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sábado, maio 25, 2024

A MOTIVAÇÃO NO MINISTÉRIO DE GEOLOGIA E MINAS

Levei à consideração dos leitores a obra científica A FALTA DE MOTIVAÇÃO: Um estudo de caso no Ministério de Geologia e Minas.

Leiam, reflitam, apliquem os conceitos e as recomendações, melhorem e façamos da nossa administração pública um bom sítio para se trabalhar e buscar serviços.

A falta de motivação e o impacto nos colaboradores: um estudo de caso no Ministério da Geologia e Minas é um trabalho relevante que aborda a questão da motivação no contexto organizacional. Vamos explorar os principais pontos desse estudo:

1. Contexto e Problema:

o O Ministério da Geologia e Minas em Angola enfrentava desafios relacionados à motivação de seus funcionários.

o Infelizmente, muitas organizações em Angola não implementam políticas e acções voltadas para a motivação dos colaboradores, especialmente em organizações públicas.

2. Principais Causas de Desmotivação:

o O estudo identificou que o ministério estudado não realizava políticas e acções voltadas à motivação.

o Os funcionários estavam desmotivados e as principais causas estão relacionadas à remuneração insatisfatória e à falta de reconhecimento.

3. Impacto no Desempenho:

o A falta de motivação pode impactar negativamente no desempenho dos colaboradores.

o Quando o trabalho perde o sentido para o funcionário, gerir qualquer actividade torna-se um grande desafio.

4. Ambiente Organizacional e Liderança:

o A liderança deve repensar sua actuação para melhorar o ambiente organizacional.

o As instituições públicas em Angola não possuem métodos eficazes de valorização dos funcionários, o que contribui para a desmotivação.

5. Metodologia do Estudo:

o O estudo utilizou pesquisa bibliográfica, quantitativa e o estudo de caso.

o Um questionário foi submetido a setenta funcionários do Ministério da Geologia e Minas.

6. Conclusões:

o Avaliar a motivação é simétrica à avaliação da recompensa.

o A liderança apresenta um perfil aproximado à média geral.

o Variáveis sociodemográficas condicionam e determinam os resultados globais.

O estudo destaca a importância de investir em políticas de motivação para melhorar o desempenho e o ambiente de trabalho. A falta de motivação é um problema sério, e as lideranças devem buscar soluções para valorizar seus colaboradores. Os funcionários do MIREMPET podem lê-lo na Biblioteca do Ministério, 16º andar.

A ensaísta Edmira Cariango Manuel considera que "Estamos perante um livro para gestores de pessoas. Por meio desta publicação, o autor convida o leitor a uma viagem de reflexão sobre um tema que tem sido muitas vezes levantado, mais fora do que dentro das organizações. Foi pelo questionamento e pelo desejo de saber "até que ponto a falta motivação influenciaria os resultados e a produtividade dos funcionários" no então Ministério de Geologia e Minas que Soberano Kanyanga, enquanto funcionário da instituição e em formação na Universidade Fernando Pessoa, realizou a pesquisa quantitativa sobre "a falta de motivação e o impacto nos colaboradores". É um estudo que não perde o seu valor, dada a transversalidade do comportamento dos integrantes da administração pública angolana. O trabalho serve também de peça constituinte da história da instituição no concernente ao tratamento dado à questão da gestão do capital humano, das mudanças operadas e das suas transformações. 

Uma das qualidades deste estudo é a sua abrangência para a compreensão de grupos sociais e dos seus tipos de comportamento e concepções em relação ao trabalho... Kanyanga leva-nos a compreender as dinâmicas do espaço geográfico e os seus condicionalismos e influências para a motivação ou a falta dela.

Ao lermos este estudo, ficamos satisfeitos e auguramos uma continuidade, porque a própria pesquisa provoca.

Aventamos, através de um olhar para o futuro, a possibilidade de este estudo abrir caminho, dialogar e motivar (sem falta) futuras pesquisas em outros contextos. Fica claro, a partir desta sua contribuição, que cuidar do capital humano deve ser feito com humanismo e, quanto mais for com razão e clareza, melhor, porque o desenvolvimento de uma empresa/instituição e de um país dependem muito do seu principal activo, as pessoas, que não dependem apenas das regras da disciplina diária e rígida, porém, de algo mais, que não é simplesmente de ordem material. 

Que as pessoas e as organizações possam tirar proveito desta singela contribuição".


quinta-feira, maio 16, 2024

ANDANDO POR MAPUTO

(Tudo parece arte, até a "dourada")

Completar-se-iam 30 dias de estada em Sea Point (África do Sul) com o passaporte de Serviço, o que demandava sair e reentrar antes de transcrever o mês de permanência. Entre a Windhoek (diversas vezes visitada) e Maputo que estava no desejo, a escolha foi para a terra incógnita, embora desaconselhado por causa de alguns tumultos no Norte daquele país.
Desabituado a comprar passagens aéreas e sem experiência em encontrar rotas e voos económicos, recorri ao Ladislau Santos, um jovem amigo angolano que estuda em Cape Town, e este socorreu-se do seu amigo e vizinho que é experimentado em compras na internet e busca de soluções de low cost.

_ Kota, tens que dar o número do Visa e estar atento ao email para aprovar. _ Recomendou previamente o jovem.
Já havia confiança bastante. Mandou-me os dias em que a companhia aérea moçambicana voaria para Cape Town e para Joanesburgo, sendo a segunda opção a única que se encaixava no bolso e na permissão de permanência estampada no passaporte.

Há povos que estão já em um patamar de organização e digitalização que evitam deslocações e filas. Fizemo-lo e, inclusive, procurámos, à distância de um clique l, por um hotel urbano em Maputo que ficasse próximo da cidade baixa e da Rádio Nacional. Parecia correr bem sem levar-me a correr.

Não tinha verificado que, entre o voo que me pousava em Joanesburgo e o que me levaria a Maputo, havia um delay de apenas 60 minutos, tempo que teriam de ser gasto a abandonar o avião (sorte é que só tinha uma lagage de mão), percorrer o aeroporto das entradas domésticas até às saídas internacionais, fazer check in (presencial) passar pelas revistas e mais umas chatices de polícias que pediam declaração de posse de uns míseros "George Washington's". Foi um correr, antes inimaginado, chegando ao terminal da LAM a escassos cinco minutos da partida.

_ Uff!
Ofegante, mas vitorioso lá estava eu no machimbombo aeroportuário, a caminho do Embraer 145. O trajecto Joanesburgo-Maputo faz-se em poucos minutos. Aliás, sendo que o voo não se faz a very hight altitude, a transição da fronteira entre a África do Sul e Moçambique nota-se pela organização espacial da terra e presença ou não de casotas de chapas metálicas que brilham nas alturas em grande quantidade.

Depois de três dezenas de minutos a ver capim verde, campos demarcados e aldeias com arruamentos, os meus olhos foram surpreendidos com vegetação amarelada, casotas de chapas e vilarejos que reclamavam poe ordem na disposição dos cubículos. Não precisei que o vizinho nigeriano do assento ao lado me perguntasse, no seu inglês, se eu conhecia Maputo e se estávamos próximos ou ainda distantes.

_ Can you see de difference? We are aproching to Maputo. _ Disse ao jovem que se identificou como estando a ir ao encontro do irmão que lá trabalhava, saído da África do Sul. Não tardou fomos presenteados com o regalo, nas alturas, que é a ponte Maputo-Katembe, seguindo-se a chegada ao Aeroporto Internacional que é uma miniatura que m lembrou o de Bamako (1998) ou o de São Tomé.

_Epá, o internacional deles também é assim, o indivíduo de um lado e vê o outro lado?! _ Soliloquiei, antes que alguém me associasse a um "estagiário de tantanice".
Cumpridos os procedimentos no Aeroporto Mavalane, cuidei de me munir de uns meticais, suficientes para chegar ao hotel onde pousaria a malinha e chamaria pelo amigo Ouri Pota. Era um sábado que o homem tinha reservado para mim.

Sem demora, juntou-se a mim e ao Pota o Faruco Sadique, outro jornalista sénior e com elevada estrada em direcção e administração de media, que, mesmo convalescente, me ofereceu seu abraço de boas-vindas. Bastante respeitado nos media em que passou como profissional e gestor o Faruco é um dos cinco jornalistas moçambicanos que estiveram comigo no III Curso de Jornalismo para PALOP, organizado, em 2005, pela Fundação Kalouste Gulbenkian e Universidade Católica de Lisboa.

Antes que a fome cobrasse a sua renda, Pota e eu rumámos para explorar o que tinha mapeado para visitar: Museu das Forças Armadas (uma espécie da nossa Fortaleza de São Miguel, em Luanda, mas sendo a de Maputo de menor dimensão), Museu da Moeda, Baixa da Cidade (com seus motivos de arte pictórica), o Mercado Municipal de Maputo (uma espécie do Mercado de São Paulo ou Congolenses do meu tempo de meninice) e o Jardim (Municipal) de Tunduru, uma réplica ainda conservada da antiga "Floresta do Alvalade" e "aonde se dirigem os noivos para as fotos" que marcam a imparidade do momento, segundo palavras do Ouri Pota, enquanto combatíamos o excessivo calor e o suor transbordante com umas "douradas" que por lá têm o pomposo nome de Tchilar.

_ É uma "birra" para jovens. Eu também penso que é a melhor. Pelo menos é a que mais consumo. _ Declarou-se o meu cicerone, antes de me levar à tasca encravada no Jardim e que, por lá, é uma espécie de "sindicato dos jornalistas" ou uma réplica da Bicker do "antigamente" dos jornalistas que antecederam a geração de noventa.

No museu que mostra a história militar da colonização portuguesa na Africa Austral Índica, pude agregar conhecimentos sobre os grandes conquistadores e resistentes à presença europeia, como o grande Ngungunhane, um líder militar e político moçambicano do século XIX, que resistiu à colonização portuguesa em Gaza, Moçambique, até ser capturado pelas forças portuguesas, em 1895, marcando o fim da resistência armada efetiva contra o colonialismo português naquele território. A resistência foi retomada depois da criação da FRELIMO, em 1962, e início da luta armada em 1964. Levado a Portugal, onde viria a falecer, as ossadas de Ngungunhane foram devolvidas a Moçambique no pós-independência, em 1985. Uma urna simbólica está patente no museu militar.

Já no outro que narra o percurso dos instrumentos de troca em território moçambicano pude conhecer que distintos meios usados para a aquisição de bens e serviços e como se chegou ao Metical, a moeda nacional de Moçambique, cujo nome deriva de "mithqal", uma unidade de peso usada historicamente no comércio de ouro muçulmano. A moeda fiduciária foi introduzida em 1980, substituindo o antigo Escudo moçambicano. Os museus têm esse lado de dar a conhecer a história, sem ter de se procurar por livros e, quando em presença de guias devidamente treinados, dá prazer frequentá-los.

O almoço foi na FEIMA. Dir-se-ia uma espécie de Feira Popular na década de noventa do sécul9 XX. Experimentei, a lamber os beiços, a kizaka com camarão e pirão, matapa e xima no linguajar deles. São outros os nomes, mas a alegria do estómago é o mesmo. Não é que pedi bis? Só depois de estómago atendido, foquei-me nos detalhes. Os males de cá, parecem ser também os de lá. Repuxos sem água, fornecedores que pensam que fazem favor ao cliente, descaso com a degradação e passo apressado à destruição por acção humana e do tempo, levando a vida à precariedade.

Já a caminho da taberna do kota Américo Macutamo, no Bairro Indígena de Maputo, cruzámos, de novo, a cidade baixa. Ruas que deviam estar limpas, passeios que deviam estar desesburacados e outras maleitas relativas à nossa fragilidade institucional levaram-me de volta a algumas ruas de Luanda, perfumadas com urina de gente que desconhece o saneamento e urbanidade.

Melhor não faria comigo o Pota. Fomos ao "muro das lamentações, lugar onde ocorrem reflexões filosóficas, críticas acintosas e soluções difíceis de chegar. E tal como o judeu nazareno pedia que se levasse a ele todos os fardos pecaminosos, na taberna do kota Américo, fluem as conversas de criadores de arte e comunicadores que nela depositam, com os goles que correm garganta abaixo, todas as frustrações e maleitas da vida terrena.

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Publicado pelo Jornal de Angola a 26.05.24


quinta-feira, maio 09, 2024

ANGOLA COMBATENTE E OS PIONEIROS DE KALULU!

A Vila de Kalulu tinha uma sala de cinema, onde é hoje a sede do Recreativo do Lubolu, porém, as fitas que giravam o país inteiro demoravam chegar e não davam opção de escolha, o que levava a sala, sempre que houvesse filme, a registar "Lotação esgotada", frase que me obrigou a procurar por um dicionário e buscar pelo seu significado.
Os jornais e revistas, levados pelos autocarros da ETP e ETIM, vendidos no quiosque da EDIL - Empresa Distribuidora e Livreira de Angola - levavam tempo a chegar à vila e jornais como o JDM e as revistas Sputnik e Jeune Afrique, mesmo com 4 a seis meses de atraso, eram tidos como portadores de "notícias frescas". Quem não os lia, aproveitando, depois, as fotos para decorar as paredes dos quartos juvenis?
Quanto à TPA, penas os mais velhos viajados e os pioneiros que já tinham passado temporadas no Sumbe, Ndalatando ou Luanda é que a conheciam. O resto das pessoas das bwalas estava ainda na comunidade primitiva, embora estivéssemos já no último quartel do século XX. Sem os tractores nas fazendas desintegradas, as luzes nocturnas haviam sido confiadas unicamente aos pirilampos.
A Rádio sim. Essa era para popular e democrática. Atendia a todos na aldeola familiar, na aldeia colectiva, no bairro da vila e na cidade. Era a única que não discriminava operários e camponeses, nem intelectuais das cidades e iletrados das bwalas. Estava no alambique, no ombro do tio que extrai o maluvu da palmeira e até no óbito do "camarada tombado no cumprimento do dever revolucionário", cujo corpo jamais chegaria, levando os parentes a edificar uma campa homónima.

E, como a rádio era popular, mas as pilhas eram raras, havia horas nobres para ligar o "bicho falador e tocador de músicas". Todos os tios que eram camaradas ligavam-no às 13 horas para ouvir o noticiário central. Alguns, com reserva de pilhas, ligavam-no mais cedo, às 12horas, para começarem com o "Rádio Cidade" e/ou "Bengo Presente!" Alguns pais-camaradas que tinham cultivado o hábito de acompanhar as equipas de Luanda ou do Putu tinham tardes de relato e deixavam os filhos ouvirem o "Kyalumingu, kimenemene, Piô-Piô!"
À noite, socialisticamente (queria dizer religiosamente, mas essa estava ofuscada pela via socialista), todos os papás, cada um com a sua prole masculina (as miúdas, nas bwalas, ficavam nas cozinhas fumegantes com as mamãs) e ouviam, a partir das 19horas, o "Angola Combatente" que trazia notícias sobre a "bravura das Gloriosas FAPLA", ao que se seguia o noticiário da noite com notícias sobre "violações do solo pátrio e atrocidades dos fantoches-bandoleiros contra velhos, crianças e mulheres grávidas".
Para "poupar pilhas", nem todos continuavam com o "Boa noite Angola", mas o sô António, meu pai, levava o rádio até aonde fosse possível as pilas aguentarem. Acho que todo o seu dinheiro que lucrava da venda de kapuka ia para a compra das pilhas, além de ter, na altura, em Luanda, o cunhado Ferreira Ganga que lhe mandava, sem falta, pilhas e lâminas para aparar a barba escassa que lhe vinha ao queixo mês sim, mês não.
E foi nessas andanças de miúdos que já tinham a Rádio no ouvido desde tenra meninice que alguns pioneiros foram ensinados a conhecer o som, a frequência e os indicativos de "Rádios Proibidas pelo Estado" e, nas suas brincadeiras nocturnas, estarem atentos aos camaradas vizinhos que as ouvissem às 19horas, fora do "Viva Angola Combatente, Viva Angola Combatente!".
E começava assim:
Compatriotas, camaradas e companheiros de luta, as nossas saudações revolucionárias!
Fala-vos "Angola Combatente" - porta-voz do MPLA - Partido do Trabalho.
Programa de educação política e ideológica dos militantes e do povo - arma na luta para a criação do homem novo!
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quinta-feira, maio 02, 2024

O 1° DE MAIO EM KALULU DO MEU TEMPO

Em Kalulu dos anos oitenta a noventa, a única festa popular, grande, que movimentava toda a gente - camponeses das fazendas estatais, privadas e lavras individuais; operários da torrefação de café e mecânicos das oficinas; intelectuais das escolas, centros e postos médicos e dos comissariados; liberais das alfaiatarias, barbearias, drogarias, tabacarias e casas da xungaria - todas as classes unidas e reunidas numa marcha policromática e ruidosa, com carros alegóricos, quando fosse possível, era somente o 1° de Maio.

A concentração era na rua que dá ao Bairro Azul-Entroncamento da Escola Kwame Nkrumah, junto ao Comissariado Municipal do Lubolu. Era aí que começava a festa. O Bairro Wambu, ali surgido fruto da desagregação das fazendas coloniais e suas colectividades de trabalhadores ovimbundu, ainda não existia e as palmeiras do descampado ofereciam gentilmente a sua sombra aos que chegavam, se aprumavam e esperavam a sua vez para o desfile.

 A cercania do Comissariado era, na verdade, o ponto de partida e de chegada. A Tribuna era montada na escadaria da Fortaleza que tem à direita (sentido da marcha) o "Palácio" do Camarada Comissário, onde ficavam o camarada Comissário, os delegados municipais e os directores das Empresas Territoriais de Café, despontando a Lubolu I, II e III. Kenhê que sendo desse tempo já não se lembra?

E, todos nós, pioneiros da OPA, manos da JOT'EMPELÁ, mamãs da OMA, papás do Partido, camaradas da Ce-Pê-Pê-Â, da Segurança e das FAPLA, jantávamo-nos à festa dos que trabalhavam, enquanto assistência, batedores de palmas e comentadores no pós-festa.

Até os manos sem trabalho, que a vida deles era fugir rusga e alguns eram especialistas da kangonya, e os tios que ouviam as Rádios Proibidas pelo Estado também iam ao 1° de Maio. Se porquê e para quê nunca me disseram, mas iam e festejávamos todos o dia dos trabalhadores que ficavam semanas a preparar o desfile que terminava ao meio-dia.

Havia uns pioneiros bem-comportados e que estudavam bem que, talvez por isso e não sei mais porquê, tinham sido ensinados a ouvir a tal Rádio Proibida pelo Estado e que deviam dizer baixinho, sem gritar, aos camaradas da Segurança quem eram os tios que ouviam a RSA (que tinha música de passarinhos) e uma outra (que tinha capoeira com galo a cantar) que davam notícias e faziam propaganda dos fantoches.

Os fantoches eram conhecidos de todos, pelo menos pelo nome e ao que acontecia aos carros que queimavam ou minavam e às vilas quando as atacassem. Sempre que chegasse um estranho com cara de fantoche ou kahúhu (como lhes chamavam os camaradas da Swapo) era logo interpelado pelo camarada Secretário do Comité do Bairro e pelos camaradas das BPV (Brigadas Populares de Vigilância que abusávamos chamando-os em surdina por bêbados à procura de vinho que era raro). Os tios da Ô-Dê-Pê também diziam estar de olhos neles para não roubarem nossas mandiocas e nossos cabritos que desamarravam das cordas e levavam até aonde os olhos se perdiam.

Mas, todos, no dia do 1° de Maio, nos juntávamos. Até não sei se os camaradas da Segurança conseguiam filtrar nas multidões saídas das fazendas de todas as comunas os infiltrados colaboradores dos fantoches, os reacionários, os lyambeiros e outras espúrias.

A nós, Pioneiros de Agostinho Neto na Construção do Socialismo, a festa era pelo povo e até nos esquecíamos, no Dia Internacional do Trabalhador, das tarefas de casa recomendadas pelo professor, das lenhas para o matabicho do dia seguinte, da missão patriótica de espiar os tios com cara de colaboradores e que ouviam, à noite, as Rádios Proibidas. Tudo girava em torno do Dia do Proletariado.

No desfile, a foto do Camarada Neto ficava ao lado das imagens desenhadas de camaradas barbudos que eram conhecidos como camaradas Marx e Engels. A do camarada Presidente Eduardo dos Santos é a que ficava mais alta, transportada pelo pelotão de frente de cada grupo em desfile.

Quado os camaradas internacionalistas cubanos fossem convidados, sobretudo os camaradas professores e enfermeiros que eram chamados "nostro ermanos", estes exibiam também as fotos do camarada presidente deles que era um barbudo com o nome de Fidel Castro. O outro cartaz era do José Marti. Num destes desfiles, cheguei a ver Fidel Castro abraçado com Camarada Presidente Doutor Agostinho Neto, mas era só na foto.

Como dizia, nem mesmo o Carnaval da Vitória nos conseguia juntar a todos como o 1° de Maio no Largo do Jardim da Vila de Kalulu que ficava apinhado de gente de todos os bairros e fazendas distantes. Ninguém passava sem assistir à festa. Como era feriado, ninguém tinha pressa de ir trabalhar ou de ir matar porco para explorar na kandonga. A rua do Campo da Revolução, que permite contornar a Largo pelo Lado traseiro do Palácio, a caminho da Mbanze e Lwati-Kisongo, também ficava fechada pelos camaradas da Segurança e da LCB (Batalhão das FAPLA conhecido por Luta Contra Bandidos).

_ Todos ao 1° de Maio! _ Dir-se-ia na propaganda dos miúdos de hoje.

Naquele tempo, a frase mais curta e robusta era mesmo "Proletários de todo o mundo uni-vos!" Ficava decorada nas mentes de todos e era recitada até que chagasse o outro1° de Maio. Apenas os que eram viciados no Carnaval, que metia todas as escolas da vila a desfilar, é que vez ou outra se atrapalhavam na frase dos proletários.

A propósito, andei muito tempo a perguntar a meus colegas e outros um pouco makota que estavam nas classes de avanço se proletários eram colegas do Man-Prole, mas também intrujavam nas respostas. Não sabiam. A minha sorte foi estudar Sociologia na Universidade e encontrei o significado da palavra proletários que tem a sua origem nos plebeus que a única contribuição que tinham para os Estados era fazer filhos (prole) para as guerras da Europa medieval. Naquele dia, soltei uma sonora interrogação em plena aula que fui estigado por gente mais atrasada que eu. Mas eles eram espertos de Luanda e tinham a técnica de fingir o que não sabiam.
_ Afinal proletários é isso? _ Quem me acudiu foi o Professor Luís de Barros, guineense que nos ensinava História Medieval.

Pronto! Não tendo ido ao desfile deste ano de 2024, em que as centrais sindicais apelaram também para que os trabalhadores greveassem contra o 1° de Maio, fiquei em casa a contar as estrelas e colher as mesmas frutas com que os agricultores e camponeses do Lubolu desfilavam no Largo do Jardim da Vila de Kalulu.

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Publicado no Jornal de Angola de 05.05.24

segunda-feira, abril 22, 2024

CAPEÇ'ÁQUA!

Na minha segunda deslocação à China, acabei por recolher conhecimento mínimo de duas cidades, a capital Beijing e Xangai, tendo viajado de comboio rápido (350 Km/hora da capital à segunda, em cerca de 4 horas). Comparando com o nosso estádio (para eles) precário de desenvolvimento, há muito por andar. Se calhar, andar seja pouco, pois os mais desenvolvidos não estão parados. É preciso "voar" para chegar aonde eles estavam no final do século XX e cortar algumas etapas, o que demanda fazer-lhes uma kikonda, como se diz no meu bom Kimbundu.

Olhando para a aparente simplicidade do chinês comum, fico, às vezes, a reflectir no alcance da expressão "capeç'áqua", verbalizada por cidadãos chineses que trabalham em Angola para se referirem a trabalhadores braçais angolanos que resumem toda a sua acção a praticar ao que lhes é orientado, sem pensar em inovar ou sair do lugar-comum. Fora do sentido dislateiro, a expressão encerra um sentido crítico e apelativa a acções reflectidas e inovadoras que todos - braçais, médios, graduados, mestres, doutores, gestores, administradores, titulares de cargos políticos e juízes e legisladores - devemos levar em conta e com seriedade. Afinal, o que quer dizer "capeç'áqua" e por que se referem eles a nós desta forma?

"Os gregos foram ao Egipto aprender ciência e aritmética. Desenvolveram-nas e aumentaram o seu orgulho grego" (Chiziane, 19.04.24).

A China, civilização milenar, que há uns 50 anos ainda era um país marcado pela agricultura e ruralidade, é hoje uma nação desenvolvida e que pleiteia com os ditos "de 1° mundo": bem estruturado, limpo e organizado, imperando a inovação e o cumprimento da lei. E nós?

Temos mandado delegações à China para ver em que nível estão e negociar acordos e tratados. Temos enviado jovens estudantes para aprenderem com eles e replicarem as boas coisas que abundam por lá. Temos comprado isso e aquilo, da bugiganga à maquinaria. Temos solicitado, até se enrouquecerem as vozes, que venham investir com o dinheiro deles no nosso país, promovendo empregos e conhecimento na nossa terra. Temos-lhes abertas as portas, temos-lhes a terra para cultivo, o mar para a pesca (ah! como detesto a depredação por arrasto que as embarcações chinesas fazem nos nossos mares), demos-lhes as florestas e savanas para explorar madeira, demos-lhes acesso à virgem... E nós o que ganhamos com isso?

Cultivam aqui, mas levam toda a comida e continuamos a comprar arroz em kandimbas e óleo alimentar em copos de reco-reco. Ah! como eu gostaria de esquecer os tempos de tribulação vividos nos anos oitenta do século finado!

É certo que a nossa população aumentou e os demais predadores de peixe, como as focas, também se multiplicaram, sem que tivéssemos encontrado as melhores formas de manter um equilíbrio dos cardumes a favor dos humanos. Os barcos com licenças passadas a angolanos, mas operados por chineses, praticam rapina nos nossos mares e rios e até a kabewnya escasseia no prato. Levam a nossa madeira e compramos-lhes os móveis a preço de ouro. A pedra vai bruta e compramos-lhes os pisos, as lareiras, os tampos, as escadarias e as campas.
Pedimos-lhes, em nome de todos os angolanos, dinheiro emprestado para refazer as nossas estradas, ponte se demais equipamentos sociais e de apoio à economia.

Com mesma mestria de "capeç'áqua", alguns iluminados deram-lhes a volta e pediram estradas para "inglês ver" que, passados poucos meses, "os buracos passaram a ter menos asfalto", como satirizou, e bem, Manuel Rui Monteiro. Tudo a favor do ego pessoal e a desfavor do país. Ganhámos, com isso, gente endinheirada que nem sabe ser rica e empobrecemos o país com dívidas milionárias per capita. Os chineses e o Estado chinês ganharam e ainda ganham, com juros e tudo. E o que ficou para nos orgulharmos?

_ Capeç'áqua! _ Diria um presidiário chinês desterrado em Angola em cumprimento de pena correccional.

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Texto publicado pelo Jornal de Angola a 16.06.24

segunda-feira, abril 15, 2024

AS "VIÚVAS" DE DEIRA

_ Por que há tantas viúvas em um país próspero e sem guerra? - Ter-se-ia perguntado Mangodinho se nesse dia não usasse da circunspeção, enquanto encomendava uns trapos em Deira, uma área localizada na região leste do Dubai, que é das partes mais antigas e históricas da cidade, também conhecida por seus souks (mercados tradicionais), como o Gold Souk e o Spice Souk, bem como por suas ruas movimentadas e vida comercial vibrante.

Aos olhos de Mangodinho, é uma espécie de São Paulo ampliado e melhorado, onde se expõem à venda, vestuários, maquinarias diversas, electrodomésticos, cosméticos, enfim.

As supostas viúvas, no imaginário dele, andavam em grupo, cobertas do cabelo às sandálias, mas falam alegres como se a vida lhes corresse bem e compravam vestuários de uma seda bem elaborada e a bom preço.
_ Isso nê possível! _ Exclamou, desta vez, de forma audível.
_ Nê possível o quê? - Indagou Lito com quem andava.
_ Já viste essas mamãs que enterraram maridos ou parentes próximos? Ou são todas irmãs que enterraram o pai que era dono de muitos bois, café, tractores e camiões?
_ Estás a supor que sejam órfãs de um ricaço daqui? - Brincou Lito que levava Mangodinho sempre na galhofa _ veja bem. O preto que tu conheces como luto aqui pode ter outro significado. Já que compraste um "buba", que dizes ser de última geração, vamos ainda ao motor de buscas.
Na cultura ocidental, o preto simboliza tristeza, luto e morte, mas é também sinónimo de mal e pessimismo. Pode ainda ser entendido como elegância e formalidade.
Em África representa vida e renascimento, além da morte ou ainda fertilidade.
Na China, quando vires alguém vestido de cor preta, está a transmitir estabilidade ou poder.
Os hindus, uma religião indiana e praticada também em outros países da Ásia a cor preta é associada ao Senhor Shiva, um dos principais deuses da religião.
_ Aqui, e em outras partes onde se professa o islamismo, essas roupas chamam-se niqab ou burca e a peça que cobre da cabeça ao pescoço, é o hijab. O niqab preto significa que a mulher é modesta e está a proteger a sua privacidade. Não é viúva como no Sambizanga ou Kalulu. - Explicou Lito que tinha mais anos de luz do que Mangodinho que tateava ainda no conhecimento de outros povos e culturas distintos dos seus conterrâneos.

segunda-feira, abril 08, 2024

DESENCANTADOS NA CHINA

Meso-a-Kekele e Inama Yendele são irmãos biológicos de mesmo ventre, embora trazidos ao mundo com elevado espaçamento. Dizem mesmo que Meso-a-Kekele, o mais velho, tem idade para ser pai do irmão kasule, Inama Yendele, que é 25 anos mais novo.

Nos seus 50 anos, 33 dos quais vividos com intensidade laboral e experiência acumulada em viagens pela terra de nascimento e mundo circundante, Meso-a-Kekele é, pode dizer-se, um homem de meias-aviadas e carregador de várias experiências de vida. Bem-apessoado, costuma ser apelidado de clever e visionário. Já o seu irmão derradeiro é um tanque aberto ao conhecimento, um explorador de inovações e poço fecundo de força, mostrando-se sempre pronto a acompanhar o irmão nas viagens de negócios e compras que nunca são de pouco peso e volume. Os dois se constituem em chave e fechadura, daí serem sempre vistos juntos na última dúzia e meia de anos.

No dia em que Mangodinho os viu na Ásia, fazia frio intenso e sol preguiçoso. Era domingo sem o vai e vem de pessoas apressadas como ocorre de segunda a sábado. Nas árvores sem folhagens os pássaros piavam sem intensidade, pareciam cansados ou sufucados também pela temperatura que fazia desenhos na pele dos humanos. Nos restaurantes os frequentadores lagarteavam-se aos raios de sol que eram crianças para um termómetro que exibia o mercúrio a 5 graus celcius.

A capital do país da Grande Muralha e da Praça da Paz Celestial "Tiananmen" eram para Mesu-a-Kekele o mesmo que um cumbu¹ para o dono da casa. Conhecia-a bem. Ao contrário do mui viajado irmão,  Inama Yendele fazia a sua segunda viagem àquelas terras, desta vez mais exposto e disposto a caminhar e explorar o que se lhe apresentava aos olhos.

  • Ó jovem, estás a ver, não é? Esses gajos, mesmo sendo pequenos em estatura, são capazes de fazer coisas enormes e esteticamente encantadoras. Vês, nê?1 - Explanou o "Senhor que Vê", atiçando a admiração do jovem "Pernas que Andam".

_ Ó mano, a única coisa aqui que me dá prazer é estar consigo. Jurumemu, é única coisa. Viajo pelo que há no nosso país e tento situar-me aqui. Há muito de anormal.

Meso-a-Kekele franziu o rosto. Meteu-lhe mibangas atravessadas e limpou os óculos para aferir se ele estava a enxergar mal ou o irmão estava a ironizar.

_ Mas, ó rapaz, estás a dizer que fiz má escolha em virmos passar férias nessa terra? Ou são aqueles reles pedreiros que se revezam nas camas dos estaleiros que não te saem da cabeça? Desperta, irmão. Essa é a China real. Aqueles são cópias e escórias!

Sem pressão na fala. Aliás, Inama Yendele é descrito como lento a falar e ágil no passo, começou a descrever os seus 10encantos.

_ Veja bem mano, viajámos de carro mais de duas horas. Tirando as mudanças de direcção sem piscar, o que na nossa banda tem sido causador de acidentes, o mano sentiu algum buraco? Não vi semáforos apagados, nem montinhos de areia nas bermas, nem lixo, nem contentores a transbordar com porcos e ratos a desfilarem. Isso é para mim uma anormalidade perante o que estou habituado. Veja ainda, entrámos num shoping. Eram perto de 30 andares. O prédio da frente tinha 80 ou mais, fazendo das nossas famosas torres da Ngimbi uns autênticos kitungu². Subidos ao cume da torre de mais de duzentos metros e não vimos casotas de chapas no meio da cidade, nem lixeiras. O mano acha isso normal? Anteontem fomos àquela província cujo nome aparece em muitas quinquilharias. O rio deles, que é igual ao nosso Kwanza, corta a cidade pelo meio. Nos dois lados estão edificações que fazem os olhos se perderem na altura da floresta de prédios cheios de jogos-de-luzes e nevoeiro. É isso normal? E veja bem, mano. Às tantas, já não sei se trouxeram o rio à cidade ou a cidade abraçou o rio. Está a ver aquele prédio com árvores naturais por cima? 

Inama Yendele pôs travão nas perguntas e na fala que se fazia longa para sorver um pouco de ar que já fazia falta aos pulmões. Era também uma forma de confirmar se Meso-a-Kekele se sentia confortado ou aborrecido com o seu discurso.

_ Ó rapaz, estou a seguir a tua explanação. Quero ouvir até aonde queres chegar.

_ Então o mano acha que aquela estação de comboios, estupidamente grande, maior do que todos os aeroportos que já pôs a visitar é normal? Repare os detalhes dos edifícios, todos encurvados, uns com abóbadas no meio, parecem misangas³, outros parecendo que vão cair, estradas no fundo da terra como se tivessem sido escavadas por toupeiras, em cada vintena de adultos apenas uma criança, isso é normal? E olha, mano, tenho estado a reflectir bastante sobre aquela especialização em Arquitectura que me ofereceu. Acho que vou abandoná-la. Espero que não se chateie.

_ Vais abandonar uma formação que te pode dar nome e dinheiro? Deves estar a sabular, ó miúdo. _ Atirou-lhe o irmão quase impaciente. _ Explica-te lá e deixa-te de divagações de filósofo de bwala.

_ Ó mano, vê ainda esses prédios todos. Lhe parecem clássico-romanos ou helénicos?

_ Não. Nada a ver.

_ Parecem góticos ou renascentistas? 

_ Nada a ver.

_ Então, kota. Isso é futurologia. Eles implantam o inexistente. Viajam pelo futuro. Nós é que estamos sempre a estudar o passado, a recuar séculos como se a vida e a ciência estivessem atrás de nós. É por isso que vou abandonar a especialização em Arquitectura. Ou o mano acha isso uma normalidade para a nossa anormalidade?

Mesu-a-Kekele, homem que já vira quase tudo em sua vida, respondeu-lhe apenas com um abraço e uma frase sussurrada ao ouvido.

_ A vida é futuro. Vai em frente quem se antecipa no futuro!

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Publicado pelo Jornal de Angola a 12.05.24

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1-Lê-se tchumbu. Pequena horta contígua à casa.

2- Palhota

3- Lê-se missangas

segunda-feira, abril 01, 2024

PERDIDOS NO DUBAI

Desde a sua primeira ida, há já bons pares de anos, que Mangodinho se negava em contar as suas peripécias nos Emirados. Hábil inventor e contador de cenas, de sua boca já saíram das mais ousadas às mais arrojadas narrativas, umas verdadeiras, umas de ouvir contar e outras ainda paridas pela sua fecunda imaginação de filósofo de aldeia rural, mas nunca se atreveu a contar ou escrever sobre a vida nos Emirados.

O sol que os recebeu naquele dia de descanso semanal obrigatório era rebelde. Isso mesmo. Nos céus azuis parecia envergonhado, mas o calor que passava era de 36 graus ou mais. Mangodinho, palito na boca, a picotar nos dentes cariados os pedaços de pão que comera no avião, ia acompanhado de Lito, amigo há já nove anos que conheceu no trabalho.

Chegaram bem. Felizmente. O destino foi Dubai, aquela terra rica e vislumbrante que há cerca de cinquenta anos foi território seco e arenoso de pobres pescadores e montadores em camelos, um nada comparado às nossas bwalas aos olhos de hoje.

_ Ó mano, vamos ainda ao Mall procurar algo para comer. _ Convidou o Lito que se dizia apossado de fome.

Andaram pelo imenso shoping uns bons quilómetros à procura de restaurante. Melhor, prevenindo-se de uma possível distração que os levasse a não reconhecer o ponto de saída, Lito e Mangodinho decidiram, antes, recolher as coordenadas geográfica via Google. Nisso, o pensamento foi simultâneo e até pareciam ter sido inspirados por um deus daquelas terras recomendadas ao Ismael da Bíblia e Corão.

Cima a baixo, ora pelas escadas rolantes, ora pelas escadas normais que se achavam largas, limpas e arejadas, percorreram o gigante shoping em busca de pitéu que acabaram encontrando quando já forças inexistiam para mais andar.

_ Epá, vamos comer o que houver. Já não tenho pernas para mais procura, nem energia que permita mais espera. _ Disse desta vez Mangodinho acossado por uma dorzita na perna defeituosa.

Lito, homem de massa muscular a apontar os cem ou mais quilos, concordou jogando o seu corpo pesado sobre a cadeira que se achava ao lado.

_ Would you mind give us the menu, please?! _ Indagou Mangodinho ensaiando o seu inglês aprendido na "South" em Sea Point.

_ I'm sorry. It's our breaking time to pray. We'l be back at 6h30. _ Informou o jovem garçon (waiter na língua internacional que eles se esforçam em aprender e atender os visitantes de longe).

Mangodinho e Lito entreolharam-se.

_ E agora? _ Questionou Lito.

_ Bem, eles estão no Ramadão. Se é break time deve ser geral. Só temos uma saída que é aguardar.

Com um lago artificial pela frente onde canoas e pequenas embarcações de recreio desfilavam, os trinta minutos voaram e deram lugar a um impressionante espetáculo de jactos de água e luzes projectados piscina abaixo.

_ Epá, esses gajos estão longe, meu mano. _ Admirou Lito a gaguejar.

_ Temos de registar isso e mostrar aos miúdos lá na ngimbi para começarem a sonhar com o futuro que para os outros já é presente. Admira-me como é que os outros fazem arquitectura futurista e nós, nas nossas escolas de arquitectura e engenharia civil, recuamos ao período helénico, clássico-romano, gótico e outras antiguidades. _ Respondeu Mangodinho, algo filosófico. 

O momento levou-o ao tempo em que estudou e era apaixonado pela história das civilizações e filosofia.

Não demorou para que o waiter lhes desse o pitéu que devoraram com um apetite de quem vive escassez prolongada.

Barriga atendida, relógio avançado na hora, corpo reclamando repouso de uma viagem que tinha ainda milhares de léguas pela frente, a decisão estava tomada: regressar ao hotel pelo caminho gravado nos telefones.

Entre recordações de letreiros e pessoas que se revezaram nas lojas e entroncamentos, caminharam um longo caminho que mais se parecia labirinto. O Google os levava para mesmos lugares, sem nunca encontrarem a porta de entrada do hotel. Foi depois de já não restarem forca nos pés, nem comida no estômago que decidiram parar um daqueles carritos eléctricos que ajudam os idosos e as crianças a chegarem mais cedo ao destino, pedindo que os levasse de volta ao oculto hotel. 

Lito, anglófono reconhecido e com muitos anos de Damaralândia passou à frente da tentativa.

_ Good afternoon, Sir! Please can you ride us to the Hotel? We lost the way.

Diligente, filho alheio, o homem mandou-os subir como faz com os velhotes e crianças cansados de tanto caminhar.

_ Come on. _ Atirou sorridente.

Não é que a entrada traseira ficava a não mais de trezentos metros? Há momentos em que não basta dominar a língua universal e o caminho do Google. É preciso ser vijú também!


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Publicado no Jor. de Angola de 19.05.24

quinta-feira, março 28, 2024

UM NOVO EX-LIBRIS EM MAPUTO

Maputo's bridge, ofcourse! 
A Ponte que liga as duas margens da Baia é hoje um ex-libris de Maputo, enlevo que o visitante que chega à capital moçambicana pode contemplar à janela de um avião, convidando-o a percorrê-la em terra e desfrutar da sua beleza e robustez. Aconteceu comigo.

_Que bela criação humana! _ Disse para mim mesmo, fazendo-a, imediatamente, constar dos pontos a visitar nas 48 horas em Moçambique, o que aconteceu no segundo dia da minha estada por terras de Machel.

Solícito, o jornalista Ouri Pota e sua "turma": Maló (o dono do carro), Américo (o mais velho e proprietário da taberna onde se afinam as conversas e se afogam as mágoas) e o Manhiça (pintor de pena refinada e dono de uma lábia humorada que escorre como o Rio Maputo) entenderam organizar um almoço (domingo 03.03.24) na Margem Sul da cidade, onde o Pota faz a sua casa para o pós-cinquenta envolta a uma floresta por ele plantada. Pedido feito, pedido atendido: ver a ponte de perto.

Percorremo-la de carro, depois de cuidarmos da logística que consistiu em "comícios e bebícios". O embarcadouro, que vai sucumbindo aos poucos, depois da construção da Ponte, foi a primeira paragem. 

_ Já foi um local muito movimentado que acolhia muita farra e festas. _ Explicou o Manhiça.

Há barracas que resistem ao tempo e algumas pequenas embarcações (de recreio) que ainda fazem a travessia da baía levando este ou buscando aquele. Senhoras de todas idades estão envolvidas na venda de peixe grelhado, à semelhança da nossa Ilha de Luanda e os cantineiros não perdem a oportunidade para o comércio de retalho. As viaturas que atravessavam por cima de jangadas fazem hoje uma travessia segura e prazerosa, pagando uma portagem que varia em função da categoria do veículo (

semi-colectivo MT 30,00; autocarro MT 60,00; classe1 MT 125,00; classe 2 MT 250,00 MT etc.).

A ponte Maputo–Katembe liga os distritos de Nlhamankulu (margem norte) e Katembe (margem sul), em Maputo. É hoje a maior ponte suspensa de Africa, remetendo para a segunda posição a ponte de Matadi (RDC).

As obras decorreram entre 2014 e 2018, tendo sido inaugurada no dia 25 de Junho (data da independência) e aberta à circulação a 10 de Novembro, coincidindo com os 131 anos da fundação de Maputo (antiga cidade Lourenço Marques).

A parte suspensa da ponte possui 4 faixas de rodagem (duas em cada sentido), 680 metros de comprimento e atravessa a Baía de Maputo a uma altura de 60 metros. 

O viaduto norte mede 1097 metros de comprimento e está ligado à rotunda da Praça 16 de Junho (com acesso às estradas nacionais EN2 e EN4) no bairro da Malanga, em Maputo. O viaduto sul mede 1234 metros de comprimento e é composto por elementos pré-fabricados até 45 m de comprimento, conectando-se à estrada para a Ponta do Ouro.

O vão entre os dois pilares é de 680 metros, o maior de África. Os principais cabos de suporte estão ligados através de cabos de aço no Norte e no Sul, cada uma com um bloco de ancoragem maciço. As cargas extremamente elevadas da estrutura demandaram fundações de estacas com diâmetros de 1,50 m a 2,20 m, que atingem 110 m de profundidade no subsolo marinho (lama). Os dois pilares têm 141 m de altura e a uma altura de cerca de 40 m existe uma viga transversal para a faixa de rodagem. As peças individuais pré-fabricadas de aço para a faixa de rodagem têm cada uma 25,60 m de largura e 12 m de comprimento.

Construída por uma empresa chinesa e financiada igualmente por um banco daquele país a Ponte Maputo-Katembe é prova de que com coragem e determinação é possível erguer obras tecnicamente desafiadoras, esteticamente lindas e com utilidade sócio-económica. É também um apelo aos presentes e futuros que, no caso de Angola, já clamam por passos semelhantes. A Ponte de Matadi, sobre o Rio Zaire, em território congolês, pede uma "irmã" mais a Oeste que nos permita chegar cedo a Cabinda (embora do outro lado haja uma língua de terra que pertence à RDC, a sul de Cabinda). Por outro lado, temos o Mussulo e o pagamento de portagens, como já acontece na circulação sobre a Ponte sobre o Rio Kwanza, a sul de Luanda, pode amenizar o retorno dos investimentos.

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Publicado pelo Jor. Angola de 14.04.2024


sexta-feira, março 22, 2024

THE DOG AND HIS OWNER

A noite era de poucas estrelas e um vento bom, quente e apalpador, que vinha empurrado da Baia de Maputo. O meu anfitrião e cicerone Ouri Pota Chapata Pacamutondo entendeu levar-me a uma espécie de "sindicato dos artistas". 

O bairro fica próximo do aeroporto e é já fora do caso urbano com casas de autoconstrução e algumas preocupações no saneamento. A casa indicada é a do saxofonista Américo   Macutamo "Mile Davis" que tem uma taberna muito frequentada pelos artistas e divulgadores de arte.

O Pota, para além de repórter de rádio (agora passou à gestão) é um apaixonado pela fotografia que tem um condão artístico. Levou-me ao local e lá conheci o anfitrião Américo, o artista plástico Vasco Manhiça, o Malote Mathe e o seu irmão, e outros que foram aparecendo e saindo, seguindo a passada das garrafas de cerveja que eram entregues encapsuladas e voltavam vazias, revezando-se umas com as outras.

As conversas, sem sumário rígido, variavam entre sociedade e artes. Afinal, tinham recebido um jornalista-escritor-cronista que visitava Maputo pela primeira vez, que estava sedento de recolher o máximo de informação possível sobre esta terra lusófona no Índico. Os moçambicanos, por sua vez, curiosos, procuravam igualmente indagar isso e aquilo. Mostravam, na verdade, ser bons question-makers sobre a Angola do pós-independência e pós-guerra civil que enterrámos em 2002.

Quando lhes falei sobre o encanto que era a Ponte Maputo-Katembe, a curiosidade deles virou-se, obviamente, ao que nós Angola tínhamos construído de relevante no pós-independência, fazendo-me desfilar um rio de anotações mentais de tudo quanto meus olhos registaram e a minha mente gravou.

_ Sou do Libolo, interior de Angola, de onde saí aos dez anos. Conto já 40 anos em Luanda e conheço todas as capitais das 18 províncias. Dou-vos dois exemplos: Luanda que encontrei em 1984 tinha o BPA e o Hotel Presidente como os mais altos prédios. No outro lado da Baia, que chamamos Ilha, é o Panorama quem brilhava e diziam ter 5 estrelas. Hoje quem espreita a cidade baixa encontra um conglomerado de arranha-céus. Muitas ruas que conectavam a parte urbana à suburbana em crescimento exponencial eram estreitas, tendo sido alargadas e melhoradas. Construíram-se nós rodoviários para facilitar a circulação automóvel, cujo parque teve uma ascensão de 8 para 80. Enfim, são muitas coisas que, quando nos recolhemos à retrospectiva nos levam a essa conclusão. Outro exemplo são as cidades construídas de raiz, por quase todo o país, para amenizar a carência de habitação. Foi um passo bom, mas temos mais. O meu bom exemplo tem sido a cidade de Ondjiva que foi toda despedaçada pela aviação sul-africana ao tempo do apartheid. Hoje o que se encontra é um "fénix renascido dos escombros". _ Contei-lhes, entre pausas, para atender os pontos-d 'ordem e amenizar a garganta com líquido dourado.

Os bons apreciadores da "espuma" já iam em boas doses (eu disse doses e não doze) quando, embalado, o Manhiça lançou a sua proposta irrecusável.

_ Epá, ó mano escritor angolano, assim mesmo estamos a selar a nossa amizade. A esta hora já não nos dá jeito para irmos à minha casa e voltares ao hotel, mas amanhã o "meu filho" Pota levar-te-á ao meu atelier para teres uma recordação.

Agradeci de imediato a amabilidade e sonhei envolto a obras pictóricas. Afinal, ao que o Pota e outros companheiros contaram, o Manhiça, moçambicano de 45 anos que decidiu "pintar o seu país", depois de largos anos na Alemanha, é um dos mais proeminentes "seguidores" de Malangatana.

Domingo, dia D, comparecemos à hora nove. "Encontrámo-lo" não estava. O filho explicou que o avisara para que não saísse sem telefone. "Mas o tio Pota já conhece a teimosia do seu amigo. Disse que não demoraria, só que se aparece alguém a dar-lhe conversa ele se esquece de outros compromissos".

Aguardamos até à hora do esvaziar da paciência. Diligente, porém, o filho de Manhiça (grandes conversador) tinha feito ligações a alguns amigos do pai para que quem o visse o alertasse da chegada do visitante angolano. Não tardou chegou animado com o seu cigarro fumegante, convidando-nos a adentrar o seu atelier.

"The dog and his owner" (o cão e o seu dono) era um conjunto de quatro peças que ficaram repartidas. Duas estão agora em Angola e outras duas permanecem em Moçambique, ainda sem novo dono.

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Publicado no Jornal Cultura de 12.03.24

quinta-feira, março 14, 2024

VISITA GUIADA À RÁDIO MOÇAMBIQUE

Em companhia do Ouri Pota Chapata Pacamutondo, Director do Centro de Formação da Rádio Moçambique, visitei, a 04.03 24, a RM. 
Como quem quer conhecer a rádio em toda a sua dimensão, comecei pelo que chamam de "fitoteca", arquivo áudio das primeiras emissões de Rádio em Moçambique [1933], discursos e outros registos relevantes. Inicialmente, os registos eram feitos em Vinil, depois em bobines, mais tarde em cassetes, disquetes, minidisco, CD, etc.

_ Chamamos essa área de "fitoteca" (fica no rés-de chão do edifício de seis andares) por causa das fitas aqui conservadas (bobines e cassetes) _ Começou por explicar o cicerone Ouri Pota.

Hoje, os registos são feitos em Hard Disc. O desafio de todos os tempos tem sido a conversão de áudios de um suporte em desuso para o outro emergente e a inoperância de alguns equipamentos de leitura. 

_ É um trabalho que não para, pois tem de se acompanhar a evolução tecnológica. _ Disse-nos Laurentino da Silva, o responsável pela "audioteca", também ele considerado "uma biblioteca da fitoteca" da Rádio Moçambique, dado o conhecimento acumulado sobre a área e a rapidez com que é capaz de localizar um registo sonoro histórico.

Como que a buscar a consonância entre as explicações que dava e a demonstração prática em como se localizam "as fitas" mais antigas, provoquei-o a localizar a cassete com o discurso proferido pelo Presidente Samora Machel quando, a 25 de Junho de 1975, proclamou a independência de Moçambique. Laurentino, que interrompera o seu café à nossa chegada desavisada, fê-lo num abrir e fechar de olhos como se tivesse um detector de cassetes entre os dedos.

Depois, visitei a discoteca que conserva músicas de todas as idades (desde os anos 30 do séc. XX aos dias que correm), nos mais distintos suportes, tal como a audioteca/fitoteca. A discoteca da RM está em rede, permitindo o acesso rápido por parte dos realizadores de programas e locutores. 

_ Já não precisam de fazer requisições prévias como antes, acontecendo apenas em casos de músicas que não estejam na rede. Quando recebemos uma requisição, fazemos uma transcrição imediata e colocamos a música ao dispor da Rádio. _ Explicou Porfírio Mathe.

Muitas músicas antigas foram convertidas em suporte digital e outras estão ainda por converter. Em ambos os casos, "é uma luta contínua", asseverou Porfírio, um dos técnicos da Discoteca que teve a amabilidade de fazer as honras da casa.

A rádio, porém, e todo o seu edifício tecnológico, não são apenas pessoas, voz, sons e silêncios. A componente técnica para que o som produzido seja emitido em ondas hertzianas e captado pelos recetores, há uma sala chamada de Central Técnica. Na Rádio Moçambique, é responsável pela recepção e emissão dos 4 canais produzidos em Maputo-Cidade (Antena Nacional, Antena Internacional, Rádio Cidade e Rádio Desporto), assim como pela recepção e retransmissão do sinal das dez emissoras provinciais (Cabo Delgado, Gaza, Inhambane, Manica, Maputo-província, Nampula, Niassa, Sofala, Tete e Zambézia) ao que se adiciona o sinal da Emissora Provincial de Maputo (há distinção entre Maputo Cidade Capital de Moçambique e Maputo Província).

_ Aqui é o coração da Rádio. _ Ouvi do responsável da CT, _ acrescentando que é lá que se confirmava a concretização da comunicação radiofónica.

Seguimos à Radio Cidade, congénere da Rádio Luanda, onde o meu anfitrião Ouri Pota fez carreira até passar à gestão. 
Encontrámos o jovem Hélder Mendes, animador de cabine por excelência e que tem uma grande audiência. A cabine é "auto-operada" e o locutor conversa com os radio-ouvintes sem a intervenção do técnico de som/sonorizador.

_ É uma forma de conferir melhor à vontade ao locutor e o patrão poupar dinheiro com menos pessoas, explicou, enquanto pousávamos para a foto. 

A Antena Nacional (congénere de Canal A da RNA) e a Rádio Desportiva (homóloga da Radio 5, com que "há um grande intercâmbio", no dizer dos moçambicanos) seriam os pontos seguintes.

Já na Rádio Desporto, depois de visitar os estúdios, fui convidado para "dois dedos de conversa" com a simpática jornalista Natércia Tomás, cuja voz, doce e melódica, muito se difere do comum sotaque moçambicano. A jovem parecia uma "tuguesa" pintada de negro com um sorriso escaldante a fazer parelha ao humor com que cativa os ouvintes e amantes da narração desportiva.

No final, Natércia pediu que sugerisse uma música para ser tocada como "oferta" do visitante angolano aos que nos ouviam naquele momento, perto de 10 horas da manhã de segunda-feira, 04.03.24. Apanhado por um "remate à queima-roupa" a minha escolha recaiu, exactamente, à queta "A luta continua" (para vencer o subdesenvolvimento) de Mirian Makeba.

Lá e cá "a luta continua"!

Terminámos a visita no Centro de Formação da Rádio Moçambique que, para além de atender às necessidades de formação/superação interna dos quadros, está também vocacionado a atender demandas externas como mestres de cerimónia, apresentação de discursos, jornalismo digital entre outros. Saimon Kabwé era o jornalista, descrito como um dos melhores noticiaristas da Rádio Moçambique e partilhava a sua experiência com meia dúzia de jovens candidatos a jornalistas com que tivemos a oportunidade de tocar algumas palavras.

_ Tal como em Angola, o jornalismo é uma profissão séria, de extrema importância social, insubstituível e que confere reputação. Embora não permita ao executante ser tornar-se rico no exercício simplesmente do jornalismo, confere ao profissional sério e comprometido uma grande reputação e abertura para outros voos. É incompatível com a trocas de favores e "mola" debaixo do tapete. _ Partilhei no minuto (de fama) que me foi concedido.
Conheço alguma rádio angolana melhor do que a nacional moçambicana? 
- A resposta é óbvia. Só a minúscula LAC onde "militei" de Dezembro de 1996 a Março de 2006.

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Publicado no Jornal de Angola de 31.03.24

sexta-feira, março 08, 2024

FUBADA MEMORÁVEL

Na banda não faltam motivos para organizar uma fubada como as que acontecem nos aposentos do ancião Salas Neto, no Distrito do Rangel, apimentadas de crónicas e outras chaladices, ou no apartamento kilambístico do  kota Lauriano Tchoia, acondutadas de suculentas codornas.

Na estranja, o esforço para encontrar uma bilada é maior. As opções sempre exíguas, vão para a papa dura (feita de farinha grossa de milho) oferecida pelo Marcos African Food ou é ao puré de batata que nunca se aproximam ao nosso pirão ou funji de bombó, podendo ainda variar para o misto, sempre a condimentados com largas postas de peixe do Atlântico Equatorial fartas verduras nascidas e crescidas ao sol resoluto.

Uma boa fubada, apomadada com castas do Bero ou Xixila, dá azo a prolongadas tertúlias e vozes que se elevam com o tempo de duração do repasto. 

Aqui (na estranja), no silêncio e pacificidade de Sea Point, (satélite de Cape Town) apenas os beggars (tidos como "malucos"), os carros, as motos noctívagas, os ventos e a fome falam alto. Vezeira, a fome vem de tempo em tempo, carregando, quase sempre a vontade de embrulhar uma boa fubada para contornar os sweet food destas terras.

_ Atenção! António, Lau, Adelino, preparem-se, estou a chegar. Amanhã quero-vos no meu apartamento e vamos fazer uma bilada! _ Anunciei, antes mesmo de saber se encontraria utensílios. 

Não houve resistência, afinal, a chegada de mais um mwangolê seria motivo para pôr conversas em dia, reflectindo sobre e vida de cá e as malambas de lá.

_ É só avisares a hora e as incumbências que lá estarei. _ Responderam um a um.

Dia D. A fome madrugadora, talvez incentivada pela combina da bilada, gritava mais alto do que os negros beggers que se achavam lyambados nas ruas "brancas" de Sea Point. 

O low shielding seria entre o meio-dia e as duas da tarde. Apressámo-nos nos preparativos. Melhor, o Lau cuidou de confeccionar o kalulu que o Star jura de pés juntos ter sido "inventado em Kalulu", assim como "o bolo vem do Lubolu". O Adelino cuidou das pomadas e o Oldest António ficou a moderar os excessos vocais, quando a pomada começou a fazer efeito.

Assim foi a primeira bilada. Uma fubada mista que só não recebeu estrondosas palmas de gratidão dos estômagos por estes terem a natureza de pedintes insaciáveis.

No fim-de-semana seguinte, foi a vez do Lau organizar a fubada.

_ Kotas, desta vez o conduto serão carnes assadas e, como temos assador no quintal, será lá nos meus aposentos. Preparem só as pomadas. _ Recomendou, fazendo-nos aparecer religiosamente ao meio-dia.

_ Haverá duas sem três?

O Adelino assumiria a terceira semana consecutiva. Desta vez, o Star prometeu levar sardinhas tugas para o início de conversa. Uma caixa de castas nacionais foi "raptada" pelo caminho e abatida com sucesso, dando cor ao frango e kabwenya tuguesa, levando a conversas que se prolongariam até à última gota, o último espinho e à derradeira ossada.

Mas, que tal se a fome e a vontade de embrulhar uma funjada chegam num dia de semana em que não dá jeito para reunir a equipa?

A solução é bikular a solo. Afinal, em casa ou na estranja, com amigos ou alone, ĥá sempre um motivo para uma fubada. Se bem regada, melhor!

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Publicado pelo Jornal de Angola de 21.04.24

sexta-feira, março 01, 2024

"FILHOS" QUE LADRAM

A forma como os governos dos países olham para as necessidades populacionais influência o comportamento generalizado da sociedade. Nisso, para a formatação de uma visão e consciência colectivas da sociedade, os meios de difusão massiva (MDM) e, nos tempos que correm, os multimedia exercem um papel fundamental.

Saídos da devastadora II Guerra Mundial (1939-45), que deixou um rasto de milhares de mortos e inválidos, os Estados vencedores e perdedores da Guerra, assim como suas colónias investiram milhares de dólares na comunicação de massa, incutindo nos jovens a beleza do convívio familiar (um pai, uma mãe e filhos). Tal resultou, obviamente, no reforço da sacralização do casamento e da família, tendo como consequência o "baby boom" dos anos cinquenta e sucedâneos.

Veio, a seguir, a produção virada para o consumo intensivo, o mercantilismo, o despesismo, o bem-estar e outras comodidades indispensáveis deste tempo. As televisões abraçaram a ideia basilar que lhes foi "vendida" e distribuíram-na aos jovens que vêem o casamento e a família como empecilho ao carreirismo, ao bem-estar material e ao lazer.

Caminhando pela marginal de Sea Point (Cape Town), observo, algo intrigado, a presença de muitos cães (perde-se no número, raças e tamanhos dos canídeos exibidos) a fazer companhia a singulares e aos poucos casais que se apresentam no "calçadão" que percorre a marginal. O que menos se vêem são as amáveis e doces crianças pronunciando os nomes de seus progenitores e ou de seus "frateres".

Ao saber que muitos deles são turistas que viajaram de seus países com tais animais de estimação, transportados sob cuidados muito especiais e em situações muitas vezes delicadas, sendo muito mais complexos de cuidar do que um filho, uma intrigante pergunta me persegue: mais vale a essas damas e cavalheiros um "filho" que ladra ou um nenê que chora quando calha?

Seguir o exemplo dos idosos que caminham de mãos dadas seria o mais expectável, mesmo quando estes se fazem acompanhar de um cachorro que vai no lugar do neto que lhes foi negado pelo(s) filho(s). Um dia, a carreira terá fim. As pessoas trabalham de forma intensa, abnegada e chega a reforma. Os cães têm vida curta e cada cão é mesmo um cão. Há de haver com quem conversar, trocar experiências e desfrutar juntos à mesa de um restaurante ou viajar coladinhos nos assentos de um avião. Com certeza que não será um "bobi".

Cada país é como uma família inteligente. Busca o que lhe falta e serve-se dos meios de persuasão para incutir comportamentos psicológicos colectivos. Sem me rever nos que defendem a reprodução massiva, mesmo quando incompatível com a produção de bens de subsistência e renda, sou pela família e pelo crescimento populacional moderado, cujo efectivo, quando adulto, atenda as necessidades produtivas do país e o equilíbrio das contas públicas que suportem o pagamento de uma pensão adequada aos reformados.

Para que tal aconteça, é preciso tomar-se uma decisão e unir esforços em direcção ao desiderato traçado. Os MDM devem seguir a linha mestra, mostrando o lado bom do caminho escolhido por quem nos governa. Vamos dar primazia aos filhos ou aos animais de estimação?

O Japão e outros Estados que registam taxas de fecundidade abaixo de 2 filhos por mulher já pedem mais nenês do que cães.
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Publicado pelo Jor. Angola de 17.03.24


quarta-feira, fevereiro 28, 2024

A ESTUDAR TAMBÉM SE FAZ DIPLOMACIA

A irreversível transformação do mundo em aldeia global, onde todos se "encontram" e relacionam leva os homens, independentemente de suas culturas e crenças, a reconfigurar seus códigos, sujeitar-se à aculturação global e adoptarem condutas e meios de comunicação que os tornem em cidadãos do mundo.

Assim é que nas ciências, tecnologias e negócios globais/transversais, algumas línguas se sobrepõem às outras. É hoje imperioso, para se ser cidadão desta aldeia global, que se domine a "língua das hi-tec e do comércio mundial", o inglês. Nesse quesito, um dos destinos para angolanos, moçambicanos, congoleses, sauditas, líbios, tunisinos, franceses, brasileiros, germânicos e tantos outros tem sido a África do Sul.

Na LaL, uma das escolas que mais acolhe angolanos, a aula de 16 de Fevereiro teve dois momentos eleitos à partilha com os meus leitores.

O primeiro foi um texto, seguido de reflexão interpretativa, morto-sintáctica, e argumentativa sobre um apelo do Primeiro-ministro japonês que, preocupado com o "excesso de carreirismo e sono" que têm levado à diminuição da população na ordem de 30%, lançou um veemente apelo à procriação, tendo terminando a "homilia" com o a frase "vão para casa e façam filhos", frase que os nipónicos entenderam como ofensiva.

Seguiram-se perguntas, argumentos e contra-argumentos sobre "se os governos devem intervir no controle da população (seja para aumentá-la ou para conter o seu crescimento) ou se deve ser uma decisão pessoal/do casal.

Quando chamados a compulsar as taxas de fecundidade nos países de origem, notamos que Angola era o único país com uma taixa acima de meia dezena entre sul-africanos, franceses, sauditas e brasileiros.

_ Uf! In your contry couples work hard. _ Atirou a brincar o Ahmed, um jovem saudita dado a saídas sarcásticas, ao mesmo tempo que discordava dos dados apresentados pelo Google em relação à natalidade no seu país. 

Arguciava ele que "não concordava porque muitos homens têm mais do que duas famílias, tendo cada esposa de três a seis filhos".

_ You must review your country's data. _ Dei-lhe o troco.

Sobre a taxa de fertilidade (número de filhos por mulher) e sobre a possível interferência ou não dos governos para manter os equilíbrios demográficos e económicos, discutiu-se o suficiente e cada tirou as suas conclusões. É um debate ao qual você está instado a participar e agir.

O segundo momento da aula de inglês que, naturalmente, acompanhou o primeiro momento, foi a apresentação de bebidas típicas de cada país.

Criativos e orgulhosos de sua pátria e cultura, os quatro angolanos, em que me incluo, decidiram, sob patrocínio do articulista, levar mais do que a solicitada bebida típica. As duas jovens (Alaíde e Jacira) foram à street market (uma espécie de São Paulo, em Luanda) e compraram bananas-pão, múcua, ovos, jinguba e batata-doce que transformaram em kitutes que "regaram", de forma muito concorrida e com direito a sobras, as três horas e meia de aula.

Afinal, diz um ditado secular, "no aproveitar está o ganho". Os angolanos souberam mostrar a cozinha típica e fizeram, igualmente, diplomacia.

Até à próxima!

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Publicado no Jornal de Angola de 25.02.24