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domingo, setembro 01, 2024

O OPERATIVO E O BOMBEIRO

Há coisas que alegram e servem de bálsamo à alma triturada pela negrura da vida de um adulto.

A 13 de Agosto, que não era sexta, mas segunda-feira de um dia nebuloso, quando ia a entrar no local de trabalho, o jovem da empresa de segurança, comummente tratados por "operativo", pediu desculpas por algo que eu não sabia e nem imaginava e parou-me.
_ Desculpa, Director. Você é diferente dos seus colegas. Cumprimenta toda a gente, cumpre os procedimentos e trata-nos como se também trabalhássemos aqui. Há muito tenho pensado em dizer-lhe isso. Continue essa pessoa, meu Director- Disse o jovem, mais ou menos 25 anos, quase em sentido como se estivesse a fazer continência.
Sorri para ele. Vinha cansado e preocupado com os entregáveis e os recebíveis atrasados. Dei-lhe um abraço e agradeci-lhe pelo feedback.
No dia seguinte, ia a caminhar da Agência bancária ao Minagrif. À porta do Quartel Principal de Bombeiros de Luanda, ouvi uma voz. Alguém que me vira e tentando recordar-se de mim, ia chamando:
_ Kota, professor!
Sabendo que já estive à frente e ao lado de muitos alunos e estudantes, virei para ver se era eu o visado. O jovem lembrou-se do meu nome.
_ Professor Luciano, sou o Osvaldo Inglês. Fui seu aluno.
Estendi-lhe a mão. Já não era o Vado. Eu sempre o tratei por Inglês. Ele e as duas irmãs. Era um senhor Osvaldo Inglês à frente de mim
_ O senhor foi bom professor e só se lembrava dos mais barras e dos mais fracos, puxando por ambos. O professor já está mesmo kota.
_ Sim, Osvaldo. Já são 50 anos.
O Osvaldo explicou que ainda vive no Rangel e é motorista nos Bombeiros do Cazenga. Era um aluno brilhante. Ombreava com a Maristela (filha do Pedro Montana), o Anselmo Arcanjo Arcanjo, o Guinho Luciano e o Jandir que é sobrinho do Eduardo Costa. Eu só nomeava delegado de turma o mais "barra" de cada classe.

quarta-feira, agosto 28, 2024

QUEM FOI O COMANDANTE KANDIMBA?

 (Tentativa de descrição dos feitos do militar Pedro Manuel Biano)

"Kandimba toka, ombonge itunda yangu!"¹
Ainda se canta em Kibala e arredores (até mesmo em Luanda), reflectindo a saudade e reconhecendo a valentia deste insigne filho de Angola que a memória colectiva deve preservar e honrar.
Este exercício visa recolher depoimentos de pessoas que estiveram perto dele, familiares, amigos, companheiros e camaradas nas gloriosas FAPLA, cidadãos do Kwanza-Sul e de Angola que coheceram o lendário Pedro Manuel Biano "Kandimba", ao que se diz "comandante do 2° batalhão da Brigada 150 e, posteriormente, comandante do Batalhão 722 (desmobilizado ao abrigo dos acordos de Bicesse com a patente de Major)", actuando na Kibala e municípios circunvizinhos.

= DEPOIMENTOS=

(i) António Pinheiro "Folhas Caídas", integrante do Posto Comando Avançado da 7ª Região Político-Militar no Waku Kungu: descreve Kandimba como "um amigo pessoal e companheiro de arma".
Segundo Folhas Caídas, Pedro Manuel Biano era filho de Biano Kutatala e Nzamba Kitumba (Nzamb'Etumba), tendo nascido na aldeia de Galileia, regedoria de Kitangeleka, comuna da Sanga, município da Cela. "Esteve comigo em várias frentes. teve como esposas as senhoras Maria Manuel, Kilakhata e Cecília. Essa última suicidou-se com a arma pessoal do comandante, na vila de Kibala, nos anos oitenta".
Segundo Folhas Caídas, Pedro Biano ganhou a alcunha de Kandimba devido a sua sagacidade, na infância, tendo em conta que era filho e seguidor dos passos do seu pai que era um exímio caçador.
"Foi o senhor Fifas, um português, empregado da fazenda do senhor João Simão Nabiças (na região de Sanga) que o nomeou Kandimba".
Acrescenta que Kandimba ingressou nas FAPLA via ODP (Organização de Defesa Popular) na aldeia de Kitangeleka. "Entre os anos de 1979 ou 1980, face a adaptação das FAPLA vindas da guerrilha à Exército Convencional, houve a necessidade de se criar a brigada 150. Ele foi seleccionado para o Regimento Militar de Katofe onde recebeu instrução militar e passou de ODP a militar regular da Brigada comandada pelo 1º Tenente Neves Ferreira. Kandimba comandou o 3ª Batalhão da Brigada 150 e, com a posterior criação dos batalhões territoriais para conter os ataques da Unita às sedes municipais, foi criado o Batalhão 722 que ficou estacionado na Kibala, sob comando de Kandimba, dependendo da 7ª Região Político-Militar (Benguela) e com um Posto de Comando Avançado (PCA) na Cela, comandado pelo Capitão Luciano Pereira".
Hoje, oficial Superior da Polícia Nacional, António Pinheiro "Folhas Caídas" explica que Kandimba actuou no triângulo Kibala-Hebo-Waku-Kungu, onde, por outro lado a Unita operava com colunas fortes como Salva Terra, Mwangay, Negritude e Grito do Povo.
"Lembro uma missão que havíamos recebido do General Armando da Cruz Neto (Chefe da 7º Região), juntando o batalhão do comandante Kandimba, do comandante Joaquim José Lunga "Cara Podre" e outras forças para desmantelar uma base da Unita em Kas)s)onge e que não correu como previsto. "Kandimba ficou ferido e tive de organizar uma ambulância para o levar ao Hospital da Região, mas ele preferiu ser levado ao soba da aldeia da Sanga para um tratamento caseiro.
Folhas Caídas diz que "Kandimba era um comandante que se impunha e que era respeitado, mas como homem também teve suas fraquezas (pouco conhecidas pelos civis).
"Quando o Chefe-de-Estado Maior, General França Ndalu e o Comandante da 7ª Região, Armando da Cruz Neto, decidiram mover a Brigada 150 para o Kwemba, Kandimba rejeitou e foram movidos à força para o Bié, de onde ele desertou temporariamente (fixando-se em Luanda), tendo sido punido e regressado, tempo depois à Kibala onde organizou o Batalhão 722. Nessa altura eu também fui movido da Cela para a Frente Centro, no Huambo", conta Folhas Caídas.

Sobre os últimos dias de Kandimba, Pinheiro diz: Um dos factos que me marcou foi em 1992. Estávamos ambos desmobilizados, à luz dos Acordos de Bicesse. Depois da negação dos resultados eleitorais a UNITA, praticamente, ocupou a vila de Kibala. Ele convidou-me para atacar as FALA e eu discordei dele, porque o inimigo estava em maior número. Ele entendeu mobilizar efectivos desmobilizados e os atacou. Conseguiu expulsar o inimigo da vila, porém, as FALA reagruparam-se, fizeram um contra-ataque e ele tombou em combate. Dois dias antes, conversámos. Ainda me chamou nomes como cobarde...

(ii) António Ferreira, Ex-Comissário Político do Batalhão 722, corrobora a versão de Folhas Caídas, quanto ao período e episódios que antecedram a criação do batalhão 722, embora diga que "foi a pedido doas sobas que estavam fartos das faltas de respeito da Unita". A propósito, Folhas caídas diz que participou da redacção do manifesto enviado ao Comissário Provincial, e deste ao Comando da Região Militar, alegando "ser pedido da população da Kibala", o que possibilitou a sua soltura da cadeia em que se encontrava após deserção. António Ferreira confirma ainda as informações prestadas por Pedro Muhongo (vide abaixo), sobre o trajecto da 150 BIL "até Kwemba e Munyangu (Munhango)".
(iii) Lino Guimarães Fernando, ex-soldado do 2º Pelotão da 8ª Companhia do Batalhão 722, com a função de activista político do pelotão: "Pedro Manuel Biano 'Kandimba' foi Comandante do Batalhão 722, pertencente à 7ª Região Político-Militar que tinha o seu comando regional em Benguela, comandada pelo general Armando da Cruz Neto 'Maluco'.
Kandimba gostava de ter a sua tropa bem disciplinada e os indisciplinados eram repudiados e castigados. Para organizar e disciplinar a tropa, tinha o seguinte slogan, 'nós somos cerca de 3000 homens. Eu prefiro ter 300 organizados a 3000 desorganizados'.
Ele descrevia a sigla FAPLA como 'Foram Armados Pelo Povo Para Libertar Angola'. Kandimba era muito rigoroso no cumprimento das missões que ordenava e as que ele próprio cumpria, esperando sempre por resultados positivos e nunca a derrota. A sua residência oficial era na rua em que ficavam as antigas instalações da Segurança do Estado, na vila da Kibala.
Operava normalmente com as primeiras três companhias do Batalhão 722, nomeadamente, 1ª, 2ª e 3ª, que ele considerava sua tropa de elite. O sargento-maior Evaristo José Bernardo, 'Xiña Wanga', da 3ª Companhia, era um dos seus estrategas nas grandes operações e dos seus principais seguidores.
Combateu no município da Kibala e, sempre que fosse requerida a sua intervenção, nos circunvizinhos da Gabela, Libolo, Hebo, Kondé, Waku Kungu, entre outros. Era muito respeitador da população e não gostava de escutar que um soldado das FAPLA maltratou ou retirou haveres de um popular.
Em meados de 1987, o 1º Pelotão da 8ª Companhia do Batalhão 722, que era comandado pelo seu irmão mais novo José Biano, destacado na montanha próxima ao bairro Kakata, depois do bairro Kapezo, foi atacado pelas Unita, tendo o chefe do pelotão perdido a sua arma de fogo do tipo a AKM. Em função deste acontecimento decidiu retirar toda 8º Companhia que se encontrava destacada na protecção da via Luanda-Huambo, incluindo nós que estávamos destacados na montanha junto às antigas bombas de combustível da Shell, para o comando do Batalhão 722 na sede municipal da Kibala, e destacado na Fortaleza.
A 18 de Dezembro de 1987, foi-nos incumbida uma operação militar, entrando pela comuna do Ndala Kaxibo, tendo o comandante Kandimba, dito ao seu irmão menor José Biano, em plena parada o seguinte: Deixaste o inimigo levar a tua arma. Não te darei mais arma. Avisei-te para ficares a cuidar da nossa mãe porque eu já sou militar, mas não aceitaste. Agora tu é que sabes se levas pedras ou cassete. Fomos com nosso colega desarmando e regressámos da missão no dia 27 de Dezembro.

(iv) José Kassola: Ele nasceu no Waku, na fronteira entre o Waku Kungo e Kibala. O irmão do Senhor Beto Kadaff, foi Motorista do comandante Kandimba. Lembro quando o Sr. Biano foi atropelado pelo seu próprio motorista que era primo dele. O homem carregava na Land Rover prisioneiros feridos da unita que seriam levados num helicóptero vindo comando da Região, em Benguela. Esteve presente o Comandante Seteko da 7ª Região. O Comandante Pedro Manuel Biano quase morria naquele incidente. O primo motorista aproximava-se do helicóptero para descarregar os soldados da UNITA feridos e capturados, para serem transferido para a Sétima Região. Ele sentiu medo das hélices, fez marcha atrás, sem olhar o Comandante Kandimba que estava a conversar com o Comandante Seteko. Pimbas! Caiu atropelado. Os óculos partiram e o Comandante Seteko levantou o Kandimba já com os olhos vermelhos.
A outra cena de que me lembro foi numa das efemérides, ou seja, feriado do Partido (MPLA), realizado às 12h00 horas, em que Kandimba quase seria capturado na Vila, mas avisou os demais chefes do Partido MPLA para que deixassem o espaço o mais rápido possível. Ele saiu sem que ninguém o visse e depois começou o fogo da UNITA dentro do recinto da festa. Ali tombou o 1° Secretário da JMPLA da Kibala, o jovem Felizardo.

(v) Pedro Muhongo: Convivi com ele de 1983 a 1986. Conheci-o na tropa, isto em Katofe (Kibala) no Regimento de Tropas Cubanas, quando foi submetido ao curso intensivo de comandante de tropas, no âmbito de correlação de forças no teatro das operações, função que já vinha desempenhando há vários anos. Estamos lembrados que a década de 80 (séc. XX) foi a época mais difícil no país para quem integrou as FAPLA. Observamos quão era difícil a situação. Essa formação visava a criação de uma unidade específica, moderna e adequada, com efectivos capazes à altura dos desafios que a situação impunha. A unidade de combate foi criada em Agosto de 1983 e, se a memória não me atraiçoa, chamava -se (na altura) 150 BIL (Centésima Quinquagésima Brigada de Infantaria Ligeira) de onde Kandimba viria a ser comandante do 3° Batalhão ora criado e ostentava o grau militar de 2° Tenente, resultante da formação recebida. Aí o conheci e seguiu-se uma vida militar intensa. Eu fazia parte da 150 BI), mas numa sub-unidade do Comando da Brigada e com frequência era chamado ao apoio do Batalhão comandado por Kandimba.
Por razões de várias missões chamados a cumprir, entre 1985, a 150 BIL foi movimenta para Malanje (9° Região Político Militar), passando por Kalulu, depois pelo Kis(s)ongo, caminhando para a região militar das FALA (forças da UNITA) chamada 93 RM, localizada no planalto (entre Kuanza-Sul e Bié), abrangendo o corredor de Kalus(s)inga, depois rumando para Malanje, mas feito o trajecto na Kitúbya, Luso, Gango, em direcção ao Povo do Hako, Kyenha, passando na Kipumba, caminhando até às margens do gigante Rio Kwanza. Na altura a barragem de Kapanda estava no início da sua construção. Aí transpusemos a margem contrária do Rio Kwanza, seguindo para Pungo a Ndongo, Kakuzu e cidade de Malanje. As missões continuaram na província de Malanje, depois para município de Kunda Dyabase, passando por Kakulama, Kela e às áreas da Baixa de Kas(s)anje. Em Janeiro de 1986, atingimos a localidade de Kafunfo e Kas(s)anje Kalukala. Aí o Kandimba ficou doente (meados de Janeiro de 1986) e foi levado ao hospital da Região Militar na cidade de Malanje. Depois que a saúde dele se restabeleceu, beneficiou de uma licença disciplinar (férias) para a terra natal (Kibala). De lá já não mais regressou ao Comando do seu Batalhão e na Kibala criou o batalhão 722, que comandou até 1992 ao abrigo dos acordos de paz para Angola (Bicesse).

(vi) Francisco Pinto, 65 anos feitos em Agosto de 2024, conta que em 1992, depois da desmobilização das FAPLA e criação do que era chamado de "Exército Nacional Único", as FAA, o Batalhão 772, organizado e chefiado pelo comandante Kandimba, havia sido extinto e o comandante desmobilizado com a patente de Major.
"Depois das eleições, era comandante da região, pelas FAA, o Cara Podre que não havia sido desmobilizado".
O antigo Oficial Operativo no Batalhão 722 e no "Exército Único" saído dos Acordos de Bicesse, avança que até Novembro de 1992, militantes do MPLA e da Unita ainda coabitavam na vila da Kibala e até diziam que "as escaramuças de Luanda não deviam ser replicadas na Kibala". Porém, conta, surpreendentemente, a UNITA retirou-se para Katofe e começou a bombardear a vila, matando várias pessoas como o professor Smith e sua mãe.
"Eu era amigo pessoal de kandimba. Ainda o aconselhei a ir a Luanda, depois de desmobilizado, mas ele me respondeu que aguentaria mais um pouco".
Tendo em conta a situação criada pela Unita, prossegue Francisco Pinto, o Comandante Kandimba teve de organizar os antigos militares desmobilizados para defender a vilar, só que não conseguiu obter o número desejado, tendo em conta a dispersão e a desmotivação de alguns para uma nova guerra.
"Em Finais de Janeiro de 1993 a Kibala recebeu reforço de tropas vindas do Waku Kungu. Como nem todos se conheciam (os da Kibala e os vindos do Waku) a Unita aproveitou infiltrar-se entre as forças e tomou a Vila. A Unita concentrou todo o seu fogo sobre os tanques e o comandante Kandimba estava no primeiro que, embora ainda disparasse, não tinha mobilidade".
Pinto narra ainda que quando foi atingido o tanque tinha esgotado as "salvas" e jura que "Kandimba não foi capturado nem enterrado pelos familiares, pois ele se retirou do local e terá morrido em local incerto".
Um dos dois tanques que se acham na rotunda (à entrada da EN 140 que nos leva a Karyangu) possui ainda a parte cimeira e o cano. O outro, desintegrado, que conserva apenas o esqueleto central e as esteiras locomotivas é nesse em que, na madrugada do dia 09 de Fevereiro de 1993, segundo Francisco Filipe tombou em combate o comandante Pedro Manuel Biano "Kandimba".
O sepultamento de Kandimba é um enigma. A respeito, Muhongo diz que seria importante perguntar aos padres que enterraram os corpos não reclamados e aferir se o do comandante estava entre estes, mas, acrescenta, que "ele mesmo dizia que quando morresse o seu corpo nunca seria enterrado".
(vii) Filipe Albino: Tombou em combate na madrugada do dia 13 Fevereiro de 1993, na Kibala.

(viii) Tiago Phande, 62 anos, ex-militar natural e residente na Kibala, narra que foi professor e incorporado em 1982 na ODP, em Mukitixi, integrando o Batalhão Interno (BI) constituído por trabalhadores da Fazenda que tinham sido desmobilizados das FAPLA. Atesta que quando Kandimba formou o Batalhão 722, o BI já existia. Acrescenta que a 12 de Junho, quando se dá o primeiro ataque da UNITA à Kibala, a Brigada 150 encontrava-se em operações militares na região de Ndal'Axipo (Dala Caxibo), ficando na vila apenas a ODP e o CPPA (polícia). A Brigada teve de regressar para desalojar a UNITA.
"Foi nesse primeiro ataque que foram dinamitados e destruídos muitos edifícios da kibala", conta, algo revoltado.
Tiago Phande confirma o relato de Folhas Caídas (António Pinheiro) sobre a deserção de Kandimba do Munyangu e sua prisão punitiva. "Isso aconteceu em 1986 quando a Brigada 150 em que ele era chefe de um Batalhão foi movida para o Bié".
Sobre os últimos anos do comandante Kandimba, Tiago afirma que "em 1993, a tropa estava desmobilizada, incluindo o próprio comandante Kandimba. Aproveitando-se da situação, a Unita, que nunca se desarmou, ocupou a Kibala e o comandante teve de reorganizar os ex-FAPLA que estavam disponíveis para expulsar a UNITA da vila. Foi nessas circunstâncias que conseguiu expulsá-los, mas eles se foram reorganizar e no contra-ataque, atingiram o comandante, cujo corpo não foi nem tomado pelo inimigo, nem sepultado pela população".
Phande conclui que após a morte de Kandimba (1993), a Unita ocupou a vila por muitos anos. OPs órgãos da administração do município estavam na Gabela e a tropa no território da Kibala era dirigida pelo comandante Cara Podre que veio a falecer em consequência de um ataque à sua comitiva, junto ao Rio Nyha (Nhia). "Não foi atingido por uma bala. Ele jogou-se no rio e o cadáver foi encontrado, dias depois sem vida".

=Glossário=
1-Kandimba venha porque cresce capim na cidade. Por outras palavras: vem escorraçar a Unita da sede municipal.
2- CPPA: Corpo de Polícia Popular de Angola.

NOTA: Você pode contribuir, escrevendo para o e-mail: Lcanhanga@hotmail.com

quinta-feira, agosto 22, 2024

O KAMBWIJI DE 10 KG E OS 250 ANOS DA VELHA ROSÁRIA

A idosa na primeira foto é a minha mana Maluvu-a-Kyoko ou Rosária Albano. Calculadamente, deve ter 80 ou mais uns anitos. Porém, diz que "se eu (narrador) tenho 50, ela não pode ter menos de 250 anos" e justifica que me viu a nascer quando ela já era mãe de uma kalumba.

Chamou-me com urgência, no dia 01 de Agosto, e explicou a razão:
_ Lembrei-me de uma cena ocorrida quando tinhas 5 ou 6 anos.
_ O que se passou, mana?
_ Um dia, saí da Munenga e fui ao Rimbe visitar-vos. Mal cheguei, apareceu o mano António (eu tratava por mano o teu pai, porque o pai dele era também meu tio) a carregar dois kambwiji pequenos e tu carregavas um portentoso kambwiji. Então perguntei: mano António, como é que você, enquanto pai, leva dois animais pequenos de pouco peso e o filho é que carrega o animal mais pesado?
_ Ó mana, isso aconteceu?! E o que foi que ele te respondeu?
_ Não foi ele que respondeu. A criança que eu estava a acudir é que respondeu altiva e resmungona.
_ Que eu te respondi, mana?
_ Disseste, num linguajar Kibala bem afinado, "wathithi kwamunzembe, Ndonga-a- Ngulu wandongile!"¹
_ Oh! Foi mesmo, mana?
_ Disseste e põe também essa cena no teu livro. E olha: o livro que me deste, onde eu estou, o teu sobrinho Segunda Januário "Kabengo" levou. No próximo que vais escrever me põe lá de novo.
Levei a mão à cabeça, a pensar, a matutar. Como é que uma velha iletrada valoriza tanto um livro ao ponto de tê-lo todos os dias sobre a cabeceira "junto da Bíblia", segundo me contou?
_ Não tem problema, mana! Olha, na semana passada fui à Kibala e dentre as coisas que escrevi, lembrei-me da frase "wathithi kwamuzembe" e meti na crónica que já saiu no Jornal do Kwanza-Sul e Benguela (Jornal Litoral). Quando eu publicar outro livro, essa parte dos kambwiji vai entrar e vou escrever que foi a mana quem me contou a cena. Quanto ao livro que o Segunda "Kabengo" levou, vamos já resolver.
_ Mas, vais resolver quando, ó Luciano? Eu tinha sempre o meu livro ao lado da Bíblia e quando mandasse alguém ler a Bíblia para mim, também lia o livro, naquela parte que entra o meu nome e a lavra no Kanzangiri.
Fui revistar o carro e, por sorte, havia três livros: um para o Augusto, jovem que foi meu aluno primário e que declarou coisas de me alegrar o coração, e outro para a mana Rosária "Maluvu" Albano que continuou com as estórias. E contou ainda:
_ Olha a nossa mãe Kyoko Ky'Eteta (Mariana) era oleira. Produziu panelas de barro e com estas comprou um cabrito e com o cabrito comprou uma fazenda junto ao rio Mukonga.
_ Ai é?! Não é que a irmã dela Kilombo Ky'Etinu "Maria Canhanga" também fabricava panelas de barro? Mas, no dia em que lhe recordei disso e perguntei "por que é que agora, que a mãe já é idosa e podia retomar a fabricação de panelas e outros artefactos de argila, já não o faz", sabe o que me respondeu?
_ Weli eji ki?²
_ Respondeu que era a pobreza que a impelia a fazer moringues e panelas de barro.
_ Mas, agora a mãe está cega como é que ia triturar a argila, fazer os rolos, formar as panelas, alisar e cozer?
_ Sim, mana Rosária. Eu abordei-a antes de perder a visão. Às vezes ficamos a falar do passado e do presente.
_ Continua a fazer isso, mano. Nós já temos muita idade, mais de 250 anos. Daqui a nada vamos vos deixar e vocês é que vão continuar a contar as coisas. Foi por isso mesmo que te chamei, não havia outro problema, meu irmão. Era somente esse.
Feito o mahezo³, começou a minha vez de trazer à memória alguns tópicos de sua vida.
_ Ó mana, lembro que na sua fazenda, na Mukonga, a mana trepava (com verga) às palmeiras para cortar desdém...
_ Sim. Quando eu era jovem, há homens que não torravam farinha comigo. Eu trepava mesmo como os homens.
_ Mas também se conta que um dia a mana quase caiu...
_ Quem foi que te disse? Você afinal é um pouco mais velho. O que aconteceu é que, ao cortar o cacho, vi uma cobra que estava a olhar para mim. Com medo de que ela fosse cuspideira, perdi força e larguei a verga, caindo. A minha sorte foi o facto de a altura ter sido pequena. Dali em diante nunca mais trepei em palmeiras.
= Genealogia =
Maluvu-a-Kyoko "Rosária" é filha de Kyoko Ky'Eteta. Kyoko é filha de Kiteta. Kiteta é filho de Kyole Muryanga.
Eu sou filho de Kilombo Ky'Etinu⁴. Kilombo é filha de Kitinu, irmão mais velho de Kiteta, ambos filhos de Kyole Muryanga. Logo, temos bisavó comum, Kyole Muryanga.
= Notas =
1- Não desprezes o homem de baixa estatura. Quem é alto nunca toca aos céus. Ndonga-a-Ngulu (baixinho) venceu-me uma vez.
2- O que foi que te disse?
3- Introdução ao tema da conversa.
4- A antroponímia tradicional é matrilinear, ou seja, o filho (a) recebe o apelido da mãe (Maluvu filha de Kyoko). Apenas nos casos el que o progenitor é notável (rei, soba, ou destacado membro da corte) é que o filho adopta o apelido paterno (KilomboKy'Etinu).

quinta-feira, agosto 15, 2024

ALDEIA DE PEDRA ESCRITA: NÓTULAS

Até 1984 inexistia a aldeia de Pedra Escrita. Vamos à origem do topónimo. O penedo acomodava uma frase publicitária da Estalagem Boa Viagem, pertença da família Olímpio, também conhecida por "Bar do Olímpio", no Lus(s)us(s)o, e foi apelidado pelos populares locais e outros que por lá foram passando como "a pedra escrita".

O surgimento da guerrilha, por volta de 1983 e o recrudescimento de ataques às aldeias e viaturas, acções de implantação de minas terrestres na rodoviária, em 1984 e anos subsequentes, fez parar os trabalhos na Fazenda Hoji ya Henda (antiga Fazenda Israel) e desapareceu o acampamento que albergava os trabalhadores de origem ovimbundu.
Já os trabalhadores locais (a exemplo de meus pais) tinham abandonado a fazenda em 1979/80 e construído suas aldeias e aldeolas fundadas por laços de parentesco, no Limbe que fica a 2 quilómetros a oeste de Pedra Escrita (estrada Kibala-Dondo).
Entre 1984 e 1985, grande parte da família Trinta, descendente de Katoto e fundadora do Limbe, regressou à procedência. A aldeia de Katoto migrava das margens do Rio Ryaha à Sangwisa (antes de se desdobrar nas actuais três aldeias que se estendem ao longo da EN 120).
Os ovimbundu que habitavam na Fazenda Hoji ya Henda, alguns locais descendentes de Kalombo e Tumba Grande, assim como a família "Xika Yango" (Raimundo Carlos), essa última oriunda do Mbangu-yo'Teka e que se haviam fixado na aldeola no Limbe juntaram-se em pequenos "songo" (pequenos aglomerados ou quarteirões) na zona de Pedra Escrita.

Outros continuaram dispersos em suas lavras e pequenas aldeolas familiares até que o Comandante António Infeliz João proibiu que houvesse pessoas a viverem nas lavras ou dispersas, aglomerando-as todas na aldeia de Pedra Escrita que se agigantou. Já no ano de 1993 contava com os aglomerados (songo) da Igreja Cheia da Palavra de Deus, os do Sétimo Dia, os do Kuteka (família Raimundo Carlos e Maria Canhanga) os de Kalombo e Tumba Grande, os "Mbalundu" oriundos e descendentes de ovimbundu que tinham trabalhado na fazenda e os antigos "recuas" da Kis(s)ala, Lwaty e indivíduos de outras proveniências que, não podendo constituir um aglomerado, se foram acomodando em outros, de acordo às afinidades que foram criando. A família Napoleão dos Santos, por exemplo, oriundos do Longolo (Lwati), sendo primos de Maria Canhanga (Kilombo Ky'Etinu), fixaram-se no "songo" dos de Kuteka. Este conglomerado recebeu, anos depois, outros oriundos do Kuteka, Hombo, Mbanze de Kuteka e Kiphela, aldeias que se acham longe do asfalto, nas proximidades dos rios Longa e Muxixe (antes de este afluir ao Longa).

Estima-se que a aldeia de Pedra Escrita tenha mais de 500 famílias o que "obrigou" a administração do Estado a implantar equipamentos sociais como: njango comunitário (inoperante há década), escola primária com 3 salas e 2 wc (estes ocupados pelos professores por falta de dormitório), início da construção de um posto médico (obra inacabada e abandonada que se acha perto da escola), implantação de uma linha de transporte de água bruta da montanha a oeste até à aldeia e, finalmente, a construção de outro posto médico que se acha junto à EN120. O fontanário, apesar da falta que faz aos aldeões, deixou de jorrar água há mais de seis anos.

Conta-se que "um agricultor esquartejou a tubagem com a grade do seu tractor e não repôs a tubagem até hoje". Os aldeões informam ainda que o assunto foi levado à administração, "mas o homem tem costas largas" e não dá importância aos apelos do povo que voltou a abastecer-se da "ndunga" (poço) situada na zona baixa aonde confluem, no tempo chuvoso, todos os resíduos fecais animais e humanos.

As consequências disso não são difíceis de adivinhar: propagação de doenças, enchentes no posto médico, mais despesas com medicamentos, aumento de mortes, etc.

Conhecendo o dinamismo da nova governação do Kwanza-Sul e adivinhando-se novas rotinas e orientações de trabalho a vir de Mara Quiosa (sem que se substituam necessariamente os inquilinos dos "palácios" da Munenga e de Kalulu) pede-se-lhe que se mande repor a água na aldeia de Pedra Escrita e que se busquem sinergias para a construção da casa dos professores e enfermeiros (exemplos que traz de Cabinda), podendo contar com a parceria do autor desta prosa e de outros que se venham a interessar pela causa.

A referida aldeia contará nos próximos tempos com uma biblioteca que é obra benemérita de um cidadão bem identificado, nascido na aldeia de Bangu-yo'Teka, cujos pais foram pioneiros na constituição do actual conglomerado.

quinta-feira, agosto 08, 2024

AS KAPULANAS DE MAPUTO

 O "sonho de avião" é antigo. A viagem no Boeing 737-700 da companhia "Bandeiras" é que é recente. O avião apresentava o interior limpo e arrumadinho, embora não lhe faltasse um dos 120 assentos a gemer sempre que o ocupante fizesse algum movimento mais impactante sobre ele.

A viagem era de 4horas, lingando países lusófonos situados em oceanos distintos.
Para quem viaja nos livros e jornais antes de se fazer à terra de destino, a ponte que os pilotos não se coíbem de sobrevoar era prenúncio de chegada enquanto outros perguntavam-se ainda "que pont'éssa" e "que país estamos a sobrevoar"?
_ É Katembe-Maputo ou o inverso. A cidade já foi Lourenço e o país é o das kapulanas. _ A voz perfurante entre tantos outros cochichos ouviu-se saindo do meio do avião. Era do Samora.
_ Ah! Afinal chegámos? E quê isso de kapulanas? É nome de comida?!
_ Não. Comida é xima com Agostinho Neto.
_ Xima com Agostinho Neto? Como é o que nosso guia imortal entra na comida?
_ Guia imortal? Isso é o quê?
_ Guia eterno. Conselheiro de todos os tempos. Estrategista intemporal. Percebes? Mas conta lá como é isso de comida ser xima e Agostinho Neto.
_ Ah! Vocês que vêm da região austral atlântica lusófona não sabem o que ele fez em 1976? - Inquiriu António, intrometendo-se na conversa, enquanto preparava o corpo para abandonar o assento resmungão.
_ Quê que fez o amigo do presidente Machel?
_ Mandou para cá um navio de carapau para selar a amizade entre os dois presidentes e os dois povos.
_ E daí? _ O angolano quase concluía, mas esticou ainda mais a corda da conversa, fazendo com que fosse o moçambicano a dar a machadada final na conversa.
_ Eufóricos, como éramos naqueles anos do triunfo da nossa revolução, passamos a chamar o peixe carapau "presidente amigo", só quê...
_ Neto morreu...
_ Não. Ainda estava vivo. Outros países como a Tanzânia também afinaram as relações com Moçambique e "presidente amigo" ficava vazio ou impreciso.
_ Então desistiram do peixe e passaram a comer xima acompanhado de matapa...
_ Matapa também. Sempre houve. É prato típico nacional de Moçambique, assim como nhima de cabrito, mas o peixe carapau ganhou o nome Agostinho Neto e se foi popularizando. Já lá vão mais de 3 gerações.
_ Kapulana também é comida típica daqui? _ Voltou a questionar o angolano, já mais aliviado e satisfeito com a atribuição do nome do seu primeiro presidente à espécie pelágica que habita as águas temperadas.
_ Kapulana é um tecido tradicional muito popular em Moçambique. É caracterizado por suas cores vibrantes e padrões distintos e é usada para fazer roupas, acessórios e peças de decoração. A kapulana, por cá, tem uma grande importância cultural e social, sendo utilizada em cerimónias como o lobolo, oferecida como presente.
_ Lobolo ou Libolo? Para nós, Angola, Libolo é um município que tem uma equipa de Futebol que actua no campeonato principal.
_ Aqui é cerimónia de entrega de dotes e pedido de noivado de uma rapariga. Vocês também devem ter, calculo.
_ Sim. É alembamento. Na verdade, no Kimbundu vernáculo diz-se kulemba. Os portugas é que passaram a dizer alembamento e assim ficou aportuguesado.

quinta-feira, agosto 01, 2024

O ÚLTIMO POLÍCIA

A patrulha, transportada em turismo branco, estava parada na rotunda do Cemitério do Alto das Cruzes e abordava, aleatoriamente, viaturas que vinham do Largo do Ambiente e do Miramar em direcção ao Kinaxixe.

Saído cansado do trabalho, às dezanove e vinte de uma semana prenhe de pilhas de papéis para despachar, reuniões algo intermináveis e imprevistos ao longo da jornada, apenas a casa, a filha derradeira e o netinho me vinham à cabeça.
A habitual saudação "boa noite papy" e "boa noite avô, me trouxeste o quê", à chegada, têm sido o bálsamo para aliviar toda a tortura do dia-a-dia de um meio-operário e meio-intelectual de gabinete.
Usando um carro de idade avançada, sem mais força suficiente para transpor a acelerador leve a rampa do Intercontinental e fazer a curva à direita, foi, exactamente, ainda a terminar de "escrever" o ângulo recto que o polícia se colocou à frente, fazendo-me sinal para parar e estacionar.
_ É o quê então? Fiz o quê ou o quê que devia fazer e não fiz? _ Caiu-me um céu de interrogações ditas em surdina.
À diante de mim estavam já duas outras viaturas abordadas, sendo que uma delas tinha a porta aberta, vendo-se a perna do condutor pousada sobre o pavimento, enquanto um elemento de farda azul, caki, lia os documentos ã frente da viatura que tinha os faróis à meia luz.
Meio aborrecido, todavia obediente, estacionei entre o carro branco da polícia e o que fora abordado antes de mim.
Como sempre, apressei-me em baixar o vidro e procurei pelo interruptor da lâmpada que acendi às pressas, antes que o homem, alto, 1,76 ou mais, pele escura e massa muscular a apontar-lhe uns 85 ou 90 quilogramas, me dirigisse aquelas palavras de "dá cá isso, mostra lá aquilo, por que não tem aquil'outro?".
O homem abeirou-se de mim, sem pressa, mas também não se fazendo demorar. Controlei-lhe os passos, os gestos e até as ideias e, antes mesmo de me dirigir a saudação, levei a mão ao casaco e retirei a carteira da algibeira que ficou à mostra, esperando que me pedisse os documentos.
_ Boa noite meu director!
_ Boa noite, senhor agente! _ Respondi-lhe meio desconfiado.
Antes, levei os olhos aos ombros dele a tentar descobrir o grau da patente que não tinha. Tratei-o apenas por "senhor agente" o que não é dislate.
_ Caro condutor, desculpe a abordagem. Vejo que está com a carteira na mão. Não precisarei de lhe pedir os documentos. Estamos a fazer uma abordagem preventiva e pedagógica. Sabe que há muita delinquência e não sabemos quem anda nos carros, se são pessoas em segurança, ou raptadas. Normalmente, fazemos revistas dos carros.
Enquanto se explicava, eu transformava a "raiva" do impacto inicial em cordialidade. Afinal, fora uma abordagem inesperada e primeira naquela hora e local de passagem diária, pelo menos de segunda a sexta-feira de todos os meses que já somavam dois anos e tal.
Mal o homem terminou de pronunciar a última palavra do discurso explicativo, baixei os vidros traseiros e aumentei a iluminação interior para que visse que não havia nada mais para além do vácuo e da minha vida, mas ele, diligente e mostrando que é bem-educado, retorquiu.
_ Também não precisarei de revistar a sua viatura. Muitos não gostam, por isso é que lhe estou a explicar. Aliás, para se revistar tem de haver ou mandado ou indícios que nos levem a desconfiar de algo e cumprir com esse procedimento. _ Explicou, deixando-me mais tranquilo e feliz também.
_ Afinal ainda temos bons polícias. O senhor é muito polido e cortês. Muito obrigado! Polícias como você podem até parar-me cinco vezes no meu trajecto do trabalho a Viana. Pena é que são poucos! _ Brinquei.
O homem fez uma continência e o imediato sinal de que eu estava liberado.
_ Obrigado, senhor polícia! Você transformou positivamente a minha noite! _ Disse-lhe a sair.
E como não é todos os dias que assim acontece, deixo este testemunho. Fui abordado (11.07.2024), cortês e cordialmente, por um agente da polícia. Afinal, ainda resta "um agente" que age como a sociedade espera que todos se comportem.

segunda-feira, julho 29, 2024

NGUNALI XIMA NYI IFO

 (Literalmente, o título traduzido de ucokwe para português, significa "estou a comer funji)

Trabalhei na região Leste de Angola perto de 10 anos e imergi na língua local, o ucokwe.

Para os tucokwe, xima é o designativo da pasta confeccionada a partir de farinha de mandioca (fuba de bombó), sendo extensivo ao pirão confeccionado a partir da fuba de milho.

Os tucokwe habitam territórios que abrangem Angola (especialmente nas províncias de Lunda Norte, Lunda Sul e Moxico), República Democrática do Congo (nas regiões de Katanga e Kasai) e  na Zâmbia (particularmente nas regiões fronteiriças com Angola), sendo parentes de outros povos (da família linguística Bantu) que se estendem até ao Oceano Índico.


Bem, a razão desta prosa é o substantivo xima. Em Saurimo (Angola) e em Maputo (Moçambique) xima designa um mesmo produto: funji. Quanto a "ifo" (carne para os tucokwe de Angola), alguém me "fwefenhou" que "no norte de Moçambique é énama".

Para fim de prosa, informo que o meu jantar foi xima (acompanhado) de "Agostinho Neto", nome pomposamente atribuído ao "conduto" peixe carapau!

segunda-feira, julho 22, 2024

NÓTULAS SOBRE KIBALA

Wathithi kwamunzembe, walepa kakwata kolu, Ndonga-a-ngulu wandongile!*

Visitei a vila de Kibala no dia 13 de Julho. Não foi a primeira, sendo apenas última de muitas e com a felicidade de ter percorrido grande partes das ruas doi seu casco urbano que é muito maior do que a imagem que se oferece ao transeunte. Sendo "imagem de marca" os edifícios danificados pela acção da guerra civil (1975-2002), fiz recurso a fontes orais, escritas e à IA (inteligência Artificial) para buscar pistas sobre "quantas vezes a vila de Kibala foi atacada e ocupada pela insurreição armada e recuperada pelas forças governamentais". Não encontrei resposta numérica. O que é certo é que "foram várias as vezes que tal ocorreu" e em cada uma das acções de ataque, ocupação temporária e recuperação, sempre resultavam em danos humanos e infra-estruturais, fazendo com que o rosto presente da vila seja: prédios duramente estropiados, escombros e montulhos que indiciam ter existido ali e acolá casas e instalações comerciais e/ou industriais convertidas a zero.

Bem desenhada e implantada em terreno com pequenos declives que conduzem as águas pluviais a córregos naturais de fluxo permanente, Kibala, cercada a sul por montes pedregosos, tinha tudo para ser cidade.
Depois de percorridas as ruas e ruelas da "cidade" da Kibala, faço "mea culpa" por um dia ter negado tal designação, embora os dados oficiais apontem que ela foi somente elevada à categoria de vila em 15 de Janeiro de 1974, e, ao que se diz, "com planos da administração colonial portuguesa para elevar a vila ao estatuto de cidade". E tinha tudo para sê-lo, se tivermos que comparar a Kibala a outras vilas de então que foram elevadas à cidade como é o Dondo, Gabela e ou mesmo Henrique de Carvalho.
O sexagenário Xavier Nhanga da Julieta, natural da Kibala, contactado a buscar por suas memórias, avança que “o primeiro relato de que a vila tinha sida atacada e que resultou na destruição dos edifícios Império, edifício da DOM (Departamento de Organização e Mobilização) e o Banco Totta, assim como outros edifícios ocorreu em 1984”. Esse dado é confirmado por Matias Pascoal Manuel que à data vivia na Kibala e precisa que "o primeiro ataque foi a 12 de Junho de 1984, data em que a CAIMA foi igualmente destruída".
De lá em diante, a vila foi tratada como “gato sapato”, apesar da entrega e tenacidade do Batalhão comandando pelo mítico Kandimba, de quem o cancioneiro popular regista e guarda a sua bravura na defesa da vila.

Ana Viana, natural da Kibala, tinha 12 anos em 1984 e relata que "1984 o ano da defesa e da produção. Kandimba era comandante de um Batalhão da Brigada 150. A tropa tinha ido prestar socorro no Lwati, Libolo, onde ocorrera outro ataque. Os tropas que tinham ficado eram poucos. O segundo ataque foi em junho de 86. O terceiro foi quando mataram o Felizardo que foi secretário da Jota. Até aos confrontos de 1992, houve mais ataques..." fazendo recurso á memória de uma rapariga (em 11984) que já estudava a quarta classe, Ana acrescenta que "o primeiro ataque durou 3 dias, até que (regressado do Lwaty) Kandimba assumiu o controle da situação". Lamenta a perda de amigos, colegas de escola, parentes e conhecidos e finaliza:
_ É por isso nunca me esquecerei do ano 1984.

Olhando para as "sobras da guerra" (alusão ao romance de Ismael Mateus) quem vai ou passa por Kibala nota que o mais alto edifício são as instalações da moageira CAIMA (Companhia Angro-Industrial de Milho de Angola, instalada na década de sessenta do séc. XX e que tinha uma capacidade de processamento de aproximadamente 120 toneladas de milho por dia), que fica na EN 140, a que liga a Gabela ao Mussende, cortando diagonalmente a vila da Kibala. É uma pena que a CAIMA, detentora das marcas "canini e tari" esteja como está: parada e sem horizonte para a sua reabilitação.
Todavia, nem tudo são abrolhos. Entre as décadas 50 e 60 do século XX, a Kibala gabava-se de possuir aquele que era tido como "o melhor hotel do Império", propriedade do senhor Cunha. O libolense José Carlos de Oliveira Cunha "Oca", herdeiro do sobrenome e neto, confirma esse dado. "Situava-se ao pé da Administração municipal da Kibala, lado oposto".
A próxima melhor instalação hoteleira da Kibala vem pelas mãos de Eduardo Fernando, um natural que fez vida fora da circunscrição e decidiu juntar "patacas" para as investir em sua terra. Com três andares é tido como "o mais alto da circunscrição, depois do edifício da CAIMA. São acções como essas que replicadas fazem evoluir as localidades.
Impávida e persistente olha-nos, a partir do cimo do monte rochoso, o fortim, conferindo cada fracasso ou vitória dos homens e mulheres da Kibala que é eterna. E para terminar, que tal uma rua para homenagear o comandante Kandimba?
...
* Na variante local de Kimbundu significa: Não desprezes o baixinho, pois o homem mais alto nunca tocará os céus.

segunda-feira, julho 15, 2024

KATOFE DE ONTEM E DE HOJE

Em visita familiar à Kibala (14.07.2024), cheguei a Katofe (já conhecia a vila de passagem) e procurei pela Escola Técnica Agrária que busca resgatar a áurea da localidade que fica a aproximadamente 13 quilómetros da vila de Kibala.

O que encontrei apontava para uma vila que apela por socorro. Casas, algumas, com pinturas a reclamar mais de 49 anos de ausência do pintor. Algumas sem tecto. Outras juntam à falta de tecto as porta e janelas. O que foi "casa de acolhimento dos açorianos que acabavam de chegar" é hoje casa de ninguém, ou melhor, abrigo de cabritos, mabengo, lyambeiros e noctívagos morcegos.
_ Será que se alguém solicitar a sua reabilitação conseguiria obter a cedência?
É que um motel em Katofe teria serventia, tanto para a localidade, quanto para Kibala que fica perto.

As inovações são o Complexo Escolar e a Escola Técnica Agrária que tenta resgatar a importância histórica da vila em termos de potencial agropecuário da região e do país.

Informações recolhidas na Escola Técnica de Agronomia apontam que frequentam a mesma 190 alunos, 79 dos quais internos e os demais externos.

Sendo escola básica, os alunos devem entrar com a sexta classe concluída saindo com a nona classe (ensino fundamental), sendo a idade máxima de entrada os 16 anos (saindo aos 19 para o mercado de trabalho).

Katofe, foi uma florescente vila fundada por agropecuaristas portugueses oriundos do arquipélago dos Açores (vide entrevista com Lúcio Flávio da Silveira).

Dados apontam que era profícua em leite e outros agro-produtos, registando, à entrada para 1975, autonomia em suprimento de energia e água. Aliás, o Rio Katofe, de curso permanente e facilitador da irrigação, passa ao lado, cortando e molhando as terras.

José Kassola, natural da região, conta que seu tio trabalhou na ELA (Empresa de Lacticínios de Angola), cujas instalações, em Katofe, podem ser vistas à entrada da vila (lado direito, sentido Kibala-Waku). Conta que a unidade “transformava em natas” o leite recolhido pelos fazendeiros e o transferia para a fábrica principal, no Waku Kungo, onde era terminado o processo.

“Acredito que ainda haja amostras de misturadoras, espátulas, blenders e outros restos de equipamentos que eram usados”.
Kassola diz ainda que o proprietário da E.L.A. tinha a responsabilidade de distribuir gado às famílias e essas cuidavam da ordenha. "O leite era colocado em recipientes metálicos. O meu tio António José Cassola "Kimbuze" tinha um em casa e, apesar de já falecido, e os meus primos ainda o conservam". Acrescenta que o motorista passava de fazenda em fazenda onde havia gado para recolher os recipientes, pagando o valor estipulado em Escudos para que os mesmos tivessem poder económico.
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A vila de Katofe retratada por quem a viu nascer

Lúcio Flávio da Silveira Matos é natural de Katofe, município da Kibala, Kwanza-Sul, emigrado em 1975 devido ao clima antes e pós-independência, para Portugal e, depois, para o Brasil onde, entre muitas coisas, desenvolve actividade académica em uma universidade. Lúcio Huambo, como também assina algumas de suas crónicas, é um homem que reflecte sobre Katofe e que narra, nas suas prosas e poesias, a saudade, os mitos e os cantares da terra que o viu nascer.
Em tempos (2012), o Lúcio publicou um artigo que ressaltava os homens adultos do seu tempo de meninice que deram cabo dum leão. Foi o motivo que accionou a minha já desperta curiosidade, resultando numa entrevista que tenho o prazer de publicar nesta página.
- Caro Lúcio, havia uma cidade, pequena, mas com este estatuto ganho em 1974, que é a Kibala. A cerca de dez quilómetros erguia-se a vila de Katofe com igreja "sumptuosa" e casas majestosas (naquele tempo) que comentário?
Lúcio: O meu blog inclui uma resenha histórica, intitulada "A décima ilha", escrita pelo meu pai - com heroicos 92 anos feitos em Novembro de 2012 - em que ele narra a lenta, mas sempre progressiva colonização açoriana na região do Katofe. A igreja que consideras "sumptuosa" realmente foi o último fruto de um progresso que se considerava imparável, à época. Quanto à arquitectura da igreja, teve três versões: a primeira foi uma pequena erguida sem torre de sinos (sineira) e a segunda já tinha uma torre com sinos, mas em 1964 mostrou-se exígua para o povo que a frequentava aos domingos e dias de Festa do Divino Espírito Santo, quando havia muitos forasteiros. O progresso das casas foi paralelo ao da igreja; as primeiras casas do Katofe foram de pau-a-pique, depois de adobe, e as primeiras casas de tijolo cerâmico cozido foram erigidas a partir de 1962. A casa de dois pisos no início da povoação, construída pelo Kimbaça Emílio Dias, um dos três pioneiros açorianos, era de adobe e foi construída no início da década de 1950. Ali, era a primeira pousada dos colonos que iam chegando livremente dos Açores, sem quaisquer apoios do governo português. A minha família só se mudou da casa de adobe para a de tijolo cerâmico em 1968. A luz eléctrica foi instalada na povoação em 1966.
_ Katofe era uma colónia agrícola?
Lúcio: Era uma colónia agro-pecuária, essencialmente baseada na pecuária de laticínios, que foi implantada de forma livre e espontânea por três açorianos que primeiro viveram alguns anos na Kibala. Ao se fixarem em Katofe, mandavam notícias para os Açores e assim, de forma livre, se foi estabelecendo um fluxo migratório por afinidade de famílias e não por incentivo governamental.

_ Eram os colonos todos ou maioritariamente açorianos?
Lúcio: Os colonos eram todos açorianos; havia cerca de setenta famílias originárias da ilha de S. Jorge, nos Açores. Entre os colonos havia dois da ilha Graciosa e um da ilha Terceira que casaram com mulheres jorgenses que já se encontravam em Katofe. Esses colonos não jorgenses vieram originariamente para o Kwanza Sul para trabalhar na construção dos colonatos que o governo colonial resolveu implantar na Cela (Waku Kungu), a 60 quilómetros. Contudo, ressalte-se que nos colonatos estabelecidos pelo governo inicialmente era proibida a utilização de mão-de-obra nativa, enquanto em Katofe, por ser de colonização livre, os trabalhos de agricultura e pecuária eram feitos com a cooperação de mão-de-obra nativa.
_ Qual era a ocupação principal daquelas famílias?
Lúcio: A ocupação principal sempre foi a pecuária de leite. Inicialmente, houve muitos revezes. O progresso começou a fazer-se sentir a partir de 1965, quando a ELA - Empresa de Laticínios de Angola, com sede na Cela, foi estabelecida com capital acionário igualitário do Estado, firma portuguesa Martins & Rebelo e dos lavradores das regiões da Cela e Katofe. O posto de laticínios construído em Katofe era só destinado à recepção de leite, que era encaminhado refrigerado em camião-tanque para processamento na fábrica da Cela.
_ Que outras infra-estruturas havia à data?
Lúcio: As principais infra-estruturas estabelecidas até 1974 eram a escola, o internato escolar e o posto de saúde, todos frequentados também por população autóctone. Havia previsão para estabelecimento de uma agência de Correios na década de 1970, o que não se realizou até hoje.
_ Havia uma administração da vila?
Lúcio: Não havia uma administração da vila. Os colonos organizaram uma cooperativa que era a principal voz representativa, através do seu presidente, junto às autoridades governamentais.
_ Como eram as relações entre os filhos dos brancos e dos negros de Katofe?
Lúcio: Posso considerar boas com tendência a melhorar muito. A integração era maior no futebol, com a equipa da povoação, de brancos e negros, a realizar frequentes jogos nas cinco aldeias mais próximas, à volta da povoação - Hombe, Songwe, Kikula, Kas(s)ala e Katoka; segundo relatos de quem foi ao Katofe, essas aldeias não existem mais.

_Quando foi que a vila de Katofe começou a ser fundada?
Lúcio: Penso que no início da década de 1940, com os três pioneiros André de Oliveira, João de Oliveira e Emílio Dias. O André de Oliveira morreu nos primeiros anos, vitimado pelas febres, pois o terreno na época era bem infestado por mosquitos e mosca-do-sono.

_ Lembra-se dos primeiros habitantes não autóctones de Katofe?
Lú: Os três pioneiros foram André de Oliveira, João de Oliveira e Emílio Dias. Depois, juntou-se a eles Vicente Teixeira de Matos, o meu pai, que foi apelidado pelos autóctones de Kilamba.

_ Por que razão foram lá parar (idos dos Açores ou outros pontos do distante Portugal continental)?
Lúcio: Os três pioneiros foram André de Oliveira, João de Oliveira e Emílio Dias que foram inicialmente para Kibala trabalhar para o Capitão Sandão, que era um militar açoriano casado na Kibala com uma nativa negra e (possuidor de) vários filhos. Resolveram tornar-se independentes e estabeleceram-se nas baixas de Katofe porque, segundo as informações colhidas na Kibala, havia ali bastante terra livre e boa para a criação de gado leiteiro, que é a vocação primordial dos jorgenses. Depois, juntou-se a eles Vicente Teixeira de Matos, o meu pai, que foi apelidado pelos autóctones de Kilamba. O meu pai foi encontrado no serviço militar no Huambo, onde o meu avô paterno tinha uma fazenda perto do Forte da Quissala; o meu pai foi para Angola atrás do pai, tendo abandonado os estudos em Portugal, quando ia fazer o curso de Veterinária. Quando foi convidado para ir criar gado em Katofe, mal saísse definitivamente do quartel, e bem longe do pai, ele não titubeou, afinal era um jovem de vinte anos.

O Lúcio Silveira tem estado a publicar no seu blog, MUKANDAS DO KABIÁKA, poemas com conteúdo que retrata Angola e fábulas da nossa terra (Angola). O meu entrevistado não descarta a possibilidade de converter as lindas e ricas fábulas em livro impresso.

Ainda sobre Katofe, o Pe. Abel João e Domingos Raul da Silva dizem, no livro BREVE HISTORIAL DA MISSÃO CATÓLICA DA QUIBALAO" que "em 26 de Setembro de 1949, no Cartório Notarial da Comarca de Nova Lisboa (Huambo), foi assinada a
escritura de fundação da Cooperativa de Colonização Agro-Pecuária, 'A Açoreana', com sede em Catofe, área do Posto Sede de Concelho de Quibala. Os Estatutos da Cooperativa foram publicados no Boletim Oficial da Província da Angola, III Série, nº 48, de 1 de Dezembro de 1949. Foram dezanove os fundadores".

segunda-feira, julho 08, 2024

SALOMÃO: O ADOLESCENTE MAPUTENSE DE POUCAS FALAS

Salomão Zacarias é um adolescente moçambicano de 17 anos. É de pouca fala. Encontrei-o num dos quebra-mar aonde fui caminhando e contemplando o exotismo do índico. Pedi-lhe para fazer-me uma foto. Ele, quase silencioso, parecia dizer "não". Talvez desconfiado. Não ria, parecia alma tristonha. Fez a foto, melhor, duas fotos. Segui o meu caminho que já se fazia curto até à água.

De regresso, pelo mesmo apeadeiro sobre o mar, vi-o com um livro que me parecia velho de tanto manuseio, um caderno e uma esferográfica. Parecia ler e tomar notas. Importunei-o, mais uma vez.

_ Filho, desculpa tomar o teu tempo. Sou angolano. Contemplo e escrevo. Gosto também de conversar e tomar notas mentais.

Ele, de novo, silencioso. Parecia não estar aí. Perguntei sobre a sua idade e o que fazia àquela hora a meio do quebra-mar. As respostas tardavam. Tive de adivinhar-lhe as ideias, mediante leitura do semblante.

Exibindo Kitotas: Recuos e avanços

Apenas disse que era Salomão e que estava a meditar sobre o que lia da Bíblia.

Falei-lhe sobre meu ofício de escritor, uma forma também de meditar sobre a vida e partilhar. Abriu a boca e disse que se chamava Salomão. Nem às perguntas sobre formação, onde nasceu e que fazia da vida respondeu.

Parti. Apostei comigo mesmo que não mais o importunaria.

_ Por que carga d'água um rapaz, que até tem idade dos meus últimos rebentos, idade da ousadia, não me respondia?!

Marquei passos, uns bons passos, mil talvez. Ia ao encontro do jovem que comercializava água de coco por M$30 a quem eu prometera comprar no regresso ao hotel. Caminhava sobre a areia cristalina da praia na marginal de Maputo. Adolescentes fugidas de um casamento religioso aproveitavam a folga e fotografavam-se para "viralizar" nas redes sociais. Por pouco pedi que me fotografassem também. Todavia, reparei que eram meninas e menores. Olhei atrás e reparei o mesmo adolescente que deixara a meditar, vindo em minha direcção num passo apressado, como que me quisesse alcançar.

Mesmo não confirmado que vinha ter comigo, abrandei o passo para metade da velocidade. Deixei-o aproximar-se até estarmos lado a lado.

_ Então, vens ter comigo, Salomão?

_ Sim. Disse-me que era escritor. Será que também escreve poesia?

_ Sim, Salomão, dentre os meus dez livros publicados três são versificações.

_ Eu gosto de poesia e gostaria de ser poeta.

_ Pois é. Os poetas são introspectivos e gritam no silêncio das palavras versos que escrevem.

_ Será que o pai tem um livro de poesia para me emprestar para ler essa manhã e devolver à tarde? _ Replicou.

Senti-me comovido. Cada palavra, dita quase a sussurrar, soava-me a um pranto daquela alma que não se abria.

_ Filho, tenho um livro para ti, mas não é poesia. É sobre a minha infância e adolescência. Quem sabe te seja útil? Podes vir comigo? Estou alojado no hotel que está à frente de nós.

Seguimos, eu procurando que me apresentasse o poeta que mora nele. Ele contendo as palavras o máximo que podia. Confessou que concluiu a décima classe e que tinha parado de estudar por dificuldades. Quando decidiu perguntar, o tema foi religioso.

_ O pai é crente? Eu sou da Igreja MEA.


Falei-lhe sobre a minha infância e juventude na Igreja Metodista Unida em Angola, cargo pastoral de Moisés.

_ Foi levada a Angola por missionários americanos e creio que haja também aqui em Moçambique.

A segunda pergunta do Salomão foi à entrada do hotel. Talvez tenha sido a sua primeira vez a adentrar um grande hotel e daí o espanto.

_ Posso entrar também? Será que me permitem?!

_ Tu és meu convidado, meu filho. Vem comigo a te levarei de volta à praia.

Recebido o livro, no quarto de hotel, deixei o Salomão a "Kitotar" sobre a brisa matutina do índico, contando que, terminada leitura do mesmo, venha a fazer de seus eventuais recuos grandes avanços em sua vida.

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Texto publicado no Jor. Angola de 07.07.2024

segunda-feira, julho 01, 2024

O QUASE CHEFE

 (Diz-se que "escapou ser nomeado")

Quando o amigo que trabalha e trafica informações no Gabinete do chefe lhe fwefenhou "vi o teu nome, vão te nomear", Ngolombole, contente, como nunca se lhe viu antes, foi à vizinha fazer kilapi de cerveja, cinco caixas; gasosas, três caixas - crianças e mulheres bebem pouco; vinho, um barril de cinquenta; porco, leitão de trinta e cinco quilos; frango e costeletas, duas caixas cada. Picanha e chouriço também, em quantidade e qualidade para quem, em breve, "será chamado chefe Ngolombole em todo o lugar".


- Porra!  Chegou a vez de quem sempre trabalhou e muito esperou. _ Disse aos amigos e convivas, mesmo com a Covid-19 a colocar-lhes entraves e com a polícia a rondar e a distribuir "chocolates e rebuçados", à moda Man-Paulito.

_ Os bongôs são invejosos. _ Proclamou outro, já encopado e trôpego.

Na segunda-feira imediata, dia em que a vitrine do organismo público em que labuta estaria prenhe de Editais, foi à boutique "Preto-e-fino" e fez "vale" de um fato escuro, como é quase preceito usá-los em cerimónias de empossamento ou outros de equivalente magnitude. A vestimenta estava completa: casaco de dois botões e duas fendas laterais, colete, gravata, abotoadeiras, calças, camisa branca, sapatos pretos envernizados, cinto de cabedal, peúgas, lenço de algibeira e graxa.

Ao lado da boutique, o ourives, que era seu conhecido, não ficou atrás e adiantou-lhe a crédito uma grossa mascote e uma forte corrente d'Ouro. Relógio dourando, embora com os ponteiros estáticos, ele já possuía havia anos e enfeitavam a sua banga. Daí para a barbearia foi meio-caminho. Felizmente, o aparo do cabelo e barba foram pagos a pronto, pois, antes de empunhar a tesoura, Kinavwidi, o barbeiro de origem congolesa, procurava confirmar junto de seus clientes se tinham "mbongo na maboko". 

No dia do anúncio dos despachos de nomeação, duas semanas depois, viu-se a preto e branco que, afinal, o seu amigo e informante vira mal.

O nomeado foi Manuel Ngolombole Adão Kambundu e não ele, Adão Ngolombole.

Como pagar as despesas à vizinhança que já cobrava de 12 em 12 horas?