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segunda-feira, novembro 27, 2017

COLECCIONANDO PIRILAMPOS

Pe.Dias, S. Canhanga e J. Sipitali
Depois de actividade académico-cultural, em Benguela, regresso a casa (Luanda) alegre, satisfeito, mas ainda com palavras de gratidão na bagagem.
Quis o professor Sipitali do Seminário Propedêutico de Benguela que "Fatosséngola" de Gociante Patissa fosse o livro objecto de estudo na cadeira de Literatura Africana. A boa pena do amigo Patissa fez com que o seu livro estivesse esgotado na loja verde da rede "Desejo", tendo se optado pelo "Coleccionador de pirilampos" que dispunha de "um bom número" de dez exemplares na loja e que serviram os 15O alunos do referido curso.Grato, Patissa, por "me teres, involuntariamente cedido o lugar". Quem te manda ser bom?!
Acto contínuo, o professor Job Sipitali Sipitali, que também tem uma "pena poética" muito afinada, propôs aos estudantes e ao reitor do seminário, o padre Dias, uma conversa presencial entre o autor (eu) e os estudantes, o que veio a realizar-se na tarde de 25.11.17.
 

Haverá como não exprimir palavras de gratidão ao reitor, ao professor e aos diligentes estudantes? Ndapandula calwa!

Outra nota vai para a casa cheia. Epá, 150 é muito. Foi a maior audiência que tive em palestras sobre literatura e afins. E como se estes fossem poucos, ainda recebemos jovens, homens e mulheres, que foram ver e ouvir-nos.

Durante a conversa, intercalada com música e recital de poesia, foram quinze as intervenções/interrogações, todas bem colocadas, sobre o conteúdo, sentido e o alcance da obra.

Entre ficção pura, verdades que serviram de ponto de partida e elementos pedagógicos e reflexivos, fomos explicando sobre a mensagem socio-atropológica e histórica que o livro encerra.
Bem haja e obrigado a todos quantos permitiram materializar tal conversa. Nada anima mais o autor do que obter o feed-back de seus leitores, uma alegria que se agiganta quando se tratem de leitores estudantes de literatura, como foi o caso.
Ndapandula.

sábado, novembro 25, 2017

E AGORA ESSA: B10?!

A juventude é um estado de espírito. Assim como a senilidade. Uns são velhos na juventude e outros jovens eternos. As novas tecnologias e a prática ou ausência de exercícios físicos têm levado jovens à velhice precoce, como inovado e transformado em quase meninos muitos idosos. E quando ao estado de espírito juvenil se agrega a massa muscular, melhor ainda. É como juntar à fome a vontade de comer.
Desde os cinquenta anos que decidiu estar na moda e recuperar a juventude que havia congelado com a maternidade e a afirmação profissional. Tudo o que uma mulher normal e culta ansiava ter ela possui: casa própria, emprego bem remunerado, formação universitária com especialização, carros, possibilidade de viagens ao estrangeiro, filhos e até neto tem um. Apenas marido não possui. Aliás já teve, mas dispensou-o.
- Mulher do meu calibre precisa de homem e não de marido. - Justifica-se, sempre que abordada sobre a sua condição de eterna celibatária.
Martínia frequenta o ginásio há já seis meses.
- É preciso torrar a picanha e tonificar os músculos. - Diz ela sempre que questionada por colegas e coetâneas. Aos olhos de quem a vê pela primeira vez, encaixa-se nos trinta ou menos do que isso. Depende das roupas e do penteado. As rugas encontram máscara e a silhueta concorre com a filha mais nova.
No ginásio que frequenta estão homens e mulheres. Uns com idades mais avançadas que regulam o que o tempo trouxe de sobra e outros queimando tempo e ociosidade. Neste grupo, o segundo, estão as meninas que se aprontam para exuberantes "executivas de protocolo" e meninos que aguardam por acenos de mulheres que conjugam o verbo ter. Damos de companhia? Também os deve haver.
Nas conversas de fazer o tempo voar, enquanto trocam de equipamentos de musculação e calibragem, os homens e mulheres adultos falam sobre sumos e frutas naturais. A banana é mais para mulheres, sendo a manga a preferida dos descendentes varões de Adão.
Martínia, não fala. Ela aprecia. As canções desfilam apenas no seu íntimo. Os planos, os olhares disfarçados, os desejos e tédios, tudo um segredo.
Na quarta-feira, saiu mais cedo do que o habitual. Seis e meia da noite. Parou na esquina. Sacou de um cigarro e fingiu que o acendia. Anatólio, jovem de dezanove, ainda a poupar a barba e sem emprego nem universidade, vinha matutinando. Namorava a miúda da rua seguinte e tinham conversa adiada. A miúda pressionava um valor para retoques ao seu cabelo. Pelo caminho, Anatólio ensaiava a saída, ou melhor, a nova desculpa. Já tinha inventado o atraso do ordenado. Depois foi o desemprego, aproveitando-se do fecho de muitas micro. Desta vez nem sabe o que inventar.
Ao vê-lo passar, Martínia fingiu sentir-se mal, apelando por socorro.
Diligente, mas carente, Anatólio ofereceu o seu corpo-socorro e ajeitou a mulher no banco traseiro, levando-a à clínica mais próxima. Meio quilómetro, porém, Martínia se recompôs e propôs uma recompensa ao jovem diligente. Um jantar a dois regado de Moet Chandon.
O repasto levou tempo. O local era chique. Teve outros detalhes mais pitorescos. No fim, quando já se preparavam para sair, Anatólio procurou confessar que não teria como pagar tamanha e agradável surpresa, recebendo dela uma simples quanto seca provocação.
- Bastará a tua banana de dez!

Texto publicado no Jornal de Angola, caderno de Fim-de-semana, 15/10/2017, pg.10.
Tb no jornal Nova Gazeta de 19/10/17

quarta-feira, novembro 22, 2017

À MESA COM MANGA DE DEZ

Na cidade e nos bairros, até mesmo nas aldeias e nas sanzalas rurais, o assunto era de "consumo" obrigatório nas conversas da mocidade e dos casais adultos. Os jovens, por causa do conflito geracional e das opções morais e ou económicas. Entre os casais adultos, sempre em surdina, por causa de desvios e obediências à norma imposta pelo sacramento matrimonial. Todos, pelo menos os adultos, comentavam. Uns atacavam sem dizer a que acto ou objecto se referiam. Outros defendiam em voz inaudível e sempre escondidos. Assim foi até que o assunto das frutas chegou à mesa de um casal com os filhos distribuídos desde infantes a jovens plenos.
Jantavam descontraídos. Pai, mãe e quatro filhos. Dos rapazes, o primeiro é o mais velho, já na casa dos vinte e o mais novo ainda derradeiro. As meninas eram intermédias, sendo que a mais velha caminhava apressada para os dezoito. A propósito, o que é mesmo que as meninas fazem depois dos dezoito?
Como contava, ele e ela deliciavam-se de carne fecunda com 14 graus. Assim chamava ele a pomada lusitana de castas seleccionadas.
A garotada ora ria ora provocava-se. Brigas próprias de manos que se seguem... E falava-se sobre o dia de cada um, de forma soft e a descompressionar a jornada extenuante dos cinco dias. Era sexta.
À dada altura, o garoto de sete anos interrompe a mãe e dirige-se muito sério ao progenitor.
- Papá, manga de dez cuia?
- Ele a procurar o sentido daquela pergunta e a resposta a fornecer enquanto a mulher sem dar entender via-se que "fervia no vibrador evolutivo" e de faca em riste. Eram distintas as respostas que mãe e filho aguardavam. Também podiam ser diferentes as reacções.
O garoto não desarmou e, entre uma garrafa e outra, voltou a questionar. Tinha ouvido, ao sair do colégio, uma conversa entre gente barriguda e de cabelos algodoados sobre a referida fruta e o seu preço.
- Papá, manga de dez cuia?
- Filho, eu só compro mangas em baldes e o preço vai de quinhentos Kwanzas em diante!
Uffffas. Esses miúdos arranjam cada sarilho, pá!
O jantar continuou por mais alguns minutos, os jovens e garotos sempre em risadas, mas já não foi a mesma coisa para o casal, pois aquela resposta do Loló das Kilumbas, no dizer de Mingota dya Paxi, ficou entre o sim e o não. Foi um nim!
 
Texto publicado no Jornal de Angola de 3 Set/2017
 
 

sábado, novembro 18, 2017

QUEM É O "PATRÃO" DO REFORMADO?

Numa relação jurídica de emprego actuam para tal dois sujeitos com obrigações mútuas: um vende o seu capital intelectual aplicado em forma de trabalho e outro paga o que é proporcional à prestação.
Os homens de leis "inventaram" o contrato de trabalho (escrito ou oral e testemunhado) para regular esse casamento, sendo considerado como findo quando as partes decidem partir pela cessação do mesmo por diversas razões. A aposentação é uma das formas que determinam o fim de contrato, passando a obrigação de pagar salários e demais prestações ao órgão da administração pública ou associativo (fundo de pensões privativo) encarregado para realizar o pagamento das prestações sociais com base nesse contrato de financiamento do fundo. Por exemplo, Caixa Social, Fundo de Segurança Social, etc.

É preciso assinalar que todo o saber e toda a energia necessária e possíveis devem ser despendidos pelo colaborador, a favor do empregador, enquanto este estiver no activo. De igual sorte, toda a atenção retributiva e social devem ser prestados ao colaborador enquanto estiver vinculado à organização.

Não vejo, com toda franqueza de minha alma, por que razão algumas organizações empresariais andam com seus aposentados às costas, depois de serem justamente passados à reforma e vivendo eles do fruto de suas poupanças feitas através do fundamento social. Há que se pensar nisso e mudar de mentalidade. É preciso libertar a gestão de RH de responsabilidades passadas à outras instituições. A sociedade, as instituições públicas e privadas, devem ser geridas como empresas. É preciso simplificar. Passar tarefas específicas a outrem e focar-se no cor business. Para um gestor moderno de RH, o seu foco, sem desprimor por aqueles que fundaram e fizeram crescer a organização, são as pessoas no activo. Deve ser a preocupação em atender os desafios presentes e futuros da organização e estar alinhado com a estratégia de médio e longo prazos.

Uma relação jurídica de trabalho legalmente extinta não gera dívidas nem ressentimentos. Pode haver ofertas e reconhecimentos mas não obrigações como se fosse em um casamento indissoluto.

As empresas e organizações que empreguem colaboradores devem, nos termos da lei fazer depósito descontos para o financiamento da segurança social obrigatória. Mais do que isso, devem fazer chegar os descontos ao Fundo para que uma vez chegada a reforma, o pensionista tenha direito ao que lhe é devido.
Tarde ou cedo, há-de chegar, para cada um de nós, o seu tempo de reformado, mas devemos nos conformar que é assim a vida. O "patrão" do reformado é o Instituto de Segurança Social ou Fundo de Pensões para o qual tenham contribuído enquanto no activo.
Pense nisso!
 
Luciano Canhanga

quarta-feira, novembro 15, 2017

DE VOLTA AO LOCAL DE "SOFRIMENTO"




Oka pousando com um ex-colega da primária
Desconheço qual das ciências se adiantou no terreno, se a psicologia ou a História. O certo é que "ninguém gosta de voltar voluntariamente a um local onde tenha sofrido". Oka nasceu em Calulo, mas seu "sofrimento" de filho de um agro-comerciante foi no Quissongo, onde voluntariamente se tornou condutor de equipamentos motorizados aos 13 anos, com várias noites perdidas no matagal, sempre que a sua Ford enterrasse. Sofrimento voluntário? Tudo que seja indesfrute é padecer.
Oka estudou, meteu-se na política e fez-se homem. Mas o sofrimento, no campo, a vida no campo é "sofrimento", estava-lhe no sangue. Enveredou pelo comércio, serviços e show bisi. A aventura pela agricultura nasceu aos 46 anos.
Hoje, sexagenário, Oka é agropecuário com largas centenas de bovídeos e milhares de hectares agricultados.
Na fazenda, em Cambau
Em Cambau, terras de Quissongo, onde se fez criança, cresce um pomar com mais de trezentas mil plantas, entre laranjeiras, tangerineiras, mangueiras, limoeiros, mamoeiros e abacateiros a que se juntam outros duzentos mil pés de ananaseiros.
Para os adubos que custam dólares, Oka encontro uma solução local, criando uma unidade de produção de adubo orgânico: caca de galinha, dress (de cevada) e casca de café. É desta forma que poupa dólares ao mesmo tempo que sonha com "as verdinhas" resultantes das vendas além Angola.
- Já temos contactos avançados e em 2020 deveremos atingir a produção plena em centenas de milhares de toneladas por espécie de frutas. O investimento que conta com uma represa e irrigação gota-a-gota, para além da desmatacão, preparação dos campos, compra de equipamentos agrícolas e ordenados, está avaliado em dezenas de milhões de dólares. Mas Oka é optimista.
Caca de galinha sem cheiro peculiar
- Só a idade atrapalha um pouco, mas se os filhos e os netos derem continuidade ao trabalho ficarão felizes. A idade de cada planta vai até aos 250 anos. É um investimento com retorno lento mas contínuo.
É isso que o mantém animado em Cambau, Mulundu (Ndala Kaxibu), Ebo e Assango. Mas Oka não pensa apenas no que os seus descendentes hão-de colher.
Cresce com os povos que o vêem empreender. Colabora intensamente com as administrações locais e, por via da sua responsabilidade social, requalifica aldeias, tomou o desafio de reparar 250 Km de estrada terciária/ ano como emprega os aldeões próximos de seus investimentos agropecuários e turísticos. Em breve, a foz do Queve vai ser valorizada.
Ex-cozinheiro conta peripécias
- Aqui é chapa ganha, chapa gasta. Nem casa em condições temos. Diz confiante no que há-de vir.
- Os retornos são para breve. Mas as necessidades das populações são de ontem. Afirma - Confiante.
Oka é homem do povo e conhecido dos políticos. Com eles colabora e se entrega.
Quissongo, Ebo, Assango, Ndala Kaxibu, Amboim, entre outras paragens dessa imensa Angola que não dorme.
Poucos voltam ao local onde sofreram. Bem haja!






Texto publicado no jornal Nova Gazeta de 09/11/2017, pg 06.

quarta-feira, novembro 08, 2017

LOJAS DO POVO DOS ANOS OITENTA

_ Entraste já alguma vez num supermercado daqueles? — perguntou o Guerrito, a ajeitar a chinela no passeio quente do Rangel.

Entrar? Entrava sempre — respondeu o narrador. — Naquele tempo chamava‑se supermercado e pronto.

Eram conhecidas como SUPERMERCADOS‑LOJAS DO POVO, embora, vistas hoje, se parecessem mais com cantinas dos tempos actuais. Ainda assim, vigoraram da independência à abertura do país à economia de mercado, em 1991. Para quem não viveu o tempo colonial, nem tinha termo de comparação, aquilo eram supermercados, ponto final, independentemente da oferta ou da metragem.

Mas qual foi o que mais frequentaste? — insistiu o Guerrito.

A Casa Banga, na rua 8 de Novembro, no Rangel. Também o Zé Gordo, na rua dos Estudantes; o 54, no Palanca, ali na rua do Cavalo Branco; o Nzala Ikola, do António Silvestre, junto à escola 5 do Rangel; o Kiluanje, no largo do mesmo nome; e ainda a Loja 60, já no Cazenga. Algumas vezes, também íamos à Cimex, mas aquilo já era outro patamar.

Havia, no entanto, outros melhor estruturados, os famosos Nzamba.

Lembras‑te do Nzamba 3? — perguntou o Bula.

Lembro bem — respondeu o narrador. — Ali perto do Ngola Mbandi. Foi o que mais frequentei e ainda lá está. O Nzamba 1 também não foi destruído. Sorte diferente teve o Nzamba 4, na zona industrial do Cazenga. Quanto ao Nzamba 2, da Samba, nada sei até hoje.

O que se devia e podia comprar nesses SUPERMERCADOS‑LOJAS DO POVO não passava da ração alimentar mensal. Os produtos vinham discriminados num cartão e, todos os meses, a entidade empregadora emitia uma declaração a comprovar a efectividade laboral.

Sem declaração, não havia arroz! — lembrou o Bula, entre risos resignados.

Arroz, óleo alimentar, sabão, vinagre, massa (quando houvesse), açúcar, vinho, leite e outras poucas coisas eram vendidos a preços e quantidades fixas. As bichas estavam na moda; havia filas para tudo e para nada.

Para ser dos primeiros, era preciso madrugar e marcar lugar com pedra, lata de leite, bidão, tronco ou qualquer objecto disponível.

Mas era perigoso, ó! — atalhou o Guerrito. — Muita gente era assaltada ou esfaqueada nos becos, ainda no escuro da madrugada.

À porta das lojas, antes da abertura, surgiam frequentemente confusões. Muitas vezes, os primeiros a chegar acabavam empurrados para trás, perdendo os lugares cimeiros. Os organizadores de bicha, impiedosos, distribuíam cintadas e cacetadas. Noutros momentos, apareciam os odepê, os bepevês ou ainda os CPPA, para impor ordem.

Quando passava um PCU ou um ST, aquilo alinhava logo! — comentou o Bula.

Os refractários e desertores eram levados, se não corressem antecipadamente com o pé no ngimbu.

Nos depósitos de pão — onde iam sobretudo as crianças —, nos talhos, peixarias e lojas de gás, era comum alguns gregos passarem à frente de quem suportara a fila inteira.

E já naquela altura havia chico‑espertos — concluiu o narrador. — Gente com mais de um cartão de abastecimento.

Havia também os que desviavam a comida do povo, levando‑a às praças para a vender na kandonga.

O meu tio Ferreira “gastava” na Casa Banga.

E os teus papás… — perguntou o Guerrito, em jeito de provocação.
Onde é que gastavam?

A pergunta ficou suspensa no ar, como tantas outras memórias daqueles tempos.


Versão inicial (modificada) publicada no jornal Nova Gazeta de 16/11/17, pg. 4.

sábado, novembro 04, 2017

A MAYOWA DE CAMBAU

Em Cambau (Kambaw) 53 Km de Calulo (Kalulu), conta-se:
Há muito tempo, quando os homens se sedentarizaram, um régulo havia orientado o máximo empenho no trabalho que consistia na agricultura de sobrevivência, pesca, caça e a recolecção que persistiu até há bem pouco tempo. As doenças que afectaram a região durante alguns anos, sem explicação, produziram muitos portadores de deficiências e "inválidos" para os trabalhos árduos de uma vida rural sem maquinarias.
Inicialmente, a população construiu um centro onde ficavam todos os deficientes que eram alimentados mediante a contribuição alimentar de todas as mulheres e homens activos. Como os males se repetem, uma seca afectou a região que se vê cercada por cordilheira montanhosa em todos os lados. Os homens intensificaram a pesca e os jacarés que habitavam preferencialmente o estuário de Mayowa, ficaram sem o que comer. Começaram a rondar a aldeia e a atacar os meninos incautos e os portadores de deficiências.
Sem caça, sem sorgo e sem peixe os "inválidos" passaram a ser um peso para a comunidade. Mayowa passou a ser solução: cegos, mayowa. Coxos, mayowa. Mudos, mayowa. Tetraplégicos e crianças com dentes sobrepostos, mayowa!
A mayowa passou a ser o local de sacrifício humano de todos os indesejados.
O régulo tirano, só daria conta da sua má opção quando contraiu uma hérnia escrotal, obrigando o povo a cumprir o que ele mesmo ordenara: mayowa para alimentar os jacarés e sobrar peixe para os "válidos!".
Em Cambau, com um ou outro retoque, todos contam a lenda. A única coisa que não conseguem determinar é quando tal prática começou e quando terminou. Há quem arrisque que apenas com a chegada dos missionários metodistas e católicos à região tal pratica se extinguiu. Porém, a mayowa ainda está lá, num riacho que vai ter um dique este ano, obra do fazendeiro Oka, podendo aumentar a quantidade e qualidade de peixe para os aldeões e os jacarés que nunca se distanciaram da região de Cambau.

Publicado no jornal Nova Gazeta de 02 de Novembro/17

quarta-feira, novembro 01, 2017

ENTRE MUDAR E SER MUDADO VC ESCOLHE

No dia primeiro de Junho/2017 tivemos a honra de representar o titular do Departamento Ministerial da Geologia e Minas num evento organizado pelo INITI, Instituto Nacional de Inovação e Tecnologias Industriais, sob o lema: Pensar Indústria – O Desafio da Inovação para a Competitividade da Indústria Nacional:
Numa primeira leitura, se pode deduzir que as discussões sobre competitividade se tenham restringido aos fornecedores de produtos, ou seja à indústria. Não! A Competitividade é transversal aos fornecedores de serviços aos utentes, como é o nosso caso, Funcionários Públicos.
 
E não foi em vão que foi formulado um apelo a todos os presentes (representantes de ministérios e serviços da administração directa e indirecta do Estado) no sentido de promover e disseminar a inovação ou as boas práticas em termos de produtos (indústria) e serviços (administração), procurando fazer mais com menos recursos humanos, temporais e financeiros.
 
Os organismos também foram instados a “olhar para fora da caixa” no que tange a capacitação de seus integrantes, de modo a se mitigarem os males que inibem a criatividade e a inovação.
 
Inovar é: introduzir algo novo ou modificar algo já existente para melhora-lo. Por isso, a busca incessante de inovações ou melhores resultados deve perseguir o funcionário público no seu dia-a-dia. É preciso fugir dos modelos antigos, pouco produtivos, e introduzir novas rotinas que resultem em melhorias contínuas dos processos de acolhimento, atendimento e formulação de respostas, reduzindo o tempo, emprego de homens que realizem a mesma tarefa, etc.
 
Inovação é, em suma, melhorar o desempenho das pessoas (funcionários) e das organizações. Daí que os profissionais não devem estar presos às velhas práticas, defendendo-se, como se ouve com frequência, que “aqui sempre fizemos assim”. Devemos sempre tentar fazer diferente.
 
As lideranças devem ouvir os integrantes de suas equipas. A melhor ideia para revolucionar um procedimento pode vir de um assistente de limpeza ou de quem menos se espera.
 
Já dizia Albert Einstein que “tolice é fazer sempre do mesmo jeito e esperar por resultados diferentes.
 
Sendo a resistência à mudança um dos problemas que emperra a inovação nas organizações públicas e privadas, o apelo vai para o seguinte: é importante ter em conta que mudar ou afinar os procedimentos não é recuar nem buscar o impossível. Se é resistente à mudança, saiba que você tem apenas dois caminhos: ou você muda ou você é mudado(a), pois num ambiente competitivo a mudança é irreversível.
Pense nisso e se é resistente às inovações mude enquanto é cedo!
 
 

domingo, outubro 29, 2017

VISITANDO KARIANGO, K-SUL

Estou sobre a ponte do rio Longa, a que chamam de ponte antiga, pois a nova está a ser construída mais acima, na nova estrada asfaltada. Aqui, as pedras em forma de tartarugas, combinadas com o os rápidos fluviais e a vegetação criam um efeito de beleza rara. Não há visitante que não roube minutos ao seu tempo, mesmo curto, para apreciar o cenário.

Ao que a natureza expõe, se acresce a presença de mulheres cuidado da roupa e as crianças que lavam a loiça, aproveitando uns pinos na água que, no tempo chuvoso, ganha uma coloração semi-acastanhada, quando vista à distância.

Distanciada 50 quilómetros da vila de Kibala, Kariango é um vilarejo que ensaia os primeiros passos, depois do impacto nefasto da guerra que afectou toda a sua infra-estrutura. Pouco sobrou da guerra (1975-2002) e da força destruidora da natureza.

Com excepção da administração comunal que beneficiou de reparos com cimento e tinta, as casas mais vistosas são aquelas reabilitadas pela construtora que ganhou a empreitada da Estrada Nacional 140, utilizando-as como alojamento para os seus trabalhadores não locais. 

Os pequenos serviços e o pequeno comércio só agora vão dando sinais, fazendo adivinhar dias melhores. Em Kariango está projectada uma mini-hídrica que, ao sair do papel, poderá revolucionar a vila, pois a energia eléctrica é um factor de desenvolvimento.

Sendo Kariango uma comuna potencialmente agrícola e onde despontam fazendas como o Projecto Terras do Futuro, é de crer que, com a estrada asfaltada concluída e a energia eléctrica projectada transformada em realidade, surjam na circunscrição pequenas ou médias indústrias agrícolas que podem revitalizar a economia familiar e regional.

Kariango é ponto de passagem entre os municípios kwanzassulinos de Kibala e Mussende, ligando esse último ao Bié, através de Andulo, e a Malanje, passando por Kalandula.
 
Obs: Texto redigido a 12.12.2012 que se confirma actual.

quarta-feira, outubro 25, 2017

OXALÁ CUMPRAM SONHOS

O parque automóvel é pertença de Oka (José Carlos Cunha). A aldeia é Cambau, na comuna libolense de Quissongo (Kisongo). Manuel Cunha, pai de Oka, aqui fez sua vida comercial e agrícola, tornando-se num dos homens mais respeitados pelos nativos. Oka que nasceu "acidentalmente" na vila de Calulo (Kalulu), perto de 35 km, cedo ganhou o gosto pelo conhecimento da terra, dos processos produtivos e de suas gentes. Os coetâneos e os makulu (mais velhos) contam que aos 13 anos já era "um dos motoristas do pai", metendo-se ousadamente em picadas com a sua Ford em busca de café e makoka dos postos comerciais e de recolha. Muitas vezes ficou "perdido pela mata" com a Ford enterrada na lama até o pai aparecer em socorro. "Há vezes em que a comida da viagem acabava e o rapaz, embora habilidoso e corajoso ficava a chorar. Afinal filho de patrão era também nosso patrão". - Conta o antigo cozinheiro.
- Filho alheio do velho Cunha e dona Marília, tem dias em que passa e a gente vê só o carro passou. Assim é porque tem pressa ou vai se encontrar com alguém. Outras vezes, pára mesmo para nos saudar e conversar. Todos, aqui no Quissongo sede, somos amigos dele. - Conta o septuagenário que diz ter estudado a iniciação com o Oka ou Sô Cunha.
As palavras elogiosas não vêm apenas de homens. As mulheres imitam um antigo pregão da "mãe comerciante", dona Marília: wenjié, wenjié! mbiji ya matona yeza kyá!
No Cambau, uns 18 km depois da sede do Quissongo, fica a fazenda e uma casa-acampamento. Os rapazes olham para os carros, tractores e retro-escavadeiras e fabricam sonhos. Tal como na infância dos quarentões de hoje, os rapazes de Cambau não desperdiçam as latas de óleo, margarina e até de conservas de sardinha. É com essas que reproduzem fielmente os equipamentos do parque, constituindo-se nos seus prediletos brinquedos do dia a dia.
Zito e Mingo são dois desses rapazes. Hábeis no ver, "gravar" as características e reproduzir. Zito tem um monta equipamentos e Mingo um camião cisterna. Ambos têm dez anos e estudam a primeira classe.
- A escola (construída pelo FAS) só abriu esse ano. Contam.
Mingo, Zito e demais meninos de Cambau alimentam o sonho de ser grandes, "assim como sô Cunha", dizem. Pensam em um dia conduzirem os tractores, buldozers, motoniveladoras e carros da fazenda. Por isso, estudam e sonham.
No ano passado, explicaram, todos os meninos e meninas receberam "brinquedos de fábrica": carros, motos, bolas, bonecas, fogões e muitas coisas. Mingo é quem mais fala.
- Alguns brinquedos já se estragaram e outros guardamos. Há vezes em que o Sô Cunha nos dá também rebuçados, leite e papas.
Os rapazes contam tudo sem reserva. Falam também dos medos em frequentar o rio em tempo de chuva por causa do Jacaré que "bate com a sua cauda e arrasta as vítimas para seus matuku (esconderijos sob a água)".
- É por isso que Sô Cunha meteu aqui chafariz de furo (artesiano). relataram.
São mais de uma dezena de fontanários espalhados pelas aldeias da região onde Cambau se destaca com as suas casas alinhadas, todas cobertas de chapas de zinco, mantendo, à entrada, equipamentos sociais como a escola, lavandaria, o posto médico e o jango social. A aldeia tem luz eléctrica 24horas ao dia.
- Esse senhor tem bom coração. A luz dele divide com o povo. Na fazenda dele, todos os trabalhadores (perto de 50) são mesmo daqui de Cambau. As chapas ele mesmo é quem ofereceu. Oxalá Deus "lhe" abra ainda mais as portas. Hoje, nem mesmo o Quissongo sede torra farinha com Cambau em termos de boniteza. - Finalizou Velho Joaquim, abordado à passagem do parque automóvel.
Oxalá que na próxima visita Cambau e arredores tenham rede telefónica para que a minha crónica não seja publicada em Calulo nem haja necessidade de regressar apressadamente à vila. Oxalá que Oka e os cambauenses realizem sonhos e continuem a crescer juntos.

Texto publicado no Caderno "Fim-de-semana" do Jornal de Angola do dia 19/11/2017

domingo, outubro 22, 2017

BENGUELA QUE OS MEUS OLHOS VÊM

Por três vezes, e com um intervalos de 2 em 2 anos, estive em Benguela (cidade) para actividades profissionais  e de lazer.
Benguela parece-me, à primeira vista, (aquilo que chama a atenção do visitante no primeiro contacto visual), uma cidade com:
- Ruas limpas, sem contentores apinhados de lixo, mesmo com os gritantes problemas de pagamento aos operadores já anunciados publicamente pelo então governador Isaac dos Santos. Até aqui, parece que ainda se vai aguentando (ou não será?);
-Jardins verdes, com rega permanente e bem cuidados;
- Árvores que não cheiram urina nem abraçam o lixo de mãos e pernas preguiçosas. Parece que os fiscais andam ainda atentos e os moradores conscientes de que "a cidade mais limpa não é a que mais se limpa, mas aquela que menos se deposita lixo em lugares impróprios";
- Valas de drenagem sem lixo, nem capim. Sim. Dá gosto ver e tomara que as demais cidades aprendam com ela;
- Continuidade estética: onde termina o asfalto não é (ao meu olhar não muito profundo) o início da confusão ou desordem habitacional;
- Casas não muito gradeadas e com crescimento do vidro: pareceu-me que ainda se vive livre, sem que as casas se tornem nas prisões voluntárias a que se submetem muitos dos habitantes de Luanda, "forçados" a levantarem os muros, gradeá-los e, às vezes, encobrir os quintais;
- Um super (que já foi nosso) a reclamar por clientes: será pelo facto de os produtos hortofrutícolas, cereais, pecuários e piscícolas se encontrarem antes da loja?
Verifiquei ainda:
- Um aeroporto a reclamar por mais aviões: vai-se bem por estrada, apesar dos seiscentos quilómetros de Luanda;
- Moto-táxis até à madrugada, todos ordeiros e cumpridores das regras de trânsito: tomara que fosse assim também em Luanda e outras cidades, sem receios;
- Mulheres e homens “da vida” como em todas as urbes angolanas do litoral: Por que não?!
Por tudo isso que tem sido um regalo para mim, as minhas felicitações aos benguelenses que têm sabido cuidar do seu património.
Que Luanda e demais cidades com estruturas decadentes lhe sigam o exemplo!

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta de 13/07/2017

segunda-feira, outubro 16, 2017

UM MINUTO NO DESVIO DO GRABRIEL

Ruínas do jazigo fúnebre de Gabriel
No entroncamento entre as picadas do Luati e Quissongo, junto à travessia do rio Luha, o café já não vai ao terreiro nem enche sacos que davam dinheiro a Portugal, quando Angola era ainda Província Ultramarina de Portugal. Quem por lá passa sente o perfume das flores de café e ouve o chilrear dos beija-flores. Esses sim. São os mesmos, entra década, sai década. Mas o café não! Antes de phaka (desfiladeiro da cadeia montanhosa que cerca o Quissongo), na fronteira entre a Comuna de Calulo e a do Quissongo, à entrada do rio Luho, está uma fazenda cujo dono atendia por Gabriel.
Primeiro foram os portugueses que assassinaram o dono da fazenda. Depois foi a guerra civil que tornou impraticável a cafeicultura em grandes extensões do Libolo. Mas como a desgraça chama desgraça, os fogos descontrolados de todos os anos dizimaram as plantas de café robusta que se abrigavam debaixo do muxitu (mata).
Os aldeões da região da phaka (desfiladeiro) dizem que Gabriel foi o homem negro mais rico dos anos cinquenta, rivalizando com os alemães e portugueses que se haviam estabelecido no Libolo. 
- Tem um filho que vive em Luanda. Temos ouvido apenas falar. Seria bom se viesse retomar a fazenda. - Conta António Kixindo, cujo pai trocou força por dinheiro no cafezal em que hoje só restam poucos exemplares que ajudam a reconstituir a história.
Kixindo, catana na mão, seguia à lavra e repousava no cruzamento em que se enxergam dois pilares que suportavam um antigo alpendre ou algo parecido.
- Kota, esse lugar é sagrado. Aqui tem estória que quando os mais velhos contam você perde fôlego. - Disse provocador, depois de se aperceber que éramos caçadores de estórias incógnitas.
Contou que os brancos do tempo colonial invejavam o sucesso do Sô Gabriel, o negro que torrava farinha com os brancos em termos de café.
Oka indicando a outra picada que vai ao Luati
- Quando os brancos comprassem Chevrolet ou Ford ele também comprava. Um dia, quando a guerra (pela independência) rebentou, os PIDE "lhe fizeram" uma kikonda (emboscada) e jogaram o corpo dele mesmo aqui (apontava para a bi-forcação). A família aflita e sem saber o que fazer, ficou em volta do corpo ainda quente. Naquele tempo, chegar a Calulo era custoso. Quando um amigo do falecido Sô Gabriel chegou, vindo da vila (de Calulo), disse: o corpo enterrem mesmo aqui no jiphambo (bi-forcação) para que os malfeitores tenham peso de consciência ao passarem por aqui. É assim que esse lugar passou a chamar-se Sepultura do Sô Gabriel.
Antes do ponteco sobre o rio Luha, na picada que corta a phaka, está esse lugar de triste memória, cuja ousadia do "mártir" nos encoraja a trabalhar de igual para igual e a lutar pelo país.
 
Texto publicado no jornal Nova Gazeta de 23/11/2017

domingo, outubro 15, 2017

E AGORA?

Viram-se crianças. Ele mais adiantado na idade do que ela. Namoraram ao iniciar a juventude plena, ele,  e ela a findar a adolescência. Madó e Loló, naquele tempo assim conhecidos, seus pais e até seus avós nasceram e sempre viveram no Margoso. Estudaram em escolas diferentes, encontraram outros cônjuges com os quais juntaram trapos e formaram famílias. Viveram, porém, e vivem no mesmo bairro. Ele em um edifício de três andares, construído ainda no tempo colonial. Ela em habitação térrea.

             Já a caminho da senilidade, ele pai de menina, a Tininha, prendada por Deus e pela herança biológica. Uma "estraga sapatos" ao passar. Qual homem que se depara com sua carga e não tropeça? Ela, dona Madalena, Madó em tempos de menina, é hoje mãe de rapaz.

As conversas de comadre, entre Madó e amigas de juventude, levaram o Totó a se aperceber que no passado houvera um "affaire" entre a sua mãe e o pai da jovem que ele ardentemente cobiçava. Sentiu-se encorajado ao ouvir aquela conversa e conseguiu cravar o primeiro beijo à Tininha.

Com o tempo, conversas daqui e dacolá, Totó contou à namorada o que foram a adolescência e os factos marcantes entre seus progenitores. Outros factos lhes chegariam aos ouvidos, por meio de tios e tias com que os pais conviviam.
- Teu pai deflorou minha mãe! - Disse um dia Totó, despretensioso e a seco.
Tininha nem sim, nem não. Era ainda uma flor imaculada. Rolaram os tempos, cada vez mais eram vistos de mãos dadas.
- Esses meninos estão mesmo a seguir as peugadas dos pais. - Diziam os mais velhos do bairro que sabiam mas nada diziam.
Dias depois. Noite de pouca luz. Depois da telenovela das vinte e trinta, Tininha chegava a casa banhada de lágrimas. Saia, quase a cambalear, do terraço do prédio onde fora vista a conversar com o Totó.
- O que foi, filha? - Questionou o pai preocupado.
- Foi o Totó, pai.  Fez-me o que o papá fez à mãe dele!
 Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 29/06/17 
 
 
 
 


 

domingo, outubro 08, 2017

A GEOGRAFIA DO GIRABOLA E AS VIZINHANÇAS

Já imaginou alguém não ter vizinho para "brincar", desabafar quando haja desgraças ou comemorar as vitórias? Assim se apresneta a nossa "santa de cássia". Enclausurada, sem vizinhos da mesma competição.
Siga o raciocínio.
O Girabola (campeonato angolano de futebol de primeira divisão) joga-se na Huíla (Desportivo), que faz fronteira com Huambo (Cahála e JGM) e Benguela (1º de Maio e Académica do Lobito).
Benguela faz vizinhança com Kwanza-Sul (recreativo do Libolo). O K-Sul liga-se a Luanda (Petro, D´Agosto, Kabuscorp, Inter e Progresso do Sambila).
 
O Moxico, onde desponta a equipa Bravos do Maquis, está ligada à Lunda Sul (Progresso) e essa à congénere Lunda Norte onde a Esperança é Sagrada.
 
Uije está sem vizinho girabolista. A "Santa Rita" é wandalika!

quarta-feira, outubro 04, 2017

HERÓIS DE KWITU KWANAVALE

Sabalo Cambota, em vida também conhecido por Zito, foi soldado das FAPLA, inicialmente na 108 Brigada de Desembarque e assalto. Foram eles que "cuidaram" do famigerado Tembi Tembi (general da Unita), numa batalha, no Moxico, em que acabou baleado na perna. Regressado a Luanda, foi de novo "rusgado" e destacado em Mavinga e depois no Kwitu Kwanavale. Regressou desmobilizado, em 1992, com duas medalhas ao peito, outorgadas pelos governos de Angola e de Cuba.
Para mim, o primo Zito era a personificação do "nosso herói" e símbolo da nossa participação (familiar) nos eventos militares de maior visibilidade em Angola.
Infelizmente, Sabalo Cambota morreu de forma inglória, vítima de um acidente de viação, quando viajava, por cima de um camião lotado, do Libolo a Luanda.
Desmobilizado, sem como dar jeito à vida, nem mesmo um kit profissional, o primo Zito virou negociante de macroeira até "se dar encontro com a morte".
O governo angolano rendeu a merecida homenagem aos seus bravos heróis de Kwitu Kwanavale, erguendo no local um monumento que eterniza os feitos militares ali decorridos. Eu faço-o em relação e memória a Sabalo Cambota, filho primeiro de meu tio Xavier (Cambota) Canhanga.
 
Texto escrito a 20 de Setembro de 2017

domingo, outubro 01, 2017

A AVENIDA BRASIL

Quando a conheci era estreita, uma lombriga comparada às avenidas de hoje em dia. Vinha do Zé Pirão (ou mais abaixo). Aliás, até à Fazenda (Minfin), era ainda, no dizer do meu tio Ferreira Nganga, a Avenida Brasil, estendendo-se à ligação com a Quinta Avenida, lá pelos lados do Ajuda Marido (hoje Asa Branca).
Entre os locais e paragens que deixaram fama, destacavam-se: Cine Loanda, Zé Pirão, Alpega (Minars), Pica-Pau, Bombas da Segurança, Cáritas, lixeira do Kaputu (hoje largo do triângulo do Kaputu), linha férrea, Bombeiros do Kariangu, Imbondeiro do Cazenga...
Voltei a percorrer o troço da Avenida Brasil, hoje Avenida Hoji ya Henda, do Alpega ao Asa Branca. Está larga, do Beiral à cidade. Mas as obras nunca terminam. O nó sobre a passagem da linha férrea parece estar esquecido. A lentidão do trânsito automóvel faz-nos recuar dez anos...
Do antigo Imbondeiro ao Centro de Formação do Cazenga já não há Avenida Brasil. Aquilo é uma rua qualquer. Hoje, a Avenida Brasil parte do Imbondeiro à baixa. A rua das Comandos (Cuca-Deolinda Rodrigues) tem um troço alargado. Do Imbondeiro ao nó (passagem superior), a Avenida Brasil também foi alargada e resselada. O que resta, lá pela continuidade do Marcelo Caetano, até à praça Ajuda Marido (Asa Branca) é só poeira e buracos quando não é agua. É só...
Amputaram (a avenida) Hoji ya Henda, nosso herói juvenil?!
Que continuassem a designa-la Avenida Brasil. Ao menos doeria menos!