Há coisas que alegram e servem de bálsamo à alma triturada pela negrura da vida de um adulto.
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domingo, setembro 01, 2024
O OPERATIVO E O BOMBEIRO
quarta-feira, agosto 28, 2024
QUEM FOI O COMANDANTE KANDIMBA?
(Tentativa de descrição dos feitos do militar Pedro Manuel Biano)
Kandimba gostava de ter a sua tropa bem disciplinada e os indisciplinados eram repudiados e castigados. Para organizar e disciplinar a tropa, tinha o seguinte slogan, 'nós somos cerca de 3000 homens. Eu prefiro ter 300 organizados a 3000 desorganizados'.
Ele descrevia a sigla FAPLA como 'Foram Armados Pelo Povo Para Libertar Angola'. Kandimba era muito rigoroso no cumprimento das missões que ordenava e as que ele próprio cumpria, esperando sempre por resultados positivos e nunca a derrota. A sua residência oficial era na rua em que ficavam as antigas instalações da Segurança do Estado, na vila da Kibala.
Operava normalmente com as primeiras três companhias do Batalhão 722, nomeadamente, 1ª, 2ª e 3ª, que ele considerava sua tropa de elite. O sargento-maior Evaristo José Bernardo, 'Xiña Wanga', da 3ª Companhia, era um dos seus estrategas nas grandes operações e dos seus principais seguidores.
Combateu no município da Kibala e, sempre que fosse requerida a sua intervenção, nos circunvizinhos da Gabela, Libolo, Hebo, Kondé, Waku Kungu, entre outros. Era muito respeitador da população e não gostava de escutar que um soldado das FAPLA maltratou ou retirou haveres de um popular.
Em meados de 1987, o 1º Pelotão da 8ª Companhia do Batalhão 722, que era comandado pelo seu irmão mais novo José Biano, destacado na montanha próxima ao bairro Kakata, depois do bairro Kapezo, foi atacado pelas Unita, tendo o chefe do pelotão perdido a sua arma de fogo do tipo a AKM. Em função deste acontecimento decidiu retirar toda 8º Companhia que se encontrava destacada na protecção da via Luanda-Huambo, incluindo nós que estávamos destacados na montanha junto às antigas bombas de combustível da Shell, para o comando do Batalhão 722 na sede municipal da Kibala, e destacado na Fortaleza.
A 18 de Dezembro de 1987, foi-nos incumbida uma operação militar, entrando pela comuna do Ndala Kaxibo, tendo o comandante Kandimba, dito ao seu irmão menor José Biano, em plena parada o seguinte: Deixaste o inimigo levar a tua arma. Não te darei mais arma. Avisei-te para ficares a cuidar da nossa mãe porque eu já sou militar, mas não aceitaste. Agora tu é que sabes se levas pedras ou cassete. Fomos com nosso colega desarmando e regressámos da missão no dia 27 de Dezembro.
(iv) José Kassola: Ele nasceu no Waku, na fronteira entre o Waku Kungo e Kibala. O irmão do Senhor Beto Kadaff, foi Motorista do comandante Kandimba. Lembro quando o Sr. Biano foi atropelado pelo seu próprio motorista que era primo dele. O homem carregava na Land Rover prisioneiros feridos da unita que seriam levados num helicóptero vindo comando da Região, em Benguela. Esteve presente o Comandante Seteko da 7ª Região. O Comandante Pedro Manuel Biano quase morria naquele incidente. O primo motorista aproximava-se do helicóptero para descarregar os soldados da UNITA feridos e capturados, para serem transferido para a Sétima Região. Ele sentiu medo das hélices, fez marcha atrás, sem olhar o Comandante Kandimba que estava a conversar com o Comandante Seteko. Pimbas! Caiu atropelado. Os óculos partiram e o Comandante Seteko levantou o Kandimba já com os olhos vermelhos.
A outra cena de que me lembro foi numa das efemérides, ou seja, feriado do Partido (MPLA), realizado às 12h00 horas, em que Kandimba quase seria capturado na Vila, mas avisou os demais chefes do Partido MPLA para que deixassem o espaço o mais rápido possível. Ele saiu sem que ninguém o visse e depois começou o fogo da UNITA dentro do recinto da festa. Ali tombou o 1° Secretário da JMPLA da Kibala, o jovem Felizardo.
(v) Pedro Muhongo: Convivi com ele de 1983 a 1986. Conheci-o na tropa, isto em Katofe (Kibala) no Regimento de Tropas Cubanas, quando foi submetido ao curso intensivo de comandante de tropas, no âmbito de correlação de forças no teatro das operações, função que já vinha desempenhando há vários anos. Estamos lembrados que a década de 80 (séc. XX) foi a época mais difícil no país para quem integrou as FAPLA. Observamos quão era difícil a situação. Essa formação visava a criação de uma unidade específica, moderna e adequada, com efectivos capazes à altura dos desafios que a situação impunha. A unidade de combate foi criada em Agosto de 1983 e, se a memória não me atraiçoa, chamava -se (na altura) 150 BIL (Centésima Quinquagésima Brigada de Infantaria Ligeira) de onde Kandimba viria a ser comandante do 3° Batalhão ora criado e ostentava o grau militar de 2° Tenente, resultante da formação recebida. Aí o conheci e seguiu-se uma vida militar intensa. Eu fazia parte da 150 BI), mas numa sub-unidade do Comando da Brigada e com frequência era chamado ao apoio do Batalhão comandado por Kandimba.
Por razões de várias missões chamados a cumprir, entre 1985, a 150 BIL foi movimenta para Malanje (9° Região Político Militar), passando por Kalulu, depois pelo Kis(s)ongo, caminhando para a região militar das FALA (forças da UNITA) chamada 93 RM, localizada no planalto (entre Kuanza-Sul e Bié), abrangendo o corredor de Kalus(s)inga, depois rumando para Malanje, mas feito o trajecto na Kitúbya, Luso, Gango, em direcção ao Povo do Hako, Kyenha, passando na Kipumba, caminhando até às margens do gigante Rio Kwanza. Na altura a barragem de Kapanda estava no início da sua construção. Aí transpusemos a margem contrária do Rio Kwanza, seguindo para Pungo a Ndongo, Kakuzu e cidade de Malanje. As missões continuaram na província de Malanje, depois para município de Kunda Dyabase, passando por Kakulama, Kela e às áreas da Baixa de Kas(s)anje. Em Janeiro de 1986, atingimos a localidade de Kafunfo e Kas(s)anje Kalukala. Aí o Kandimba ficou doente (meados de Janeiro de 1986) e foi levado ao hospital da Região Militar na cidade de Malanje. Depois que a saúde dele se restabeleceu, beneficiou de uma licença disciplinar (férias) para a terra natal (Kibala). De lá já não mais regressou ao Comando do seu Batalhão e na Kibala criou o batalhão 722, que comandou até 1992 ao abrigo dos acordos de paz para Angola (Bicesse).
(vi) Francisco Pinto, 65 anos feitos em Agosto de 2024, conta que em 1992, depois da desmobilização das FAPLA e criação do que era chamado de "Exército Nacional Único", as FAA, o Batalhão 772, organizado e chefiado pelo comandante Kandimba, havia sido extinto e o comandante desmobilizado com a patente de Major.
quinta-feira, agosto 22, 2024
O KAMBWIJI DE 10 KG E OS 250 ANOS DA VELHA ROSÁRIA
A idosa na primeira foto é a minha mana Maluvu-a-Kyoko ou Rosária Albano. Calculadamente, deve ter 80 ou mais uns anitos. Porém, diz que "se eu (narrador) tenho 50, ela não pode ter menos de 250 anos" e justifica que me viu a nascer quando ela já era mãe de uma kalumba.
quinta-feira, agosto 15, 2024
ALDEIA DE PEDRA ESCRITA: NÓTULAS
Até 1984 inexistia a aldeia de Pedra Escrita. Vamos à origem do topónimo. O penedo acomodava uma frase publicitária da Estalagem Boa Viagem, pertença da família Olímpio, também conhecida por "Bar do Olímpio", no Lus(s)us(s)o, e foi apelidado pelos populares locais e outros que por lá foram passando como "a pedra escrita".
quinta-feira, agosto 08, 2024
AS KAPULANAS DE MAPUTO
O "sonho de avião" é antigo. A viagem no Boeing 737-700 da companhia "Bandeiras" é que é recente. O avião apresentava o interior limpo e arrumadinho, embora não lhe faltasse um dos 120 assentos a gemer sempre que o ocupante fizesse algum movimento mais impactante sobre ele.
quinta-feira, agosto 01, 2024
O ÚLTIMO POLÍCIA
A patrulha, transportada em turismo branco, estava parada na rotunda do Cemitério do Alto das Cruzes e abordava, aleatoriamente, viaturas que vinham do Largo do Ambiente e do Miramar em direcção ao Kinaxixe.
segunda-feira, julho 29, 2024
NGUNALI XIMA NYI IFO
(Literalmente, o título traduzido de ucokwe para português, significa "estou a comer funji)
Trabalhei na região Leste de Angola perto de 10 anos e imergi na língua local, o ucokwe.
Para os tucokwe, xima é o designativo da pasta confeccionada a partir de farinha de mandioca (fuba de bombó), sendo extensivo ao pirão confeccionado a partir da fuba de milho.
Os tucokwe habitam territórios que abrangem Angola (especialmente nas províncias de Lunda Norte, Lunda Sul e Moxico), República Democrática do Congo (nas regiões de Katanga e Kasai) e na Zâmbia (particularmente nas regiões fronteiriças com Angola), sendo parentes de outros povos (da família linguística Bantu) que se estendem até ao Oceano Índico.
Bem, a razão desta prosa é o substantivo xima. Em Saurimo (Angola) e em Maputo (Moçambique) xima designa um mesmo produto: funji. Quanto a "ifo" (carne para os tucokwe de Angola), alguém me "fwefenhou" que "no norte de Moçambique é énama".
Para fim de prosa, informo que o meu jantar foi xima (acompanhado) de "Agostinho Neto", nome pomposamente atribuído ao "conduto" peixe carapau!
segunda-feira, julho 22, 2024
NÓTULAS SOBRE KIBALA
Wathithi kwamunzembe, walepa kakwata kolu, Ndonga-a-ngulu wandongile!*
Bem desenhada e implantada em terreno com pequenos declives que conduzem as águas pluviais a córregos naturais de fluxo permanente, Kibala, cercada a sul por montes pedregosos, tinha tudo para ser cidade.
segunda-feira, julho 15, 2024
KATOFE DE ONTEM E DE HOJE
Em visita familiar à Kibala (14.07.2024), cheguei a Katofe (já conhecia a vila de passagem) e procurei pela Escola Técnica Agrária que busca resgatar a áurea da localidade que fica a aproximadamente 13 quilómetros da vila de Kibala.
É que um motel em Katofe teria serventia, tanto para a localidade, quanto para Kibala que fica perto.
As inovações são o Complexo Escolar e a Escola Técnica Agrária que tenta resgatar a importância histórica da vila em termos de potencial agropecuário da região e do país.
Informações recolhidas na Escola Técnica de Agronomia apontam que frequentam a mesma 190 alunos, 79 dos quais internos e os demais externos.
Sendo escola básica, os alunos devem entrar com a sexta classe concluída saindo com a nona classe (ensino fundamental), sendo a idade máxima de entrada os 16 anos (saindo aos 19 para o mercado de trabalho).
Katofe, foi uma florescente vila fundada por agropecuaristas portugueses oriundos do arquipélago dos Açores (vide entrevista com Lúcio Flávio da Silveira).
Dados apontam que era profícua em leite e outros agro-produtos, registando, à entrada para 1975, autonomia em suprimento de energia e água. Aliás, o Rio Katofe, de curso permanente e facilitador da irrigação, passa ao lado, cortando e molhando as terras.
José Kassola, natural da região, conta que seu tio trabalhou na ELA (Empresa de Lacticínios de Angola), cujas instalações, em Katofe, podem ser vistas à entrada da vila (lado direito, sentido Kibala-Waku). Conta que a unidade “transformava em natas” o leite recolhido pelos fazendeiros e o transferia para a fábrica principal, no Waku Kungo, onde era terminado o processo.
“Acredito que ainda haja amostras de misturadoras, espátulas, blenders e outros restos de equipamentos que eram usados”.
Kassola diz ainda que o proprietário da E.L.A. tinha a responsabilidade de distribuir gado às famílias e essas cuidavam da ordenha. "O leite era colocado em recipientes metálicos. O meu tio António José Cassola "Kimbuze" tinha um em casa e, apesar de já falecido, e os meus primos ainda o conservam". Acrescenta que o motorista passava de fazenda em fazenda onde havia gado para recolher os recipientes, pagando o valor estipulado em Escudos para que os mesmos tivessem poder económico.
escritura de fundação da Cooperativa de Colonização Agro-Pecuária, 'A Açoreana', com sede em Catofe, área do Posto Sede de Concelho de Quibala. Os Estatutos da Cooperativa foram publicados no Boletim Oficial da Província da Angola, III Série, nº 48, de 1 de Dezembro de 1949. Foram dezanove os fundadores".
segunda-feira, julho 08, 2024
SALOMÃO: O ADOLESCENTE MAPUTENSE DE POUCAS FALAS
Salomão Zacarias é um adolescente moçambicano de 17 anos. É de pouca fala. Encontrei-o num dos quebra-mar aonde fui caminhando e contemplando o exotismo do índico. Pedi-lhe para fazer-me uma foto. Ele, quase silencioso, parecia dizer "não". Talvez desconfiado. Não ria, parecia alma tristonha. Fez a foto, melhor, duas fotos. Segui o meu caminho que já se fazia curto até à água.
De regresso, pelo mesmo apeadeiro sobre o mar, vi-o com um livro que me parecia velho de tanto manuseio, um caderno e uma esferográfica. Parecia ler e tomar notas. Importunei-o, mais uma vez.
_ Filho, desculpa tomar o teu tempo. Sou angolano. Contemplo e escrevo. Gosto também de conversar e tomar notas mentais.
Ele, de novo, silencioso. Parecia não estar aí. Perguntei sobre a sua idade e o que fazia àquela hora a meio do quebra-mar. As respostas tardavam. Tive de adivinhar-lhe as ideias, mediante leitura do semblante.
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| Exibindo Kitotas: Recuos e avanços |
Apenas disse que era Salomão e que estava a meditar sobre o que lia da Bíblia.
Falei-lhe sobre meu ofício de escritor, uma forma também de meditar sobre a vida e partilhar. Abriu a boca e disse que se chamava Salomão. Nem às perguntas sobre formação, onde nasceu e que fazia da vida respondeu.
Parti. Apostei comigo mesmo que não mais o importunaria.
_ Por que carga d'água um rapaz, que até tem idade dos meus últimos rebentos, idade da ousadia, não me respondia?!
Marquei passos, uns bons passos, mil talvez. Ia ao encontro do jovem que comercializava água de coco por M$30 a quem eu prometera comprar no regresso ao hotel. Caminhava sobre a areia cristalina da praia na marginal de Maputo. Adolescentes fugidas de um casamento religioso aproveitavam a folga e fotografavam-se para "viralizar" nas redes sociais. Por pouco pedi que me fotografassem também. Todavia, reparei que eram meninas e menores. Olhei atrás e reparei o mesmo adolescente que deixara a meditar, vindo em minha direcção num passo apressado, como que me quisesse alcançar.
Mesmo não confirmado que vinha ter comigo, abrandei o passo para metade da velocidade. Deixei-o aproximar-se até estarmos lado a lado.
_ Então, vens ter comigo, Salomão?
_ Sim. Disse-me que era escritor. Será que também escreve poesia?
_ Sim, Salomão, dentre os meus dez livros publicados três são versificações.
_ Eu gosto de poesia e gostaria de ser poeta.
_ Pois é. Os poetas são introspectivos e gritam no silêncio das palavras versos que escrevem._ Será que o pai tem um livro de poesia para me emprestar para ler essa manhã e devolver à tarde? _ Replicou.
Senti-me comovido. Cada palavra, dita quase a sussurrar, soava-me a um pranto daquela alma que não se abria.
_ Filho, tenho um livro para ti, mas não é poesia. É sobre a minha infância e adolescência. Quem sabe te seja útil? Podes vir comigo? Estou alojado no hotel que está à frente de nós.
Seguimos, eu procurando que me apresentasse o poeta que mora nele. Ele contendo as palavras o máximo que podia. Confessou que concluiu a décima classe e que tinha parado de estudar por dificuldades. Quando decidiu perguntar, o tema foi religioso.
_ O pai é crente? Eu sou da Igreja MEA.
Falei-lhe sobre a minha infância e juventude na Igreja Metodista Unida em Angola, cargo pastoral de Moisés.
_ Foi levada a Angola por missionários americanos e creio que haja também aqui em Moçambique.
A segunda pergunta do Salomão foi à entrada do hotel. Talvez tenha sido a sua primeira vez a adentrar um grande hotel e daí o espanto.
_ Posso entrar também? Será que me permitem?!
_ Tu és meu convidado, meu filho. Vem comigo a te levarei de volta à praia.
Recebido o livro, no quarto de hotel, deixei o Salomão a "Kitotar" sobre a brisa matutina do índico, contando que, terminada leitura do mesmo, venha a fazer de seus eventuais recuos grandes avanços em sua vida.
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Texto publicado no Jor. Angola de 07.07.2024
segunda-feira, julho 01, 2024
O QUASE CHEFE
(Diz-se que "escapou ser nomeado")
Quando o amigo que trabalha e trafica informações no Gabinete do chefe lhe fwefenhou "vi o teu nome, vão te nomear", Ngolombole, contente, como nunca se lhe viu antes, foi à vizinha fazer kilapi de cerveja, cinco caixas; gasosas, três caixas - crianças e mulheres bebem pouco; vinho, um barril de cinquenta; porco, leitão de trinta e cinco quilos; frango e costeletas, duas caixas cada. Picanha e chouriço também, em quantidade e qualidade para quem, em breve, "será chamado chefe Ngolombole em todo o lugar".
- Porra! Chegou a vez de quem sempre trabalhou e muito esperou. _ Disse aos amigos e convivas, mesmo com a Covid-19 a colocar-lhes entraves e com a polícia a rondar e a distribuir "chocolates e rebuçados", à moda Man-Paulito.
_ Os bongôs são invejosos. _ Proclamou outro, já encopado e trôpego.
Na segunda-feira imediata, dia em que a vitrine do organismo público em que labuta estaria prenhe de Editais, foi à boutique "Preto-e-fino" e fez "vale" de um fato escuro, como é quase preceito usá-los em cerimónias de empossamento ou outros de equivalente magnitude. A vestimenta estava completa: casaco de dois botões e duas fendas laterais, colete, gravata, abotoadeiras, calças, camisa branca, sapatos pretos envernizados, cinto de cabedal, peúgas, lenço de algibeira e graxa.
Ao lado da boutique, o ourives, que era seu conhecido, não ficou atrás e adiantou-lhe a crédito uma grossa mascote e uma forte corrente d'Ouro. Relógio dourando, embora com os ponteiros estáticos, ele já possuía havia anos e enfeitavam a sua banga. Daí para a barbearia foi meio-caminho. Felizmente, o aparo do cabelo e barba foram pagos a pronto, pois, antes de empunhar a tesoura, Kinavwidi, o barbeiro de origem congolesa, procurava confirmar junto de seus clientes se tinham "mbongo na maboko".
No dia do anúncio dos despachos de nomeação, duas semanas depois, viu-se a preto e branco que, afinal, o seu amigo e informante vira mal.
O nomeado foi Manuel Ngolombole Adão Kambundu e não ele, Adão Ngolombole.
Como pagar as despesas à vizinhança que já cobrava de 12 em 12 horas?














