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sexta-feira, abril 21, 2023

NANANAS DESSE TEMPO

Não se lhe conhece outro nome senão Nanana. Era meu primo, nascido na década de 50 do séc. XX. Seu pai, também do Lubolu, veio cedo a Lwanda, acompanhado pelo filho primeiro, ainda infante, tendo a graça, embora iletrado, de ser tornar jardineiro de primeira classe do Banco Nacional de Angola. Nos anos 80, jardinava na casa do Governador do BNA e, quando pudesse, dava uma perna nos aposentos lwandenses de Sam Nujoma, a caminho do Palácio, onde recebia em troca alguma gorjeta e roupa de fardo que dividia com os familiares.

Nanana, de quem se desconhece o nome oficial e nem se sabe se alguma vez teve um bilhete de identidade, chegou ainda imaturo à grande capital, sem vícios. Porém, em vez de seguir o esforço do progenitor que augurava fazer dele um Grande Homem e os caminhos de outros meninos do seu tempo que amavam a escola e a igreja, cedo Nanana se tornou um dyamporô, inimizando-se com a escola, as profissões e os bons costumes, preferindo colocar-se à margem da sociedade.

Quando o conheci, nos anos 80, Nanana era um adulto medonho e desprezível, escória que envergonhava a família. Dizia-se que vivia entre as barrocas da Boavista e pescarias da Ilha de Lwanda com seus comparsas da Kangonya e kapuka.

Quando se fizesse à casa do pai Falela Nganga, ao Kaputu, era para impor terror aos que encontrasse e à madrasta Nzamba-a-Lumingu, que, temendo actos delituosos que a pudessem molestar, aliviava a despensa a favor do bandido-da família que, acto seguinte vendia os concorridos e raros géneros alimentícios na primeira esquina para, com o dinheiro arrecadado, ir entorpecer-se e ganhar coragem para outros actos de banditismo.

Sem tempo para se corrigir, mesmo recebendo conselhos como chuva d'Abril, morreu nos anos 90 como um cão-vadio, nas barrocas que sempre o acolheram a vida toda. Sem parentes por perto e sem glória. 

Quando um dos consortes avisou a família sobre o seu perecimento, já haviam transcorrido semanas. O cadáver, sem identificação, teve de ser procurado de morgue em morgue e de gaveta em gaveta.

Infelizmente, ainda vejo em muitas famílias alguns adolescentes e jovens desse tempo, cujos pais se esforçam árdua e tenazmente em dar-lhes boas escolas, saúde e mantimentos, a seguirem as peugadas do meu primo Nanana. É tempo de pararem, beliscarem-se e redefinir o caminho. Nada ainda está definitivamente perdido, desde que reconheçam estar na rota errada e recomeçar. A Bíblia Cristã diz que Paulo (Saulo), o apóstolo e fervoroso missionário itinerante, participou, ad initio, no apedrejamento de Estêvão que fora discípulo de Jesus (Actos 8: 1-3). Usando, porém, a razão, Paulo arrepende-se e tornou-se num dos pregadores e propagadores mais respeitados do cristianismo.

É para esses jovens de hoje, cujas condutas deixam os pais em desalento e rios de lágrimas, que anelo fazer chegar a triste estória do meu primo Nanana que deitou ralo abaixo tudo quanto o seu pai procurou construir e dar-lhe de mão-beijada.

sábado, abril 08, 2023

KWITU KWANAVALE E O MEU REPRESENTANTE


Lembrei-me, mais uma vez, do meu primo Zito ou Sabalu Kambota. Era o mais intrépido do seu tempo, na minha família. Foi à tropa aos 18 ou 19 anos, participando de encarniçados combates no Munyangu, rota Vye-Moxiku, ao longo da ferrovia que, ao tempo (anos 80) era o ex-libris da Unita.

Uma vez, em Lwanda, depois de baleado no tornozelo (combate em que foi apagado o kwacha Tembi-Tembi), contou que a Brigada (XVIII) de Desembarque e Assalto, a que pertencia como "infanteiro", tinha escorraçado o inimigo do Vye ao Moxiku, atingindo a região de Kazombo, Lunge-Bunge e Rio Longa.
Atingido no tornozelo direito, na batalha que eliminou o temível comandante kwacha Tembi-Temji, foi gozar uns dias de repouso em Lwanda. Estávamos no ano da Conferência dos Países Não Alinhados e os que eram jovens sabem.
Foi feita uma apertada rusga. No Kwandu nyi Kuvangu havia uma tarefa patriótica de grande importância histórica.
O meu primo Zito ou Sabalu Kambota foi apanhado na esquina da Rua 10 da Comissão do Rangel, sem a Licença Militar que estava em casa. Não teve tempo de escapar e nem lhe foi dada a oportunidade de pegar e apresentar os documentos.
- Sube na quintal nda jeep, num suja peneu! - Ordenaram apenas os homens do PCU que eram de poucas palavras.
Apercebendo-se, depois, que ele era um militar já muito "cacimbado", foi compulsivamente levado ao KK, onde continuou a sua valentia, não se acobardando perante o poderio do fogo inimigo das SADF e seus lacaios da Njamba.
Esteve em todas as frentes e batalhas de Mavinga e Kwitu Kwanavale. Falou-me de ter voltado a atravessar o Rio Longa que tinha conhecido no Moxiku. Na simbiose entre "guerra e virilidade", disse ter deixado um rebento no Kwitu Kwanavale a quem atribuiu o nome de Adriano (seu irmão mais novo).
Quando já ninguém contava com o seu regresso, vimo-lo chegar, em 1992, desmobilizado e animado para uma nova vida, ostentando várias medalhas militares (outorgadas pelos governos de Angola e de Cuba) por ter participado heroicamente nos mais importantes momentos da História Militar da década de 80 (Se. XX).
Desmobilizado, sem kit de sobrevivência, sem formação adequada, sem apoio para a reintegração social, emhora contando com o apoio dos familiares em Lwanda e Lubolu, Sabalu Kambota "Zito" fazia o negócio de compra e revenda de macroeira entre o Kuteka (Lubolu) e a Praça das Corridas, em Lwanda, vivendo a sua vida de pacato cidadão que apenas pretendia viver o tempo que lhe fosse possível, sem mais ouvir explosões e ver homens despedaçados.
Uma vez, saindo do seu Kuteka e a caminho de Lwanda, o camião em que seguia capotou. Perdemos o nosso militar mais intrépido, o soldado mais condecorado de então na minha familia.
Apesar de assinar Sabalu Kambota, era o 1° neto do Soba Ñana Ñunji Kitinu ou Kanyanga, sendo o sobrinho mais velho da minha mãe. É dele, primo Zito, que me lembro e homenageio quando se assinala e festeja o 23 de Março (de 1988).
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Texto publicado no Jornal de Angola de 02.04.2023

sábado, abril 01, 2023

O MOMENTO FILANTRÓPICO DO KOTA KALAMAVU

A garrafa, que mora na garrafeira há já ano e meio, ganhou o nome de Kalamavu. É, na verdade, uma desconstrução ou corruptela do nome verdadeiro do cavalheiro que a ofereceu ao zelador de coisas ímpares.
Encontraram-se na Marginal do Dondo, aonde o feriadão alusivo ao dia dos heróis do Kwitu Kwanavale os empurrara para espairecer numa tarde de sol intenso e suor a molhar-lhes as vestes. Aliás, o Dondo é assim: o sol se parece a labaredas que provocam um calor de assar ikusu e xitu de caça.
O kota Kalamavu é "Kisamista" e o narrador é lubolense, dos lados da fronteira com a Kisama. Encontraram-se ali, de forma inesperada, embora carreguem mais de duas décadas conhecendo-se à relativa distância.
Kalamavu já vice-governou e Sanda Mwenyu jornalisticou numa FM de Lwanda. Foi nesse tempo que se conheceram e criaram afectos (mais o mais novo pelo dikota). Outros episódios profissionais estiveram próximos de os colocar em mesma equipa, mas apenas escaparam ser colegas. Quando Kalamavu estava a sair, Sanda Mwenyu estava a entrar.
Ao se rencontrarem na Marginal do Dondo, primeiro trocaram olhares, como fazem os canídeos a marcar terreno e a se certificarem se já tinham estado naquele lugar.
- Será, não será?! - Ter-se-á interrogado no seu íntimo.
Sanda Mwenyu pegou coragem. Aquele atrevimento dos mizangala educados. Levantou-se e foi ter com o Mwadyakime. Se fosse reconhecido e se ficasse por aquele acento e conversa de bar, xinini, como se não visse o mais velho, na tradição deles seria problema. Equivale ao que os nortenses do Wiji chamam "pocalizar" o mais velho. Por isso, endireitou o colarinho e foi ter com ele.
- Com licença. Boa tarde, mais velho! Calculo que seja o papá da Vadinha!
- Sou eu, sim. Também és daqui?
- Não papá. Sou do Lubolu, mas os meus avós são kisamistas.
- Kisamistas de Kandanji, Mumbondu, Kixinje ou d'aonde? - Interrogou o sexagenário interessado.
- São da região de Kindongo. Depois foram ao Lubolu plantar café.
- Somos todos de casa, meu jovem. - Preludiou.
Estavam em mesas vizinhas. Cada com seu agregado familiar e suas conversas de fazer o tempo correr e esperar pelos assados ajindungados.
O mais velho Kalamavu, que fora visitar a sua terrinha umbilical, entregou-se à acção filantrópica. Primeiro apareceu uma vendedeira de calções, com todo o charme e marketing que lhe estava na cabeça para sair dali com os dois mil na algibeira.
Kalamavu pagou os calções mandou-a oferecer ao marido.
- Quero que tenhas algo para o jantar de hoje para os teus filhos. Vai em paz, filha.
- E os calções levo de novo?! - Estava incrédula a jovem, perante a acção incomum.
Ganhou o dia e terá ido, eventualmente, zungar noutra "freguesia".
Duas coisas tinha já garantidas: o dinheiro da janta e a possibilidade de agradar ao esposo com os calções ou revendê-los.
Depois, apareceu a mana do peixe escalado e defumado. Ikusu nyi jingwingi que, só de ver, faziam as glândulas salivares entrarem em actividade.
O kota Kalamavu comprou tudo e mandou pôr no seu carro, fazendo mais uma senhora feliz.
Sanda Mwenyu ia assistindo a tudo com elevada satisfação e dizia para si mesmo:
- Quando eu crescer também quererei agir assim.
Não tardou, chegou a sua vez. Uma voz, não muito distante, pronunciava o seu sobrenome. Levantou a cabeça e era o kota Kalamavu que estava com a vendedora de Folha Larga ao lado quem o chamava.
- Sanda Mwenyu, essa garrafa é para ti, meu mais novo. É o que a praça tem, infelizmente!
- Muito obrigado, Mwadyakime! Recebo-a com as duas mãos e faço preces para que onde saiu essa haja mais proventos!
O mais velho soltou um curto sorriso. O mais novo acompanhou-o no gesto. Soltaram-se outras conversas, nas duas mesas e famílias. Depois, o kota Kalamavu partiu, despedindo-se. Não se sabendo se voltou para a sua Kisama umbilical ou para o ninho permanente na grande cidade.
- Não abrirei essa garrafa. Vai ficar em casa e a conservar o valor simbólico que encerra. - Disse Sanda Mwenyu aos parentes que se preparavam para entorná-la goela abaixo.
É por isso que a Folha Larga está deitada na garrafeira, há mais de ano e meio, e até as empregadas já sabem que aquela não é uma garrafa qualquer que se calcula o valor pelo preço da loja. É pelo simbolismo que encerra que é das mais bem protegidas da garrafeira!

Dondo, Kambambi, 25.03.23
Publicado pelo Jornal de Angola a 09.04.23

segunda-feira, março 27, 2023

O CARNAVAL DE KALULU - ANOS 80 A 90

O Carnaval dos anos que se seguiram à independência, em Angola, foi apelidado de "da Vitória". Uns, mais ousados (na escrita errônea ou na crítica sarcástica) escreviam "da Victória" e passou a ser dançado a 27 de Março, apara "assinalar a saída do último sul-africano racista do solo pátrio", depois da invasão que visava impedir o MPLA de proclamar a independência e colocar um lacaio na direcção do país.

Já tinha assistido ao desfile do cinganji, na antiga Fazenda Israel, sem saber por que razão apareciam aqueles fantasiados que punham medo à miudagem e que os mais velhos diziam, "não podiam ser alcançados nem tocados". Todavia, o meu 1º Carnaval foi em Luanda. Tendo chegado ao Rangel em 1984, calculo que no final do ano comecei a ouvir e a ver os ensaios dos grupos Atuzemba e União Estrela que ficavam a poucos metros de casa (Kaputu). Depois, entre finais de Fevereiro e início de Março, começavam as aparições nas ruas, o chamado Carnaval de Rua. Uns chegavam a descer á Marginal Antiga para o desfile provincial. Outros ficavam-se pelas ruas do Rangel, tocando e dançando para a população que fazia vênia com oferta do que houvesse: bens alimentares e ou moedas.

Regressado ao Lubolu, desta a Kalulu, em 1987, encontrei outro Carnaval, melhor do que os cingaji da Fazenda Israel e de menor expressão do que o Carnaval do Rangel.

Em Kalulu, dos anos 80 a 90 (século XX), quem, grosso modo, fazia o Carnaval eram os alunos das escolas e os funcionários públicos ligados à educação, à saúde e à cafeicultura (Libolo I, II e II). À data, as escolas primárias contavam-se aos dedos de uma mão: a Escola nº 1 (Agostinho Neto) fica(va) na Vila. A nº 2 era a da Missão Católica, ao Musafu. A nº 3 era a da Banza de Kalulu. A estas se juntava a da Kakula e a "Escola Técnica", Kwame Nkrumah, que era a maior, atendendo o II e III níveis de ensino.

Fora dos grupos carnavalescos escolares, todos compostos por crianças e adolescentes, um ou dois grupos da classe de adultos participavam (quando calhasse) do Carnaval. O do "Gabriel"1 era o mais frequente e mais bem estruturado. Era o único que já levava alguma alegoria e que nos fazia ver além dos habituais cartazes dos Camaradas Presidentes. 

As canções, estas eram vezeiras. A mesma melodia que, ano após ano, recebia ligeiras emendas à letra, quando não fosse a mesma letra do ano passado.

No ano de 1989 fui ao Jardim de Kalulu assistir ao Carnaval. A escadaria da Fortaleza (ao lado o "palácio" do comissário municipal) acolhia a tribuna.

O primeiro grupo a desfilar cantava aos presentes, dentre eles o comissário Keka Ngó que havia substituído o comissário Toni:

"Nosso rei vai entrara na tribuna

para saudá (bis 3 vezes)

para saudá o camarada comissário!"

Primeiro desfilavam os grupos escolares e depois o(s) de adulto, quando houvesse.

Era tempos de Kitotas nas rotas Munenga-Kalulu, Kalulu-Lwati e, sobretudo no Kisongo, aonde o batalhão LCB das FAPLA não ia. Mas, o povo pretendia "dar sangue" ao novo comissário, ele um militar com patentes, vindo do Sumbe, e incentivá-lo a desalojar os kwachas do Kisongo. Por isso o grupo cantava:

"Keka Ngó sabe lutar (bis)

Olha que a Unita já está no Kisongo

A Unita quer nos acabar..."

Cada texto tinha o seu contexto. Era assim e continua a ser no Carnaval de Kalulu que cresceu e continuará a crescer.

1 - Chamámo-lo naquele ano de "grupo do Gabriel", mas, na verdade haviam feito uma homenagem ao Gabriel.

Texto publicado no Jornal O Litoral de 03 de maio de 2023

terça-feira, março 14, 2023

FILOSOFANDO "COM" O ESPANTALHO

Por que as camponesas mantêm o espantalho permanente nas plantações de milho?

Numa resposta ao pé da letra, é para evitar desgraça na lavra. Aves, símios, javalis, etc.

No sentido filosófico e buscando a analogia do espantalho, "a educação dos filhos e a capacitação/apelos e aconselhamentos aos funcionários devem ser permanentes como o espantalho em uma plantação de milho". Aves são como as falhas. Estão sempre à espreita!


quinta-feira, março 02, 2023

"MANGODINHO" - NOVELA DE SOBERANO KANYANGA

O Jovem escritor Alberto Baião “Bebeckson”, com dois poemários e um ensaio filosófico publicados, natural e residente em Kafunfu, Lunda Norte, antecipa-se a "Mangodinho”, no prelo, e conduz-nos numa viagem a  

 

MANGODINHO" - NOVELA DE SOBERANO KANYANGA 

 

Da contemplação, criação, inspiração e reflexão, concebe-se a visão filosófica e antropológica da realidade angolana voltada numa novela sempre actual e actuante. "Mangodinho" 

 

Como enfrentar um desafio social e readaptar-se a um novo meio? 

 

Será que é apenas uma cruz para o Mangodinho ou para homo socialis? 

 

Num universo de idas e voltas na actualidade do real, Mangondinho aparece dramaticamente para despertar ao leitor uma nova era da vida social e dos fecundos frutos da polis (cidade). 

 

A vida humana, é vista literalmente como uma novela, porque na sua narrativa pode-se repartir os momentos em capítulos detalhados em contos. É neste diapasão que se manifesta o Soberano Kanyanga, na conceição de contos que transcendem a imaginação, tornam lúcida e explicativa a vida hodierna. 

 

Quem será então o Mangodinho? 

Profeta, assim se traduz o nome bantu Ngunza, na língua Kimbundu. Escreve Raúl David em Colonos e Colonizadores, p.15, GRECIMA, Luanda-2014 «é sabido que o nome dos nativos tem origem, geralmente no acontecimento do dia, em ocorrência ou facto importante na época do nascimento da criança, no desejo de manifestação de gratidão a alguém». E este é o nome do progenitor de José Pequeno "Mangodino", africano que deu origem ao título desta cintilante novela apresentada por Soberano Kanyanga. 


Em toda a parte do mundo, a cidade capital dum país, inspira sempre em cada cidadão um sonho   por se realizar. Por ser a mais linda do País e por congregar as figuras emblemáticas da nação.  E este sonho, também norteou o Zequeno ou então Mangodinho, conhecer a capital de Angola, Lwanda uma urbe com encantos e atracções. 


Terá Mangodinho realizado este sonho num clima tranquilo? 

Não. Responde claramente o autor em: (MANGODINHO NA NGWIMBI, p.6) «Sonho dele, de muito tempo, Mangodinho, era conhecer Lwanda e fê-lo por uma razão de tristeza. [..]. Óbito na família chegada. Menina crescida desapareceu tragicamente numa sexta de praia na Ilha. Luto anunciado ao telefone da tia, no Lubolu, Mangodinho veio junto. Calças: um par. Camisa, idem. Um casaco e um par de sapatos. Relógio, já sem ponteiros, no pulso,». 

 

Uma viagem fora da expectativa do Mangodinho, mas o que fazer, se esse sonho, sempre que fosse tentado para se realizar, um obstáculo surgia na vida do Zequeno "Mangodinho"? Como narra o Soberano, que também por nós é conhecido por Canhanga, «as vezes em que podia vir passear, respirar ar fresco da brisa do mar, visitar largos com jardins e repuxos, essas vezes lhe passaram. Ora era falta de passagem, ora era a ferida no pé, ora era sei-lá-o-quê». 


A figura do Mangodinho, concebe epistemologicamente uma ideia da Alegoria da Caverna, apresentada em a República por Platão. Onde o filósofo descreve   o quadro homem privado do conhecimento por falta da luz da verdade, Mangodinho na esperança de quebrar esta prisão da luz da verdade na caverna, acaba de conhecer Lwanda e abre-se ao mundo do espanto. Como podemos ler em: CONTEMPLANDO A PISCINA, p.9. «- Epá! - falava Mangodinho em Kimbundu - Viste aquela lagoa lá dentro? Parece mesmo lagoa de rio com peixe, jacaré e tudo. A água está a ferver!». 

 

Será que era mesmo a lagoa, como imagina Mangodinho? outra vez descobrimos Zequeno ou então Mangodinho na contemplação das sombras, ou seja, no mundo das aparências que Platão na alegoria da caverna apresenta como sombra.  Zequeno ou Mangodinho como carinhosamente era chamado, teve que conhecer a luz da verdade das coisas por intermédio de Mbondondo, seu amigo de infância que, no decorrer da conversa, o iluminou dizendo «Ó Zequeno, acorda. Piscina é só para tomar banho e a rede é para ninguém cair dentro dela. Acorda Zequeno, não fica burro, estás em Luanda!».  

 

Era mais um dia de Mangodinho em Lwanda e um dia também de muitos que pela primeira vez na capital do país, vão se assemelhando a este personagem anunciado em letras douradas numa novela de Soberano Kanyanga, "Mangodinho", uma obra que homenageia aquele que levou pela primeira vez a Lwanda o personagem que dá o título ao livro. 

 

Generosos, seremos se conservarmos o silêncio sagrado, antes de devorarmos estas cintilantes páginas. Porque nasceram num clima de inesperada morte da jovem crescida. É notória a grandeza da dor, como preludia o autor na epígrafe «Estávamos atentos à sólida formação intelectual e social da jovem de quem nos viemos despedir e esperávamos que cumprisse, depois, com o seu dever[..]. Infelizmente, estamos aqui. Maldito mar... Maldito destino... 

 

Desafiando a dor e amando a arte, Soberano Kanyanga, numa veia totalmente antropológica, sociológica e filosófica, concebe o Mangodinho, numa época de bastante coragem e concentração. Pois o clima de luto ainda o norteia, perder uma bem-amada, sobrinha que seria médica. Mas na verdade devemos nós reconhecer a realidade de que o tudo quanto respira perece.  

 

Mangodinho enfrentou vários desafios dentro da maior urbe de Angola, Lwanda. Mas apesar de ter partido numa fase não católica, Zequeno aprendeu muito na sua admiração das coisas. E a ele estendemos o nosso eterno e perene reconhecimento, por ter conhecido Lwanda, motivo que inspirou o autor desta novela em nossa posse.  

 

Onde encontrar Mangodinho? 

 Pela figura e pela realidade contemporânea, Mangodinho, pode ser encontrado na família de cada um que vive em Lwanda, mas que tem a sua raiz genealógica no interior deste imenso país chamado Angola. E por ser assim, a todos os parentes dos “Mangodinhos”, pedimos o bom amparo e correcção na forma positiva em cada erro de admiração do Mangodinho ao conhecer a terra da Kyanda pela primeira vez. "Fazer bem faz bem", como ensina a máxima popular. Porque depois de tudo, o Mangodinho, tornou-se um ilustre homem na sociedade, como se retrata num fim da sua missão. Basta ler! 

 

Ao autor, desejo eternos sucessos e aproveito o ensejo para agradecer profundamente a leitura que me proporcionou em primeira mão desta pomposa novela "Mangodinho" e ao estimado leitor, estendo o meu bom convite a leitura desta obra que nos está presente na actualidade do real, como um presente de aniversário. 

 

Um abraço da alma de: 

 Beto Baião "Bebeckson", em Kafunfu, Lunda Norte. 


= Texto publicado pelo Jornal Cultura de 29.03.2023

quarta-feira, fevereiro 15, 2023

OS AC E OUTRAS ESTÓRIAS DE KASONGE E SELES

O acolhimento e a despedida, na "vila ainda com características rurais", mas que se esforça em ser urbe, tinham sido excelentes.

De Kasonge ao desvio de S. António são perto de 30 quilómetro em estrada terraplenada e com betonilha à espera de asfalto. Os pontecos aguardam pelas pontes definitivas.

Do Santo António ao Uku, as aldeias, vilarejos e a obra da natureza oferecem um regalo infinito e inenarrável. Só vendo e vivendo!

Cerca de 40 ou 45 quilómetros a oeste de Kasonge, numa comunidade com muitas casas "coloniais"[1] destruídas, um casarão moderno e amarelo se destaca. Abrandei.

- Bom dia, jovem. O quê aquilo? É escola ou casa de alguém?

- É casa do tio Santos.

- Kenhê ele?

- É o chefe daqui.

Pensei que pudesse ser a residência do administrador, mas era impensável o responsável comunal habitar uma casa de tamanho e qualidade sem iguais na sede municipal.

Curioso avancei, rodando pela EN 245, até encontrar alguém que me retirasse "o pico da garganta".

- Mano, bom dia! Que aldeia é essa?

- É a sede da comuna de Ndumbi.

- E aquela casa?

- É de um empresário.

- Bom que alguém, eventualmente natural, tenha feito fortuna na cidade grande e a tenha vindo "enterrar" na sua comunidade de origem. - Falei à mulher que me acompanhava. Era já a segunda abordagem sobre o investimento na terra natal. Na primeira, falei-lhe sobre a necessidade de se fazer plano de negócio antes de ir construir loja na aldeia. Se não houver poder de compra e um business continuous plan será jogar água ralo abaixo. Para o campo é preciso fazer aquilo que o campo está habituado e a cidade pronta a comparar: agropecuária e comércio de apoio à actividade empresarial.

Rumámos, tendo o sol a seguir-nos, em direcção ao mar.

Em Kapolo, chama a atenção do "explorador" forasteiro um complexo de naves. Parei. Não dava para ver apenas de soslaio e passar sem saber.

- Bom dia, mano! - Saudei um senhor, entre os 40 e 50, que se prestava para montar à sua motorizada.

- Bom dia. - Respondeu lacônico.

-Bom dia, mano! Pode dizer se aqui é aonde e aquilo é o quê?

O adulto que se preparava para montar sobre a motorizada coçou a barba e respondeu meio tímido.

 - Bom dia, mano. Ndizem é ngalhinhero.

O outro que se achava ao lado corrigiu.

- Ó coiso, no é ngalhinhero. É aviário.

Agradeci, seguindo a marcha que se repletava de regalo até Amboiva (comuna do Uku-Seles, onde encontrei o General sem Pasta (apresentou-se assim).

Quando lhe perguntei que aldeia era aquela, foi diligente, num bom português em explicar que eu estava na melhor das duas comunas do município. Depois descreveu-as: Amboiva e Botera, explicando também as distâncias entre a sua comuna e a sede municipal, assim como a saída da sede para Botera e respectiva distância. Simpático, o General sem Pasta não me deixou partir sem antes pedir o meu business card[2] ao que dei sem titubear.

Tomara que tivéssemos mais cidadãos assim, orgulhosos de suas terras, conhecedores delas e aptos a situar o viandante.

Ao logo de 170 quilómetros discutimos, intercaladamente, o que tínhamos visto em Kasonge: AC numa estrutura em campo aberto. Por perto, estava uma casota que possuía uma minúscula antena parabólica (recepção de sinal de TV). A estrutura suportante parecia um outdoor e estava ligada à casota por um condutor de ar ou de energia eléctrica.

E, íamos cogitando:

- Ar condicionado para refrescar o descodificador? Para refrescar a rua é que não pode ser.

Entre a vila de Kasonge e a irmã urbe do Seles, a conversa ia e voltava. Até que, na capital do Uku, nos deparamos com um equipamento semelhante. Estavam uns adolescentes no largo.

- Meninos, boa tarde. Vivem aqui?

- Não, pai, vivo no bairro. Só vim brincar. - Respondeu o mais espevitado.

- Sabes o quê isso? 

Apontei para a estrutura, alta, que possuía um aparelho de AC montado na parte traseira.

- É fiRmi que andam apresentá. - Respondeu o teeneger[3].

Posicionei-me à frente do equipamento e verifiquei que era um dispositivo electrónico para a exibição de conteúdos fílmicos.

Corri à mulher, que estava no carro, de olhos mirados ao que fora o Hotel Cota, para explicar-lhe quão inglória tinha sido a nossa discussão. Se calhar, tivesse ela já uma crónica (jucosa) na calha e um título do jeito "qualê a coisa qualê ela, em Kasonge montaram AC na rua para diminuir o calor!"

Kasonge tem também a IECA que constrói escolas, farmácias e centros de artes e ofícios, ajudando e aperfeiçoando crianças, jovens e adultos. A IECA é como a Metodista Unida: 

- Uma igreja sem escola é como um casal sem filhos! - Li num dos cinco tomos "Agostinho Neto e a luta pela independência" e voltei a ouvir numa visita ao Nâmbwa, baluarte da luta pela autodeterminação de Angola e terra do Metodismo.

Aliás, Kasongue Seles e Konda são os três municípios Kwanza-Sulinos aonde a Metodista ainda não chegou, sendo, entre outras, a IECA que mais se desdobra em acções sociais.

 

Chegámos à Vila Nova de Seles numa altura em que tínhamos o sol por cima de nós, o que tornava tudo visível. Os religiosos domingueiros já tinham voltado a suas casas e actividades pós-culto/missa.

A urbe é que continuava com a vida de sempre: poucos andando pelas ruas da vila, poucos no parque/jardim, poucos carros circulando, muita gente nas kitandas e casas de venda de kapuka e muito poucos turistas forasteiros.

Sem pressa, percorremos a vila de Seles (que tinha de tudo para ser cidade) pelas quatro extremidades (pontos cardeais). A rua asfaltada (recente) que vai para sul foi transformada em kitanda, dificultando a circulação automóvel. Pior do que isso, é a acumulação de montes de lixo no eixo da via. Para mim foi a nódoa em pano branco e vigem.

Notei também que, a par da Kibala, Seles terá sido a vila mais destruída pelos ataques da guerrilha nos anos que se seguiram à nossa independência (1975). As marcas estão visíveis nos edifícios dinamitados, alguns tombados e outros suspensos pelas ferraduras, e que reclamam por implosão, para que não continuem a se constituir em perigo permanente aos transeuntes e aos que buscam por sombra, quando acossados pelo sol intenso na região.

As ruas da parte urbana apresentam-se limpas e estendem-se longas e largas, denunciando um projecto de cidade na sua génese.

Seles fica a 75 quilómetros do Sumbe e 29 da Konda. A comuna ukwense de Amboiva acha-se a 58 quilómetros, na EN 145.

Saindo para o Sumbe ou Konda, a circulação faz-se por estradas implantadas sobre serras com grandes declives e curvas apertadíssimas que demandam destreza, atenção e experiência ao volante. Sem esses acidentes naturais está a EN 245 que junta Seles a Kasonge, sentido sul. Reza a História que Seles, capital do município do Uku, província do Kwanza-Sul, foi elevada à categoria de vila em 1914.



[1] O senso comum designa todas as habitações de construção definitiva existentes até 1975 por "casas de colonos".

[2] Cartão de negócios também conhecido como cartão de visita.

3- Adolescente

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Texto publicado no Jornal de Angola de 22.01.2023



quarta-feira, fevereiro 08, 2023

A AGONIA DO FIM-DE-MANDATO

Agonia é "o momento que antecede o fim". É sofrimento. 

Tal agonia invade alguns "políticos" em fim de mandato, sobretudo, quando se cumprem períodos irrenováveis, pois colocam-se em uma situação em que não sabem o que lhes vai acontecer:

- Se seu partido ganha ou perde;

- Se,  ganhando, será repescado pelo novo chefe (já que o anterior findou o último mandato);

- Se o seu partido perde (pior cenário);

- Se pode ser compulsivamente levado às "boxes" ou à cadeia;

- Se entra em estado de indigência, etc.

Esse estado de agonia leva muitos detentores de cargos políticos e ou de gestão (organizações empresariais) a meterem a mão no que é alheio (por via directa ou de estrategemas e expedientes impróbeis).

Consequência: tornam-se candidatos à prisão e/ou a epítetos correspondentes, antes e ou depois do fim de mandato.

Quem, porém, tem as mãos-limpas não teme e dorme seu sono tranquilo!

quarta-feira, fevereiro 01, 2023

O 1° ENSAIO

Tinham nos dado pão e mais nada. A água era mesmo bruta da torneira. Os mais velhos é que tinham bebido um pouco de maluvu doce para que o Camarada comissário não os encontrasse 'akodiwa'.

A pré-kabunga, como chamávamos a classe de iniciação escolar, tinha começa do no "Ano da Formação de Quadros". Lembro-me ainda, como um neófito da OPA, ter sobreposto à minha camisola uma tira de pano preto, prendida por um alfinete, junto ao símbolo da organização.
No ano seguinte, já período de sol e chuva, o Comissário Provincial tinha decidido visitar o Libolo e integrado no roteiro a Fazenda Tabango que fica a escassos quilómetros da sede comunal de Munenga.

Os pioneiros todos - éramos todos da OPA- foram receber o nguvulu grande, recolhidos, manhã cedo, por um tractor agrícola da Fazenda Hoji ya Henda (Israel).

Antes do agrupamento que juntou os dispersos pela guerra dos anos 80 e 90 junto à pedra grande (Pedra Escrita), o maior ajuntamento era na Fazenda Israel (rebatizada depois de 1975 por Hoji ya Henda). É lá que se concentravam os antigos serviçais mbalundu e outros nativos de aldeias próximas que viam na proximidade do asfalto uma forma de desvendar os filhos. A escola, as cidades, os enfermeiros, os géneros alimentares, a ECODIPA, A EDIMBI e outros bens e serviços eram atingíveis com maior facilidade perfilando ao pé da estrada. O Kuteka originário dos meus pais dista 35 quilómetros.

O número de alunos levados a saudar o comissário vindo de Ngunza Kabolo atrapalha-se na progressão do tempo. Porém, mais de uma dúzia ou mesmo dezenas. Era norma e prazeroso irmos ensardinhados numa carroça de tractor agrícola, o mesmo tractor em cuja carroça nos "magoelávamos" ao sair das aulas para chegar cedo à lavra.

Transcorridos os 30 quilómetros (de Israel a Tabango), chegámos molhados pelo suor, sede e calor e foi-nos imposto o ensaio da música que nunca tínhamos cantado.
- Armá
- Armando Ndembo
- Comissá
- Comissário yetu
- Ya Kwá
- Ya Kwanza-sulu
- Ya Kwá
- Ya Kwanza-sulu!

Duas passagens foram bastantes para procurar a sombra ou conhecer, pela primeira vez, o que eram peruas e galinhas enclausurada que, aos nossos olhos, largavam um ovo em cada piscar de olho.
Foi o melhor da recepção ao Comissário que, quando pensávamos que nos dirigisse palavras e nos tocasse um a um, desceu do carro, fez um aceno e foi reunir com os camaradas mais velhos.
- E nós que chegámos cedo, cantámos de hora em hora para não esquecer, ficámos roucos, enfileirados lado a lado enfrentámos o sol, nada?

Nisso de opas, sucedâneas ou subsequentes, de abaixo e vivas, de sois, chuvas e intempéries há muito que andámos na estrada. O ensaio foi com Armando Fandanga Ndembo, em 1980. Era tempo de chuva e fazia sol.

domingo, janeiro 29, 2023

TOPONÍMIA ANGOLANA


 A meu ver, não devíamos perder a oportunidade do reencontro com a História, agora que está em debate a aprovação da nova Divisão Política Administrativa de Angola.

1- Muriege: yenwe Nuryeji (vocês são aldrabões);

2- Babaera: ovava ayela (água límpida);

3- Massangano: masa, ngana! (é milho, que estamos a moer, senhor!)

4- Ngonguembo: ngonga ya wembu (balaio/bandeja mágico/a);

5- Muxialuando: muxi wa lwandu (árvore em cuja sombra se confeccionam esteiras);

6- Quibala: kipala kya Samba (rosto de Samba);

7- Cuando-Cubango: Kwandu nyi Kuvangu (rios do sudeste angolano);

8- Calulo, Libolo: Kalulu, Lubolu

9- Caculo-Cabaça: Kakulu nyi Kabasa (gêmeos)

10- Bié: olongombe Vye (que venham os bois)!


Obs: vamos continuar a escrever "Cuito" que não é Português nem Umbundu (Kwitu)?

domingo, janeiro 22, 2023

IDEIAS QUE REVOLUCIONAM ALDEIAS RURAIS

A noite tinha sido chuvosa. Chuva grande com vento e trovoadas. Parecia que as montanhas mais próximas se iam encontrar e ensardinhar todas aquelas aldeias que se achavam no perímetro de Tumba Grande.

Mangodinho e o Soba Toneco haviam combinado comunicar ao povo as ideias do administrador comunal, camarada Maria, e as deles.
Era seis da manhã e um quarto quando fizeram tocar o sino do costume.
- Ndrim, ndrim, ndrin. Três vezes mais outras três, mais outra sequência tripla.
Os mais velhos foram se aproximando ao local das reuniões, que tinha passado da mulembeira ao pátio da escola onde se projectava um njango comunitário, última ideia de Mangodinho. 

Na verdade, ideias é o que não faltava. As pessoas com poder de as assimilar e materializar mais os recursos para fazer acontecer é que eram escassos.

O miúdo Russo, uma espécie de responsável pela comunicação, estava a ser projectado e cuidada de convocar, boca-a-boca aqueles mais alérgicos às reuniões da aldeia, normalmente os que mais resmungam e pouco cooperam.

- É assim mesmo. Cada faz bem o que sabe e aprende o que gosta. No tempo certo, recebe o cargo. - São palavras de Toneco que fez esse percurso desde miúdo na aldeia de Kuteka. Mangodinho também está a subir e miúdo Russo está a vir atrás dele.
Mangodinho foi dos primeiros a chegar para receber as pessoas. Depois é que chega o Soba Toneco. O último e que dá início à reunião.
O secretário Mangodinho fez a introdução sobre a chuva, os estragos "que vamos ver na aldeia toda e nas lavras" e o que é preciso fazer para que o mal seja maior.
- Bom dia, meu povo, minha família! A noite não foi de tranquilidade. Já vemos chapas voadas. Capim arrancado por cima das casas e, nas lavras, vamos ver quando sairmos daqui. - Disse Toneco, à guisa de arranque. - Porém, tenho ideias que transmitiu o administrador e quero vos fazer chegar.
Toneco fez pausa para ver se o povo estava ou não a gostar. Passeou os olhos pela multidão e sentiu que podia avançar.
- Pois, então, a ordem é para construirmos latrinas ou sítios para fazer as necessidades maiores. Da maneira que é: pessoa vai na mata com porco a te seguir e depois vem o porco a mexer na comida acham que está bom?
- Não! - Responderam.
- Ainda bem. O Mangodinho, depois, vai explicar ponto por ponto.
Fez outra pausa e, desta vez, afinou também os ouvidos para conferir se havia murmúrios. Às vezes o povo grita que sim, mas rejeita com murmúrios.
- O segundo ponto é sobre o Posto de Saúde que é importante construir. Alguém quer falar? - Hábil, Toneco deu palavra para espremer qualquer contestação e fazer o remate final.
- Ngana Soba, infirmero não tem ainda, vamos já construir? Ou tem outra ideia boa? - Questionou Kajobiri, uma velha de pouca fala.
- Sim mamã. Nesse caso também, o secretário vai esclarecer, mas vamos usar o mecanismo que fizemos para ter escola: construímos já o Posto e casa do enfermeiro. Depois, pedimos o mestre. Também, a aldeia vai escolher duas pessoas, jovem de homem e de mulher para ir no Sá da Bandeira fazer curso de enfermagem. Os interessados contactem já o nosso secretário.
Toneco parou para mandar ar aos pulmões. O povo aproveitou agradecer as palavras com três rajadas fortes de palmas.
- Mas não terminei ainda. Posso continuar?
- Pode. Estamos a gostar, Soba.
- Falta o poço. Posso?
- Pode. - Responderam.
- Poço, é buraco para tirar água. Vamos cavar, aqui mesmo na aldeia, até encontrar água. Vamos construir as paredes com adobe queimado e veremos uma manivela com tubo para fazer tipo chafariz. Assim, a água do rio será só para lavar e tomar banho. Para beber e cozinhar será já aqui. Beber no mesmo lugar com os animais é que está a trazer muitas doenças. Fica ou não fica bom?
- Fica, fica, fica!
Em quarto, lugar, o administrador mandou outros sobas e secretários a virem aqui ver o que estamos a fazer para melhorar a aldeia. Quando vos contactarem, ensinem os outros, mas perguntem também as ideias deles para fazermos o que eles têm de avanço. Pode ser?
- Pode!
- Então, os homens todos ficam com o Mangodinho e as mulheres podem avançar no mata-bicho e na produção.
- Puá, puá, puá. - Choveram salvas de palmas.
O Soba e o secretário ficaram com os homens, jovens e adultos, a acertar os pormenores de cada acção e as responsabilidades e incumbências de cada um.
A construção das latrinas familiares e colectivas, o Posto Médico e a casa para o enfermeiro, o envio de dois estudantes ao Lubango e a construção do poço ficaram confirmados como os desafios da aldeia de Pedra Escrita que se quer inscrever na lista de "Comunidades inovadoras" do Lubolu.

Publicado pelo Jornal Cultura de 7.12.2022