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domingo, janeiro 17, 2016

(RE)CONHECENDO ANGOLA

Crónica 01
- Afilhado, se um dia fores à Huila, não te esqueças de chegar às cascatas da Huila. Sou comandante da esquadra comunal. A cascata é, para além do Cristo Rei, Fendas da Tundavala, Serra da Leba e Serra da Xela (Chela), um dos melhores locais para visitar e arregalar os olhos. - Disse-me o padrinho, numa conversa havida há já dois meses.
Chegadas as férias, preparei a "Maria" (nome da carrinha) e fiz-me à estrada: Lwanda-Sumbe-Kanjala-Lopito-Mbengela-Xongoloy-Kilenges-Luvango (Morro da Xela, Cristo Rei, Humpata, Serra da Leba, Tundavala)Xibya, Mercado das Mangueiras (Namibe), Luvango. Confira as estórias

Perto de mil quilómetros da capital de Angola à capital da Huila, a caminho do alto e montanhoso Sul do país. Entre troços recomendáveis e outros que quase nos cortam a respiração, ante a presença brusca de buracos assassinos, desfiz-me de Lwanda-cidade até à ponte erguida sobre o caudaloso e manso Kwanza, a afogar-se no largo Atlântico. É a cobrança de portagem que me desperta a atenção.

- Tomara que de trezentos em trezentos quilómetros houvesse essa forma de levar dinheiro ao cofre do Estado. Andámos a reclamar que as estradas estão más, quando pagamos pouco ou quase nada para as manter. - Atirei ao meu canino amigo e, mais uma vez, companheiro de viagem. Este concordou e a viagem ganhou motivo de conversa: as portagens necessárias e os impostos devidos ao Estado.

- Que tal também uma cobrança de portagem na ponte sobre o Kwanza, junto à localidade de Kabala? É recente, imponente e, tarde ou cedo, carecerá de manutenção. - Atirou Martins, em jeito de provocação, sem se dar conta que os Kz 210.00 pagos na portagem não tinham sido facturados. O Estado fora aldrabado pelo funcionário e nós, distraídos, limitamo-nos a avançar sem cobrar a nota de facturaço.

- No regresso, temos de pedir a factura e se o homem for o mesmo, terá de nos passar o documento em falta. É preciso que alguém se lembre disso. A ponte tem de fazer o seu pé-de-meia nesses tempos de verdinhas raras. – Complementei.

Viagem turística é para ver tudo à volta e à beira da estrada. Mas quando a rodovia nos convida para testarmos a potência do motor e a nossa aptidão, somente os sinais de trânsito nos impedem de baixar em demasia o acelerador: visibilidade, condições da via, estado técnico do meio e atenção redobrada são condimentos para uma condução defensiva. Assim aprendi num curso em Catoca.

Não tardou chegar ao Longa, Porto Amboim (onde o sol nos convidava para uma praia que ficou adiada para uma próxima digressão), rio Keve (onde o bagre fumado, à mostra na kitanda ribeirinha, faz verter água na boca faminta de quem deixou Lwanda sem tomar o mata-bicho). Daqui ao Sumbe foram dois assobios.

Calmo, mas sempre perigoso, o monte do Xingo (pescoço? De quem seria?) apresentava-se valentão até para os mais destemidos do volante e acelerador. Mudança intermédia, entre força e velocidade, com o travão sempre a meio. Ao entrar para a antiga cidade de Novo Redondo, a Maria apresentava o depósito a meio e teve de ser alimentada.

Já a sair, surgem casas sobrepostas na montanha que atende pelo nome do Médico-Guerrilheiro do Glorioso M. Uma fenda se presta a engoli-las a qualquer hora desses dias pluviosos. As casas erguidas em degraus sulcados sobre o monte argiloso apresentavam um semblante tristonho e medonho. O motoqueiro abordado não hesita em apresentar-nos o bairro.

- Aqui é no Américo Boa Vida. – Disse empolgado.

Olhei para o Martins que aproveitou a paragem para se aliviar da ureia e joguei rasteiro:

- O camarada Ngola Kimbanda merecia um chará mais organizado. Aqui não vislumbro boa vida. Olha para aquela casa abandonada, com a lateral desabada e sem acesso?

Colhemos as imagens possíveis e cavamos. Uma fomezita se fazia anunciar. Teríamos de resistir até Kanjala onde "as bombas e dinamites que despedaçaram a ponte sobre o rio que  dá nome à localidade não meteram medo ao povo unido" que ali fixou residência e sempre fez o seu negócio agroalimentar. Deslizamos sobre a nova travessia, também ela construída à base de ferro e betão, mostrando aos amigos da pólvora que o país se faz com trabalho.

- Kanjala é fome pequena. - Explicou Miqui, a jovem que disse ter nascido e crescido na aldeia, mas num tempo já de poucas refregas. Sobre os autores da barbárie contra as pessoas, os edifícios e a ponte, Miqui, aparentemente bem avisada e disposta apenas a servir o seu pirão que mata a fome, preferiu não comentar.

- Ó mano, nesses tempos os pais já não andam mais a falar sobre essas coisas. Quando nasci a ponte já estava na água e nunca me disseram quem foi que a partiu. – Esquivou-se ela da provocação, destapando as panelas que reluziam ao sol. Mas é já ao nos despedirmos que Miqui solta um detalhe: estão a ver aquela "kamunda, katito, tito" (montículo pequenino pequenino), é ali que se escondiam.

- Mas, que fome tinham os homens da pólvora que em vez de procurarem por comida a descarregaram sobre a ponte? – Indagou o Martins, cuja resposta ainda aguarda.

O peso do pirão com kalulú, que não tinha peixe seco, fez pressão sobre o pedal acelerador e não tardou chegarmos ao Lopito que me surpreendeu com a estátua que representa um camionista que abraça numa mão o volante e noutra a kalashenikov. O jardim que enfeita a rotunda está mínimamente cuidado, tirando os zungueiros e as crianças que jogavam despreocupadas a sua garrafinha por cima da relva. Consultada a placa sobre o monumento, diz tratar-se de uma “homenagem aos motoristas e ajudantes que de 1975 a 2002 ajudaram o povo e o poder instituído a levar mantimentos a todos os cantos do país”. Fiz-me à câmara e, por pouco pediria o livro da cidade para deixar o meu assentimento: "Homenagem merecida". Mas livro não havia nem tempo. Mbengela (Benguela) chamáva-nos apressada pois havia encontro “cirúrgico” combinado com o primo Casemiro, cuja casa devia conhecer. E o encontro foi no Hospital Provincial que registava um dia de pouca agitação.

Sol ardente, sede a cobrar água para os lábios ressequidos. Bem próximo do Hospital, a Morena cobiçava-nos desejosa para farfalharmos as suas areias brancas e águas límpidas. Resistimos: “Ficas na agenda, ó Praia Morena”.

Não vi o vermelho das acácias, se calhar por não estarem na rodovia que me conduziu ao Xongoloi (Chongoroi). Antes, no primeiro desvio para o Wuambu (Huambo), mulheres de pastores de bovídeos exibem o “mahini”. Aqui tratam-no apenas por leite azedo e não exactamente mahini como no sul. Cardealmente, estávamos ainda no oeste e não exactamente no sul como os nortenhos de pouca instrução catalogam os que nasceram abaixo do Kwanza. Não tardou surgir a vila que nos recebeu debaixo de chuva grossa.

 - Atenção, compadre, à ponte! Tem uma faixa vedada à circulação. Que terá havido? – A pergunta do Martins ficou perdida no roncar da Maria que pelejava contra a distância enquanto eu tinha como adversários os intrusos assassinos e o asfalto molhado.

Com o sol a namorar o mar, um controlo policial desperta a nossa atenção. À meia-distância estava uma ponte metálica prestes a ruir. Um trilho lateral indicava-nos que uma outra fora levada pela fúria da água. Levantando o rosto fui agraciado com a expressão, “Seja benvindo à província da Huila”. Estávamos a adentrar o município de Kilenges (Quilengues), cuja vila se apresenta bem cuidada e asseada. A administração municipal tem no entorno um jardim com representação de espécies da nossa fauna. Antes, um parque infantil atende pelo nome de Jacaré. O templo católico, a caminho do duo centenário, também se mostra alegre e decorado. Fazer fotos se mostrou irresistível.

- Sejam bem-vindos ao nosso município e desfrutem das belezas da Huila. – Gritou-se do outro lado da estrada, ao que fomos agradecer e perguntar se se objectava a colecta de imagens.

- Turismo sem fotos é como casamento sem filhos. – Disse irónico o mano de Kilenges, sempre com um sorriso nos lábios.

Entre Kilenges e Luvangu (Lubango), está Hoke (Hoque), comuna que eterniza um valente comandante das forças armadas angolanas, tombado em missão patriótica. Simione Mukune é o nome do bairro que fica depois do ponteco. O local, contam os moradores, tem dado, em tempo chuvoso, dores de cabeça aos automobilistas e governantes.

- Por cá passam muitas viaturas que vão ao Kunene (Cunene), Namíbia, Moçâmedes e outros destinos, procedentes do norte (Luanda, Benguela, Huambo, etc.). – Contou Zito, um jovem que se apressava em pedir boleia para Luvangu.

Debaixo de um céu já sem sol, ligo o rádio e a música nos convidava: “Vem, vem, vem| Vem conhecer Luvangu| Luvangu te espera”... A cidade era um clarão abraçado pela estátua Real implantada sobre o alto da Cela (Chela).

- Chegamos, compadre. Estás a ver aquele cerco montanhoso? É mesmo ali. Já lá estive por duas vezes em missões de serviço. – Atirei ao Martins que não conseguiu disfarsar a sua alegria.

- Finalmente, Luvango!

O medidor de distância apontava: mais de novecentos quilómetros percorridos entre Luanda e a cidade erguida sobre o sopé do monte da Cela (Chela).  

sábado, janeiro 16, 2016

INSTANTÂNEOS DE UMA VIAGEM APRESSADA


Cateculo: aldeia dos meus amigos de adolescência, Avelino Toneco​, Lito​, João Paulo e outros nos tempos em que vivi e estudei em Kalulu. A Cateculo íamos, aos fins de semana, eles buscar mantimentos e eu acompanhando-os e aprendendo como escalar uma palmeira e colher o vinho de palma fresquinho e docinho. E me diziam: bom maruvo não se bebe no chão!

Cateculo é uma aldeia no meio da floresta, rodeada por cafesais e palmeiras. Infelizmente, vi muitos campos que continham cafeeiros cobertos de nada. Toda a vegetaçao foi cortada e queimada. Talvez onde se colhia café, semente de pouco valor comercial nos dias que correm, se pense semear milho ou plantar mandioqueira. A fome e o imediatismo tb nos podem levar a isso.

Marginal do Dondo: aqui ainda se come bom kakusu a mil angolares à beira do Kwanza que é o nome oficial da moeda nacional. Pena é inexistirem wc's e os detritos das casas ribeirinhas serem cegamente canalizados para o grande rio de Angola. Há que se tomar medidas pois isso de os detritos humanos alimentarem peixes e os peixes alimentarem os humanos pode resultar em "jihadi nyi malamba".

Pedra Escrita: aglomerado populacional para aonde confluiram e confluem povos de várias aldeias da regiao. Os Kuteka, os Kipela, os de Tumba Grande, os descendentes de ovimbundu que trabalhavam nas antigas fazendas, os antigos "recuas" do Kisongu, Longolo, etc. foram agregados à força pelo comandante Infeliz quando persistiam em ficar nas lavras ou constituindo aldeolas familiares. A aldeia com mais de quinhentas familias e umas quatro mil almas ja tem escola e água canalizada (embora bruta). Falta alguém se lembrar de concluir o posto médico cuja empreitada iniciada ha mais de cinco anos foi esquecida na décima fiada. É hoje refugio de cabras e lagartos...

Ruinas da Fortaleza de Kalulu: fiquei triste ao ver a nossa fortaleza no estado que a foto mostra...

Construída sobre o Monte Lukulu, que estará na origem da designação da vila de Kalulu, vila sede do Libolo, no Kwanza-Sul, a Fortaleza de Kalulu (ou Calulo nome oficializado nos registos topográficos) foi um dos maiores bastiões da resistência nativa à fixação dos europeus nas terras de Ngola até ao século XX.

Nos tempos da minha infância e adolescência, na década de noventa do século XX, ela cumpria ainda o seu papel militar, sendo o local onde se concentravam as melhores peças de artilharia do exército governamental que fazia face a uma rebelião armada e, por isso, seu último reduto. O entrar e sair de militares era sempre tido como sinal de algum alerta de que o cheio a pólvora podia estar próximo ou sinónimo de novas aquisições em termos de tecnologia militar. Basta ver que o Palácio do Administrador está erquido à entrada do forte.

No tempo da guerra civis entre angolanos a Fortaleza de Kalulu era um local inacessivel a civis comuns, sendo quase místico para a miudagem do meu tempo o que havia e ou acontecia no seu interior, para além das "armas pesadas" e dos "tropas mais cacimbados" que entravam e saíam. Das raras vezes que vi o seu controlo a mudar de mãos, mesmo que fosse por curtos minutos, senti parte da derrota, assim como sentia dor ao ver pedaços de pedra a ela arrancados à força de canhões e morteiros. Mas, dia depois, retornados duma fuga forçada, lá estávamos de novo, a curar as feridas, apagar as cinzas e a contemplar a dureza da nossa Fortaleza contra a qual, infelizmente, a acção voraz do tempo tem sido implacável.

A abertura da Fortaleza de Kalulu ao público aconteceu nos anos de paz efectiva, isto é, depois de 2002. Com a desmilitarização da vila de Kalulu a fortaleza passou a acolher as antenas reprodutoras dos sinais da Televisão Pública de Angola e da Rádio Nacional de Angola.

Embora seja considerada pelos nativos do Kwanza-Sul e por muitos historiadores, que leram sobre ela ou a visitaram, como um "local de memória colectiva", desconheço a existência de um diploma legal que a eleva a património Histórico Nacional, como acontece com outros edifícios classificados, pois não vi nenhuma placa com tal indicação, nem à entrada nem no seu interior.

De uma coisa, porém, tenho plena certeza: a Fortaleza de Kalulu é memória colectiva dos angolanos sobre a resistência oferecida pelos nativos à presença europeia, levando os invasores portugueses a erguer na elevação que se acha no interior da vila um forte em pedra bruta para melhor se defenderem e desferir fogo de artilharia contra os nativos que se revoltavam de tempo em tempo. No seu silêncio, ela conta também o estoicismo dos povos do Lubolu e arredores contra a usurpação de suas terras, subalternização da sua cultura e mutilação de seus usos e costumes. Um povo fraco e submisso que tivesse renunciado a sua organização política, social e cultural não teria merecido tamanha honra dos conterrâneos de Paulo de Navais.

Sobre os anos das refregas entre movimentos desavindos ao sair de Alvor e, depois, entre o Governo instituído no país e a rebelião armada, a Fortaleza de Kalulu guarda outra História e estórias. Vai daí também a necessidade de se redigir tudo quanto ela registou, formar-se jovens guias que recontem estes episódios aos visitantes da sede administrativa do Libolu que vai conhecendo um crescimento do número de visitantes, sobretudo nos dias de Futebol que é animado em semanas intercaladas pela equipa do Clube Recreativo do Libolo que está na 1ª divisão, ostentando já quatro títulos de campeão nacional.

Depois de ter sido reduzida a depositária das antenas que reproduzem os sinas da Rádio e Televisão Públicas, que caso fossem colocados na elevação maior, Kaliematuji, até dariam maior serventia em termos de alcance dos referidos sinais, a Fortaleza de Kalulu cai aos bocados, como facilmente observará quem para lá se desloca, não se observando movimentação no sentido do seu restauro e ou uma mera reposição dos blocos que se desprenderam do muro, fruto de continuada acção humana ao tempo das refregas e da acção do tempo.

Sabendo que o Palácio do Administrador municipal, que fica à sombra da escadaria da centenária fortaleza, beneficia de restauro, aproveito lançar um SNF (Salvem a Nossa Fortaleza) , procurando que seja lido e alguma alma com poder e apego à memória colectiva se lembre de exercitar a magistratura de influência positiva junto dos poderes político e económico ou mesmo leve mão ao bolso para que se  preserve a Fortaleza de Kalulu.

Já perdemos, com esse andar despreocupado, o Fortim da Kibala cujas pedras foram emprestar força aos alicerces das casas de adobe, não faltando muito para que o mesmo destino seja dado aos blocos que compões a Fortaleza de Kalulu.

Segundo o investigador Carlos Figueiredo, também ele um libolense a prestar docência em Universidades de Macau e Brasil,​ que se juntou a esse apelo, "...com a perda do Fortim da Kibala, infelizmente, apagou-se também uma página importante da História do Libolo. Na altura em que o fortim foi construído, a Kibala era parte integrante do Município do Libolo. No final do séc. XIX e princípio do séc. XX, a localização estratégica de Calulo foi importantíssima. Na Fortaleza de Calulo estava instalado o Posto Militar que funcionava como centro de todas as operações expedicionárias tanto na área do Libolo como nas circunscrições vizinhas da Kissama, do Seles e do Bailundo. O fortim da Kibala foi construído para dar apoio a essas expedições e servir como testa de ferro aos ataques dos nativos da região do Seles e do vale do Longa. O Município da Kibala só foi desanexado do Libolo em 1921, depois de concluída a pacificação da região".

Tornam-se, por isso, imperiosos a responsabilidade moral e o dever histórico-patriótico de todas as mulheres e homens conscientes de toda Angolas que devem unir esforços para a preservação do nosso passado comum, em Kalulu e em outros cantos do nosso país.

Nota: Parte do texto publicado na edição de 15 Jan 2016 do Semanário Angolense.

terça-feira, janeiro 12, 2016

NA ROTA DO PORTO PESQUEIRO DO AMBRIZ

Seis de Dezembro, dia de chuva fechada com pequenos intervalos de zonas ainda secas e por molhar em momentos que se seguiam.
O ponto de partida é Mbanza Kongo e o destino é Mbanza Ngola (Luanda, a capital de Angola).
Depois do Ambriz, em direcção à Barra do Dande, um letreiro indica para a direita "Porto Pesqueiro". Não há dúvida. Para os menos alfabetizados está também a representação gráfica de um peixe. A tabuleta indica que são 3 km de picada.
Entre o receio de ficar atolado, pois era dia de chuva farta e conduzia  um carro sem tracção a 04 rodas, o espírito  de aventura falou mais alto.
Entre curvas, lombas e algumas poças de água, transpondo também a relva que invade o eixo central da picada, lá chegamos ao "Porto". Na costa, nenhuma alma pescadora.
Buzino para despertar a atenção de quem podia estar por perto e surge um agente da polícia (calculo que da Guarda Fronteiriça ou Marítima) que me explica:
- É ainda um projecto de Porto Pesqueiro e nós estamos aqui para manter a inviolabilidade das nossas fronteiras. Sabes, como é a situação das entradas pela costa, né!
Agradeci sem mais perguntas. Ameaçava o bis da chuva que gotejava miúda. Fiz "QRF" de volta à EN100 e decido comprar o peixe na Barra do Dande, onde o seco estava à mostra mas o fresco extremamente escasso. Pelo caminho uma seixa e um braço de javali para contar a estória da viagem à mesa da sala de jantar.
O calulú fica para depois. Quem sabe uma busca pelos lados de Benguela Velha (Porto Amboim)!

quinta-feira, janeiro 07, 2016

À VOLTA DA LAGOA

Dizem que se pesca na lagoa pluvial que fica em Viana, entre a Avenida Deolinda Rodrigues e as traseiras da Comarca.
Contam-se estórias sobre "abundantes fainas" diurnas e nocturnas e capturas de jingwingi de quilos abastados.
Eu, o narrador, embora viva ao pé da lagoa, não vi ainda, não. É só mesmo conversa de ouvir dizer e ver os anandenge a andar de cima para baixo, ora com canas de pesca e minhoca, ora ximbikando, ora com as redes de apanhar peixinhos que vêm cá acima apanhar água com um pouco ainda de oxigênio, por causa do lixo e podridão que as vizinhas cavalonas põem, dias sem fim, no lago que lhes cerca as mabata.
Verdade verdadeira, peixe grande não vi ainda, não senhor. Mas peixe pequeno, piquinino, de pôr no aquário, que os brancos e os sô doutore "lhe chamam cuele" alevinos, esse, pessoa não precisa ter olho de águia. Vê sem precisar de mawanas.
Até mesmo a vizinha Rosa, uma cavelhota já de bengala, faz muitos anos e que diz não vê mais nem vulto, certo dia se abeirou da lagoa na companhia de um mona lá do quintal de Sá Josefa, sua filha do meio, e gritou:
- Buereré de "scapexinho ansim"?!
As filhas, amigas das filhas, as comadres do bairro, as vizinhas e tudo na estupefação.
- Ená! Cega de muito tempo já viu peixinho? Deve ser madiwanu!
- Madiwanu de quê, "vucês" num sabem que quando pessoa num vê o que sai nos olhos se acrescenta "nosovidos"? Stou ouvir bué de filho de peixe andar por cima da água, no meio das folhas daquela árvore de "tambarino" que vizinho Lúcio trouxe da Luanda.
As filhas, noras e tudo de novo bwamadas.
- Como é que mamã vê a árvore e as folhas na água se nem vizinho Lúcio a mamã conhece? - Perguntaram de novo, tipo já é coro na igreja metodista.
- "Intão" pessoa cega já não tem boca? Não tem ouvidos? Não tem contadores? - defendeu-se. Tenho môs netos "qui minformam" tudo que se passa no bairro. Abrem só rádio se todas as makas de Luanda eu não sei. Esses ouvidos é tipo gravador do tempo colonial. O que entra já não sai. Até as cor, os cheiros, tudo eu grava aqui na cabeça. Certos mizangala, aqueles que andam fumar kangonya ali na esquina do Dialó não assaram bagre grande que apanharam mesmo aqui na cacimba quando iam buscar lyamba que andam a guardar naquela ilhota da lagoa?
- Mas mamã então, uma kifofu alheia, quem anda te fwefwenhar essas makas todas do bairro? - Perguntou Mingota dya Kazela, filha mais velha que mora no Dondo e que veio "disminuir" na saudade.
- Dya Kazela (o mesmo que Branquinha em Kimbundu), eu sei tudo. Tudo mesmo passa de boca em boca na frente da ceguinha e se esquecem que "kaveia" tem mbora ouvido dela. Até se polícia desse tempo fosse educada e bem preparada não precisava se dar massada para apanhar os malandros. Os planos deles de "assarto", divisão de dinheiro, quem guarda as armas, os comparsas, as kangonya e tudo, falam mesmo na frente da velhota. Eu sei tudo. Me traz só a rádio e a televisão aqui para me perguntarem sobre as coisa que "ándamos" passar cuele, dia-a-dia na cidade, se Viana não vai pegar fogo? Pega fogo porque eu sei de tudo! - Concluiu a idosa, sem meias palavras. 

Publicado no Jornal de Angola, caderno fim-de-semana, 27/05/2018

sexta-feira, janeiro 01, 2016

ESCREVENDO COM O TRABALHO A NOVA HISTÓRIA


A sorte e a virtude no Serviço Público
Tive de recorrer, desta vez, ao tratado de Nicolau Maquiavel, O Príncipe,  para extrair conceitos como sorte (fortuna) e Virtú (virtude) que, nas palavras do autor, "devem acompanhar o sucesso de um líder" (seja instituído para um posto de chefia ou um agente respeitado e com seguidores que o fazem por causa dos seus bons exemplos).
O autor de O Príncipe define como fortuna ou sorte o ambiente envolvente, antes e durante o seu mandato: qualidade das pessoas que governa e com quem governa (pessoas capacitadas e empenhadas, leais e disciplinadas ou não), a harmonia social e política, a qualidade das instalações e dos equipamentos, os recursos financeiros, o ambiente regulatório, as relações com utentes e fornecedores, entre outros quesitos, fazem parte deste pacote.
A Virtú (virtude) é definida pelo autor como o talento, a sagacidade, o bom mando, a ponderação, a análise cuidada e as respostas assertivas aos factos e fenómenos que surgem no caminho de um líder. É preciso ser virtuoso, diz ele.
Transportando para os nosso dias esse tratado centenário de Maquiavel, nascido em Maio de 1469, em Florença, Itália, se pode ainda dele retirar algumas bons exemplos.
Vivemos uma conjuntura política, social e económica que nos apela ao redobrar de esforços, coesão  e inteligência, no sentido de darmos mais respostas do que aquelas que aparentemente entendemos como demanda dos nossos utentes, apesar dos meios escassos e necessidades infinitas.

A moralização da Administração Pública requer o cumprimento de prazos e qualidade requerida nos serviços a prestar, lealdade dos Servidores ao Poder instituído pelo sufrágio directo e ao Serviço Público, parcimónia na utilização dos recursos, equidade no tratamento, equilíbrio nas relações, bem como o respeito mútuo e a solidariedade institucional e interpessoal. São virtudes que quando juntas à fortuna (aqui entendida como sorte ou ambiente envolvente) farão de nós líderes com direito a, pelo menos uma linha, na História que se há de redigir sobre a Reviravolta nas Instituições Públicas Angolanas.
A confiança e a lealdade devem ser cultivadas todos os dias. Todo o poder é uma cadeia, do mais alto ao mais baixo e vice-versa. É como as engrenagens que movem os ponteiros de um relógio. Basta quebrar um carrecto minúsculo para que todo o sistema fique afectado.

Cada um deve fazer o seu melhor, sem prejudicar o colega ou o seu superior. Juntos, olhando apenas para o bem e fazendo o recomendável, faremos a Nova História do Serviço Público.

terça-feira, dezembro 29, 2015

REVISITANDO A HISTÓRIA E A TRADIÇÃO ORAL

Nkidyafuka: é o vocábulo bakongo que designa quem tem dívida há muito por pagar ou impagável. Essa condição em que se encontrava o meu primo Segunda João, a quem que ajudei a criar, levou-me a Mbanza Kongo, percurso de mais de 450 Km por terra, em estrada ainda bem cuidada, para o seu pedido de noivado, transformado em "casamento" na tradição bakongo.
- Na conservatória podem ir apenas os dois que se casam e os amigos, como também nunca se nega a separação. Para nós bacongo, esse é o nosso casamento. Envolvemos os familiares no acto e quando nos vêm comunicar separação, nós dizemos sentam ainda aqui, vamos conversar. É esse o casamento seguro, o que envolve as famílias. - Declarou o tio-sogro, no momento dos conselhos e recomendações.
Entre colinas que escoam abundante água pluvial para riachos e canais temporários, cresce o mosaico habitacional, destacando-se o tijolo (cor) do adobe queimado e que confere resistência e longevidade aos imóveis.
Para quem como eu não ia a Mbanza Kongo há dez ou mais anos, a cidade cresceu em tamanho e qualidade de vida dos seus habitantes: há mais casas e edifícios erguidos na vertical, há mais asfalto, largos e novos monumentos e, acima de tudo, mais sorrisos nos rostos das pessoas, longe do que um jornalista gozão tratou, em Abril de 2005, por "cidade de rua e meia".

Monumento que retrata o topónimo
A receber quem chega de Luanda está um monumento que representa o topónimo do antigo reino: um caçador (nkongo), munido de kanyangulu, outros instrumentos menores de caça, um valente cão (também necessário ao caçador) e acompanhado por uma senhora que leva os víveres e que, com certeza, confecciona a jinginga servida ao jantar.
Mas estou ainda no Ambriz, norte do Bengo, a caminho do Zaire, parado num posto de abastecimento de combustíveis e aproveito prosear:
- Mana, boa tarde!
- Boa tarde mano. Quer "arguma" coisa para consumir ou para levar?
- Para consumir. Um café, por favor. Pode ser com açúcar, mas tem de estar quente e forte.
Enquanto a jovem ligava a máquina aproveito provocá-la:
- Mana, como se chama quem nasceu no Zaire?
A senhora faz passear a mente que navega nos conhecimentos acumulados ao longo do tempo e da instrução e quase naufraga.
- Mano, nasci "mborra" em Luanda. Minha mãe é que é daqui do Ambriz e o meu pai é que é de Mbanza (Kongo).
Mariana desviou a resposta que eu esperava, sendo, porém, fornecida por um seu colega que me a transmitiria em voz meio muda:
-  A resposta é "zairiense", kota. E justificou-se: zairense é do Congo Democrático. Nós aqui "samo" mesmo de Ambriz, ambrizetano (do Nzeto) ou mbanza-konguense que também se chama "zairiense".

João Nevumba, como se apresentaria já na hora de despedida, não se ficaria por aí na sua explicação e acrescentaria:
- Estou a ver que o mano está perguntar porque gosta mesmo de saber e parece que está mesmo a ir "na" capital. Mano, as pessoas de Mbanza não gostam muito "lhes" chamar "zairiense". Quando o mano chegar, se precisar referir, fala só mukongo que abrange todos do norte.
Acatei o conselho, joguei o café, meio frio, garganta abaixo. Engatei a mudança automática de progressão e rumei à cidade cujo símbolo apresenta cinco espadas que simbolizam igualmente número de topónimos por que já foi designada: Mpemba, Nkumba Ungudi, Kongo dya Ngunga, S. Salvador do Congo (depois do baptismo do Rei, tornando-se cristão) e  Mbanza a Kongo.
Nkongo, contam os guias do museu, é caçador na língua local. Terão os enviados de Diogo Cão, aportado em Matadi, perguntado como se chamavam aquelas terras, ao que os nativos vindos da caça entenderam que se lhes tivesse sido questionado "o que eram", tendo respondido "nkongo" (caçadores). O reino que possuía seis províncias geridas por "Manis" (titulo de governadores) tomou a designação de Congo, sendo Mbanza (capital) a Congo, na pronúncia e escrita dos comerciantes de bugingangas e anunciantes de Cristo,  o centro político para aonde os "manis" levavam os impostos recolhidos para custear a máquina administrativa. O detentor do poder supremo é Ntotila, em cujo Palácio repousa(va) uma frondosa árvore de três grandes ramos (são dois na actualidade) e uma fronde de folhas permanentes, sob cuja sombra eram efectuadas as audiências e os julgamentos. Perdeu-se na memória o nome da árvore (tipo). Porém, o facto de ter acolhido vários "kuhu" (boas vindas ou conversas introdutórias que para os ambundu equivale a mahezu) ela ganhou o registo de yala kuhu.
A residência real possuía ainda um espaço muito restrito para a lavagem e  tratamento do cadáver do rei finado (sungilu) para que fosse possível conservá-lo intacto até ao acto fúnebre que era procrastinado até à chegada do Mani que vivesse mais distante, chamados todos pelo som do tantã.
A casa mortuária real (mpindi a tadi) ficava a umas centenas de metros do Palácio, distância aproximada a que nos leva ao campo santo real, colado ao nkulu mbimbi (igreja antiga, a Sé com mais tempo a sul do Sahara).

Mas sobre Mbanza Kongo não é tudo. Sobre o desrespeito à mítica Yala Kuhu, contam-se estórias associadas à queda, nos anos 90 do sec. XX , de um elicóptero que, entre outros, vitimou o bispo da diocese local e também o despiste de um avião da companhia de bandeira, já no início do séc. XXI, que levou à morte o administrador municipal, para além do "sangue que a árvore jorrou, estendendo-se do espaço em que está o pavilhão desportivo até ao cemitério real, quando os brancos construíram a estrada, cortando o terceiro galho".
Mas o guia do museu, formado no Benin, em preservação de espaços históricos, a luz da candidatura da cidade de Mbanza Kongo a património da humanidade, não se fica por aqui e vai mais adiante nos detalhes da sua apresentação. Fala também do "Mbanda Mbanda, do clã Nenzako, de Maquela", uma espécie de Presidente do Tribunal Constitucional, a quem cabia entronizar o rei, e informa que "Mbanda Mbanda e o rei no trono nunca se podiam reencontrar. Se o rei fosse à terra dele, ele se ausentava. Se Mbanda Mbanda viesse à capital, também o rei se ausentava. Ele só se via com o Ntotila uma vez e para o entronizar", concluiu.

Entre História confrontável nos livros já abundantes e estórias de ouvir contar e entreter o visitante/turista, muito há ainda por ouvir e desvendar. O melhor mesmo é percorrer os cerca de 450km que separam Luanda de Mbanza a Kongo para ver ouvir e reter. E, quiçá, recontar também?!
 
Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense em Dezembro 2015 e no Jornal Cultura de 19 Dez/17 a 02 Jan/18

quinta-feira, dezembro 24, 2015

UMA INCURSÃO À MUXIMA DA KISAMA

As primeiras estórias que ouvi da minha mãe e parentes, eu ainda infante, eram sobre "Kwisama kwete môngwa!" (Há sal em Kisama!). Sim. Jazidas de sal gema que era muito procurado pelos africanos do interior do reino do Ndongo de que as terras da Kisama, Kambambi, Lubolu, entre outras eram partes integrantes. Depois chegaram-me outras estórias sobre um local da Kisama, a beira do grande rio, onde os enviados do rei Tuga mandaram erguer um porto fluvial, uma igreja e outras instalações, dando início a um vilarejo que agora floresce com o surgimento do asfalto. Muxima, pois claro!
Aqui, contam os que frequentam o santuário católico com regularidade, acontecem coisas do arco da velha. Chegou-me ao ouvido que duas esposas de um mesmo homem bafejado pela sorte dos fáceis dólares do passado pegaram ambas em fotos da rival e foram pedir a "mamã coração" que afastasse a adversária do seu caminho.
- Mamã muxima, apareci sozinha, no tempo da pobreza, por que me surge uma intrusa na relação agora que é tempo de colheita, ainda por cima de carnes fartas? Ajude-me mamã a defuntá-la. Todo o víntimo vou trazer durante ano e meio, se a mamã me ajudar. - Terá suplicado Kadihiba, a primeira das esposas do sô Kitadi Yangu.
- Mamã do coração, já me deste metade do que te pedi nos últimos cinco anos. Só falta aquela cavalona deixar de privatizar o homem, tipo nasceram juntos do mesmo ventre. Outras abrem vaga, menos ela, mamã. Só falta um bocado. Mesmo metade do salário e metade de tudo que ele me dá posso trazer à mamã se ela abrir vaga. -  Implorou Kakinga, a Luanda dois.
O resultado, segundo o meu amigo Katimba, que jura ter visto com seus próprios olhos, foi uma pancadaria daquelas de pôr o padre com o pé no ngimbu, para que não fosse apanhado por um murro perdido na algazarra.
- Foi na hora de levar ao altar as ofertas e a prova (foto) do que se pede. Kadihiba com a cara de Kakinga e essa  com a da concorrente Kadihiba. As duas caralmente, olho no olho sem espaço para esquiva. Ali esmo, nome chama nome, começaram a se dar kibetu. - Narrou o sempre bem humorado Katimba que foi introduzindo, entre os supostos factos, elementos de sua criatividade, dando mais calor à narrativa.
Contaram-me também que as moças, aconselhadas por tias mais experimentadas, e algumas tias na idade entre " a sobra e o salda negócio" são as que mais preces dedicam à mamã para que mande no seu caminho um homem que tenha "quatro cês sem efe-a". Vou explicar melhor essa dos cês e sem efe-a. É tudo da lavra do Man Didas que nasceu na Kisama ao tempo em que os kisamistas se diziam ainda kwanza-sulinos: "casamento, casa, carro e conta farta sem filhos anteriores", reportou-me o Didi Segundo​ com a seriedade que lhe é característica.
Pois, essas estórias todas acrescidas ao discurso de um idoso do município biodiverso da Kisama que numa das barracas de Katete narrou a célebre frase "uxa dikongo, kuxê kitadi. Andodijiba (deves deixar dívida e não dinheiro como herança vão matar-se)!", levou-me a espreitar o outro lado do Kwanza, atravessando pela segunda ponte, da foz à nascente, a que se estende sobre os terrenos pantanosos da Kabala. Quem não se lembra da Kabala, reportada no antigo livro de leitura da segunda classe, ensino do tempo de Agostinho Neto, onde se lia: "na Kabala, uma pequena aldeia perto do rio Kwanza vive a família do Viti. O pai trabalha na loja do povo. A mãe trabalha na lavra. O Viti e os irmãos andam na escola".
Pois é. Transpus a Kabala intalado no Fiat punto que ensaiava o motor, acompanhado da mulher, que ignorava o destino, e lá nos fizemos Kisama adentro, ou melhor, coração adentro. MUXIMA! A Entrada é de cortar a respiração. A estrada é um sulco sobre a montanha lamacenta nos dias de fúria de São Pedro. As habitações e outras construções melhor apresentadas, construídas em alvenaria para longa vida, acham-se em topos de colinas, fazendo as águas pluviais deslizarem até à curta zona plana que se estende longitudinalmente como faixa de lençol, entregando-se lateralmente ao Kwanza milenar.
As devotas peregrinas, sem chuva nem distâncias que as detêm, marcam presença no terreiro contiguo à capela ou nas instalações vizinhas, erguendo tendas de campismo. A capitania do Porto de Luanda, a polícia e outras instituições como o Partido MPLA mostram-se também aos residentes e aos visitantes com suas representações. E aqueles que exploram o turismo interior encontram a "senhora Ritz" ocupando a parte da zona baixa com módulos contentorizados a preço concorrencial.
- O kakusu tem de encomendar com antecedência. É preciso pedir "nos" pescadores para trazerem na faina da manhã. - Explicou a garçonete caprichosamente vestida. Uma saia chitada, neve branca da cintura acima e negro na batina a combinar com cabelos reais.
Quanto aos quartos, lá estão, "mas se vier em tempo de maior peregrinação, tem de fazer reserva" para não lerpar. Aconselha o gerente tuga para quem "há quem até encomende o quarto com um ano de antecedência". Verdade ou não, foi a boca dele que cumpriu com o papel da fala. Quartos havia de sobra num dia de chuva miúda e continuada e muximeiros escassos quando contados e comparados aos números milhentos da televisão.
- E a catedral mostrada ao papa, marido? Será que está noutro lugar fora daqui? - Quis saber a mulher a quem sosseguei com um "está no Vaticano. Come e relaxa porque ainda temos 118 quilómetros até a casa!"
Obs: texto publicado no Semanário Angolense a 04 Dez 2015.

terça-feira, dezembro 22, 2015

ELA SENGOU

Isso mesmo. Ela separou-se momentaneamente do dono de casa. A Gia preferiu sair de casa tão logo ele chega do serviço e voltar quando ele se prepara para sair manhã cedo.
Às vezes nem chegam a cruzar. A filha de TwENDE prefere deixar o homem e todos os electrodomésticos aos cuidados da amante, a que tem como profissão amar e nunca abandona a casa, a menos que seja para se dirigir ao médico.
Desta feita, é a amante que goza e que geme de prazer ou de dor toda a noite, enquanto a Gia que sengou de livre e espontânea vontade saltita de bairro em bairro, mais chateando do que agradando os visitados.
Assim estou eu e os meus pertences. Quando nos habituamos com a fiel amante, ela vem reclamar o seu antigo papel de manDONA e senhora, encostando a amante geradora de prazer e lazer ao seu papel subalterno, embora, em abono da verdade, se diga que a amante já vai, mais vezes do que nunca, passando ao papel principal.
É sobre a enerGIA, filha de twENDE, que me reporto. Ela sengou!
 
Vila de Viana, 02.12.2015

quarta-feira, dezembro 16, 2015

GERINDO HOMENS E RECICLANDO VASSOURAS

Geralmente, as pessoas chegam às organizações empresariais muito motivadas, mesmo não ganhando tanto quanto gostariam ou tanto quanto a sua carteira de custos demanda. Estão motivadas porque ocorre-lhes mostrar o que sabem, aprender o que lhes falta e encarnar o ADN ou cultura da organização. Mostram-se propensos a fazer mais do que aquilo que deles se espera ou se lhes exige, sendo por isso tratados na gíria das organizações como "vassouras novas".
Sempre que numa organização as coisas estagnaram em relação ao desempenho do Capital Humano, a primeira ideia da gerência vai para a contratação de um novo integrante, com provas dadas e muito motivado para reforçar e oxigenar a equipa em aparente apatia. É a chamada "vassoura nova" que varre tudo quanto seja trabalho que lhe seja delegado. Comumente, os novos integrantes, por desconhecerem ainda a casa, surgem sem grandes vícios de absentismo laboral e, por conseguinte, não se entregam à ociosidade.
Quem nunca passou por essa experiência na condição de novo reforço de uma equipa ou, na qualidade de Gestor, recorrendo à contratação de uma "vassoura nova"? Mesmo nos nossos domicílios, costuma-se dizer, e com dose de razão, que "uma nova vassoura varre melhor". Porém, mais prudente será aquele que fizer o reaproveitamento inteligente de todas as vassouras antigas que tiver. Trocando os cabos, invertendo as bases, reforçando os palitos naquelas em que a moldura se apresente vazia, etc. Assim também é na Gestão de Pessoas.
Com o tempo, a ausência ou atraso na progressão de carreira, o incumprimento da expectativa inicial quanto ao incremento da remuneração,  a falta de respeito pelo seu trabalho e, às vezes, a falta de consideração por parte das lideranças e dos integrantes da equipa, acabam desmoronando todo aquele edifício motivacional, caindo na rotina e acomodando-se na zona de conforto. Tal como nos nossos domicílios, a "vassoura nova" se junta as antigas e reforça o exército das que pouco ou nada fazem em prol da organização.
Se o causa da apatia do Capital Humano tiver que ver com desajustes institucionais e não meramente com a acomodação na zona de conforto, a "nova vassoura" começa a funcionar tal qual varrem as outras: a trabalhar com brechas, com falta de atenção, com falta de precisão e desatenção ao tempo de entrega dos produtos e ou serviços, prejudicando os prazos do patrão ou da liderança. O descontentamento, a desmotivação, e espírito de deixa andar ou deixa fazer e outros comportamentos negativos começam a invadir a sua mente.
- Já fiz a minha parte. Fiz o máximo. Pensei e inovei o quanto pude. Agora que venham outros! – Diz-se vezes sem conta nas instituições. Pessoas jovens, muitas vezes, se entregam ao desleixo de nada fazer. Gastam dinheiro nos transportes para ir e voltar do local se serviço, deixam filhos e família manhã cedo e regressam à noite, com o pretexto de que vão trabalhar, quando as oito horas diárias são passadas no trabalho e não a trabalhar.
Nesse estágio, quando os casos se generalizam, há que se fazer um diagnóstico sobre a situação geral e conter ou mitigar as causas.
Já se sabe que não é destruindo todas as penelas velhas e comprando outras substitutas que se obtém a boa comida, pois o tucokwe (povos do leste e nordeste de Angola) dizem, e bem, que "doho ikulu ikateleka kulya cipema!" (A panela velha faz boa comida!).
Como fazer da "vassoura velha", aquela que limpa com brechas, uma "vassoura renovada" e que se renove todos os dias?
Não sendo esse exercício um ensaio científico e com suficiente suporte bibliográfico, mas baseado tão somente na experiência que o autor vai acumulando, eis algumas dicas:
- Formação e capacitação do Capital Humano (quer seja on job ou fora do local de serviço): cursos de especialização, formação académica, palestras seminários, conferências e outros eventos correlacionados podem servir de balões oxigenadores.
- Política de Incentivos e Recompensas: Instituir uma jornada que seja por objectivos e resultados e não por mera presença física. Há quem é assíduo e pontual mas que não produz  como haverá gente sem assiduidade, nem pontualidade que produza mais. Distribuindo tarefas concretas, objectivos e metas bem delineadas pode ser um caminho. De seguida, serão (re)compensados aqueles que venham a superar as metas, o que incentiva os demais a seguirem-lhes o exemplo. Quem mais produz deve ganhar mais. E, retenha-se o ganhar mais nem sempre se deve traduzir em dinheiro. Há muitas formas de motivar ou recompensar as pessoas. Elogios em público (criticas em privado), um novo meio de trabalho, beneficiar de viagem de serviço, participar de uma reunião em que apenas os líderes fazem parte, representar a organização em eventos, são pequenos gestos e acções que podem motivar e galvanizar o Capital Humano para mais empenho e chamar os outro ao bom exemplo.
- Rotação e ajustamento em novas tarefas (mobilidade interna): o curso do tempo de trabalho numa organização leva as pessoas a terem novas preferências em termos de tarefas. Há ainda aqueles que ganham novas habilidades. Torna-se, por isso, importante estar-se atento a isso. Quem beneficiou de uma nova formação on job, distinta da inicial, procurará implementar o seu novo conhecimento. O mesmo se dirá em relação a quem tenha concluído um novo ciclo académico ou tenha uma nova formação distinta daquela que possuía quando foi recrutado. Daí a necessidade do estudo da composição do capital humano da organização, de tempo em tempo, para aferir as principais mudanças ocorridas e fazer os ajustamentos pertinentes. Toda a mobilidade, mesmo interna, redundará sempre em vassouras novas ou vassouras renovadas que devem ser cuidadas e com energias renovadas  para que nunca percam o vigor e o bem fazer.
Sendo o Capital Humano dotado de uma complexidade psíquica e intelectual, geri-lo é das tarefas mais difíceis, exigindo a interdisciplinaridade e a participação de todos os Gestores da Organização. É, destarte, a Gestão de Recursos Humanos ou Capital Humano uma tarefa transversal a toda a Organização e não apenas da área encarregue de gerir os processos administrativos de Recursos Humanos.
 
Nota: Texto publicado pelo Semanário Angolense a 18.12.2015.
 

sábado, dezembro 12, 2015

AS COMADRES DA IGREJA E A MANUTENÇÃO


Entre os metodistas da velha
Classe Kwanza‑Sul, sempre se disse que a palavra viaja mais depressa que o vento. E as mulheres — sobretudo as veteranas — carregavam consigo uma ancestralidade de histórias que pareciam vir dos mahezo da avó, das fogueiras da Munenga ou do banco corrido da Kalemba. A oralidade, antes de ser literatura, já era alma.

Nesses dias, quem mais preservava esse património eram Ngaxi, Nga Madya, Manda, Isabele Gaspara, Aida e Henriqueta — todas fiéis de longa data, umas da Kalemba, outras da Classe Kwanza‑Sul, todas agora agregadas à Igreja Moisés. Iam juntas ao culto, ao mercado, ao velório, ao batizado e até ao estendal alheio, sempre trocando histórias de fazer corar até o pastor Milocas.

Numa manhã de domingo, depois do culto das nove, apanharam o autocarro no Nzamba‑1 rumo à Praça do Kinaxixe, ao lado da Central. Entre sacos de jinguba, tabuleiros de peixe seco e galinhas vivas, acomodaram-se como puderam. Foi aí que Isabele, a mais ligeira de língua, anunciou:

Xê, Nga Madya, sabes duma?!

Conta, comadre! — respondeu Nga Madya, ajeitando o xaile.

No Panguila, Sector Quarenta e Sete, vive uma velhota da nossa idade, viúva aí há uns vinte e tal anos. Mas olha… meteu conversa com um dikwenze daqueles trungungueiros e começaram já conversas de noite!

Henriqueta, que nunca perdia um bom enredo, aproximou o rosto:

Avança, mana. Estamos aqui todas… até a Tt ficou quieta!

Tt sorriu, tímida. Era a mais nova das comadres da Kwanza‑Sul, soprano da Moisés, e sempre corava quando as veteranas puxavam temas de fricção.

Isabele continuou:

Pois bem… quando o negócio aqueceu, a velha começou a gritar: “Me larga, vai me furar! Me larga, vai me furar!”

Até os jovens no fundo do autocarro arregalaram os olhos.

Ngaxi, com sua voz arrastada de 1935, perguntou:

E depois, mana? Mais o quê?

Isabele tomou ar:

O vizinho da frente, pensando que era bandido, chamou logo a polícia. Rua tal, casa tal. Quando chegaram… pum, pum, pum na porta — nada! Mas os gemidos continuavam. Lá dentro, a conversa ia no ritmo de carrecto dezoito. O polícia mais corajoso deu um pontapé e encontraram os dois em flagrante delícia!

Henriqueta bateu palmas:

Sukwama! Kima kyabambuka!

O autocarro já dobrava a Cónego das Neves quando Isabele concluiu:

Os polícias amarraram o atrevido e levaram a mamã na Toyota para a esquadra.

Aida, esposa de Kapitia e dona de um humor fino, perguntou:

Mana Isabele… é tua verdade ou tua invenção?

Verdade pura, comadres! — garantiu Isabele. — Na esquadra, em vez de o muzangala explicar, foi ela mesma a dizer: “Filho, o jovem não me fez nada. Vizinho é que é fofoqueiro. Não viu nada, nem ouviu sequer gemido!”

As comadres riram-se como meninas da EBF.

Aida imitou o espanto dos polícias:

Haka! Boca quase a tocar a nuca…

E o que eles tinham ouvido então? — perguntou Manda.

Isabele levantou o queixo:

Foi só manutenção!

O autocarro explodiu em gargalhadas. Um jovem que fingia dormir abanou os ombros de tanto rir.

Foi então que Ngaxi, que nunca deixava história sem réplica, pigarreou:

No Kifica também aconteceu isso. A mulher é minha amiga. Ficou anos sem manutenção desde que o Gasparito apanhou kikonha. Mas certa noite a comichão bateu forte…

Henriqueta aproximou-se, curiosa:

Mana Ngaxi, não nos mates de curiosidade!

Ngaxi prosseguiu:

Bebeu água fresca… nada. Tomou banho natural… nada. Morno… nada. Gelado… também nada! A comichão era daquela que sobe até à raiz do cabelo!

As comadres dobraram-se de riso.

Chamou um rapaz que carrega água por birra, — disse Ngaxi. — “Ó muzangala, não queres birra?” — falou ela toda sacudida, parecia Tt quando canta “Hosana!”

Tt cobriu o rosto de vergonha, mas ria-se.

O moço trouxe três bidões. A velha perguntou: “Só beber? Não quer te lavar?” Ele aceitou. Depois bebeu uma, duas… e ela: “Queres mais duas? Vai tomar banho e a avó paga.” Enquanto ele se lavava, ela preparou comida e uma ngala de vinho. Quando voltou… zás! Ele atacou tudo. Barriga começou logo a crescer!

E depois?! — perguntaram todas num coro afinado.

Ngaxi concluiu:

Quando ele quis fugir, ela perguntou: “Não quer enxaguar a boca com uma birra?” Ele aceitou. Mas a vizinha Inês disse: “Agora bebes a avó… e depois a birra da porta!”

E bebeu?! — ecoou pelo autocarro.

Bebeu, sim! — respondeu Ngaxi. — Mas antes ouviu a sentença final: “Acaba de me matar!”

E, como sempre acontecia quando as comadres começavam a alinhavar histórias, o autocarro inteiro ficou rendido — gargalhadas longas, redondas, libertas.

Enquanto desciam no Kinaxixe, Henriqueta, abanando o corpo, comentou:

A Classe Kwanza‑Sul devia fazer culto só para histórias dessas!

E Tt, tímida, mas espirituosa, murmurou:

Se o pastor Domingos João ouve isso… mete todas na disciplina!

As comadres riram-se outra vez.

Porque, na Classe Kwanza‑Sul, como no resto da Moisés, a palavra sempre encontrou um colo… e uma gargalhada.


In: O gajo do pastor

terça-feira, dezembro 08, 2015

ENTREVISTA À REVISTA ÁFRICA TODAY


AT 129 – Sociedade
– Luciano Canhanga
1.       Jornalista há vinte anos, costuma dizer que não é escritor, apenas um contador e descritor da sociedade. Como observa a sociedade angolana contemporânea e as suas transformações nestes 40 anos de independência?

Quarenta anos é quanto terei daqui a nada. Tudo o que sei da sociedade pré-independência é fruto de leituras e de ouvir contar. Sigo as entrevistas do Drumond Jaime e Helder Bárber aos obreiros da luta pela emancipação de Angola. Eu mesmo, enquanto jornalista fiz várias entrevistas que me ajudaram a compreender o quão difícil foi a vida para os nativos negros no tempo de outra senhora. Era uma vida abaixo de cão, quando os cães deles tinham direitos humanos. Isso fez com que muitos intelectuais e assimilados daquela época abdicassem das suas mordomias e encetassem uma revolta que nos conduziu à independência. Podemos também abordar as transformações no campo do conhecimento e das ciências onde se contavam aos dedos os negros com formação e ocupando lugares de destaque na administração colonial. Em termos de infra-estruturas herdamos também muito pouco dos cinco séculos de colonização, quando comparado com o muito que se ergueu nos 40 anos de independência e com maior realce para os últimos 13 anos. Sou fruto da independência e sinto que temos vindo a somar em todos os domínios, até no campo literário.

2.       Agostinho Neto está presente na sociedade angolana? Ainda se sente o seu legado?

Tem sido recordado em Setembro de cada ano, e algumas vezes quando saudosistas como eu recitam os seus poemas ou as suas palavras de ordem como #Nós somos milhões e contra milhões ninguém combate#. Há um despertar de consciências que quase adormeceram mas ainda vamos a tempo. A conclusão do seu memorial na Praça da República, o erguer da sua estátua no Largo da Independência, a colocação de seus bustos em vários largos das nossas cidades, a feitura de ensaios sobre Neto, a reflexão sobre seus escritos como #Adeus à hora da largada#, entre outras actividades, configuram acções que vão perpectuar e elevar Neto à sua verdadeira dimensão, sem os chavões reducionistas e utópicos doutrora. O legado de Neto é inapagável e incontornável.  

3.       Com cinco livros publicados entre 2010-2015, assina com o pseudónimo Soberano Canhanga. Porquê a escolha?

Sou neto e homónimo do Soba Canhanga da região de Kuteka, nas margens do Longa, entre Libolo e Kibala. Para quem já era tratado como Soba Kanhanga, daí para Soberano foi meio caminho. Sem grandezas ou imodéstias, foi essa a razão da escolha do pseudónimo.

4.       Bloguista desde 2005, tem seis blogues, escrevendo sobre aspectos antropológicos, sociais, históricos, comunicacionais. Considera esta plataforma uma extensão do jornalismo contemporâneo?

Indubitavelmente, o jornalismo tradicional focado para a simples transmissão do facto actual e de interesse público vai perdendo terreno para a media alternativa. Sem poder exercitar o jornalismo puro, encontrei nos meus blogues a forma de participar neste edifício informativo e comunicacional. E, sinto-me regozijado por ter sido ponto de partida para reportagens com profundidade elaboradas por jornais e rádios de Luanda. Nos meus blogues tanto informo, partilho pontos de vista, como também formo. O jornalismo hoje tende mais para a análise e interpretação dos factos, deixando, aos poucos, o anúncio dos factos para os blogues, facebook e similares.   

5.       A internet e as redes sociais têm contribuído para a produção dos novos autores angolanos ou, pelo contrário, poderão dispersar ou mesmo apagar o passado, as referências?

Vejo a internet e as redes sociais mais no sentido positivo da partilha de informação em curto espaço de tempo e sem necessidade de muito aprumo. Muitos artistas de hoje só são conhecidos graças a essas novas ferramentas de difusão. Aliás, o conceito de blandig marketing ganha cada vez mais corpo hoje. Nenhuma promoção é eficaz se não abarcar a componente dos novos medias ou alternativos. A conservação das informações em termos de facebook, por exemplo, é ténue, porém os blogues e os sites que estão conectados ao google conservam a informação e até permitem o acesso rápido às memórias. Vejo mais vantagens do que desvantagens.

6.       Que análise faz da nova vaga de autores angolanos? De que forma se relacionam com os consagrados?

Tenho ainda pouca idade para comparar a interação entre os artistas de gerações distintas no passado e no presente. Das idas constantes à União dos Escritores Angolanos, na década de noventa, enquanto estudante do ensino médio, posso aferir que me parecia haver maior intercâmbio entre as gerações daquele tempo. Entendo também que as preocupações e as limitações temporais eram outras. Hoje está todo o mundo a correr e a procura de algo que ninguém encontra. Há pouco tempo para os consagrados dedicarem aos que anseiam por um lugar ao sol. Mesmo para ser acolhido na penumbra, o indivíduo precisa de ter sorte. Felizmente, tive a sorte de encontrar dois guias, o angolano Tazuary Nkeita e o Armando Graça, um reformado português com passagem por Angola. Foi com a ajuda deles que dei forma aos meus primeiros três textos publicados. Para dar de graça os ensinamentos que deles recebi de graça adoptei a Mãe dos Setinhos que deve apresentar o seu primeiro trabalho ainda em 29015, como também criei na Lunda Sul o Núcleo de Jovens Amigos da Literatura que funciona como escola solidária onde os membros se auto ajudam a aprimorar a técnica da escrita e a língua veicular em Angola.

7.       Na sua escrita recorre a paralelismos entre a vida humana e o mundo animal. Considera o Humano divorciado da Natureza?

Para um individuo nascido numa fazenda cafeícola, sem mais nada à volta senão a selva, a vida está frequentemente associada à natureza. Basta ver a semi-floresta que é a minha casa. Os homens, para mim, são apenas seres naturais que escolheram uma forma de vida distinta dos outros animais. A natureza está presente em todos os nossos actos. Até mesmo o lado animal reside em nós, e emerge em alguns momentos de menor razão.  

8.       Nos seus textos, considera que o homem é um “ser gregário e solidário que necessita da associação, cooperação e interdependência com os seus semelhantes”. São estas as fundações de Angola?

De facto, só juntos. Só pensando na mesma direcção com vista a um objectivo comum, seremos fortes e capazes. Há já muitos anos que o ser humano vem provando que as grandes realizações só se tornam possíveis quando os homens se congregam, traçam objectivos que a todos satisfazem e trabalham para atingir tais desideratos. No nosso caso, a pacificação, a reconstrução e a construção de um Novo País devem ser as nossas metas, independentemente das convicções ideológicas.  

9.       Termos como empreendedorismo e diversificação são os alicerces do futuro da Nação?

Primeiro devemos desmistificar o que muitos angolanos carregam no seu subconsciente de que #Somos um povo e país muito rico#, como se os recursos naturais, no subsolo, uns ainda por estudar, outros por recuperar, fossem riquezas factuais mesmo sem tecnologia e conhecimentos. A principal riqueza deve fundar-se no conhecimento e no trabalho. Depois, temos de explorar todas as adjacências e deixar de depender de um só produto de exportação para que haja menos importação e fontes alternativas para entrada de divisas. Temos também de deixar de nos envergonhar em fazer pequenos negócios. Basta ver quem detém o comércio retalhista quando há milhares de angolanos de mãos estendidas para ganhar um pão. Fazer negócios limpos deve ser vocação de todos nós e não apenas de expatriados. O  Governo deve é continuar a criar legislação e serviços que facilitem o estabelecimento de pequenos negócios. Os serviços públicos, quando necessitem, devem recorrer aos empreendedores para que se desenvolvam e se fortifiquem. 

10.   Pegando nas palavras de Nelson Mandela, considera que “o melhor ensino é o exemplo”? Que evolução nota no sistema de ensino nacional?

Mesmo na minha língua materna (meus primeiros diálogos foram em Kimbundu) há um adágio que reza que todo o ensinamento só se torna sólido se seguido de uma exemplificaçao. Não basta falar. É preciso demonstrar ou exemplificar. Como profissional e como académico, essa tem sido a minha práxis. Quanto ao ensino em Angola, considero que já foi melhor nos anos que se seguiram à independência, quando ainda reinava a palmatória e a reprovação por notas baixas. Hoje, me parece que se está mais para os diplomas do que para os conhecimentos e até alguns pais e encarregados de educação, em vez de inculcarem nos filhos a busca de conhecimentos, concentram-se mais nos diplomas. Só isso justifica o exército de consultores expatriados que temos nas nossas instituições. Estudamos mal e nos contentamos em pagar rios de dólares a alguns doutores de qualidade duvidosa.

11.   A História é um meio de analisar o passado para entender o presente e olhar para o futuro. Nesta perspectiva, quais os maiores desafios de Angola?

Fui estudante de História e tenho um pouco dessa vocação de olhar para o passado. Os angolanos têm a obrigação de escrever a sua História de forma desapaixonada. Sei que há um esforço nesse sentido. Organizações como a ATD (Associação Tchiweka de Documentação), a RNA, a LAC e outras, vão recolhendo testemunhos que podem servir os redactores da nossa verdadeira História. Daqui a nada, os arquivos ainda classificados se abrem e os Historiadores terão matérias para contar, de forma equidistante, a nossa trajectória como país. Há também muitos livros de cariz histõrico e de memórias como os dos nacionalistas Lúcio Lara, Dino Matrosse, Kundi Paihama, José Chiwale e o professor Jean Michel Mabeko Tali, só para citar alguns. São contributos de extrema vitalidade para que um dia saibamos que exemplos preservar e quem foram, na verdade, os heróis da nossa História.   

12.   Aquilo que foi preconizado em 1975, está hoje a ser cumprido?

Calculo que algumas coisas tenham sido cumpridas e outras por cumprir. Tivemos condicionalismos endógenos e exógenos que desviaram as atenções dos nossos dirigentes. É obvio que sempre que entrevistei, enquanto jornalista, os obreiros da independência, alguns diziam que o país tomou um rumo distinto daquele que haviam desenhado. Também é obvio que não tinham sonhado com a guerra civil nem com a queda do Socialismo que inspirou os seus sonhos. O meu balanço e a minha perspectiva é de que devemos olhar para frente, corrigir o que nos correu mal e não cometermos os erros do passado. O país chama-nos para uma nova atitude.

13.   Com 40 anos independência, estamos perante uma Angola emancipada?

Emancipada do jugo colonial e das potências com ambições desmensuradas em nossos recursos naturais. Já canto a música #em Angola mando eu#. Porém, tal como os homens são gregários e interdependentes, assim são também as relações entre os Estados. Precisamos ainda do apoio de outros Estados com os quais mantemos relações amistosas para desenvolver o nosso país. 

14.   Que individualidade melhor personifica a essência angolana?

Estou perante uma pergunta fácil de resposta difícil. Calculo que cada angolano encontre no nosso mosaico cultural e político um líder que o inspire e que siga como modelo. O verdadeiro angolano é mulher ou homem de paz, de acções ponderadas, , tolerante, solidário e optimista. A liderança máxima do nosso país tem essas e outras qualidades imprescindíveis.  

15.   Como projecta Angola a 10 anos?

Mesmo com a crise financeira que nos assola, seremos um país melhor para se viver. Vamos continuar a crescer intelectual e materialmente.


Nota: entrevista realizada em Novembro de 2015.

terça-feira, dezembro 01, 2015

O ABRIDOR SE SALÃO

Nasceu na fronteira entre o asfalto e o museke (musseque). Estudou também no bairro e na industrial onde se fez homem culto e respeitado.
Costa, sua graça de baptismo, soa em muitos   lugares e países da região austral de África.
- Papá Costa, azali bien? - Questionam os franco-lingaleses procurando por conversa.
- How are you, mister Costa? -  Saúdam outros, os vizinhos do leste, sudeste e sul que herdaram a língua de Shakespear.

Depois de anos árduos de trabalhos e negócios, Costa já a caminho da aposentação, tornou-se mascote familiar. Os primos, sobrinhos e até netos querem ficar ao pé dele e aprender um pouco de suas brincadeiras, sempre bafejadas de humor, quando não são verdadeiras lições sobre etiqueta e comportamento familiar ou empresarial.

Sempre que questionado por que entende ele de quase tudo, a resposta sai-lhe curta e peremptória:  estou no meu décimo mestrado.
Em tempos, surgiu alegre como sempre, a informar aos irmãos e cunhadas com quem convivia que durante uma viagem de 24 horas a uma província do litoral angolano aproveitara fazer um mestrado de três horas.
- Três horas? Qual mestrado, mano Costa?! - Questionou a assistência expectante.

Costa era daquelas pessoas que quando começasse a falar a plateia abria-lhe as alas. Era o mais velho da família e a reserva moral a quem todos deviam respeito e obediência.
- Sim, começou ele a explanação a que o mais atrevido da audiência apelidou de “aula magna”, fiz um rápido Mestrado em abertura de festas de salão. - Explicou recebendo uma forte gargalhada, seguida de assobios festivos.
- Abertura de festas de salão? Kota Costa é bué, yá?! - Enfeitou um dos assistentes e admiradores.

- Sim. Até avanço já o preço. Cobro apenas uma ngala de pomada. E, se for pessoa de casa, pode até ser por crédito mas acreditem. Danço muito que até nem me estou a acreditar. Foi um curso muito bom e quero já anunciar que estão abertas as inscrições para interessados nos meus préstimos. Todos que me viram na exibição prática do Mestrado só diziam: esse é o mestre que a cidade esperava há milénios. - Explicou entre sorrisos.

- Mas o kota estava a ser aguardado há milénios ou no Millennium? - Voltou a provocar um dos sobrinhos. Entre os bakongu, sobrinho e tio têm conversa ilimitada. Apesar da diferença de idade podem tratar-se como se fossem contemporâneos, sem tabus nos temas em abordagem.

- Xê, seu sakana de mercadoria. Organiza uma festa e convida o tio para ver se as moscas não se vão alojar na tua boca de tanto a manter aberta e bater palmas. Até as mãos te vão ficar rachadas. - Rechaçou Costa, inclinando as últimas gotas de uma reserva alentejana de 14 graus.

- E então jovens, estão ou não dispostos a contratar? Já conto com vinte inscrições para 2015 - Apelou o mestre Costa.

A plateia fez sinal de aprovação e o debate prosseguiu. Zé da Costa pegou a sua taça de pomada, sorveu dois goles, sentiu a massudez da velhice daquele tinto e o sabor a reserva. Marcou uma dúzia de passos pelo quintal, ensaiou um assobio e retomou a sua publicitação:
- As inscrições a decorrer. Faço abertura de festas de aniversário, de casamento, de baptizado e até de amistosos. Não tardem em fazer as vossas reservas nem se esqueçam do pagamento. Uma garrafa de boa pomada é o valor mínimo para familiares e amigos chegados da família!

Obs: texto publicado no Jornal Cultura (Angola) de 7-20 de Dez. 2015, pág. 13.