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quarta-feira, julho 29, 2015

A ALEGRIA DOS LUKALENSES


Lucala, aldeia que dista dezanove quilómetros da vila de Kibala, no Kwanza-Sul, é uma comunidade que *sorri todos os dias*, apesar da poeira e do frio que fazem dos corpos de seus aldeões autênticas telas de arte pictórica.
-Aqui, o cieiro não tem dia e se você põe creme, ainda é mais pior. - Desabafa Rosa José, visitante em situação de óbito de um irmão, mas também ela natural daquelas cercanias.
Apesar do frio, que dizem se ter acentuado desde que a Fazenda Mbumba-Alunga construiu um dique de contenção de água que propicia a rega de enormes campos agricolas que fornecem batata do reino e outros agroalimentos ao mercado luandense e a algumas indústrias transformadoras, segundo o morador José António, o povo anda *muito satisfeito*.
- É que o povo já tem trabalho aqui perto e os empresários portugueses e brasileiros que cuparam as antigas fazendas também meteram cacusso no dique que já vai ajudando na alimentação. - Afiançou o camponês José António.
Quem se desloca a Lukala não precisa dos dados do censo de 2014 para se aperceber que mais de 70% da populaçao são crianças menores de 16 anos. Os agregados são compostos, em média, por 06 a 08 pessoas, não se contando aqueles que migraram para a vila (sede municipal) e Luanda em busca de estudos e ou melhores empregos para os homens que tentam a sorte nas construtoras ou negócios para o caso das senhoras.
- Aqui, o emprego é só mesmo na fazenda, onde o salário varia entre 10 a 12 mil Kwanzas. - Explica Nhange Manuel, empregado na Fazenda Mbumba-Alunga para acrescentar que, às vezes, uma pessoa com 05 filhos na escola, o dinheiro não chega para comprar os cadernos e os livros. Isso faz com que apesar de a Aldeia possuir uma escola com três salas de aulas que funciona em dois turnos, ministrando aulas a alunos da primeira à sexta classe, haja ainda uns que nao se trajem de batas brancas.
Em Lukala, enquanto uns se ocupam dos trabalhos na fazenda, outros tantos se ocupam da agricultura familiar, de onde provêm excedentes para o comércio. Os "kapuqueiros" também abundam e nao se coibem de o afirmar depois de umas canecadas, esfarrapadamente justificadas pelo excesso de frio julino.
- Nós, aqui, quando a frio aperta, a vida é mesmo essa: você passa num "katrungungo" e o frio bate
recochete. - Exibe-se Nhange, seis horas da manhã, já "katrungungado".
A pesca na albufeira da fazenda e outros biscates como o derrube de árvores para a queima de carvão, estiva de cargas diversas ou fabrico de adobes sao as fontes de rendimento dos lukalenses que optam pela queima da vida no vício alcoólico.
Fruto do surgimento de pequenos empregos agricolas e pequenos "negócios à beira da estrada" ja se vêem alguns sinais de consumismo e modismo. As antenas parabólicas vao substituindo os seroes à batucada e "xirimina" (folguedos com cançoes acompanhadas de guitarras).  Os geradores de electricidade roncam teimosos noite adentro aos fins de semana e os jovens se inspiram nos mesmos herois e vilões das grandes cidades do pais e do mundo. A "lampiagem" também faz morada em Lukala, não se aconselhando que o visitante se distraia, mantendo as portas da viatura abertas ou os pertences expostos aos olhos dos "amigos do alheio".
Quase que a copiar o verde dos talhões cobertos de  batata do reino, regadas por pivots um campo para os trumunos se apresenta a escassos metros da escola do primeiro ciclo do ensino primário. Os jovens com vivência luandina que para aí se deslocam, chamam-no de "capinzado" em alusão ao capim selecionado para substituir a relva habitual nos campos de futebol. Para as balizas, três paus, sendo dois verticais e um pregado horizontalmente, completam o "imobiliário. Não há demarcação com cal mas os caminhos trilhados para além do "capinzal" fazem as fronteiras entre a área onde a bola é jogável e onde se considera "bola morta".
Os ngulos, os cabritos e os bovídeos partilham a mesma água da albufeira o que torna vulnerável a saúde dos aldeões que precisam de percorrer cinco quilómetros até ao Posto Médico de Mungango ou os 19 quilómetros que separam Lukala ao Hospital Municial de "Kipala kya Samba".
Mesmo entre o que há e o que ainda falta ter, o povo sorri, porque afinal de contas há um bem supremo que é um facto incontornável.
- A paz que estamos com ela já nos faz viver com tranquilidade e construir nossas casas
sem medo de ser forçado a mudar para outra zona. Agora é só mesmo adobe e chapas que estamos a usar na construção. - Rematou António Katumbila, o soba da aldeia. 

TEXTO PUBLICADO PELO SEMANÁRIO ANGOLENSE A 11 DE JULHO DE 2015.

quarta-feira, julho 22, 2015

A PARÁBOLA DOS TRES RELOGIOS


Discutiam três colegas de serviço sobre quem de entre elas era a mais útil à organização. Suraya, esbelta de parar o trânsito, gabava-se de ser a mais elogiada e que tudo fazia para impressionar as colegas e a chefia todos os dias. Atendendo que os chefes tinham decidido ser madrugadores, ela, catadora de elogios, começou também a chegar cedo. Porém mal começassem a chegar os colegas sem olhos para montras ela se retirava para a sua sala onde se ocupava mais em buscar actualidade do mundo da moda através das redes sociais do que do seu trabalho que até estava clarificado no descritivo de funções. E gabava-se de sol a sol que era pontual. 

_ Nessa organização não há quem chegue mais cedo do que eu, por isso mereço promoção e uma gala para me homenagearem. _ Atirou, certa vez numa actividade social da organização.
_ Você, Soraya? Nunca. Nem pensar. Nem que a vaca fale! Chegas cedo, mas não és assídua. És uma pisca-pisca (dia sim, dia não vens) e quando se olha para os teus resultados parece que só são borboletas que caiem no teu cesto. _ Zombou Tina, outra colega que tinha a má fama de trabalhar apenas quando a lua estivesse no centro da circunferência celeste.

A discussão, aparentemente sem nexo, ganharia força quando chegou Rita. Rita era uma senhora da geração "Baby boom" que fora já reformada e recontratada devido ao seu apego ao trabalho e seu perfeccionismo naquilo que fazia. Não precisou de fazer parte daquela algazarra pois era exemplo de dedicação, bom desempenho e comprometimento. Vestia a camisola, via-se, mas não era tão pontual nem muito assídua devido aos compromissos familiares. Tinha, entretanto, uma agenda de encontros presenciais bem arrumada e não se atrasava às reuniões. Das suas poupanças tinha conseguido instalar telefone fixo e internet em casa, um computador, impressora e um scanner que lhe permitiam trabalhar "at home" e apresentar resultados surpreendentes.

Quando a senhora se fez presente naquela sala em que se comemorava o aniversário da organização, dois grupos miravam para ela toda a atenção. Uns, sobretudo aqueles que enxergavam qualidades e com ela procuravam aprender, seguindo os seus bons exemplos a aplaudiam e apontavam como a mais provável homenageada da noite como era hábito do titular de direcção daquela organização. 

Outro grupo, composto maioritariamente pelas gerações Y e Z cochichavam que a "velha" já estava fora de tempo e que naquele ano não levaria sequer um elogio do chefe. Apostavam mesmo que a "senhora dos mil prémios" como também era conhecida sairia dai banhada de lágrimas porque o tempo dela já tinha passado.

_ Essa tia que chega quando quer, até o chefe já sabe que ela é uma cansada e chata, o que que veio fazer? Acha que leva daqui alguma coisa? Atirou Gina, uma jovem que ainda nem era do quadro permanente de funcionários.

Quando o titular chegou, mal se dirigiu ao presidiu para cortar o bolo, chamou dois nomes: Dona Rosa, a mais idosa da organização, e Dra. Suraya, uma das mais novas e mais extravagantes, para junto dele.
Suraya já tinha distribuído beijinhos a todos, contando que seria a estrela iluminante da noite.

_ Chamei as duas funcionárias que refletem dois exemplos na nossa organização, disse o titular. A dona Rita é quase invisível. Chega numa altura em que todos já estão nos seus gabinetes, até os seus encontros são sempre depois das 8h30. A Dra. Soraya é das que mais cedo chega, das que é mais vista pelos gabinetes e corredores, porém a medição que temos vindo a fazer é por resultados.

_ A Dra. Soraya produziu durante o ano dois terços do que ganha e a Dona Rosa foi, directa e indirectamente, é responsável por um terço do resultado da nossa organização. Peço uma salva de palmas à nossa estrela da noite que ganha uma bolsa familiar para licenciatura. _ Disse o titular-

Pasmos, os mais jovens não perceberam por que razão a sexagenária iria estudar quando eles que se gabavam ter "toda a vida e todo o sangue para derramarem em prol da organização" ficariam em terra. Jaja e Soraya chegaram mesmo a questionar os critérios usados pela administração para encontrar o vencedor do prémio de funcionário. Uma alcandorou-se do facto de ser regular. Outra apregoou a sua pontualidade. Mas o presidente, astuto, contou-lhes a estória sobre os três relógios: um é de prata, toca o despertador à hora certa, mas não tem o ponteiro dos minutos. Outro é banhado em ouro e não funciona. O terceiro é de plástico metalizado e tem os ponteiros completos, marcando correctamente as horas e despertando à hora marcada.

_ Qual dos três me faz falta? _ Questionou o titular.

A geração Z optou pelo de ouro, alegando ser um adereço moderno e vistoso. A geração Y optou pelo de prata pois, dizia, embora mais modesto do que o primeiro, tinha algo funcional, o despertador que permitia ao titular não se atrasar nos seus encontros. As gerações M e X optaram pelo relógio de plástico banhado em metal por ser o que funcionava em pleno.

_ Pois é, todos parecem ter razão, mas o relógio que me apresenta resultados é aquele que funciona. Assim também são os funcionários, prosseguiu. Não basta chegar cedo, quando se vem, ou vir todos os dias em horários distintos. Pontualidade e assiduidade devem ser regulares, estando acima de tudo a produção. As organizações são talhadas para os resultados e não apenas para as presenças físicas dos funcionários. _ Deixou explícito o titular.

Todos compreenderam a mensagem e ouviu-se uma estrondosa salva de palmas em homenagem à sexagenária Rita.

Obs: Texto publicado no Semanário Angolense a 18.07.2015

quinta-feira, julho 16, 2015

FAZER DA CRISE OPORTUNIDADE DE MELHORIA

(MAHEZU 1)
A vida das pessoas e das organizações é caracterizada por um trajecto curvilíneo, com altos e baixos. Nos momentos altos dos nossos rendimentos e usufruto tendemos a atingir o ponto de acomodação e elaboramos a nossa estrutura de custos em função dos rendimentos, sendo, às vezes, menos atentos à poupança e a investimentos para suprir as dificuldades dos tempos de crise. Até as ideias inovadoras nem sempre surgem. Acomodamo-nos. E porque a vida é um ciclo com subidas e quedas, é no momento da pressão financeira, da falta de meios e de fontes de arrecadação e da crise que surgem os "ais" e os grandes homens, aqueles que fazem do mar de dificuldades oportunidades de melhoria e de exploração de novas soluções e uso de meios e técnicas legais até à data inimagináveis ou relegados a planos secundários.
Fruto da diminuição dos encaixes em moeda estrangeira pelo país, derivada pela baixa do preço do petróleo, uma commodity cujo valor é regulado  pelo mercado internacional, o Estado e as organizações empresariais vivem uma pressão financeira com origem externa. O equilíbrio da nossa balança de pagamentos externos para a aquisição de alimentos, medicamentos, máquinas, vestuários, produtos e serviços diversos não proporcionados pelo mercado interno demandam moeda estrangeira. Não sendo muito diversificada a nossa carteira de exportações, há toda uma necessidade de se pouparem os poucos dólares que entram e diminuir os consumos. É isso que faz até o Kwanza escassear. Perante o quadro, é importante racionalizar ao máximo, evitar também ao máximo todos os desperdícios, aumentar a produção e a eficácia e eficiência dos métodos. Os meios de trabalho e os materiais devem ser rentabilizados ao máximo, evitando-se a ociosidade. Para quê ter, por exemplo, em uso privado uma viatura que durante a jornada laboral fica mais de 50% do tempo parada quando uma outra pertencente ao Departamento vizinho fica o mesmo tempo ociosa? Se os dois Departamentos usarem uma só viatura, de forma coordenada, estarão a rentabilizar melhor o meio de trabalho e o tempo.
Vários outros exemplos podem ser elencados. Na era da digitalização, a tramitação de documentos, a redundância de cópias em papel precisa ser revista. Diminuir a impressão e optar pela digitalização pode ser outra oportunidade de capturas financeiras em termos de custos (papel e tonel).
E que tal da rentabilização das pessoas e do seu desempenho? Mais do que estar no local de serviço, o fundamental é trabalhar, evitar o absentismo, a lassidão e a ociosidade. Porém, é preciso cuidar da presença das pessoas cuja prestação e resultados não possam ser executados à distância. O controlo rigoroso das frequências torna-se fundamental para incutir uma cultura de disciplina,  responsabilidade e de meritocracia. O controlo de frequências centralizado ou biométrico é apontado como caminho. É preciso premiar os presentes e produtivos com o salário completo e outras regalias ou incentivos que possam existir. E se é legal e moralmente aceitável que quem mais trabalhe melhor seja recompensado, não será injusto isentar os faltosos e improdutivos com a inadiplência a alguns incentivos que as organizações tenham ou venham a ter.
É preciso que líderes e liderados encaremos a crise como um desafio a vencer e uma oportunidade de melhoria dos nossos processos, retirando dela as melhores lições para o aperfeiçoamento dos nossos métodos de gestão (caseira e  institucional).
Dita a tradição bantu que "é na pobreza e nas desgraças que as pessoas mais se unem". Façamos desta crise financeira um motivo de união, na busca das melhores ideias que nos levem às melhores soluções, busca de um maior comprometimento  com a organização e com o  trabalho para que, enquanto menos se espera, possamos cantar bem alto: fui parte da solução!
É que "os desafios e os problemas nos são impostos" mas as soluções dependem de nós.

quinta-feira, julho 09, 2015

MEUS SONHOS

A vida é um somatório de sonhos, uns realizáveis e outros utópicos. Mas é mesmo assim que se faz a nossa travessia vital (vida, trabalho): sonhar, projectar, realizar ou adiar. E quando por contingências alheias à nossa vontade não transformamos o sonho em realidade, projectamos alguém que nos ajude a chegar ao desiderato pretendido ou o transferimos para esse ente (um filho, sobrinho, afilhado, amigo, etc.).
Outra nota de realce é a felicidade que nos deve acompanhar na materialização do nosso sonho, não fazendo com que frustrações doutras origens atrapalhem o percurso, de forma abnegada e comprometida, do nosso caminho e nos impeçam de atingir as nossas metas.
Imaginemos alguém que tenha sonhado ser funcionário público, que se documentou sobre o regimento da FP, que se formou no instituto médio e ou universidade e que até fez cursos complementares para atingir o seu sonho e que depois concorreu a uma (nada fácil) vaga e tenha conseguido ingressar no funcionalismo público. Imagino que esse funcionário em vias de realizar o sonho de Servidor do Estado e prestador de serviços (intra-ministerial e interministerial) trabalhe feliz, atendendo seus clientes internos e externos com satisfação e alegria, não se entregando a "molezas" nem a faltas infundadas ou ociosidade no trabalho. Imagino o funcionário público do MGM comprometido e preocupado em aumentar os seus níveis de eficiência e proficiência. Imagino um funcionário que desaconselha a instalação de "livros de ponto" ou controlo digital de frequências porque ele é assíduo, é pontual, está sempre motivado e preocupado, todos os dias, em aumentar qualitativa e quantitativamente e sua produtividade. E vou sonhando que tal é possível com o despertar da consciência colectiva de que a Coisa Pública deve ser cuidada por todos, sendo que é do somatório da nossa responsabilidade e acção que depende o crescimento e desenvolvimento da nossa organização e do nosso país.
E sonho. Sonho com colegas felizes, que sem desrespeitar os seus "clientes", cantam quando trabalham e dançam quando andam pelos corredores. Funcionários que não deixam os processos para o dia seguinte nem induzem propositadamente os  seus responsáveis a erros de execução técnica ou de procedimentos.
É com esses que sonho todos os dias e com os quais conto: os motivados, apesar dos apertos financeiros que assolam o país e a função pública, os sempre alegres e disponíveis e aqueles que vestem a camisola da Organização.
Esses realizam o meu sonho de Funcionário público abnegado e útil.

quinta-feira, julho 02, 2015

JUST LOOKING

Mesmo com o termómetro a apontar nove graus centígrados, de um inverno Julinho da África do Sul, a moça vinha xuxuada em direcção ao Nelson Mandela Square, local onde convergem ruas, crenças e nacionalidades para as compras do dia-a-dia para os joaneburguenses e a indispensãvel mwamba e sovenirs para os visitantes. Tita (nome que decidi atribuir-lhe) ia de mãos dadas com o seu homem de companhia, marchando pelo passeio rigorosamente asseado da rua que se estende dde longe ao centro de convergência política e social. Bob, o seu companheiro, treinava os dentes com umas baumilhas compçradas metros atrás, enquanto Tita, vaidosamente vestida e com os postiços a encobrirem-lhe os ombros, terminava a degustação de uma banana comprada na feira de artesanato.
O collant xuxuado que lhe visitava o diafragma e a marcar os desenhos apelativos e as letras esculpidas no seu corpo juvenil, a lembrarem uma marca automóvel alemã, fazia adivinhar uma jovem com o miolo ainda em estruturação ou uma alma perdida.
- Deve ser uma angolana ou uma southafrican alienada. - Disse para os meus botões. E não tardou para que ela confirmasse o meu pensamento pessimista, sem mesmo que fosse necessário abrir a boca.
Como remoinho de vento que se organiza para, em força, atacar e derrubar tudo que lhe faça barreira, a jovem começou a rodopiar sobre si mesma. Desfez-se do damo com quem caminhava de dedos quase cafricados e abrandou a marcha. Olhou umas tantas vezes à direita  e outras tantas à esquerda. Virou a locomotiva para atrás e explorou tudo o que se aporesentava a frente dela. No meu imaginário rural, Tita fez-me lembrar uma galinha pronta a ovar mas que se certifica do lugar em que alojará a génese da nova vida.
- Será que a gostosa quer urinar ou quê? – Voltaram a cochicharam os meus atentos botões.
A rua estava copiosamente limpa e os jardins estavam molhados de rega. Na mão da "princesa" estavam em sobra as cascas da "benguela" e não se via nos metros dianteiros um contentor ou uma papeleira que a ajudassem a descarta-se do testemunho. Exactamente no momento em que cruzávamos, ouvi pronunciar um "excuse me" dirigido ao acompanhante que se manteve hirto, como quem esperava por uma desgraça.
- A mboa vai mesmo urinar na rua ou fazer coisa pior? - Voltou a questionar o meu íntimo inquisidor, enquanto Bob, o acompanhante dela, magicava, com certeza, outras ideias.
Passado a pente fino, Bob mais se parecia um recrutador de pérolas ou daqueles que só acompanham a dama para entregar a prenda a "quem de poder".
Eu seguia em sentido inverso ao deles, quase pregado à parede longitudinal. A "gostosa", como se achava que era, abeirou-se de mim, metendo o meu já hipertenso coração em cavalgadas.
- Será prenúncio de assalto ou pretensa procura de assunto que em tribunal possa resultar em acusação de assédio? Dizem que por essas terras não  pode olhar duas vezes à mulher alheia, mesmo que esteja em exposição. – Cogitei.
De seguida, cerrei todos os dedos e desviei o olhar, seguindo-a apenas de esguelha. E foi que a barona, fingindo um gesto de saudação a mim, jogou a casca da banana que tinha numa das mãos ao canteiro protegido por duas paredes habitacionais.
Movido pelo espirito organizador e higienicista que de mim se acaparou, ainda soltei um "please, don't do it", mas ela, tal rio que se afoga no mar, coberto de razão, não foi na minha conversa. Não recuou da acção e prosseguiu o seu caminho, preenchendo a mão vazia do seu amo que estava quieto e inseguro do que viria a praticar a sua dama.
Suspirei de alívio, pois não era assalto nem algo que me envolveria em sarilhos gratuitos, mas não tardou para que uma outra interogação, seguida de exclamação, me invadisse o pensamento.
- Ou Tita é mwangolê ou nem tudo são rosas na nação do arco-iris! Aliás, vi miúdas do ANC que nasceram em Angola e ela podia ter uns vinte e coinco anitos... - Ajuntei. Também me lembrei que mesmo na possibilidade do ensino e da  educação familiar produzirem só rosas ou muitas rosas por essas terras, a flor e os espinhos fazem a dupla numa roseira e que quem recebe a flor também se apodera de uma porção de esporões.
Segui o meu caminho até novamente à exposição de arte e artesanato, organizada propositadamente para atender com gifts das terras de Mandela os diplomatas e outros conferencistas internacionais que fizeram do Sundton Conference Center um areópago dos países membros da União Africana, com destaque aos então Países da Linha da Frente que procuravam posições concertadas no âmbito regional.
Na feira, denunciado pelo meu curto shakespear e vestimentas sociais, fui quase forçado a declarar a todos que me queriam vender qualquer coisa um "im just looking". Até a tradução de friend para amigo os mais "vivos" buscaram do google translator para me cativar e trocar os meus parcos rands por umas lembranças duradouras. Não é que alguém conseguiu mesmo? Uma pipa para tabaco que nunca fumo e duas porta-jóias para a "comandante geral" do kubico e sua primogénita fizeram parte do meu espólio de recordações da rainbow nation.
Já no hotel, seria a Sra. da fiscalização dos quartos a me atazanar o juízo com a sua dicção estranha ao meu pobre inglês.
- Can you write what you are saing? - Defendi-me, meio aborrecido, pois me estava a prejudicar a crónica do dia.
E ela, diligentemente, e com letra de uma doutora  emprestada a serviços menores, redigiu: do you need anything in the room?
- Only water. – Respondi. Apenas água que, apesar da sede que me apoquentava a garganta em pleno dia de friorento, nunca me foi servida. Terá sido um código? Se foi, confesso que apanhei do ar. Há já muito tempo que não navego nessas ondas de "mantas que respiram quentura com ajuda de George Washigton debaixo do travesseiro".
Recolhi-me e fiz do PersonalComputer o melhor tradutor das minhas experiências e vivências.
- Can I help you?
- Im just looking!

Nota: cronica publicada pelo Semanario Angolense a 27 de Junho de 2015

sábado, junho 20, 2015

EM BUSCA DO FUNJE QUE ME CRIOU


Um gajo na terra dos outros, mesmo que saiba falar a língua deles, sofre. Sofre por desconhecer os nomes dos “jangutos”, por desconfiança que se apercebam que és estrangeiro e te armarem uma arapuca, sofre porque viver uma “vida mulata” de curta duração, sofre com o frio ou calor se calha em viajar num período de clima inverso ao deixado na banda, sofre até com a falta de buracos, lixo nas estradas e canos de água rebentados a jorrarem a toa por tudo quanto é canto. Há países em que você vive bem mas sofre com a saudade das coisas boas e más da “matherland”. Passou-se comigo nessa curta escala pela terra do vovô Mandela.

Cansado de peixes, frangos e carnes adocicados e ajindungados servidos nos restaurantes e nos aviões, fui procurar numa esquina próxima ao Sundton Conference Center, zona chique de JOBURG, algo que se parecesse aos nossos pitéus angolanos. Setenta e duas horas sem “funjar” é um record a que só me submeto quando estou mesmo “na estranja”. Em casa não. Lá é o funje, sejam quais forem os molhos, quem mais grita. Aliás, o nosso funje é patriota e revolucionário. Não foi ele que nos aguentou e ainda nos vai aguentando quando o arroz e maça da importação falhavam nas lojas? Por isso, onde quer que eu esteja tenho sempre uma reinvenção da estrofe do célebre poema de Agostinho Neto: “Ao nosso funje, havemos de voltar”!

Nas proximidades de Sundton Conference Center as ruas estavam apinhadas de polícias com carros blindados. Sozinho, naquela rua com magnatas que chegavam minuto a minuto e alguns acompanhados de batedores, senti-me perdido para ir ao Nelson Mandela Square e conseguir os Rands para reforçar os "cheiros à maneira" e procurar um pitéu de verdade.

Verdade se diga, cheguei à conclusão de que o angolano cheira bem e não é a toa que quase todas as “mboas” do Shoping me estavam a colar que nem mosca na coisa.

- Hello, how are you. I have same thing nice for you. - A mboa, bué ancuda, fez um sorriso interesseiro e começou já, ali mesmo, a me "aproximar" para ver se me kasumbulasse uns dodós, só que ela se enganou mbora com a cara da pessoa. Os dodós que ela queria me tramankaram ‘mbora com eles há três semanas...

- I can´t speak english. - Defendi-me, procurando afastá-la.

A mboa até não era tutu, tutu, quando comparadas com umas aí que conheço, mesmo na “Ngimbi”. Mas ela queria é o meu “kumbú” ou confirmar se eu era estrangeiro “bunfunfado” para mandar me tramakar, sei lá mais quê.

- I can help you with my Google translater sound. - Voltou a atacar, tentando encontrar alguma fraqueza do meu lado. Mas eu, um gajo viju, com trinta anos a viver na Ngimbi não fui na conversa e comecei a fazer ouvidos desinteressados.

- I have no money. - Voltei a defender-me e sondando já por onde sair voado. A kindoza tentou ainda contra-atacar-me com o "but you smell well and dress like a government in a conference". Se era verdade ou mentira é já com ela. O que fiz foi dar uma de às e zarpar dali. Era hora de ponta e o Shop começava a apinhar-se de gente. Já tinha dado umas tantas voltas e não tinha encontrado a casa de câmbio. Também não dava para bandeirar. Os mwadyes podiam ainda pensar que um gajo é “mbalu”. Desculpei-me com o "Sorry, I have to go, mum", ao que acedeu, embora relutante e procurando mais prosa. Bazei.

Mal cheguei à esteira rolante, um outro tipo, que me recordou os “enganadores” do finado Roque Santeiro, abordou-me empunhando uma pasta e um pequeno embrulho que tinha uns mambos tipo anel ou outras joias: "Please brother. I have something very nice foy You". - Disse ele, abrindo a sacola e retirando um pequeno embrulho avermelhado em que se supunha estar o tal "something very nice fou you". - Respondi-lhe com um soletrado "I can not understand you because I no speak english". O “manga” ainda tentou insistir, acompanhando-me até ao fim da escada, mas eu apanhei a outra e continuei a trepar o edifício, somente de abuso. O indivíduo regressaria ao piso inferior para domar outra possível vítima, normalmente estrangeira e desavisada.

- Vai rezar caçar noutra coutada mazé, pá! – Disse para mim mesmo.

Era já a minha quinta volta e no sobe e desce, ora caminhando sobre escadas outra indo na boleia do tapete que, afinal de contas, faz muita falta a quem esteja cansado, a procura do “changing post”. Abro um aparte para questionar por que as nossas poucas instituições com aquele meio de transporte entenderam aposenta-lo antes mesmo da maturidade.
Na tentativa derradeira, encontrei o "changing post" e lá consegui uns poucos “Mandelas” que me levariam a caçar a funjada ou um parente próximo do pitéu que me fez crescermos. E não é que encontrei mesmo uma funjada de carne assada? Até os pólices de JOBURG abandonaram os postos (ou aproveitaram a renda) e foram se lambuzar com as mãos no sítio em que os rastas e outros artesões realizavam a feira de artesanato para os "foreigners se desdolarizarem” e levarem estórias do país do arco-íris para a casa. Só não consegui é fotografar os magalas a pitarem, sem vergonha e nem receio (como acontece por cá, entre as nossas gentes que se faz passar por europeus quando nunca sequer passaram o estreito de Gibraltar), a sua "papa and beef". E o canal entre o prato e a boca eram mesmo os dedos, sem kijila!

- How much this food? - Indaguei estrategicamente na ignorância do nome real do “janguto”. Porém, como azar não custa, a senhora que me atendeu na roulotte colocada sobre o passeio, lançou-me um "wich one"? Só que o “mwangolê” é vivo e, sendo libolense, um pouco mais ainda.
Encostei-me à roulotte, quase sentindo a sua quentura e engolindo aqueles cheiros que faziam um cão faminto fazer das narinas uma nascente. Fiquei entre um polícia e um kota negro, fininho, que tinha os cabelos penteados para trás e que falava uma língua distinta do inglês. Eles têm perto de dez línguas oficiais, entre as de origem africana e europeias. Reparei rapidamente nos dois pratos que a “mboa” acabara de servir e apontei ao que tinha uma pasta branca feita a base de farinha de milho.
- This one. Estiquei a mão para que mais dúvida não houvesse. E para que a sul-africana não desse conta do meu sotaque e da minha pobreza lexical, lancei de imediato um "how much"?
- Thirty Rands. If you want Coca, must pay fourty one rands.- Fiz as contas rápidas e saquei uma cédula "cabeça grande" que já tinha o “ngimbu” a sair da algibeira.
Levei o marmitex ao hotel, que ficava a vinte metros, onde, também com as mãos, para não ofender Shaka Zulu e seus ancestrais, devorei o conteúdo com o polegar, indicador e o dedo médio da mão direita. E soube a Libolo, nos tempos da minha infância. Só faltou Xxila!

Obs: crónica publicada pelo Semanário Angolense a 04 de Julho de 2015.

segunda-feira, junho 15, 2015

terça-feira, junho 09, 2015

A DIFICULTADORA DO FÁCIL


Em 31º lugar, do Top 100 Grandes Sul-africanos, Oliver Reginald Tambo, nascido em 1917 e Falecido em 1993, foi um político anti-apartheid sul-africano e figura de destaque do ANC) que lidera o país do arco-íris desde a queda dos segregadores de Apartheid. Tambo e Nelson Mandela foram membros fundadores da Liga Juvenil do ANC que em 1943 decidiu passar das simples petições ao governo segregacionista aos boicotes, desobediência civil, greves e a não-cooperação, valendo-lhes várias reprimendas de um governo agressivo, sem compaixão e que pretendia ver o negro sul-africano sempre debaixo da bota da minoria branca.
Ao "homem do Cabo Oriental" os Sul-africanos homenageiam com a atribuição do seu nome ao imponente aeropoerto de Joanesburgo. Se não fosse a manha duma conterra mwangolê duma empresa prestadora de serviços à SAA, teria tido uma viagem despreocupada. Tudo à hora, sem o “talvez” de outras companhias, algumas de bandeira.
Mal eu desconfiava que aquela cara tristonha tinha alguma surpresa desagradável e não tardou mandar-me pôr a mochila à balança.
- Deve ter apenas entre oito a 10 quilos, procurei convencê-la ao que não foi na cantiga.
- Está bem, vamos pesá-la e depois saberás se é para despachar ou levar em mãos.
Dez quilos batidos, sem mais nem menos gramas. Convencido de que levaria comigo a mochila, a moça corta o ticket de bagagem e põe  a mochila a rolar para o despacho.
- O voo será pequeno e por isso são permitidos apenas oito quilos. - Argumentou sem convicção.
Fiquei bwamado. - Oito quilos? Nem já no avião do meu serviço que é embraier 145 despacho esssa mochila. Será que a SAA vai voar hoje com Kazabula? - Questionei, sem que dela obtivesse resposta plausível.
- Moço já disse que é avião pequeno. Se tem computador tira já a mochila vai ser despachada. - Disse possuída de poder e arrogância.
 Dei meia volta e comecei a marcar os passos em retirada, procurando sorver um ar fresco que me oxigenasse a alma maltrada. Dentro de mim, à medida que fui pensando na figura cujo aeroporto me receberia quatro horas depois, vieram-me também ideias sobre como seria aquela moça se fosse uma branquela, filha de boers, no país do sol nascente e no tempo em que Mandela, Walter Sisulu e Oliver Tambo desafiavam os cassetetes e as balas dos opressores. Teria sido, com certeza, mais uma das que não se cansaria de lavar as mãos de sangue alheio. Preferi chamá-la apenas nas minhas viagens ao pensamento por a dificultadora do facilitado, nome que lhe cai à medida.
...
Continua
...
Obs: crónica integral publicada pelo Semanário Angolense de 21 de  Junho de 2015. 

segunda-feira, junho 01, 2015

A CAPITAL ESCOLHIDA POR "MANO ANTÓNIO"

Nunca entendi por que razão Agostinho Neto escolhera Lucapa como "futura" capital da novel província criada em 1978 e por que a nova centralidade foi erguida no Dundo, mais distante de Luanda, do que Lucapa. Nem cheguei a descobri-lo nessa primeira entrada na "penúltima cidade do nordeste". Apenas pude contemplar a exuberância da planura do espaço que "mano António" quis como capital da "Lunda wa kusangu". Um espaço que se estende de norte a sul e do leste a oeste afundando-se em ribeiros que tanto supririam a cidade de água potável, como conduziriam as descargas pluviais aos afluentes do Nzadi até chegarem ao grande "kalunga lwiji".
- Bom dia, mano. A viagem está a correr bem? - interpelou o policia.
- Sim , chefia. Respondi-lhe com atenção. Mas ele se dirige ao lado oposto e coloca as mesmas perguntas aos meus passageiros.
- O mano não abre a boca? Questionou o policia ao meu acompanhante que ocupava o assento traseiro.
Lembrei-me que era um teste para se certificar se éramos nacionais ou não, sem que fosse necessário pedir os nossos documentos de identificação. Provoquei uns gracejos e os meus dois passageiros abriram as bocas, ensaiando um português sem sotaque afrancesado.
- Podem seguir. Boa viagem. -  Ordenou o polícia, três riscos em cada ombro, ao que obedeci.
Minutos depois cruzávamos Lucapa ...


Nota: Texto integral publicado no Semanário Angolense de 05.06.2015.

quinta-feira, maio 28, 2015

HÁ VEZES EM QUE A "BOA PENA" NOS PASSA AO LADO

Será apresentado hoje, (28.05.2015), à tarde, na cidade de Saurimo, Lunda Sul, a obra "Em busca da dignidade" da autoria de Rotane Sandjimba.
Quis o Dr. João B. Abreu Manassas, Vice-Governador da Lunda Sul para a área política e social, que eu fizesse a apresentação da obra, prefaciada pelo antropólogo Américo Kwononoka, ao público de Saurimo.
Em viagem para Luanda, apenas pude ler, durante os 1h15 minutos de voo, as primeiras 70  de um total de 90 páginas, sentado ao lado do governante que me mostrou e emprestou momentaneamente o livro.
Conclui que:Conhecedor do seu país, suas gentes, vivências e peripécias, o autor atribuiu uma "agenda" de acontecimentos a um personagem/narrador (Mingoso) que percorre o país, da cidade ao campo, do aplausível ao abominável, e traz-nos uma fotografia real de uma Angola (que sangra e que chora) não distante no tempo, dando ao romance relevância histórico-sociológica.
Resumo o livro de Rotane Sandjimba em apenas quatro palavras:
- E tudo isso aconteceu!

segunda-feira, maio 25, 2015

GRITO DOS LEV'ARTEANOS DA LUNDA SUL


Kyatukambe kyene kyatutolesa “O que nos falta é o que nos enfraquece” (Mulele S/D).
A Mediateca de Saurimo, inaugurada há bem pouco tempo, pretende atingir um universo de 2000 utentes/dia. O problema “que está com ele” chama-se falta de leitores/pesquisadores.
Solução: convidou como activista junto da classe estudantil o Núcleo Lev’Arte da Lunda Sul, instituição vocacionada para promover a arte e a literacia, fazendo palestras nas escolas do I e II ciclos do ensino geral e Institutos superiores politécnicos. Sendo algo vocacional a que os jovens do Núcleo se entregam de forma altruística,  até aí não se veria dificuldade, mas há um:
Problema: O Núcleo não tem apoios financeiros (excepto de um amigo FM) nem das instituições privadas e muito menos públicas. Para levar os estudantes à palestra, na Cinemateca (evento desta) o amigo e orador convidado pelo Núcleo teve de transportar os estudantes na sua viatura. Os organizadores dos eventos que recorrem ao Núcleo para mobilizar os estudantes acabam repassando toda a responsabilidade ao Núcleo, aproveitando-se do dinamismo da juventude que se põe ao sol ou ao frio do kasimbu nordestino.
 
O Núcleo Lev’Arte da Lunda Sul grita: só queremos levar/promover as artes. Ajudem-nos a ajudar.

quarta-feira, maio 20, 2015

ME BOCOLARAM MBORA OS BRAÇOS NOS "DA POSE"...


Os "da pose" são uns mwadies que andam de moto com sirene e que usam  umas calças bwe buluadas e uma botas que visitam os joelhos, tipo tropa hitleriana. São os para-militares que uma vezes regulam o trânsito autpomóvel e outras vezes criam também alguma kavwanza à circulação e ao cidadão desprecavido.
Trafegando de Luanda ao Dondo, onde a degradação da rodovia é acentuada, com necessidade ingente de apressados remendos que se colam aqui e acolá, as empresas remendadoras interditem alguns troços da via separada por uma máscula linha de betão, separando os sentidos. Nessa sua empreitada, os remendeiros vão obrigando que todo o tráfego se realize, ora somente à direita do separador, ora somente à esquerda. Outras vezes ainda, a inexistência, nalguns troços, de marcas de asfalto e o afundar das crateras abertas na plataforma desaconselham trafegar sobre o lado correcto, refugiando-se ao sentido oposto ao permitido. Seja uma ou outra a razão, todas associadas aos enormes e constantes buracos, os tripulantes são, vezes sem conta, surpreendidos pelos "da pose" que se entregam descaradamente aos kwanzas, tendo como preferidos os expatriados mas não poupando também os nacionais, a quem, antes da extorsão lançam antecipadamente a pergunta “é nosso colega”?Aos que respondem sim, são mimoseados com outras perguntas e senhas que só eles dominam. Aos que respondem não vêm seus documentos no bolso do motoqueiro que os leva a uma sombra onde o filme se desenrola.
- Vocês não sabem que andar em sentido proibido é crime? Vão pagar multa em Ndalatando e quem tem pressa fala já. – Atira o homem da moto, fortemente “guardado” por um PM “caenche” que não abre a boca, mantendo apenas o respeito e algum medo através das carnes que se invadem do camuflado apertadíssimo.
- Então o chefe já não nos pergunta porque razão trafegávamos nesse sentido? O chefe não sabe que há obra no lado em que devíamos seguir? - Tentou ainda apelar um dos  “atuados”, mas sem que lhe desse ouvidos no sentido racional em que pretendia levar a conversa.
- Já falei. Quem quer “conversar” e ultrapassar a situação fica no meu lado direito. Quem quer ir pagar multa em Ndalatando também pode falar. – Voltou a ameaçar o “da pose” que chamou de imediato uma cidadã chinesa que acompanhava o condutor também chinês, ao que se soube, não dominava ainda o português e a língua dos “da pose” .
- Chinês, queres pagar dinheiro ou queres factura? Perguntou o motoqueiro depois e  interpelar oito condutores que trafegavam em sentido contrario devido a obras na via habitual.
- Amico, fatula não. Eu pacale já muluta no amico. – propôs a senhora enquanto o companheiro que dirigia a viatura se mantinha dentro dela.
- São cinco saldos (5 mil). Vai já buscar.- Ordenou autoritário o “da pose”, sem a mínima vergonha ou receio que entre o grupo de nove automobilistas pudesse estar um seu colega, chefe ou mesmo inspector.
- Amico, tem só tem ndoji mili. - Respondeu a acompanhante do  condutor chinês.
- Não. Chinês é cinco. Senão passo factura. Posso? – Ameaçou o motard.
- Amico, toma sexi mili. Ndá toloco nde mili. – Respondeu a senhora já com as três cédulas na mão.
O homem encostado à mota sacou os documentos e os exibiu à senhora.
- Toma, vai já. Não sabe que policia não dá troca? – Despachou-a, entregando-lhe os documentos que nunca foram conferidos.  E la se foram os “chinocas”, reclamando o troco, mas sem argumentos para derrubar o polícia de trânsito que prosseguiu a negociata, desta vez, com as nacionais.
- E você. Qual é a maca?- Indagou a um dos automobilistas que não abrira a boca até aquele momento.
- É a mesma do sentido contrário, devido a obra na via ascendente. - Respondeu-lhe esperando uma análise da situação.
- Você é do MININT? Ou da defesa?- Questionou o polícia que parecia desconfiar da postura do seu interlocutor.
- Sou civil.- Respondeu o condutor, até então silencioso.
- Se são todos civis, são dois saldos cada um. Já disse. Estão teimosos? Vão a Ndala pagar a notificação. - Voltou a ameaçar o “da pose”, como são chamados os motards da polícia de trânsito.
- Ngana Xiku ya ngoji, tu loloke. Twala uya kutambi. Ngala ngo nyi kondo imoxi. – Explicou, em Kimbundu, o motorista mais inconformado, para pedir: junta já ao troco da minha colega para completar os dois saldos.
(Senhor polícia, perdoe-nos. Estamos a ir a um óbito. Tenho apenas mil kwanzas).
O homem da farda azul marinho, que fingia preencher as notificações com o rosto coberto de rugas, mirou-o fixamente e retorquiu: qual tua colega?
- A chinoca, chefe. É minha colega de desgraça e deixou troco, chefe!
O "da pose", três riscos no ombro, tipo sargento do antigamente, mas é apenas distintivo de agente, olhou para o interlocutor e abriu um sorriso fingido, estendendo-lhe também os documentos.
- Toma. Vão já, mano, e cheguem bem "no" óbito...
Nota: Texto publicado pelo Semanário Angolense em 2015. 

domingo, maio 10, 2015

ME TRAMANKARAM MÔS DODÓS…


Embora não se saiba quando, precisamente, aconteceu essa estória do tramankanso dos dodós, o “fala que fala” apimentado à moda angolense já leva tempo. Ano e meio, mais ou menos.

A cena deu-se entre dois homens e duas senhoras que desenvolveram uma amizade quase parental. Os homens tratam-se por pai e filho, mesmo vivendo, o mais velho, kota Agê, na Tuga e o mais novo, ndenge Dimuka, originário e residente nas terras de Ngola, junto ao maior ribeiro que empresta o nome ao papel moeda. As senhoras, uma, a Kaxinda, diz-se filha de Dimuka, embora se tenham conhecido virtualmente e nunca se tenham avistado "caralmente" como diz o pretenso mas assumido pai. A outra, Dina, também conhecida como “tia dos dodós”, é tuguesa que faz vai e vem, levando umas imbambas trocadas entre o também tuguês Agê, o filho Dimuka e a neta Kaxinda.

Certo dia, Dimuka precisou de livros e pediu-os ao pai que os custeou e os enviou por correio da Tuga às terras de Ngola. Embora sobrevivendo da reforma, Agê, na sua mania da geração dos valores e desprimor às moedas, acabaria por relutar em passar a factura ao filho.

- Olha filho, já tens os dois volumes no correio. Pena é que o custo da transportação é tão alto quanto o da aquisição, mas vais gostar. _ Agê  recomendou a atenção de Dimuka ao post box nos dias subsequentes.

- E quanto te devo, ó pai? É preciso que as contas batam certo para que me possas voltar a ajudar, apelou o filho mesmo sabendo que só muito dificilmente receberia a factura com todos os cêntimos.

- Ó filho, não te preocupes com o dinheiro. Já tive algum e fugiu todo. Os meus amigos e os filhos, biológicos e afectivos, é que me dão a graça de viver, mesmo sem as coroas doutro tempo. _ Escapou Agê.

Dimuka, sabendo do custo dos dois livros, multiplicou-o por dois e cuidou de arranjar os dodós equivalentes na moeda tuguesa. E quase conseguia fazer a operação de envio digital se não fosse o aperto que os banqueiros afinaram às remessas para fora. A crise do ouro negro tinha transformado os dodós em moeda rara quer nas terras de Ngola quer nas de Camões e arredores. Dimuka teve de procurar por Dina dos dodós, que estava de malas aviadas para a antiga metrópole, a fim de levar as apetecíveis verdinhas embrulhadas num lencito de seda perfumado a preceito e as entregar ao seu benquisto pai.

- Coisa que vai à estranja tem de chegar bem cheirosinha. _ Disse para si mesmo Dimuka, antes de entregar a encomenda.

- Podes confiar, Sô Tor., Tão logo baixe o pé no Figo Maduro (nome aeroporto) eu ligo ao teu papai a informar e a combinar o encontro. _ Disse a mulher banhada de satisfação.

Trocaram cortesia e sorrisos. Tudo caminhava a preceito. No dia seguinte, Dimuka recebeu uma chamada a confirmar que Dina tinha chegado bem e falado já com Agê. Dimuka esfregou as mãos de contente. Mais ainda quando recebeu os agradecimentos do pai, embora tivesse terminado com a sua célebre frase, já canção, "o dinheiro faz pouco na minha vida". Tanto de um lado quanto do outro reinou a sensação de confiança.

- O infante é de palavra. Meninos assim é que dava para adotar na juventude. _ Terá desabafado Agê ao desenrolar o lencito de seda carregando umas folhinhas que valem ouro.

- Esse kota é mesmo um tuga mwangolizado. Quem me dera que tivesse ficado connosco quando se deram as vundas do tunda mindele? _ Desabafou Dimuka que me contou presencialmente a sua versao dos factos.

Mas não era tudo. Kaxinda, candidata a escritora, tinha contas por pagar numa editora livreira da estranja e debatia-se com a carência de folhas verdes decoradas com bandeira do tio Sam. Já o tinha comunicado ao pai adoptivo Dimuka e ao vovô Agê que prometeram "ajudar na medida do possível", mas num tempo que não se encurtava.

Numa altura em que Kaxinda desesperava, Agê deu ar de sua Graça. Ligou à Dina pedindo-lhe se podia levar os dodós de volta às terras de Ngola e, desta vez, os entregar à Kaxinda. Conseguido o agrément, telefonou à neta:

- Ove lá, minha neta, teu pai pagou-me os livros mas vou te enviar o dinheiro para ajudar no teu livro. São três folhinhas que valem pouco mas que ja dão um pequeno impulso. Guarda sigilo e não lhe digas nada, está bem? Boa sorte. Uma dona, a Dina, mulher linda séria e inteligente, vai te contactar quando chegar por aí. _ Segredou Agê, ao que mantiveram, neta e avô, a conversa longe de Dimuka que continuou a sua vida e a  sua interação ora com o pai na estranja ora com a filha incógnita que reside a 1200km de distância.

Terminada a transumância invernal, Dina regressou ao antigo ultramar onde decidiu juntar patacas, sendo surpreendida, ao que se conta, com a subida vertiginosa do custo de vida e cada vez mais difícil acesso às verdinhas.

- Estou nas margens do Kwanza onde é esse rio quem todas as contas paga, vou levar à neta do Agê alguns litros dessa água milagrosa e fico com as folhas verdes, verdinhas como o café ribeirinho do Kwanza. _ Filosofou Dina dos dodós.

Na manhã do dia seguinte, Kaxinda, que já sonhara com os dodós vindos da Tuga, receberia os litros do Kwanza.

- Ei-los, filha. Foi teu avô q'os mandou p’ros netos, os teus filhos. _ Atirou Dina esboçando um sorriso matreiro.

- Kwaaanzas, mô Deuju?! E os môs dodós que o vovô me segredou? Ai wé, Ngana Nzambi, me tramankaram mbora môs dodós do livro na Tuga...

E foi esse o grito que se ouviu de Kabinda ao Kunene e da Matamba a Galiza. Já correu muito tempo mas o “conta que conta” vai avivando a cena e com novos detalhes ajindungados.


Nota Prévia: tramankar é um termo do calão luandense do séc. XX que equivale a furto ou apossar-se de algo alheio sem que haja contacto com a vítima. Texto publicado pelo Semanário Angolense a 09.05.2015.

terça-feira, maio 05, 2015

TÁCTICA DE "KAMBUDI"


Se ngulu te convida para uma peleja na lama, território dele por excelência, aluga o kyombo, primo de ngulu. Ambos se estrebucham prazerosamente na lama/podridão sem pôr a tua reputação em maus lençóis.
E se ngulu derrotado pelo kyombo selvagem se for queixar à polícia, tu podes aparecer de fato branco, acudindo kyombo.
Nunca lutes com ngulu na lama. É território dele e podes sair enlameado/sujo.
Assim pensei ocasionalmente.

sexta-feira, maio 01, 2015

A POBREZA QUE O TUGA NÃO VÊ


Nos meses de Março, Abril e Maio, Portugal, e concretamente Lisboa, é uma cidade muito iluminada. Não porque noutras estações do ano falte luz ou energia eléctrica como aqui (Angola). Não. É o sol que se prolonga, para além do raiar que é madrugador. E quando o sol não se põe ao Atlântico, o angolano ou africano recém-chegado às terras de Vaz de Camões tem dificuldades em buscar a quentura dos colchões e lençóis que o aguardam no hotel ou noutra albergaria.

No centro da cidade de Lisboa, o El corte Inglês, a Praça de Espanha, a Fundação Gulbenkian e outras paragens que incluem restaurantes, bares e tascas para “frascos” (imperiais e pomadas) e cafés são referências quase que obrigatórias para visitas periódicas e diárias.

Há porém quem pretenda viver um feriado, visitando os enormes centros de compras ou mesmo, vestido à paisana, enfrentar a enchente na Praça do Relógio (uma espécie de Roque Santeiro organizado). Só que não tarda, a repetição mata o espanto e a preferência começa a ser a cidade subterrânea, o metropolitano de Lisboa, com a sua grandiosidade crescente, que nos remete há alguns séculos de atraso se não corrermos a bom passo e com qualidade.

Aqui, no metrô, surge então a importância do mapa de Lisboa, ou seja, dos transportes públicos da cidade. O Metrô, com as suas quatro linhas: a vermelha-Alameda/Oriente; a verde -Cais do Sodré/Telheiras; a azul -Baixa-Chiado/Amadora Este e a linha Amarela que vai do Rato a Odivelas é meio de transporte público mais procurado, quer por nacionais quer pelos turistas, levando-os aos mais recônditos sítios da capital lusa, às vezes, com os préstimos do comboio de superfície, das carreiras, do táxi e até de amigos. É para tal que existem os amigos, quanto mais não seja para pôr a "fofoca" em dia.

- Comué na banda, tá-se? - Pergunta o Pedro, 20 anos na tuga e sem meios ainda para regressar. Finge um sotaque lisboeta mas nota-se no encadeamento das palavras a fraqueza do vocabulário e a mistura entre português lusitano e um calão já arcaico deixado no auge da sua criação em Luanda.

- Yá! vive-se. Há crescimento.  - Responde-lhe o amigo João Manuel, turista de ocasião que frequenta uma formação profissional de duração intermédia.

E o teu regresso? – Ataca João Manuel, procurando encontrar uma resposta convincente sobre a sua estada na antiga metrópole, numa altura que até os tugas se colocam na fila da frente para atacar as terras deixadas em 1975.

- A minha volta? Daqui há nada. É só tempo de reunir uns farrapos e completar a mobília. – Justifica-se, enroladamente, Pedro que, ao que se diz, já dormita debaixo duma ponte quando não é a sobra da estátua dos heróis que o abrigam em tardes de sol abrasador.

São essas as conversas nos cafés e noutras andanças entre os que vão a Portugal em missão turística, estudos ou de trabalho e os que lá ainda estão nas bumbas precárias, nas pedreiras ou nos bares.

Pedro, um jovem nascido no Cazenga e que nas refregas de 1992 entendeu vender à socapa a cubata da mãe e emigrar para a tuga, que na altura “batia” é um dos que, envergonhados por nada terem amealhado durante o tempo de vacas gordas por lá e balázios por cá, enterraram a vida na copofonia para enfrentar o frio. Erguem hoje terras alheias a troco de migalhas, que dizem ser bem maiores do que aquilo que nos vai ao prato aqui no país, algo que até o pior dos cegos já vê e desmente.

Ainda na Tuga, é no metropolitano de Lisboa que a África se casa com a Europa civilizada. Em cada paragem, o modo poético de estar europeu é sempre cortado ou pela brutalidade de um homem do leste europeu que ignora a leitura dum jornal, preferindo a fala, ou pela harmónica de um pedinte qualquer. E os pedintes que aumentam dia após dia, são homens de todas as idades e sexos.

Na linha azul do metropolitano, por exemplo, é presença obrigatória a de um cão kabiri, aparentando apenas dez semanas, viajando em ombro forte dum rapaz também nos seus dez anitos que chama a atenção de quem é atento a essas coisas. O silêncio corta até os murmúrios dos africanos sempre dispostos a debates. O rapaz faz chorar a harmónica com o farfalho de seus dedos. Não tarda, chovem moedas no copo descartável amarrado ao instrumento musical. A cena se transfere para a carruagem seguinte, e a pobreza ruma até à morte.

Os africanos mudam de linha mas a estória continua. A peça seguinte é executada por dois adultos de grande compleição física. Dir-se-iam, no nosso linguajar, “caenches” de primeira hora. Um leva no colo uma guitarra e o outro uma harmónica. Soa um fado e os portugueses são os primeiros a aliena-los com moedas. De repente, irrompe uma voz incómoda entre os africanos.

- Não há por cá subsídio de desemprego?

À pergunta se segue o silêncio e só as moedas falam no copo. A moda antiga de dar pão ao pobre ou uma sopa morreu. Era uma vez. Passou à história. Ao menino que se devia dar uma escola, pois o pepino ainda pode ser torcido, dão-se moedas e todos aderem até os Padres que se fazem transportar na carruagem. A formação profissional é negada aos jovens desempregados a troco de um fado barato e ainda dizem que problemas como estes só estão em África. Todos vêem, mas fingem não estar atentos ao que lhes queima a barba, porque só o Marburg em Angola é preocupação, só a Dengue em Timor ou cólera em São Tomé matam. Ninguém quer ver. E lá se vai o metropolitano com uma estória que já virou história.

Todos os dias em todas as paragens, o mesmo cão no ombro do mesmo rapaz, o mesmo fado na mesma carruagem e o mesmo dinheiro.
NB: Crónica (ainda actual) escrita em Lisboa, a 4 de Maio 2005. Versão publicada a 18 de Abril de 2015 no Semanário Angolense.

quarta-feira, abril 29, 2015

OLHOATENTO (MESU MAJIKUKA): 10 ANOS!

Numa sexta-feira de Abril de 2005, a partir da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Católica de Lisboa, escrevíamos o texto que se pode ler abaixo. De uma brincadeira que visava entreter os colegas ao curso idos de Angola (Alves Fernandes, José dos Santos, Pe. António Estevão e Carolina Barradas), Moçambique (Ouri Pota, Josina Taipo, Faruco Sadique e Pe. Abel), São Tomé (Manuel Dande e ..., Cabo Verde (Hulda Moreira e mais um companheiro) e Guiné Bissau (dois integrantes), nasceu um Bloque de referência nacional que serve de consulta alternativa e fonte de informação para alguns jornais convencionais.


||Sexta-feira, abril 29, 2005 "Olho Atento", Edição nº 1 de 29 de Abril Folha de actualidade sarcástica Director: Soberano, LC. Edição nº: 1. Preço: E.1
 .........................................................................................................................................................................EditorialPrezados Caros leitores,”O olho” é um projecto que surge para criar um ambiente sarcástico, alegre e de interacção entre os participantes ao terceiro curso de jornalismo destinado aos PALOP.A ideia mestra é fazer com que todos leiam e escrevam sobre si mesmos e sobre colegas, sem tocar a máxima intimidade. É também um barómetro sobre o impacto do sensacionalismo aos olhos dos jornalistas dos mais diversificados órgãos, como é a composição deste grupo._Qual a nossa reacção quando os visados somos nós?Não sendo apanágio da folha a exposição gratuita de quem quer que seja, é garantido o direito de correcção e de resposta.Tudo o que “o Olho” vê é notícia, a confirmação vem depois.Mãos à obra!
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O Cacho deDendém e o Kilate do DiamanteJá era conhecido o peso do Dendém e os seus eternos pesadelos durante ás aulas. Que o Diamante índico também era tão sonolento, era ainda novidade."O Olho" que não dorme viu Dendém e Diamante em sono profundo na AACS, dormindo que nem "crianças em festa rija".A dormirem como dormem "O Olho" só se interroga sobre o que terão a transmitir nos órgãos de procedência.
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Há matanças no D.Manuel I Paraquedistas, políticos e até governantes estão entre os mortos.Todos os dias chegam relatos de todos andares sobre suicídio de menores com segundos de vida terrestre."O Olho" tem equipa de repórteres espalhados pelo Hotel.Dados actualizados apontam o quinto piso como o que regista maiores índices de infanticídio. A PSP já foi contactada, mas a colecta de provas está dificultada, já que as mortes acontecem em jejum, ou seja nos WC.Uma lista detalhada pode ser publicada nas próximas edições, contando para o efeito com os préstimos da “Rádio Boca” de Ouri Pota.
.........................................................................................................................................................................Ratzinger “O Biscateiro”
Tirou o véu e mostrou que é homem com H de Hospital. Ou seja homem de carne e ossos. Juntando o útil ao agradável, Ratzinger que visita Lisboa aproveita conviver com os peregrinos que tiram pecados em Fátima, onde se diz recebe alguns troquititos pelas penitências que “receita”.“ O Olho” sabe que em horas esquivas, Ratzinger já apontado pela media portuguesa como bom apreciador de vinho do porto não perde ocasião para apreciar umas boas birritas.O também comunista difere em muito do “Bispo Tonho” resguardado à santidade cristã decadente.Não larga a túnica mas cadé a bíblia?
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................................................................................................................................................................... A Capital: Faz 4 anos amanhã. Editor-Chefe promete frascos.
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LAC_Luanda Antena Comercial. 95.5 para Luanda e arredores.
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Não castigue o estômago. Usura não é obra do passado. Receba 10 e pague 12. FB-Negócios. No 705-H-DM I. Lisboa.
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Angolano, 30 anos. Vende-se.
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Na próxima edição: Saiba quem foi ter com a Nancy para um adiantamento da segunda tranche. Caracterização do angolano e "As paqueiras" do Queiró. Não perca!http://olhoatento.blogspot.com!||