.

Independentemente do município a que pertença Kepala, andei com os sobas, todos eles meus conterrâneos, quando foram a um “muxito” sagrado fazer preces aos antepassados para que a terra prospere e os investidores na região tenham sucessos.

Um edifício da vila de Kibala
-      Ngoya1 twondola, enhe mu hane uvita! (vamos falar ngoya e vocês não nos vão perceber!) – Disse a rainha Antonica Gregório (da Banza de Thamba, Mussende) à comitiva que os acompanhava. Apenas mostrei um leve sorriso que lhe permitiu identificar-me como “da região”.

E, como “é mais fácil retirar o indivíduo do mato do que o mato da sua mente”, pus-me em andarilhos, no campo, revivendo os meus tempos de kandenge.
 
1- Tal como sustento em artigos publicados no blog: www.olhoensaios.blogspot.com o termo ngoya foi errada e profusamente difundido pela VORGAN (rádio da Unita) e povos ligados àquele partido como sendo a língua dos povos do Centro do Kwanza-Sul, não havendo evidências sobre a existência de povos e língua ngoya. Os ancestrais dos Libolo, Kibala, Mussende, Sela, Hebo, Kilenda, Mboim, entre outros povos que habitam o Kwanza-Sul, são oriundos da margem superior do Kwanza, região que abrange o Ndongo, Matamba e Kasanje).

quinta-feira, dezembro 13, 2012

RETRATO: BICA D´ÁGUA, PEDRA ESCRITA E LUSSUSO

BICA D´ÁGUA
A imagem mostra a estrada num local da comuna da Munenga (Libolo) designada por Bica d´água.

Aqui fora erguido no tempo colonial um bebedouro (água bruta captada dum rio ao lado). Era local para parar encher os reservatórios e o radiador e saciar a sede.

Dada a acentuada descida acompanhada de curvas, o local foi, desde sempre propício à ocorrência de sinistros que ceifaram muitas vidas. Basta ver as centenas de carcaças na duas encostas ravinosas da estrada.

Pensando na prevenção, Os bombeiros têm no local um Posto de Apoio e Socorro aos Sinistrados. Nada melhor do que neste local que fica a 50 quilómetros da ponte do Kwanza e uns 25 da ponte do Longa, no itinerário Dondo-Kibala.

A presença da polícia de trânsito no local serve de elemento inibidor aos homens do volante, sobretudo aqueles que têm maior propensão a acelerar do que a travar.

Mais adiante, quem vai a Kibala, fica a aldeia de Pedra Escrita que ganhou o nome devido a uma publicidade gravada na pedra com os dizeres "Pousada boa Viagem- Lussusso". Vivo perto daqui (Fazenda Israel e no Rimbe) uns anos. Perto de 06 anos (1978-1984).

Na verdade, a aldeia foi constituída em finais da década de noventa e princípio do novo século (XXI)pelo Tenente Coronel António Infeliz João, comandante das FAA no Libolo, que agrupou todos os povos que se encontravam na região, uns vivendo em lavras e outros em pequenas aldeolas familiares.

Povos oriundos do planalto central (antigos trabalhadores das fazendas coloniais e que se integraram na cultura local), povos saídos de aldeias distantes da EN120 como: Kalombo, Tumba Grande, Bango de Kuteka, Hombo (Kuteka) Banza de Kuteka, Kipela, etc. e outros alí aportados devido a guerra que assolou e devastou povoações mais longínquas do Kwanza-Sul como Longolo, Kisssala, etc. foram todos agrupados de forma coerciva, compondo hoje uma aldeia com perto de 5 mil almas, levando a administração do Libolo a construir uma escola primária e um jango comunitário, estando em falta, embora projectados, um fontanário e um posto médico.

O Comandante Infeliz (já finado), então proprietário da Fazenda Israel que fora dirigida pelo seu pai, João dos Santos, nos anos que se seguiram à independência, merece, pelo feito, ter o seu nome atribuído à única rua que separa a aldeia de Pedra Escrita em dois blocos. 
A inscrição é hoje pouco visível, mas lá ficou o nome
A pousada, nos anos 80 e 90 do sec. XX pertencente a um cidadão de origem cabo-verdiana de nome Olímpio, tem hoje a parte do bar reaberta, depois de muitos anos inoperante. A parte dos alojamentos aguarda por outros ventos, já que foram totalmente dizimados pelos "gatunos das chapas alheias" e pela força da natureza.

Desconheço o novo proprietário do espaço, único reaberto dos três bares existentes à época, mas guardo grandes recordações da pousada onde funcionaram Santos Godinho e João Bebeca, meus tios já falecidos.

No Lussosso o que mais chamava a atenção eram os autocarros da EVA, VIRIATOS, ETP, ETIM e outros que aí efectuavam a sua paragem para "dar ouvidos ao roncar do estômago". Existia no local um posto de abastecimento de combustíveis (hoje inexistente devido à canibalização que sofreu) e uma outra pousada, no fim do bairro. Param quem se dirigia à ponte do Longa todo o cuidado era pouco devido à presença de manadas de bovinos do Sr. Manuel Ndale.

Na área de pastos, junto à ponte do Longa, está hoje uma unidade de enchimento de águas "Vale do Longa" que me pareceu estar semi-fechada. A ponte do Longa foi entre 1975-1992 guarnecida por um contingente das FAR (cubanos) e FAPLA (forças governamentais de Angola). No conflito pós-eleitoral (1992-2002) a mesma ficou desguarnecida e os "homens dos explosivos" deitaram-na a baixo. Ainda são visíveis os esqueletos de armamento pesado (tanques e carros de assalto) nas cercanias.
Ex-Libris do Lussusso
 
Felizmente, uma nova ponte foi reerguida no mesmo local em que se encontrava a primeira e poucos se lembram da anterior, cujos destroços foram jogados rio abaixo.

Ainda no Lussusso, quem levanta a cabeça, olhando para oeste, depara-se com o cimo da montanha sempre esbranquiçada devido a nevem que está sempre presente, É o ex-líbris da localidade que reclama por uma picada ou, no mínimo, um atalho em condições que leve os turistas e curiosos ao topo da montanha para ver o que lá se passa e apreciar a exuberante paisagem planáltica que se estende do Lususso à fazenda Longa (em direcção a Kalulu).
As imagens foram registadas durante uma viagem à comuna do Kariango (Kibala) na EN240, a 04.12.2012.

segunda-feira, dezembro 10, 2012

NOVA ESTRADA LIGA KIBALA-MUSSENDE E MALANJE

As pontes de grande dimensão são tratadas adequadamente
 
Trata-se da Estrada Nacional 240 na província do Kwanza-Sul. Embora o traçado fosse pré-independencia, nunca a mesma chegou a ser asfaltada, não passando de uma picada sofrível nos anos passados.
 
A guerra civil (1975-2002) que quase tudo dizimou impossibilitou até as intervenções paliativas e, pior ainda, porque a zona esteve sempre sob domínio dos guerrilheiros rebeldes.
 
Terminado o flagelo, a reconstrução chegou a todo o lado e a picada, elevada agora a EN 240, beneficia de serviços de alargamento da plataforma, construção de pontes e aquedutos, bem como a sua asfaltagem.
 
Mais de uma centena de quilómetros (Kibala-Kariago-Projecto Terra do Futuro e adiante) possuem já novas pontes dimensionadas ao novo padrão das estradas nacionais e asfalto de qualidade aceitável, restando cerca de metadae da empreitada. Embora o trânsito automóvel no trajecto seja ainda de contar aos dedos de uma mão durante todo o dia, dado o facto de a estrada asfaltada ser ainda do desconhecimento de muita gente, aqueles que por lá transitam estão satisfeitos e "louvam a iniciativa".

Quando estiver terminada, a EN240 que se junta a EN120 (Alto-Fina-Huambo) na cidade da Kibala, vai juntar esta urbe à vila do Mussende e, atravesando o rio Kwanza que já possui uma nova e enorme ponte, ligar a província de Malanje e zona Leste.

Ficam os caminhos mais encurtados e as viagens mais cómodas.

sexta-feira, dezembro 07, 2012

TERRA DO FUTURO LANÇA EMPREENDEDORES AGRÍCOLAS

Engº Marques e Débora Vunda
Na comuna do Kariango, Municicpio da Kibala, num local coberto de vegetação, 22 km fora da Estrada Nacional 240, em direcção ao Mussende, fica o Projecto Terra do Futuro, lançado em 2009.
Possui um centro de formação, alojamento para técnicos expatriados e nacionais doutras regiões, um centro médico, dormitórios, diversos equipamentos e infraestruturas de apoio à actividade agrícola. O Projecto terras do Futuro, iniciativa privada, funciona ainda como uma espécie de inseminadora de fazendas agrícolas detidas por jovens agrónomos criteriosamente seleccionados.
“Depois da licenciatura fizemos um teste e os aprovados fizeram um curso de sete meses onde aprendemos, para além de técnicas agrárias, a gestão de empreendimentos agrícolas. Entre os dez jovens fazendeiros, uma delas se destaca:
Débora Manuel Vunda é uma técnica agrária (IMA) que também se forma em contabilidade e auditoria na Universidade Kangonjo, em Luanda.
É das poucas fazendeiras do Projecto Terra do Futuro (médias fazendas, integrantes do Projecto financiado belo BDA.
Abordei-a ao volante da sua Hilux, próximo do Centro Médico. Débora, 26 anos, é natural do Huambo onde se formou em agronomia no Instituto Médio Agrário e onde ganhou o gosto pelo campo.
Área administrativa Proj. Terras do Futuro
“Sempre gostei do isolamento e aqui aplico o que aprendi na escola como também tenho a possibilidade de ser empresária agrícola. Cada dia há troca de experiencias ente nós e isso fortalece-nos”, disse ela quando questionada se não se sentia incomodada estando a residir no meio da vegetação.
Apesar do entusiasmo há também solidão. Débora que cultiva milho e feijão nos seus 200 hectares fez um desabafo: “Penso em constituir família, mas aqui faltam candidatos à altura”.
José Marques, engenheiro agrónomo natural de Luanda e com família constituída, é outro fazendeiro que recebeu um crédito do BDA. Como Débora está orgulhoso do que faz e conta que “o crédito é foi feito a um grupo de dez jovens, em apenas uma conta monitorada pelo Projecto Terras do Futuro. Cada um tem um fundo de maneio que tem de gerir com responsabilidade e e produzir o máximo que puder”, explicou.
À semelhança dos demais colegas, recebeu uma casa de campo, uma carrinha, um tractor com alfaia agrícola completa  e outros imputs que lhe permitem lavrar os 200 hectares recebidos do Projecto Terra do Futuro. No fim da colheita, o mercado está garantido (PTF) e o investimento recebido é para ser descontado colectivamente e de forma faseada. “Quando terminarmos de liquidar os empréstimos seremos donos e senhores de nossas vidas”, disseram Débora e José Marques.
No total, segundo o programa do Projecto, serão 60 jovens empresários que deixam a cidade para fazer o campo produzir.

sábado, dezembro 01, 2012

QUAL FOI O SENTIDO DE VOTO DE ANGOLA NA AG-ONU SOBRE A PALESTINA?

Ao nível da política internacional, a última semana de Novembro foi marcada pela votação ao nível da Assembleia Geral da ONU sobre o estatuto da Palestina que passou, fruto da votação naquela instância, a membro observador das Nações Unidas, entretanto, sem direito a voto.
“Por maioria, a Assembleia-Geral da ONU reconheceu a 29.11.2012, a Palestina como um Estado observador não membro”. A resolução foi aprovada com 138 votos dos 193 da Assembleia-Geral, com nove votos contrários dos EUA, Canadá, República Tcheca, Palau, Nauru, Micronésia, Ilhas Marshall e Panamá e 41 abstenções, entre elas da Alemanha (Sic. TVZimbo).
Vendo e ouvindo a notícia pela TV Zimbo (angolana) fiquei intrigado ao mencionarem os países abstémicos e os que votaram contra, sem no entanto apontarem qual terá sido o sentido de voto de Angola. Será assim tão difícil saber-se ou terá faltado alguma investigação dos nossos jornalistas junto da nossa diplomacia?
É sabido que tendo o Estado angolano reconhecido a OLP/ANP que estabeleceu uma embaixada em Angola, o nosso sentido de voto seria obviamente o afirmativo, pois até já se fez em tempos não muito recuados um linkage entre o sionismo judeu e o apartheid sul-africano. É preciso, porém, ter em conta que “em política não há amigos nem inimigos permanentes. Existem objectivos permanentes” que podem ser conseguidos com actores diferentes.
Foi assim que nos tempos da OPA (anos 80 e 90 do séc. XX) ensinaram-nos que “aos imperialistas liderados por Reagan (EUA) não se devia dar nem um palmo da nossa terra”. Hoje sentamos com eles à mesa e até “oferecemos” fazendas.
Qual foi o nosso sentido de voto na AG da ONU, na resolução sobre a Palestina?
- Até agora, nem a media pública, privilegiada pelas fontes oficiais, nem a media privada pro-entidades públicas, que também goza de algum "direito" de preferência das fontes oficiais e oficiosas, disseram como Angola votou.