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quinta-feira, outubro 29, 2015

A HORA DA GOVERNAÇÃO ELECTRÓNICA

 
Era hora de almoço. No serviço, uma repartição pública da cidade alta do Huambo, Job Katende e seu amigo Manuel Duas Horas falavam sobre os avanços tecnológicos entre o cruzamento dos Séculos XX e XXI e as dificuldades e resistências que ainda se verificavam nas Organizações do Públicas e também em algumas privadas.
- As máquinas de dactilografia fizeram o seu papel, tornando legíveis, padronizados e ágeis processos de elaboração de documentos institucionais. Depois vieram as máquinas electrónicas, programáveis, rápidas e com um output mais vistoso. Quem não se lembra de como eram tão lindos aqueles documentos processados numa máquina movida a impulsos electrónicos e que ficava a meio caminho entre a velha máquina mecânica de dactilografar e a moderno computador? – Atirou  Manuel Duas Horas, com o garfo entre a boca e o prato de pirão.
Ainda hoje me fazem saudade. - Interrompeu Job Katende, regressando às memorias com já meio século de tamanho. O Governo Electrónico deve ser um caminho para ultrapassar os problemas que estamos com ele. Pode não ser longo, até porque hoje o maior inimigo do homem é o tempo e o melhor amigo é a tecnologia. – Reconheceu puxando o colega para mais dissensões a respeito do assunto em pauta. Era hábito entre os dois buscarem uma conversa inovadora e actual para regar os manjares.
- Pois é, mano Manuel, retomou Job Katende. A adopçao da Governação  Electrónica deve ser um plano institucional com etapas bem delineadas, com recursos, capacitação do capital humano em todas as frentes da pirâmide hierárquica, e sobretudo, exige mentalização do liderança da organização. Não pode ser chamada ou evocada apenas para fazer frente a falta de papel, tonel e tinteiros, quando as pessoas não têm computadores nem usam Outlook, quando algumas organizações correm para século XXII e umas ainda teimosas no século XX. Não se deve falar de Governo Electrónico quando na mesma organização uns navegam na internet e outros nem à velha máquina sabem dactilografar. É preciso saber que o governo electrónico das empresas requer uma mesa e uma cadeira por pessoa, uma máquina que se deprecia com o tempo, mesmo que aparentemente pareçam estar em condições. Essa crise que estamos com ela passa. A crise vamos combater com inteligência, chamando soluções adequadas a cada momento e circunstâncias. Porém, chamar soluções para as quais não se esteja estruturado pode ser paradoxal. 
 
 
Mal Katende terminou o seu rosário, a sala viu entrar Nkosi Mwenaxi, especialista em tecnologias de informação a quem sempre se recorria quando o assunto fosse internet e conexos.
- Boa tarde Mano Nkosi, já sabe que andamos sempre a tertuliar para empurrar o pirão quando o almoço é em branco. Sinta-se convidado à nossa mesa e a água fica já sob nossa responsabilidade. ‘ Convidou Manuel Duas horas ávido de mais conhecimentos sobre Governo Electrónico que só há poucos dias começava a entender, deixando de o confundir com a estrutura política que rege a organização e gestão do Estado.
Atento e interessado no assunto, Nkosi Mwenaxi começou assim a sua preleção: numa era de carências, as mentes são chamadas à exercitação diária para afinar-se mecanismo e se encontrar vias expeditas que permitam o andamento da engrenagem administrativa. Sem recursos nalgumas organizações para a compra de insumos administrativos como papel, tonel, tinteiros, combustível e outros materiais de reposição permanente, a palavra Governação  Electrónica é evocada de hora a hora e sempre que os procedimentos tradicionais de elaboração e expedição de documentos se mostre impraticável.
O que é então governação electrónica e qual é a demanda da governação electrónica?
O bloguista moçambicano Viriato Caetano Dias, na sua pág: http://macua.blogs.com/moambique_para_todos, afirma que a Governação Electrónica não é mais do que o uso das novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no sector público e não só (...) para a melhoria de vida (das organizações) dos cidadão e do país em geral.
Segundo o mesmo autor, a aposta na Governação Electrónica, entre os mais diversos objectivos realizáveis, visa:
» Proporcionar o acesso universal à informação a todos os cidadão e funcionários  para melhorar o seu nível e desempenho profissional (administração, educação, ciência e tecnologia, saúde, cultura, etc.).
» Criar uma rede electrónica do Governo que concorra para aumentar a eficácia e eficiência das instituições do Estado e contribua para a redução dos custos operacionais e melhoria da qualidade de serviços prestados ao publico”.
Remete-nos também à ideia de facilitar o cidadão na interação com as instituições do Estado e outras, proporcionando informação adequada e actualizada aos contribuintes, disposição de bens e serviços aos utentes, através de redes cibernéticas ou portais que facilitam a informaçao, acesso aos serviços, usufruto e prestação de deveres e obrigações como o pagamento de coimas, escolha de representantes, constituição de organizações, etc.
Para a materialização dos pressupostos acima elencados torna-se necessário suprir quesitos como: equipamento, modernização, manutenção e capacitação do Capital Humano.
- O quesito equipamento remete-nos ao apetrechamento das instituições com tecnologia electrónica para dar vasão ou  fluidez aos processos. Computadores, impressoras, data shows, scanners, instalações para trafegar as informações, softwares, servidores, contas de e-mail corporativo (informação institucional não deve ser trafegada em caminhos alheios) entre outris, são imprescindíveis para que haja uma cultura de governação digital.
- A modernização tem a ver com a atualização dos equipamentos e programas cujo dinamismo de evolução não pode ser ignorado. Torna-se necessário que as organizações estejam a par da revolução tecnológica, não ficando distanciados dela, pois programas e máquinas em desuso podem complicar mais do que facilitar ao não corresponder com os exemplares modernos nem reagir no tempo e performances deles esperados.
- A manutenção é o pilar da durabilidade e fiabilidade: programas de combate às invasões virais, manutenção preventiva e reativa dos hardwares, testagens dos sistemas operativos, entre outros, devem ser permanentes para que não haja estrangulamento na recepção, processamento e saída de informações ou dados.
- Capacitação: para além da autossuperação, as pessoas e organizações a que o Capital Humano pertença têm de estar envolvidos em planos e programas de capacitação e refrescamento contínuos em TIC. Como conceber a Governação Electrónica numa organização em que haja pessoal administrativo sem conta de e-mail ou que ignore as vantagens da internet?
Podíamos elencar outros elementos, mas esses bem servem para uma reflexão preliminar. A todos eles se deve agregar o Capital Financeiro que é de extrema utilidade e condicionante.
Sendo que a necessidade nos impele a pensar fora do comum, uma vez aqui chegados, é tempo de despertar os assessores, consultores e orçamentistas para o exercício de uma magistratura de  influência positiva junto dos decisores de topo para um olhar mais atento e  agregador aos factores que podem ou não alavancar uma eficiente Governação Electrónica nas organizações públicas e privadas: é necessário investir em materiais informáticos, seguir a sua evolução, desmobilizar o  equipamento com vida útil vencida, investir em programas ou softwares de protecção, proceder as manutenções preventivas, actualizar os softwares, substituir os periféricos que se tenham avariado, etc. É desta forma que as organizações afectadas pela crise financeira ultrapassarão a crise de resultados laborais. Mesmo em agricultura, as boas safras muito dependem da forma como as campanhas agrícolas são preparadas e como o plantio foi seguido ao longo do seu crescimento. – Antes de terminar a sua preleção, Nkosi Mwenaxi que já tinha feito antever o fim, foi agraciado com uma estrondosa salva de palmas e assobios pelo auditório, ao que se despediu com um: Boa reflexão!

quinta-feira, outubro 22, 2015

A SAUDADE QUE BROTA DO EMPENHO

- Por que, quando estamos em gozo de licença,  só a minha irmã recebe chamadas de colegas e do chefe a consultarem algo sobre o trabalho, se somos colegas? Por que só a ela as pessoas dizem "sentimos muito a tua ausência", quando voltamos ao serviço, findas as férias? - As perguntas de Njamba pareciam infinitas.

 Njamba não é uma jovem que sinta inveja da mana, mas a vida profissional, depois de toda a infância e adolescência juntas e recebendo dos pais e comunidade tratamento idêntico, faz delas, hoje, pessoas distintas, embora muito parecidas fisicamente.

Njamba e Ngeve, gémeas verdadeiras, sempre confundiram os colegas nas escolas em que frequentaram o ensino primário, médio e superior. Sendo duas raparigas de pele bronzeada e músculos torneados, as manas faziam-se passar, quando quisessem, uma pela outra sem o mínimo de desconfiança da "vitima". No banco e nos exames de recurso, que o digam os funcionários e os professores?!

- Njamba ou Ngeve? - Questionavam os mestres na academia.

- Sou eu mesma. A minha irmã dispensou o exame  - Defendia-se quem estivesse na condição de examinanda.

Houve vezes que que cada assumia seus actos singulares sem usar a falsa identidade. Porém, a pergunta "Njamba ou Ngeve?", só para confirmar, nunca se fazia ausente. Elas, com o "maior a vontade", sempre no ataque: sou eu mesma (Njamba ou Ngeve que escolhesse o questionador).

Depois de formadas, com sucesso académico, em Administração de empresas, as "manas parecidas", como também eram conhecidas concorreram à Função Pública tendo, novamente, a sorte as acolhido. Ficaram aprovadas e, mais uma vez, ficaram juntas no Departamento de Intercâmbio onde Ngeve se destacava com a sua entrega abnegada e criatividade, enquanto a irmã Njamba era mais dada à lide caseira e a pequenos negócios. O emprego para Njamba era apenas uma forma de não se distanciar da irmã e uma questão de estatuto social.

- Mulher que trabalha tem outra respeitabilidade no bairro e mesmo os cavalheiros que se atrevam a perder vergonha, na hora de desfilar a prosa, pensam duas a três vezes . - Dizia-se no bairro das Acácias onde residiam. Isso envaidecia as manas e outras jovens da urbanidade e fazia com que Njamba seguisse as pegadas de Ngeve que, por sua vez, coleccionava distinção atrás de distinção por causa do seu inconformismo com o status quo e a sua capacidade inventiva. Em termos de resultados práticos, Ngeve era das que mais produziam e estava sempre a inovar nos procedimentos, procurando poupar desperdício de tempo e material.

- O cérebro é a mais útil das ferramentas de trabalho do homem e não pode ser aposentado antes da morte. - Recitava incansavelmente Ngeve.

 Essa sua entrega e prontidão, que contagiava o resto da equipa e a liderança, faziam dela uma mascote. As suas ausências eram rapidamente percebidas até pela alta hierarquia da organização. Não pelo seu brilho corporal que, embora dotado de um arranjo escultural, tinha uma exposição situada na penumbra. Era pelo seu bem fazer e sempre com alegria no rosto, mesmo quando a tarefa fosse penosa.

Njamba era diferente. Mais vistosa e mais exposta à luz e aos megafones do que à actividade trabalhista. Se faltasse, ninguém na equipa dava por ela. Porém, quando fosse o inverso, se por uma razão bem ponderada Ngeve se ausentasse, Njamba era bombardeada com a pergunta "que se passou com a sua mana do sorriso aberto?" a quem disfarçadamente a liderança mostrava empatia e saudades.

- Mas nós somos gémeas verdadeiras e vocês apenas se lembram dela? - Reclamou certa vez meio aborrecida, depois de ter gozado férias sem que ninguém tivesse sentido a sua falta.

Pascoalina, uma idosa já reformada que havia sido recontratada para formar os novos agentes administrativos e contribuir para a  moralização e comprometimento dos funcionários públicos daquele Ministério, puxou da sua experiência e sabedoria para uma lição de vida que Njamba afirma jamais se esquecerá. E a anciã, nos seus sessenta e cinco anos, começou assim:

- Filha, beleza acaba. Olha pra mim e diz se encontras nesses retalhos um corpo de miss? Já fui, entretanto, miss distrito, miss província ultramarina e primeira dama do concurso metropolitano no tempo doutra senhora. A Única faixa de miss que não se desfez com o tempo foi o meu empenho e responsabilidade profissional. É isso que motivou a minha recontratação quando já estava a cuidar dos netinhos e dos reumatismos. Queres ser bem lembrada e valorizada, filha? Trabalha!  - Recomendou Pascoalina.

A anciã fez pausa para buscar outro exemplo e prosseguiu:

- Nos tempos em que tínhamos a vossa idade, trabalho de escritório era maioritariamente para homens, as mulheres eram poucas, pois éramos mais direccionadas para donas de casa. É isso que você anseia? É para isso que queimaste pestanas na faculdade? Olha, Njamba, o patrão apenas se lembra de quem faz falta. Um dia, e não falta muito, a Administração Pública será gerida como são geridas as empresas. Estará ficada para os resultados e não mais para as simples presenças físicas e desfiles de meninas de cintura fina. Aí é que se verá quem merecerá ficar e quem deverá ser mandado para casa cuidar da roupa e da loiça. - Explicou a instrutora.

Njamba acompanhava atenta a explanação de Pascoalina que pausava apenas para regar os pulmões com  ar puro.

Ngeve, a gémea de Njamba, também apelidada de génia, estava em missão de serviço no exterior do país.

Pedagógica, dona Pascoalina prosseguiu:

- Queres marcar teus colegas e teus chefes para toda a vida, filha? Trabalha! Inova. Pensa todos os dias em coisas novas ou em como simplificar as tarefas, tornando os procedimentos menos burocráticos e menos dispendiosos em termos de tempo e de custos.

Do simples abanar da cabeça, em gesto de aprovação de tudo quanto ouvia, Njamba passou à anotação na sua agenda.

- Obrigada, 'vó' pelos conselhos. Reconheço que não tenho estado ao nível da Ngeve e compreendo hoje por que perguntam por ela quando não vem e por que razão de mim quase ninguém se lembra quando falto.- Confirmou Njamba.

- Pois minha filha, rematou Dona Pascoalina, apenas os que fazem falta são lembrados. E não te esqueças que todos os patrões, quer sejam privados ou estatais, são da "mesma escola". Se se apercebem que você não faz diferença mandam-te para casa na primeira oportunidade ou necessidade que tiverem de reduzir pessoal. Pensa nisso, filha. O país tem rumo e os tempos são de mudança de comportamento e mais atitude! - Concluiu Pascoalina sempre pedagógica e com ar maternal.

A conversa já ia longa quando o director chamou a equipa para comunicar que da avaliação de desempenho em curso resultaria na dispensa e transferência para unidades periféricas de agentes e funcionários que ainda não tinham encarnado a nova filosofia de trabalho. Njamba foi para casa pensativa ao passo que Pascoalina continuou as suas preleções, desta vez com Weza, um jovem que apresentava dificuldades de integração em equipas compostas por diferentes grupos etários.
NOTA: texto publicado pelo Semanário Angolense de 02 de Setembro de 2015

quinta-feira, outubro 15, 2015

UM OLHAR ENGENHOSO E PRAGMÁTICO AO FUTURO

A crise económica e financeira que afecta as nossas instituições e famílias é hoje tema de conversa em todos os cafés e paragens de transportes colectivos. Apesar de estarmos quase todos inconformados, uns lutam para contorná-la ou mesmo revertê-la, ao passo que outros não passam dos lamentos.

A nossa atitude em relação à forma como encaramos os desafios que se nos são impostos determina os êxitos e ou OS fracassos na caminhada e desenham o nosso futuro.
Estabelecendo paralelismos entre a vida humana e o mundo animal, verificamos que o futuro de um herbívoro depende da existência de água, relva ou pasto e sagacidade em fugir dos predadores. O futuro dos carnívoros depende da sua perspicácia e coragem em atacar, até os animais mais corpulentos, e da resistência e persistência. Diria mesmo, resiliência. Assim também é o futuro das pessoas e das organizações que precisam de explorar as crises e os desafios, fazendo deles oportunidades, contornando com galhardia cada obstáculo que surja.

Como você encara os desafios que se lhe são impostos no seu dia a dia? Cruza os braços como o cordeiro cansado de fugir dos seus predadores e que se entrega à fome do lobo? Faz da presença do um perigo uma oportunidade para ensaiar a sua velocidade, destreza e resistência!
Pois, então imagine o que acontece com os corpulentos elefantes quando a sua manada se depara com a presença de um faminto e franzino leão. Imagine agora o tamanho, a força e o peso de um elefante, perante um leãozito franzino e faminto.
Apesar de toda a sua imponência, acontece que o elefante, encara a presença do leão como um perigo à sua integridade física e, em vez de enfrentar o intruso de forma frontal, vira de costas, acusa o complexo de inferioridade, acobarda-se e sai correndo em debandada.

- Ali está o rei. – Diria o elefante, se fosse um ser pensante e dialogante.

O leão, vendo os elefantes em retirada, acusa o complexo de superioridade e logo aponta uma oportunidade para saciar a sua fome.

- Comida! – Gritaria ele, se fosse racional.

É exactamente o que acontece na selva. A cobardia de uns, mesmo beneficiados em tamanho, redunda em oportunidade de saciar a fome para outros ainda que de menor compleição física. A crise para uns é oportunidade de melhoria para os sagazes, inovadores e resilientes.

E  como você encara então a falta de material de escritório, a falta de transporte de recolha, a perda do poder de compra dos salários, entre outras dificuldades derivadas da falta de dinheiro nas instituições e nas famílias?

Ao se deparar com os desafios que se colocam à frente de si, você diz que ali está uma oportunidade de melhoria? Busca soluções inovadoras, produtos e saídas alternativos para fazer o que sempre fez em tempos de fartura, ou usa a táctica do elefante que se põe em fuga, perante a presença de um filhote de leão, deixando desprotegidas as suas crias?
Como dizia um pregador duma igreja protestante em Angola, “nada está perdido, enquanto não nos comportarmos como o fugitivo elefante”. Não acantonemos a mais bela e mais rica ferramenta de que somos possuidores, o cérebro.

Quantas vezes você desistiu, por falta de um pouco mais de coragem ou desconhecimento, quando estava próximo de atingir a meta? Você vai repetir a dose? Pense, inove, resista até ao limite de suas forças. É consabido que a necessidade aguça a arte ou o engenho. Encontremos então, todos os dias, ideias novas e soluções inovadoras para a crise financeira e material que nos assola. Refinemos também os laços de solidariedade institucional e pessoal para que a nossa locomotiva caminhe sempre sobre os carris. De que nos adianta andarmos aparentemente cómodos no vagão de trás de um comboio se noutro vagão, que vai em frente, as rodas estiverem calcinadas? De repente, elas podem deixar de deslizar sobre os carris e afectar também a nossa viagem.
O homem é um ser gregário e solidário que necessita da associação, cooperação e interdependência com os seus semelhantes para realizar os seus intentos e da colecttividade em que estiver inserido. Se é inteligente nos unirmos em momentos de fartura, tal deve  ser mais ainda nos tempos de carência. Busquemos, então, aliviar as dificuldades e os sofrimentos dos outros que menos têm com aquilo que sobra do suprimento de nossas necessidades e que podemos dispensar ou ceder.

Já imaginou quantos vivem de descartados ou mesmo em descartados? Já pensou que os seus descartados podem ser materiais úteis e utensílios de grande valia para aqueles que pouco ou quase nada têm? O melhor ensino é o exemplo (Nelson Mandela). Demonstre isso em casa, no serviço e onde quer que esteja e verá que os beneficiários das suas acções solidárias exibirão um outro sorriso mais luminoso. Ficar-lhe-ão imensamente gratos e você seguirá em frente com a alma mais reconfortada.

Tal como as carruagens de um comboio que fazem parte de uma mesma composição locomotiva, assim são também os nossos órgão institucionais que são partes de um mesmo Departamento ou Organização que deve funcionar de forma integrada e harmoniosa e com a mesma velocidade entre os seus componentes. As distintas áreas de uma organização estão tão interligadas que se parecem às engrenagens de um relógio. Bastará que um dos carretos de uma engrenagem se quebre para que o relógio deixe de marcar as hortas certas.
Já pensou no que vai fazer hoje, de diferente, para que a sua jornada laboral não sofra quebra?
Erga o rosto e diga aos desafios que atravessarem o seu caminho que eles serão como o elefante fugitivo: comida para o leão faminto. São uma oportunidade para a melhoria contínua dos seus processos.
Obs: Texto Publicado no Semanário Angolense a 30.10.2015

quinta-feira, outubro 08, 2015

PERSPECTIVAS INTERCULTURAIS

“Soberano Canhanga” como é conhecido pelo seu pseudônimo, nasceu em Libolo, em 1976. Reside em Luanda, a capital de Angola, e teve passagem de nove anos pelo nordeste do país. É formado em Comunicação Social e Pedagogia de História

Por Gilvaldo Quinzeiro
Estamos iniciando em “Perspectivas Interculturais”, como o próprio nome sugere, um diálogo com as diferentes culturas, estilos artísticos e gênero literário. Nesta edição queremos que o público caxiense, maranhense e brasileiro conheça o jornalista, cronista e poeta angolano Luciano Canhanga.
 “Soberano Canhanga” como é conhecido pelo seu pseudônimo, nasceu em Libolo, em 1976. Reside em Luanda, a capital de Angola, e teve passagem de nove anos pelo nordeste do país. É formado em Comunicação Social e Pedagogia de História. Frequenta mestrado em Ciências Empresariais pela Universidade Fernando Pessoa, depois de frequentado o MBA em Gestão de Pessoas pela FAAG-Brasil. Luciano Canhanga é atualmente Gestor de RH no Ministério de Geologia e Minas. O que pensa este angolano sobre o Brasil? O que fala da cultura angolana? Quais são suas obras literárias? Leia a entrevista!
Gilvaldo Quinzeiro – Senhor Luciano Canhanga, muito prazer! Bem-vindo a Perspectivas Interculturais! Obrigado por nos conceder esta entrevista! Fale-nos da sua inserção cultural ai em Angola? Qual a sua produção cultural? Quantas e quais obras literárias publicadas?
Luciano Canhanga - Vivo a cultura angolana que sendo única não se dissocia da cultura e civilização universal. Como amante das letras, tenho cinco livros publicados entre 2010-2015, assinando com o pseudônimo Soberano Canhanga.
O sonho de Kauia, romance de estreia, em 2010; Manongo’Nongo, contos, 2012; 10 encantos, poesia, 2013; O relógio do Velho Trinta, romance, 2014 e O coleccionador de pirilampos, contos, 2014.  Também sou bloguista desde 2005, escrevendo sobre aspectos antropológicos, sociais, históricos, comunicacionais, entre outros nos meus seis blogues, sendo o principal www.mesumajikuka.blogspot.com
Gilvaldo Quinzeiro – Qual o seu estilo literário? Que traços da cultura angolana está presente em seu trabalho?
Luciano Canhanga -  Identifico-me mais com a prosa, sendo a crônica o género em que melhor exercito. Isso se deve à minha condição de jornalista há já vinte anos. Costumo mesmo dizer que não sou escritor. Apenas um contador de cenas, descrevendo a sociedade através da crônica ou da versificação. A minha escrita é vivencial embora pintada e repintada com o lado artístico.
Gilvaldo Quinzeiro – O Senhor além de ser colaborador da HLC, está lançando um livro bilíngue pela Editora Pim, da série Biblioteca Universal. Fale desse livro? O que é para o Senhor fazer parte desse projeto?
Luciano Canhanga - Conheci o Dragomirescu Daniel, editor do HLC, nas lides sociais, há já cinco anos depois de publicar o meu primeiro livro. É uma boa experiência partilhar com o mundo o fruto do nosso trabalho intelectual. Os angolanos são ainda pouco traduzidos e levar os meus textos à Europa e América é motivo de satisfação. Canções ao vento são poemas que retratam Angola nos seus mais variados contextos econômico, político e social. É obvio que não são crónicas versificadas, devendo exigir sempre uma segunda leitura, dada a polissemia do texto poético. Porém, quem ler as minhas canções, encontrará nelas, com certeza, um país que atende por Angola e um povo com dinâmica própria de vida. 
Gilvaldo Quinzeiro -  E com relação a literatura Angolana, o que o Senhor tem a nos dizer? Quais os autores mais lidos? Como é o público leitor angolano?
Luciano Canhanga - Os angolanos já começam a ler muito mais e temos leitores heterogéneos. Hoje não se leem apenas os nacionais, mas também os autores estrangeiros e, particularmente, brasileiros. As ferramentas digitais levam-nos a todos os recantos. Quanto aos nacionais, são incontornáveis nomes como Pepetela, Manuel Rui, Uanhenga Xitu, Alda Lara, Jofre Rocha, Roderick Nehone, Ismael Mateus, Luis Fernando, Lopito Feijó, Ondjaki, Cremilda de Lima, Maria Celestina Fernande, José Eduardo Águalusa, etc. Vai também surgindo um grupo de escritores da nova geração, como o Gociante Patissa, António Quino, Ras Nguimba Ngola, David Kapelenguela, e outros bastante promissores, segundo a crítica.
Gilvaldo Quinzeiro – Como o Senhor ver a relação Brasil/Angola?  O que precisa melhorar nesta relação? Como o angolano ver o Brasil? Que autores brasileiros são lidos pelos angolanos?
Luciano Canhanga - Os novelistas e romancistas brasileiros como Jorge Amado são dos mais queridos em Angola. As telenovelas brasileiras são muito consumidas em Angola e a Tv acaba por nos levar ao texto que dá suporte às telenovelas. Isso faz com que se conheçam mais os actores e autores. Porém a falta de estudos e publicações regulares faz com que a minha apreciação seja apenas minha, sem exteriorizações. As relações históricas, políticas e económicas entre Angola e Brasil são das melhores que existem. Do ponto de vista cultural, assisto a um movimento unidirecional: vejo o Brasil mais na condição de produtor e exportador, sendo Angola mais consumidor de produtos culturais brasileiros. É aqui que as partes, sobretudo a angolana, precisa de trabalhar mais. Do outro lado há um grande mercado e uma ânsia por conhecimento de África que pode ser produzido e fornecido pela costa este do Atlântico. Precisam ser afinados os mecanismos de comunicação e intercambio para que a África vá mais à América, culturalmente falando.  Não basta dizer que o Samba é filho do Semba (de Angola) ou que a capoeira foi levada por africanos. É necessário que haja um intercâmbio e conhecimentos permanentes.
Gilvaldo Quinzeiro – Como os autores angolanos estão utilizando as mídias atuais? No que a internet, as redes sociais têm contribuído na produção dos novos autores angolanos, e na sua em particular? 
Luciano Canhanga - Os jovens, sobretudo, têm aproveitado as novas tendências da mídia para se mostrarem ao mundo. É o meu caso. Tenho três ebooks que me levam a um universo maior de leitores, aonde o livro físico não chegaria. Acredito que essa tendência venha a crescer cada vez mais e a quebrar barreiras e fronteiras. Há também uma crescente utilização de redes sociais o que, por si só, pluraliza a sociedade e torna a sociedade mais aberta ao mundo. 
Gilvaldo Quinzeiro – Faça as suas considerações finais.
Luciano Canhanga - Sinto-me grato por ter merecido a vossa atenção e pela oportunidade que me concedem em exteriorizar algumas ideias. Espero que continuem nessa senda e que deem oportunidades a mais literatos angolanos para levarem ao mundo o que lhes vai na alma.
Obrigado.

quinta-feira, outubro 01, 2015

CAMINHOS EVITÁVEIS

Na áurea das independências, e influenciados pelos ventos revolucionários e ideologia dos países do Leste europeu, dois Estados da conhecida Região do Corno de África decidiram fundir as suas fronteiras num acto que visava aproximar os dois povos que comungavam de culturas e valore muito parecidos.

Essa visão política estendeu-se ao fórum empresarial e económico. Algumas firmas do pais Ericeira estabeleceram parcerias, face a existência de novas oportunidades de mercado e possibilidades de expansão de negócios.

Tonka Incorporated, uma firma que dominava o segmento da prestação de serviços de higiene e segurança em instituições públicas, bem como a gestão e e aplicação de políticas de Recursos Humanos, tinha uma considerável quota de mercado em Ericeira e um excesso de liquidez que permitia a empresa explorar a oportunidade criada pela conjuntura exógena, a fusão dos territórios entre Ericeira e Entropia.

Em viagem de serviço a capital de Entropia, que se tornou a segunda cidade mais importante do Estado Unificado, Sir Kato Ndombele, o patrão da firma KatOn Service Incorporated, conheceu Hamed Tonka, o Presidente do Conselho de Administraçao da firma Tonka Incorporated, e com ele decidiu estabelecer uma parceria, criando uma fusão entre as duas empresas, tempos depois, antecedida de aturadas negociações.

A KatOn era uma empresa com reputação ao nível do continente africano e de alguns países do sul da Europa em termos de gestão de Capital Humano e prestação de serviços. Porém, as transformações políticas no país e as nacionalizaçoes ocorridas em Ericeira não facilitaram uma expansão dos seus negócios, muito menos criar uma almofada financeira que permitisse atacar o novo mercado que surgiu com a fusão dos dois Estados vizinhos. Os quadros da KatOn tinham porém a fama de terem trabalhado em grandes multinacionais, gozando, por isso, de grande reputação junto de outros parceiros empresariais e organizações governamentais.

A Tonka, empresa da Entropia, viu nela uma parceira capaz de agregar valor aos seus recursos financeiros excedentários.

Fundidas as empresas Tonka e KatOn, a nova entidade jurídica passou a designar-se Toka International, sendo grande parte da sua gerência confiada aos executivos procedentes da KatOn, que era minúscula em termos de estrutura, mas robusta em termos de know how e qualidade do seu Capital Humano. A sede da nova entidade empresarial, a operar no território unificado, passou a ser a antiga Base Central da então Tonka Incorporated, o que levou os funcionários mais antigos da Tonka a tratarem os seus novos colegas com os mais variados epítetos depreciativos. Eram tratados como "estrangeiros, invasores, usurpadores de cargos, etc.",  situações que a juventude bem disposta, comprometida e motivada, procedente da KatOn, geria com inteligência e postura institucional.

- O nosso lema é trabalhar, fazer a nova empresa crescer e crescer com ela. - Diziam os jovens executivos saídos da KatOn.

De simples alegações ciumentas, passou-se a confrontos verbais mais acirrados que chegavam, em muito dos casos, a inviabilizar alguns planos de crescimento da Toka International.

Como as lideranças estavam mais focadas na consolidação da fusão e desenvolvimento da nova estratégia de negócios propiciada pelas razões endógenas (excesso de liquidez e domínio de consideravel quota de mercado por parte de Tonka e elevada preparação técnica dos quadros da KatOn) e pelas razões exógenas (fusão dos dois países, crescimento económico e restruturação das instituições públicas), preferiram tocar o negócio para a frente, buscando apenas a participação daqueles que estavam interessados em trabalhar, fossem quais fossem as suas funções hierárquicas nas equipas. As lideranças intermédias rapidamente interpretaram o pensamento estratégico e começaram a trabalhar com os quadros disponíveis, ficando sem trabalho aqueles que, a todo o custo, puxavam a carroça para trás ou usavam a táctica do caranguejo (não permitir que alguém trabalhe ou colabore). O curso dos acontecimentos levou a que os quadros da Tonka que aderiram à nova filosofia de trabalho aprendessem com os outros provenientes da KatOn e se especializassem em distintos ramos do saber. Às cegas ficaram aqueles que desistiram de trabalhar, procurando apenas conspirar contra as novas lideranças da Empresa Unificada e os colegas que tinham aderido à nova fislosofia de trabalho.

Vinte anos depois, o Leste europeu conheceu outros desenvolvimentos políticos, com maior realce para a queda do Muro de Berlim, que levaram à desintegração de Estados em alguns continentes desanexações de territórios, efeitos que se estenderam a países que orbitavam na esfera ideológica do Leste europeu. Isso fez com que a integridade do Estado Unificado de Ericeira-Entropia fosse afectada, repercutindo-se também em alguns negócios empresariais, sobretudo os actores que trabalhavam com instituições públicas.

Da Toka International ressurgiram duas novas entidades empresariais que passaram a actuar com a mesma tecnologia e conhecimento nos países (re)emancipados.

- Chegou a nossa hora de governar o país e a empresa, terminada que está a ocupação ilegal dos nossos postos de trabalho e de chefia. - Proclamou a velha guarda resistente da antiga Tonka de Ericeira.

Os jovens competentes, formados no tempo da fusão, foram relegados para planos secundários na organização, sendo catalogados como "produto da colonização empresarial", ocupando a velha guarda os postos de decisão na empresa.

Aqueles que, sendo da mesma geração que a velha guarda tonkanense, tinham aderido às novas formas de trabalho, no tempo da gigante Kato International do Estado Unificado, também foram ostracizados sob a alegação de "se terem juntado ao colonizador".

- Quem se juntou ao opressor que invadiu a nossa empresa e tomou os nossos lugares, agora que nos livramos deles, deve partir ou sujeitar-se à nova ordem. – Apregoavam eufóricos.

O poder de transformar a empresa e seguir o seu percurso de crescimento e expansão tinha-lhes sido entregue. Porém, os vinte anos de defeso, sem trabalho e contacto com as novas ideias e novas tecnologias, fez deles maus líderes e maus obreiros. De uma imponente empresa que foi antes e depois da fusão, a Tonka não passa hoje de um impotente manto de retalhos, com tecnologia e capital humano a reclamarem por uma reforma profunda.

Do outro lado, em Entropia, segue de vento em popa a KatOn International que absorveu da sua antiga parceira o conhecimento de mercado, capitalizou os investimentos herdados com a fusão e conta com os seus quadros cada vez mais qualificados.

Quando se realizam fusões de organizações empresariais, independentemente da procedência, quantidade de quadros indicados para a gestão e do peso que tenham ou venham a ter na organização, é importante que cada uma das partes fundidas ou componentes das partes dêm o seu máximo para a consolidação da nova entidade. Todos os integrantes devem absorver as vantagens da fusão e da interação com os outros actores (que se juntam à nova organização).

Ficar na sombra, a reclamar o declínio dos gestores no activo, pode ser perigoso para quem arme este estratagema como forma de reivindicar o poder, pois, uma vez no exercício do poder reclamado, pode ver-se despido de ferramentas para a exercitação das funções que lhe foram confiadas. Ficar na sombra, a torcer pelo descarrilamento do comboio, para depois tomar o lugar do maquinista azarento, poder ser uma estratégia perigosa como se verificou entre os integrantes da firma Tonka de Ericeira que deitaram a baixo até o que de mais valioso tinham conseguido com muito labor: o supervait e considerável quota de mercado ericeiriense no domínio da prestação de serviços de higiene e segurança em instituições públicas, bem como a gestão e e aplicação de políticas de Recursos Humanos.

Nota: a presente reflexão é produto de criatividade aliada ao estudo de casos científicos no curso de MBA realizado na FAAG, não se dirigindo a pessoas e ou instituições concretas de nenhum Estado ou território.
 
Obs: Texto publicado no Semanário Angolense de 06.11.2015.

segunda-feira, setembro 28, 2015

A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR E AO BANCO O QUE É POUPANÇA

Sou tido, nalguns círculos, como critico social. Isso mesmo: pessoa que aponta o que está errado e avança como se pode fazer melhor.
Por opção, não tenho conta salario no banco comercial público que se faz anunciar com cor azul. Era sinónimo de muitas enchentes no início do mês e atendimento que me deixava com os cabelos em pé.
Mas a realidade mudou ou tende a mudar. Por duas vezes, esse ano, dirigi-me a uma agencia de Luanda, das mais concorridas, tendo em conta a sua localização geográfica.
Senti vontade, nas duas vezes, de pedir uma cunha a alguém para agilizar o meu problema (ajudar o filho a abrir conta e abrir subconta para movimentos regulares), mas, confesso, antes que pedisse favores, o dever de servidoras se sobrepôs ao laxismo que se verifica ainda em algumas instituições e fui diligentemente atendido, saindo de lá com o último molar à mostra.
Com capacitação, responsabilização e premiação dos melhores e mais destacados, as empresas, sejam públicas ou privadas, tomam a satisfação do cliente como foco principal e razão da sua existência.
Parabéns à equipa do Dr. Caquele (BPC-Combatentes).

terça-feira, setembro 22, 2015

OS PUXADORES DE CARROÇA PARA TRÁS


Abundam, em algumas organizações empresariais, pessoas que, quando descontentes com o facto de não lhes ter sido confiada a missão de liderar ou gerir determinados processos, colocam-se na sombra, pugnando por artimanhas que visam impossibilitar o normal funcionamento das organizações e procurando, a todo o custo, derrubar aqueles a quem foi confiada a missão de liderar. Esses perdem em dois sentidos: enquanto não trabalham deixam de aprender e desaprendem também o pouco que sabiam, pois, a prática é condição para o aperfeiçoamento de processos e busca de melhoria contínua. Por outro lado, enquanto aqueles que trabalham capitalizam sua reputação por via dos resultados, os que se refugiam à sombra do laxismo rapidamente se tornam conhecidos pelas sua habilidades em buscar intrigas e defeitos onde quase todos vêm virtudes. São como os caranguejos (não se produzem nem deixam produzir).
Eu já decidi. Na sombra só fico aos finais de semana e quando em gozo de férias. E, mesmo assim, nunca aposento o cérebro para que ao voltar ao serviço não fique na fila de trás.

terça-feira, setembro 15, 2015

O NEGÓCIO DOS BORDERAUX

Entre ontem e hoje, ao longo da noite e madrugada, fiquei a pensar em como e por que o moço que fica nas proximidades da repartição pública vive vendendo borderaux.
Quem se dirige ao posto de identificação ou à administração local para tratar do bilhete, cédula pessoal, agregado familiar, declaração de pobreza, registo de óbito ou outra diligência, normalmente vai cedo, fazendo-se acompanhar de dinheiro físico ou virtual (cartão multicaixa) para pagar os emolumentos. Até aqui tudo bem. O Estado é um prestador de serviços e os cidadãos-clientes-utentes devem pagar por tais prestações.
Acontece, porém, que sendo exigível que o dinheiro seja depositado em banco, em vez de pagamento à vista, muitas dependências dos serviços supra enumerados não possuem balção bancário para o pagamento de emolumentos, muito menos um facilitador Terminal de Pagamento Automático, vulgo tpa. É aqui que surge o jovem da esquina que vive e ganha sua vida fazendo depósitos correspondentes aos mais diversificados emolumentos.
Aflitos, quando os utentes recebem, às 08h00 da manhã, ao se abrirem as portas, a recomendação "tem de ir pagar no banco", não fazem mais senão ir ao encontro do banco (normalmente o BPC mais próximo), ao que se lhes cerca o jovem da esquina "oferecendo" borderaux para essa ou aquela diligência, ao quadruplo ou mesmo sêxtuplo do valor depositado.
Aqui surge a matemática do dinheiro versus tempo.
- Quanto gastar em táxi até ao banco?
- Quanto tempo gastar na agência até voltar à repartição?
- Valerá mais gastar mil kwanzas com o jovem da esquina e resolver a situação de imediato ou ir pagar no banco e perder o lugar na fila da repartição?
Numa cidade imprevisível como a nossa capital, onde a qualquer hora pode surgir um congestionamento de transito ou o gerador substituir subitamente a energia da rede, a decisão da solução na esquina acaba sempre invadindo o nosso pensamento.
- Haverá como contornar tal situação?
Talvez um TPA resolvesse a situação, sobretudo agora que o dinheiro anda mais no cartão do que na algibeira. Ou não será?

Publicado no jornal Nova Gazeta de 08/03/2018

terça-feira, setembro 08, 2015

HOMENAGEM ÀS MULEMBAS DE LUANDA


Nzuzi nasceu em Alfândega, um pequeno vilarejo do norte de Angola. Chegado a Luanda, em meados dos anos noventa do século finado, ainda criança, viu o mundo da escola a fugir-se dele por não lhe terem dado a oportunidade de deslizar persistentemente o lápis sobre o papel até dar forma às figuras geométricas, às letras e aos números. Nzuzi passa hoje grande parte do seu tempo refugiado em sombras de mulembeiras ou mulembas, numa das ruas da zona urbana de Luanda, onde faz da lavagem de carros o seu ganha-pão.
Xavitu, outros dos jovens que frequentam as sombras das mulembas de Luanda, nasceu em Namacunde, no Cunene. Xavitu abandonou a sua terra natal forçado pela guerra. Os ovambu, embora tenham a vocação natural de pastores e gostem de fazer transumância do seu gado, não são muito dados a emigrar para terras distantes e desconhecidas, ainda mais, sem o gado, uma de suas principais ocupaçoes. Mas Xavitu, aconselhado por um parente do exército que pesquisara o "salve-se quem puder" na grande cidade, acabou aceitando a ideia de refugir-se em Luanda onde se dizia ser tudo possível. Meteu-se em cima dum camião de carga procedente da Damaralândia e aportou na cidade dos sonhos com dezasseis anos apenas. Dias depois, escolheu a rua que liga a antiga escola de oficiais do Gika à Maianga, abundante em mulembas, onde passou a viver das propinas que cobra aos automobilistas afoitos em encontrar um lugar para estacionar suas viaturas. Tal como Nzuzi, Xavitu faz-se também passar por dono de um parque público, lava carros, cobra dinheiro pelo uso do pedaço de estrada morta, rouba aos incautos, danifica viaturas de quem não pague o que não deve e faz das mulembas da Martal o seu refugio sempre que o grito do sol fale mais do que a sua resistência. As mulembas passaram também a seu restaurante, seu contentor de lixo e, pior ainda, também lugar para urinar e até mesmo defecar.
- Kota, aqui é só mesmo se desenrascar. Quando cheguei, era ainda um "camenino" e comecei mesmo a viver no elevador estragado dum prédio e a lavar os carros e carregar as coisas dos chefes. Quando tenho vontade de tirar água do joelho ou comida da barriga vou mesmo debaixo das mulembeiras. É mesmo já nosso hábito. Não temos outros lugares. Numas mulembas ficamos só para apanhar a sombra, noutras é que fazemos já o que o kota está a ver. - Narrou Xavitu, meio envergonhado.
Lembinha é zungueira e percorre a cidade de lés-a-lés. Na sua bacia, já quase sem cor, transporta "magoga" (sandes de frango frito), "paracuca" (jinguba ou amendoim açucarado), kisângwa (refrigerante caseiro) e outros "mata-fome" bastante solicitados por funcionários públicos e outros frequentadores da cidade, em negócios de rua ou trabalho formal. Apesar de a condição feminina não ajudar muito para a frequência das mulembas, vezes tantas Lembinha teve de imitar os colegas masculinos das ruas de Luanda para aliviar-se debaixo de uma árvore.
- A pessoa se amarra um pano e faz só já debaixo da árvore. Não temos sítios para fazer as "centinas" e quando você bate porta do quintal para pedir licença na casa de banho, ninguém te aceita. - Argumentou com uma ponta de vergonha e tristeza.
Lembinha que é de Tunda Sanji, Ngulungu Alto, tem a consciência do mal que provoca às mulembas e à sanidade urbana, pois reconhece que "não devia ser assim, porque a cidade cheira mal e muitas árvore acabam por secar", mas também se justifica sarcástica que "quando, na barriga ou na bexiga, a revolução chega não há como travá-la", informa a vendedeira.
Na Petrangol, as mulembas que ladeavam a estrada que nos leva a Cacuaco, e Caxito e que desenhavam um "túnel verde" não resistiram à força do machado construtor, que propicionou o alargamento da rodovia, mas ainda resta a Mulemba Waxa Ngola. Apesar de local histórico, de veneração e culto ao soberano Ngola Kilwanji Kya Samba a quem se deve o nome do nosso país, a árvore vai recebendo urina e vários detritos produzidos pelo homem.
 Nga Ximinha, uma senhora que vende bombó assado com jinguba torrada, refugia-se sobre a sombra da árvore secular, não se coibindo de oferecer-lhe, vezes tantas, alguns litros de urina e adubá-la com os restos do seu comércio de rua. Ximinha é também testemunha de outras cenas que se desenvolvem debaixo da mulemba mais famosa da Petrangol.
- Aqui quando é noite, os moços vêm cá namorar e se encostam mesmo na árvore. Já encontramos aqui latex usado na pouca vergonha desses meninos do bairro. Outros, quando o xixi lhes aperta, não se escondem mais. Até homens de fato e gravata é mesmo aqui que descarregam o seu mijo de kimbombo e kapuka que cheira como cheira. - Desabafa Ximinha, entre um misto de culpa pelo que também faz contra a árvore e algum desgosto pela imundície à volta.
Quando se lhe pergunta por que faz ela parte dos que jogam lixo na mulemba, Ximinha coça a cabeça e balbucia:
- É mesmo falta de educação e respeito pelas coisas sagradas. Uma árvore dessas devia ser melhor tratada. - Reconhece a senhora, nos seus aparentes quarenta e picos anos de idade.
Assim segue a vida das mulembas e daqueles que na cidade ganham a vida debaixo das árvores, não sendo poupada nenhuma espécie que se mostre à rua: acácias, coqueiros, tamarineiros, espinheiras, macieiras da India, imbondeiros, etc.
Resilientes, mesmo maltratadas, apresentando-se feridas com os troncos rasgados ou amputados, as nossas mulembas estão sempre dispostas a transformar hidrogênio em oxigênio puro e incontornável à respiração humana. Mesmo sendo insistentemente regadas a mijo humano e adubadas com dejectos, lá estão elas, enfeitando calçadas, ladeando as ruas e avenidas da nossa capital, lançando ainda o seu perfume que só a barbaridade de quem se esperava pensante elimina com o fedor de suas descargas biológicas.
As nossas mulembas de Luanda são símbolos de resistência contra o mal, sem falecer. Continuam hirtas, desempenhando seu papel social e vital.
Plantemos mulembas e demais árvores nas nossas ruas, largos e quintais, a fim de ganharmos oxigénio reciclado e uma vida mais verde e alegre. Reguemos as árvores apenas com água natural e adubemo-las com fertilizantes naturais e químicos recomendados por especialistas. Respeitemos os locais de culto secular e de memória colectiva, como a Mulemba Waxa Ngola e outros locais como salvaguarda da nossa herança histórica e cultural. E gritemos todos: vivam as nossas mulembas!

Texto publicado no Semanário Angolense a 15 de Agosto
 

 
 

sexta-feira, setembro 04, 2015

ÊXODO NA ENHANLA

Enhãnla, Estado ribeirinho, cercado pelo reino de Kamunda, é um território do continente Acirfa de Júpiter. O povo de Enhãnla, modesto nas posses e excessivo na ostentação, vive de pequenos plantios nos seus solos ricamente abençoados e cravados por ribeiros caudalosos e de águas lúcidas que permanecem durante as duas estações do ano jupteriano. A indústria, ainda nascente, se reporta à abundante mineração carboniana, material pedregoso, ouro e outros que enfeitam as lendas que trespassam gerações e gerações sem nunca os habitantes aplicarem a força dos cérebros e das máquinas ao solo cravejado de riquezas improvadas e incalculadas.

Próximo de Enhãnla, no reino da Kamunda, vivia um rei, já velho e de respeito incomensurável, Ngan’Ebata, o Senhor da Casa ou Senhor do território, cujo poder, às vezes, escapava as suas fronteiras e adentrava a Enhãnla do presidente Ndvumba, ainda jovem  e muito apegado às civilizações terrenas, um planeta com o qual a Enhãnla pleiteava a órbitra solar. Na Kamunda, território que aos olhos dos seus habitantes parecia sem fim, o povo era monoteísta. Ngan’Ebata era a razão de ser e o fim último dos seus súbditos que o adoravam de sol em sol e de chuva em chuva. Os agnósticos e hereges há muito tinham sido convidados a abandonar o reino ou se refugiado voluntariamente na Enhãnla para escapar da espada vermelha do rei-deus do território maior de Acirfa que se preparava para liderar um único Estado-Continente de Júpiter.

Ainda na Kamunda, as artes haviam sido divididas entre maiores e menores, com primazia às vocais por serem as que melhor deificavam o rei-deus. Os desportos cantavam a sua glória e até o que restava das três mais antigas organizações sociais curvava-se aos pés de Ngan’Ebata, também cognominado de “O Senhor do Poder sem medida e sem fim“.

- Ao rei toda a glória. A mim todo o respeito! – Apregoava nas suas homilias, Ngan’Ebata, nos eventos que os súbditos organizavam em sua homenagem em seus sumptuosos castelos e palácios ou quando se fazia circular nas suas riquíssimas fortalezas automóveis.

- O poder me foi delegado pela divindade extraplanetária e só a ele o entregarei quando o tempo chegar. - Dizia outras vezes, mas sempre interrompido pelos súbditos da “escova mais lustrosas “ que não se cansavam nos elogios. E Eufóricos replicavam:

- Por que não a seus herdeiros, Sua Majestade Santíssima?

Assim ditas, as palavras rejubilavam a corte inteira que encontrava encostos almofadados num povo que, aos olhos dos seus vizinhos da Enhãnla, se parecia exausto, depauperado e com riquezas subjupterianas exauridas, depois de uma extracção massiva e concentrada nas mãos de Sua Majestade Santíssima. Foi assim que começou o êxodo para a República vizinha da savana húmida e arbórea onde tudo parecia ainda em estado virginal. As riquezas ocultas no subsolo; a vida política, embora começasse a ser influenciadas pelos maus ventos da Kamunda, e toda a organização social estavam ainda pintadas de rosa. Era, realmente, um mar rosado e esverdeado, encravado num manto plano que se mostrava a nordeste.

Primeiro os homens, depois as crianças e por último as mulheres fizeram-se além marco, seguindo caminhos vários há muito traçados, cujo destino era um só: Enhãnla onde confluíam novas crenças e certezas.

Uns creram em refundar suas vidas longe da Kamunda. Outros alimentaram esperanças caducas de verem sua Majestade Santíssima voltar aos tempos da sua regência jovial. Outros ainda esquadrinhavam o sonho de inundar a República de Enhãnla com metade da população de Kamunda para passarem à fusão dos territórios e encontrar um governo de centro que aglutinasse todas as vontades.

- Apenas a geografia nos diferencia entre montanhenses e pradianos. Todo o resto é igual. - Apregoavam os unionistas que eram compreendidos na terra de exílio, sendo dos mais respeitados e  tendo ganho a simpatia da autoridade republicana de Enhãnla que lhes concedia espaço para o desenvolvimento da actividade económica que ia da cultura de vegetais à pecuária e do comércio à prospecção mineira e indústria extractiva de recursos ocultos. Ngana Kyombo era o líder dos unionistas saídos da Kamunda e refugiados na Enhãnla.

Exilado há vinte e nove anos, os negócios de Ngana Kyombo tinham já tentáculos vários e exalava influências por onde quer que passasse. Com a ajuda de alguns notáveis da Enhãnla tinha conseguido algumas conceções mineiras em Ekaproville, região a leste do Estado, onde despontavam granadinas e relatos sobre ocorrências de carbono tenaz.

- Vamos fazer dinheiro com as brilhantinas carbónicas e restaurar a Kamunda. – Dizia Ngana Kyombo, aos seus mais próximos, com a mesma energia com que os impelia a se formar e aperfeiçoar na gestão de negócios e organizações empresariais. Tudo corria de vento em popa, como era comum dizer-se em Enhãnla, quando os negócios corressem de forma maravilhosa. Mas um dia, daqueles dias de sol ausente e frio presente, quando é a neblina friorenta e translúcida que se sobrepõe à luzidia bola amarela carregada de calor, um leão faminto fez-se presente entre os seus homens que realizavam a prospecção de moléculas de carbono compactado por pressão secular e calor subjupteriano. Instalou-se o pânico. A primeira ideia foi a de “fugir antes de tudo”. Depois viriam as ideias. Junta-las, seleccionar as melhores, mediante a exclusão das piores. A legislação ordinária, o direito consuetudinário e o costume seriam também postos na balança. Os gritos do planeta e mesmo a moda reinante na esfera inter-planetária apontavam para a busca da coabitação entre felinos e jupterianos. Os habitantes de Enhãnla não eram humanos. Apenas jupterianos, uns ET na análise racional de seus coetâneos do continente África do planeta Terra. Mas havia também felinos jupterianos, semelhantes aos leões de África.

A concessão de Kalimarc, no distrito centro de Enhãnla, carecia de injecção de dinheiro fresco dos accionistas. O dinheiro estava sendo dificultado pelos relatos dos prospectores que alertavam, dias sem fim, a presença dos felinos que colocavam as suas vidas em constante perigo. Apenas a teimosia dos carreiristas e o caloirismo dos jovens estagiários, que pretendiam dourar os curricula, permitiam pesquisas residuais naquela concessão mais à beira do fecho das operações do que da injecção de dinheiro fresco pretendido. Matar o animal e preservar os jupterianos ou deixar o espaço aos seus habitantes naturais? A pergunta ecoava de canto a canto da coutada de Kelimarc, concedida, contra natura,  para exploração mineral e um pouco por toda a Enhãnla.

Barbatana, um jupteriano com experiência de direcção em campanhas de pesquisas semelhantes no reino da Kamunda, enquanto chefe da equipa jupteriana, sabendo que “matar a razão do medo podia redundar em aposta na pesquisa”, decidiu premir o gatilho.

Bumm! Disparo certeiro no centro da encefalia. Jazia defunto o temido bicho jubento e com dentes há décadas cariados. Acto contínuo, Barbatana carente de dinheiro, mobilizou a media e mostrou a fraqueza do temível animal abraçando o máscula rocha superficial jupteriana. Choveram elogios. Barbatana de herói se fez e corou encomendou.

Não tinha entretanto sido contada toda a estória. O filme ainda desenrolava. Minutos depois, o telefone tocou.

- Aló! É o inspector Barbatanas? – Questionava o conselho transplanetário do ambiente.

- Sim, Vossa Excelência Generalíssima. – Respondeu arrítmico na vocalidade o “general Barbatana” como era conhecido entre os prospectores. Era ele o chefe das operações.

- Pois é, Senhor Barbatana, gostaríamos de saber de onde terá a sua equipa recebido a ordem para abater o animal felino. Foi da corte enhanlense ou da coordenação planetária? – Indagou o responsável supremo da preservação biosférica.

Ente medos e razões, a cobardia falou alto. Barbatana, apesar de longevo residente, era expatriado e sabia que as autoridades enhanlenses, se pressionadas pela coordenação planetária, não vacilariam em manda-lo de volta à terra de Sua Excelência, Majestade Santíssima, a Kamunda. Decidiu desfazer-se dos feitos heroicos e oferece-los ao autógene local.

- Excelência, nós apenas fomos chamados como testemunhas de um facto de que nos congratulamos por um quarto e condenamos por  três quartos. É que, apesar do enorme perigo que enfrentava a nossa equipa de prospecção, jamais nos passaria pela cabeça extirpar a vida de um pacato felino. O autógene local, sem o nosso conhecimento, teve a infeliz iniciativa de acabar com o felino que o surpreendeu na flora abundante, quando procurava resgatar um babuíno de estimação. Do confronto, narrou-nos o autógene, resultou a morte do felino que, até à consumação dos factos, era caracterizado por um pacifismo inaudito. - Relatou eufémico Barbatana, acrescentando ainda que o premir do gatilho da caçadeira “22 longos” só ocorreu depois de o autógene amedrontado pelo animal ter permanecido cinco horas no último ganlho de um arbusto de dois metros.

A estória ainda corre. Sabe-se que Barbatana está por responder se “entre a preservação da vida dos jupterianos em busca de riquezas e o abate do felino qual dos direitos se sobrepõe a outro“. Sabendo-se que descartou o feito que o levaria a herói da Enhanla, resta saber que passo dará quando for chamado a depor na audiência jupteriana.

terça-feira, setembro 01, 2015

NSUNSU ZAONSO ZABOTE


Na semana que se seguiu ao matrimonio os tios da nubente foram visita-la, a pedido do marido que tinha beneficiado os seus com um repasto-teste executado por Boana ainda com o casamento fresco. Tinham passado apenas 48 horas da cerimonia religiosa e copo d'água. A tradição dos vakwombwelo dita que a casada tem de fazer a sua primeira refeição para os sogros, sob supervisão atenta de uma ou duas tias do marido. Assim foi e no final a nota atribuída pelas tias-júri foi positiva ao que em vez de ser multada acabou prendada.

Kapesi fez o mesmo. Não foi à cozinha mas mandou a mulher à loja e ao mercados dos Zimbos comprar tudo quanto fosse típico e do agrado costumeiro dos sogra. Ele mesmo fez questão de apetrechar a garrafeira com as mais elogiadas adegas e destilados escoceses, não se esquecendo do malavu encomendado a um vini-extractor do Sasa. Em fogo brando, o grelhador abraçava caçadas que apimentavam conversas intercaladas entre o bom Português, apendido na escola e destilado apenas em convívios muito formais, o calão e a língua dominante entre os vakwonano de regiões rurais.

- Esse moço, estávamos só a "lhe" desconfiar pelo casamento tardio, mas parece que é boa pessoa. - Atirou Kindala, tio de Boana que representava Menso Mankala.

Choveram garfadas e estalaram copos. Jorrou uva até noite adentro, quando, a olhar para o volume abdominal de Boana, o tio confidenciou à sobrinha.

- O sobrinho é mesmo bom?

Boana viajou ao passado e lembrou-se de uma expressão ukongo que traduzia e simplificava seus sentimentos e sua análise sobre o marido que escolheu.

- Nsunsu zaonso zabote (toda a galinha é boa)! - Respondeu, ganhando do tio a tradução semântica da expressão ora anunciada.

- É verdade, sobrinha. Galinha pode ser careca, sem penas, você "lhe" põe na mwamba, fica sempre bonita na boca da pessoa. Assim também  são as pessoas. Só que se beneficia ou se prejudica com essa pessoa "lhe" faz o justo juízo. Tem mbora razão sobrinha, me desculpa só. Meu neto já está a caminho, almoço com bebidas já nos deu, falta mais o quê? Não liga gente na cidade com mentalidade da selva. - Concluiu o tio já meio canecado.

- Boana deu-lhe o beijo do costume, sinal de que o tio estava já na penúltima ronda da garrafinha alcoólica, ao que reconheceu e acedeu, apelando aos convivas para o discurso de agradecimento e recomendações aos nubentes.

- Já vimos o sol raiar no crepúsculo de Boana. É sinal de que as terras são férteis e dentro em breve teremos herdeiros. Para nós, casamento é isso mesmo. Não se esqueçam de nomear os parentes. Se o fizerem lado a lado fica maia melhor. Na vida a dois não há só sorrisos. Há também tristezas. Há dias que alguém dorme cedo e finge ver bonecos com as crianças só para não se dar encontro com o outro, mas tudo termina no quarto, no leito.

Kindala discursava pedagogicamente e não procurava palavras. Parecia uma lição decorada há anos. E prosseguiu, virando-se ao sobrinho-genro:

- Sobrinho Kapesi, a mulher sempre comeu do não. Fica atento. Às vezes é a mão que lhe dói mas mostra a perna. Saiba ler na escuridão e nunca esqueças a cor da minha porta. Quero muitos netos e um chará. Isso passará por muito tempo de coabitação e equilíbrio. Cada um, à partir de hoje, começam já a conhecer o outro e buscar o meio termo. Tempo de namoro é de mentira. Até diabo vira anjo.

Kindala fez pausa no discurso que já levava tempo apesar de actual, cativante e seguido com muita atenção. Boana e Kapesi seguiam aprovando com a balançar das cabeças.

- Dizia, já para concluir, devem se conhecer de verdade. Vão entrar agora no teate de verdade sobre o marido ou a mulher que cada um escolheu. Também passamos por esses bocados e resistimos. Só uma chamada de atenção à sobrinha Boana: marido não se bate na cara. Bate-se na cama.

Dito isso, e sem deixar margem para comentários à sua expressão final, Kindala marcou o primeiro passo em direcção ao corredor. A garrafa de vinho de 14 anos para combater a pelengwenha do dia seguinte, encontrar-lhe-ia no carro.

Cá em cima, ainda no vigésimo sexto andar de un dos edifícios mais altos da nova cidade de Kipedro, os primos e cunhados fechavam conversas com o habitual e já  quase tradicional "copo da porta".

- A casa está sempre aberta. Venham ver-me e chamem-me para as vossas picadas. Na minha terra é assim: quem casa transita para o convívio e cuidados da outra família. A boana já está entregue, não é isso mor? - Concluiu Kapesi,  abraçando os cunhados Nzuzi, Nsimba e a esposa Boana que não podia estar mais contente do que estava.

Os convivas, de forma espontânea, mas coordenada entornaram goela adentro o "líquido da porta" e comemoraram:

- É isso mesmo nosso 'nhado. Amanhã vamos te arrastar à praça do Sasa para tomar malavu com carne de paca.

E desceram também carregando a encomenda do tio Kindala que se deliciava no carro com a mais nova batida de Socorro, filho querido ukwanano.

Nota: Texto publicado no Semanário Angolense de 12 de Setembro de 2015.