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sexta-feira, março 03, 2006

TROCA DE POSICOES


Quando num país tudo o que era principal passa à alternativa, é de admitir...

Imaginem que a TPA mesmo com o seu canal Bis passou a alternativa cedendo o primeiro lugar à Multi-escolha.

Os geradores, que eram alternativos, passaram a número um trocando com a EDEL.

Os carros cisternas trocaram de posição com a EPAL que virou alternativa.
Os autocarros públicos perderam o lugar cimeiro para os kandongueiros. São agora alternativos.

As casas de câmbio e os bancos comerciais perdem contra a eficiência das kinguilas.

As conservatórias e os serviços oficiais do Estado perdem lugar para os falsificadores do Palanca e do Pau Grande do Cazenga no tratamento de documentos essenciais.
E há tantas e tantas troca de posições. Será que só o olhoatento vê isso?


Por: Soberano Canhanga

quinta-feira, março 02, 2006

Pergunta de Março

Por que é que no Carnaval aparecem tantos homens vestidos de Mulher?




Viva a Mulher

Nos tempos do Viva Fulano, hoje, seria um dia de comícios longos em todo o país, com os Vivas que só uns conservam na memória.

Viva Camarada Irene,
Viva Camarada Deolinda,
Viva Camarada Engrácia,
Viva Camarada Lucrécia e
Viva a Camarada Mulher do Comissário municipal ou comunal.

Hoje, 2 de Março, e como estamos no ano de 2006, com tudo mudado, quero sair da sala e gritar apenas pela brecha da Janela.

Vivam todas as mulheres angolanas
Vocês merecem!

Recebam por isso, as flores que não vos dei.


Por: Soberano Canhanga

domingo, fevereiro 26, 2006

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

A carga pedagógica nos adágios Ngoya


A carga pedagógica nos provérbios em Ngoya
A zona sobre qual me vou debruçar é a que vai do Libolo a Kibala, abrangendo Kilenda, Ebo, Gabela, Mussende e parte do Uaco Kungo. (Exibir mapa).
Trata-se de uma zona de transição etnolinguística entre os ovimbundu e os ambundu. Por isso, a nossa língua contém elementos das duas línguas com maior ou menor acentuação, à medida que nos vamos aproximando ou distanciando dos pólos.
No período da existência do reino do Ndongo, o Libolo, a Kibala, Ebo, Kilenda Gabela e até parte do Uaco Kungo eram partes integrantes deste reino, razão pela qual quando perguntamos a alguém que língua fala, a resposta é sempre Kimbundu. Demonstrou-o muito bem o Reverendo Vinte e Cinco no seu livro “Os Kibalas”. O Dr. Moisés Malumbu no seu livro “os ovimbundos do planalto central de Angola” faz também excelentes apreciações sobre os povos vizinhos dos ovimbundu e das relações de interdependência.
Não basta, porém, esta relação de pertença para dizermos, como muitos o fazem, que “somos bailundus ou kimbundus por extensão da língua. Temos características próprias, costumes próprios e uma língua própria que deve ser estudada. Temos os nossos provérbios com grande carga pedagógica e no que toca a outras particularidades da nossa cultura e História, é só vermos que nenhum outro povo, dos que habitam Angola, construiu necrópoles (sepulturas em pedras) senão os nossos ancestrais.
O que quero partilhar convosco é que independentemente dos kibalas falarem uma língua parecida com o kimbundu ou umbundu, esta língua tem um nome. Deve ser perpetuada a novas gerações e por isso, investigada, divulgada e ensinada.
Tenhamos como exemplo a própria língua portuguesa que falamos, herdada do colono.
É uma língua que deriva do latim, tal como o espanhol, o italiano, o francês, o romeno, entre outras e recebe empréstimos do inglês e línguas africanas.
-O português é ou não uma língua própria?-Tem ou não um nome?-É ou não estudado, desenvolvido, divulgado e transmitido a novos falantes?
Este exemplo chama-nos atenção para o que devemos fazer para a valorização da nossa língua.
Não quero, aqui e hoje, definir que nome atribuir à nossa língua. Pesquisei um pouco e encontrei várias divergências entre os autores. Mas que temos que investigar, isso temos.
Em seguida quero mostrar-vos o que tenho feito para demonstrar a carga pedagógica dos provérbios da nossa língua que chamo por ngoya neste ensaio.
(Posso pecar na pronúncia e na grafia, pois não temos um alfabeto adoptado, mas o sentido está lá. O resto vai melhorar com as vossas contribuições).
Sentido pedagógico dos provérbios
Permitam-me que vos fale um pouco da Grécia antiga, tida como “a terra do ‘franco falar” pela liberdade existente na altura dos grandes filósofos como Sócrates cuja escola forjou o grande Platão (Atenas) e a Academia, Aristipo (Cirene) e os cirenaicos, Diógenes e os cínicos, Euclides (Megara) e os megáricos, entre outros.
Hoje, mais de 25 séculos passados, O "grande mestre" tem sido ainda opção preferida de muitos educadores que lembram o hábil inquiridor, que finge tudo ignorar para tudo demolir, e investir, a seguir, despido dos julgamentos precipitados, na construção do saber, legitimado pela participação do interlocutor. É a refutação e a maiêutica. Assim é também a escola ngoia nos seus fundamentos didácticos.
Vejamos os casos seguintes:
1. -O mahaki o’hombo a zekessa ombua o nzala.
Literalmente para o português significa que por confiar demasiadamente na queda dos testículos do cabrito que serviriam para o seu jantar o cão passou fome.
Perante uma acção precipitada, os mais velhos largam sempre este conselho. Depois de uma introspecção, o jovem deve concluir que: é preciso ter sempre um plano alternativo e não confiar demasiadamente numa única via.

O provérbio análogo e mais adaptado para aconselhar crianças é o que dita:
-Úlielela kufula, kuimba ndungue úputu. (confiar é falhar, aconselhar é carência de actividade). Este, tem o mesmo significado real e mesma carga pedagógica que o precedente.
Mas há outros exemplos:2.
_Hima oli tombetá kundenji inji uenjia’co.Numa tradução literal para a língua portuguesa significa que: por mais que o macaco faça piruetas, conhece sempre o precipício.

Sentido pedagógico: Por mais que alguém seja louco está sempre ciente do perigo.
Em educação, as teorias vão e vêm, as experiências se sucedem, mas, por vezes, algumas ideias permanecem e algumas experiências resistem, ainda que de forma parcial, a novas práticas.
Vejamos agora:
_Uateleka sanji li uilo ué.
Literalmente para português quer dizer que: quem cozinha uma galinha também tem vontade de comer carne.
Sentido pedagógico: Um convite para se estar à vontade não deve significar libertinagem.
Em que contexto se aplica?
Lá na Kibala quando se abate uma galinha para uma visita ela deve ser servida completa. Os anfitriões comem o que restar da mesa. O convidado deve porém saber que pelo facto de lhe ter sido servido o frango completo não significa que os anfitriões não gostem de carne de galinha.
Os provérbios em ngoia reflectem também um ensino virado para a experiência.
_Quantos apressados terão sido arrastados pela corrente de um rio sazonal por imprudência?
Aqui a nossa sabedoria dita através de mais um provérbio:
-O luiji ki luezuka lupixile.
(se o rio estiver cheio deixe-o passar).
O ensinamento é que: se alguém estiver furioso deixe-o descarregar toda a sua fúria e aborde-o depois para chamá-lo à razão. Pelo contrário não haverá entendimento. Ou ainda, se se deparar com um conflito deixe primeiro amainar os ânimos. Não seja apressado.



Por: Soberano Canhanga

Bibliografia
-Baptista Mondin: Introdução a Filosofia
-Gabriel Vinte e Cinco: Os kibalas
-Gilda Naécia de Barros: Sócrates -Raízes Gnosiológicas do Problema do Ensino- Conferência na Fac. Educação da Universidade de São Paulo.
-Moisés Malumbu: Os ovimbundos do planalto central de Angola.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

VAIAS À TPA


Nos últimos tempos, confesso, não tenho sido muito dado a ver a TPA pelos ataques de coração que me provoca. Imagem distorcida e programas para fingir. Enfim, uma televisão que já não se justifica para o país que somos.
Ontem, 21 de Fevereiro 2006, infelizmente, porque fiquei sem saldo na multi-escolha tive de recorrer à alternativa (TPA) para assistir ao jogo Benfica/Liverpool ou outro qualquer que decidissem passar. E não foi o do Benfica, equipa com mais adeptos em Angola, dada a ligação Angola/Portugal, que passaram. Foi o do Real/Arsenal.

E o pior não foi apenas isso. Foi notar que no intervalo do jogo o Pivot da “Nossa Televisão” e o analista mais comentaram o jogo que não mostraram do que aquele que foi exibido.

O que gostei mesmo foi a rubrica “isso não pode ficar assim” do Programa Luanda, exibido no "canal bis". Esta, foi bem arranjada e foi um conselho conversado que se impunha. Os utilizadores das nossas praias têm de ser os primeiros a cuidar delas.

Pois claro. Palmas ao programa Luanda e vaias a TPA-Desporto no dia 21.


Por: Soberano Canhanga

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Os nossos Malogrados

Os Nossos Malogrados

Aprendi que morrer é morrer. Partir para não mais voltar. Por isso mesmo, sempre doloroso, independentemente de quem se vai.

Aprendi também, vendo e ouvindo, ao longo dos trinta ciclos que carrego, que há mortes que deixam todos estarrecidos, pesarosos, porque o finado parte forçado. Filhos por fazer, casamento por consolidar, curso superior por terminar, frutos por colher, enfim. Diz-se que foi puxado pelo Diabo e é por isso um malogrado. O malogrado Pedro de Menezes, por exemplo.

Para além desses há os que até dão trabalho à família. Retirá-los do quarto de dormir para o quintal para apanharem o sol, lavá-los, enfim. Depois de longa vida vivida tornam-se novamente bebés. Já se formaram no que pretendiam, trabalharam o que deveriam, procriaram quanto queriam e inclusive já “viuvaram” os próprios filhos, etc., etc. Numa só palavra, “já deram o litro”. É o caso do nosso “malogrado Mesquita”.

Quis a media pública, por ignorância do termo ou por excesso de pesar, dizer, e disse mesmo, nas suas edições que o finado locutor e professor de locução Mesquita Lemos, foi um malogrado, morrendo aos 93 anos. Que malogro!

Intrigado e preocupado com o ensino das novas gerações que aprendem tudo pelo que ouvem ou lhes é dado a ver pela Televisão, fui ao dicionário para tirar dúvida e esclarecer.
Malograr, diz o dicionário enciclopédico alfa, editado em 1992, é: perder-se cedo de mais, prematuramente.

Talvez num país como o nosso onde se morre aos quarenta anos os noventa e três de Mesquita tenham sido poucos. Se assim for, a minha mão à palmatória.


Por: Soberano Canhanga/ 20 Fev.06

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

O ANO DOS FAMOSOS

O ano começou com a morte de Lurdes Van-Dúnem (tia Lurdes para os mais chegados), exímia cantora, com mais de 50 anos de carreira e arte decorativa (sua última paixão). Chorámo-la. E sem que terminássemos a enxugar as lágrimas, lá veio o destino tirar-nos outro homem das artes que foi Beto Gourgel. Trovador, actor de televisão (em Conversas no Quintal), cronistas (no jornal de Angola) entre outros não menos importantes feitos protagonizados enquanto vivo, lá se foi o Beto com toda a sua arte de viver e fazer viver.

Bem vivo estava ainda o outro Beto. O Beto Van-Dúnem para os parentes e para os vários “sobrinhos” que deixou. Osvaldo Serra Vandúnem foi ministro do interior (último cargo que ocupou no governo), Embaixador de Angola no Brasil e Portugal, Chefe da casa civil da presidência da república e membro do Bureau político do MPLA (partido no poder). Enterramo-lo no Alto das Cruzes na sexta-feira, 10 de Fevereiro, depois de nos ter pregado a surpresa uma semana antes no Brasil, após uma intervenção cirúrgica.

Sem que o luto fosse lavado, da África do Sul tocou de novo o sino fúnebre. Morreu Flávio Fernandes. Tenha ou não deixado saudades enquanto servidor público, FF foi um homem da política que já “bateu”. Primeiro pelos feitos, naquele tempo de só bater palmas, e depois pelos defeitos, já nos tempos de “olhos abertos”. A Mais memorável cena foi a exigência que os malanjinos fizeram ao Presidente da República para que não mais o deixasse em Malanje aquando da sua última visita àquela terra onde o finado era "todo-poderoso".

Entre méritos e deméritos contam-se na folha de serviços públicos de FF a pasta de secretário do conselho de ministros, Ministro da saúde, administrador da clínica Multiperfil, ente outros. FF é também tido como fundador do “Cabritismo” moderno, ou seja, pertence-lhe a frase segundo a qual, “o cabrito come onde estiver amarrado”.

Se a partida de Flávio Fernandes significou o cumprimento de uma profecia sua “só quem coloca um cágado num tronco o poderá de lá retirar”, neste caso Deus que deu a vida, a partida, ontem, de Mesquita Lemos, o decano dos jornalistas angolanos e professor de locução de muitos dos nossos mestres, pode ser entendida como “tirar demais”. Em apenas quarenta e cinco dias já quase se perde a conta dos famosos que partiram.

Deus,
-Quantos homens fizeste famosos em tão pouco tempo e que os poderão substituir nas tarefas que muitos deixaram a meio. Ou estamos em presença do ano dos famosos?



Soberano Kanyanga, 16.02.06

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

CAN 2006 uma Autêntica Bicharia

CAN, 25ª edição, só Bicharia

Hoje são, sete de Fevereiro. Egipto e Costa do Marfim jogam, sexta-feira, a final do CAN. Quanto a Angola, já dizem as “más línguas” que a nossa selecção Palancas Negras devia ser rebaptizada, fazendo-se o que os camaroneses fizeram. Escolher vários nomes e submetê-los a um plebiscito. O motivo é simples:

-Olhando para as palancas que ruminaram no estádio da academia militar de Cairo vimos que nem todas eram negras. Brancas, mistas, e até zairenses. Por que não tratá-las por Palancas mistas?

-Olhando agora para o CAN. Fica-se logo com a noção de que a vigésima quinta edição foi uma autêntica bicharada, já que as dezasseis selecções presentes à fase final fizeram lembrar a arca de Noé. A comissão organizadora colocou no mesmo recinto (Egipto) vários bichos e poucos homens.
Comecemos por aqueles que deveriam domesticar a selva.

-Bafana bafana (bravos rapazes) da África do sul: perderam tudo. Contra as águias de Cartago, contra a força nacional e contra os chimpolopolo.

-Warriors (Guerreiros) do Zimbabué: perderam contra as super águias e contra os leões do taranga vencendo no fim as estrelas negras.

-Sili (Força nacional) da Guiné-Conacri: esta força teve força. Ganhou os jogos contra águias de Cartago, chimpolopolo, e bafana bafana.

-Faraós do Egipto: começaram por ganhar os líbios, empataram com os leões do Atlas e ganharam igualmente os elefantes.

Estes humanos iluminados pelas estrelas negras (black stars) do Ghana tiveram que lutar contra:

-Simbas do Congo Democrático: empataram com as palancas, perderam contra os leões e venceram os falcões.

-Super águias (antigas águias verdes) da Nigéria: ganharam as estrelas negras, ganharam os guerreiros e ganharam os leões.

-Chimpolopolo da Zâmbia: venceram os bafana bafana, perderam contra a força nacional e perderam contra as águias do Cartago.

-Palancas negras (mistas) de Angola: empataram com os simbas, venceram os falcões e perderam contra os leões indomáveis.

-Leões de Taranga do Senegal:
venceram os guerreiros, perderam contra as estrelas negras e voltaram a perder contra as super águias.

-Leões indomáveis dos Camarões: venceram os simbas, as palancas, e os falcões.

-Elefantes da Costa do marfim: perderam contra os faraós e venceram os líbios e os bafana bafana.

-Águias de Cartago da Tunísia: venceram os chimpolopolo, os bafana bafana e perderam contra a força nacional.

-Leões do Atlas do Marrocos: empataram com os líbios, empataram com os faraós e perderam contra os elefantes.

-Falcões do Togo: perderam todas as batalhas. Contra as palancas, contra os leões e contra os simbas.

No total dez bicharias distintas em que se destacam três tipos de leões (Indomáveis, de Taranga e do Atlas) e dois tipos de águias (de Cartago e as super de Nigéria).
Sem designação especial estão apenas os líbios de Khadafi.


Por: Soberano Canhanga

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Pergunta do Mês

Doravante teremos uma Pergunta todos os Meses


Por que é que as Mulheres Jovens gastam tanto dinheiro em roupas, mas estão sempre quase nuas?


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terça-feira, janeiro 31, 2006

Quem vai ao Partido, Cda. Primeiro?

Quem sobe ao Partido, Cda. 1º?

Em 2003 um pronunciamento do Cda. Presidente sobre o número de militantes do Partido na província de Luanda, cujas cifras se colocavam abaixo de duzentos mil numa urbe que se diz habitada por quatro milhões de almas terá provocado muitos amargos de boca e muitas cabeças terão rolado. Só assim se explica a queda espantosa do veterano sindicalista Vieira Dias que dirigiu sem concorrência o partido na capital por mais de catorze anos. Pois, uma vez disparado o tiro da largada para o “descanso” no sofá da Vila Alice, viria a cortar a meta o conhecido mobilizador de massas Bento Bento, até então, mais conhecido pela rapaziada do partido pela defesa dos interesses do Estado numa Cervejeira.

Realizada a maior corrida no Partido dos camaradas que foi o quinto congresso de seis a dez de Dezembro de 2003, o recado do Presidente tornou-se extensivo às demais províncias, tornando-se o cavalo de batalha em todos os comité o incremento da mobilização. Mobilizar para vencer os próximos desafios.
-Nada de triunfalismos pré-eleitorais, é preciso mobilizar, meus Camaradas! Terá ordenado o Chefe.

De lá para cá, religiosamente, como as testemunhas de Jeová, a evangelização ou melhor a ideologização passou a ser porta a porta. Cães, gatos, feiticeiros, kapuqueiros ladrões e outros que em condições normais, ou seja, no tempo em que “era do partido quem merecia e não quem queria” não teriam acesso sequer à porta. Todos estes foram chamados a engrossar as fileiras e fazer números que tanta falta passaram a fazer quer no Partido, quer na Jota, quer na Oma.

Ao longo destes anos de andança a questão da mistura de batatas podres com batatas boas foi sempre ignorada ou passada para segundo plano.
_Vamos recolhê-los e educá-los a nossa maneira, é a resposta que mais se ouviu e ouve.

Porém, como a sabedoria não mente, está agora o partido e as suas organizações sociais preocupadas com o crescer da delinquência muitas vezes nas barbas das instituições por causa deste ingresso massivo que visou somente encher a ceara do Sr.

Passados três anos desde o grito da evangelização massiva, é chegada a hora da ceifa, ou seja da contabilização um a um dos actuais Camaradas que militam em todas as organizações de base ou intermédias de modo a refazer a estatística há muito conhecida como mentirosa.

A ideia também kabulada pelos demais partidos com sede do poder é agora a palavra-chave. Contabilizar e mobilizar. Chegam de efeméride em efeméride ordens superiores de fichas de inscrição para a duplicação, triplicação, enfim. Dez por semana ou trinta por cada célula ou núcleo.

Se é certo que as fichas estão a ser preenchidas, também é verdade que muitas delas chegam sem fotografias e documentos que certifiquem a existência real da pessoa mencionada. Assim é que aparecem nomes quase bisados do tipo; Adão Manuel Pedro, Manuel Pedro Adão e Pedro ou mais ainda.

Estando em voga em círculos, ainda que restritos, rumores de tais práticas e como nos diz a sábia tradição de que onde há fumo não terá faltado fogo, porque não inspeccionar o curral e agarrar o boi maluco pelos cornos? E mais.

Um dias destes, passando inadvertidamente em frente de um Comité do Partido notei que um grupo de sete ou oito jovens faziam fugir pela janela semi-aberta de uma sala de reuniões perguntas sobre quem subiria ao Partido.

Tendo-me tocado o assunto por ser jovem como eles parei na esquina que dava a uma taberna e ali mesmo decidi matar a sede e a curiosidade. Enquanto sorvia as GTI’s, apercebi-me então de que superiormente se tinha decido a transferência de jovens da Jota ao Partido para reforçar as estatísticas que não respiravam bem. Dizia o informante que os Cotas queriam subir os números e era preciso transferir jovens da organização. Seguia ainda o jovem informador que no princípio eram só aqueles que já tinham os trinta anos e que permaneceriam na Jota apenas na condição de dirigentes, só que agora os Cotas estão a pedir só.

Ouviram-se também expressões como; - “Mas, Cda. eu já falo dupla militância na Jota a no Partido” e outras perguntas como - “eu ainda não trintei como é que vou”.

Embora a discussão deles me tenha custado seis GTI’s não me lembro ter havido um entendimento sobre a eficácia de se transferirem Jovens só para encher os números do Partido já que em termos de eleitores estar-se-ia a falar de mesma coisa. No Parido, na Jota ou na Oma é tudo MPLA.
De que me lembro foi a voz feminina, única do grupo que perguntava se com que estatística ficariam depois da transferência de todos os jovens com ou sem trinta anos.

Terminados os trezentos kuanzas que trazia, parti no meu caminho, já trôpego, com a pergunta da jovem dirigente a perseguir-me até hoje.
-Afinal, quem sobe ao Partido, Camarada Primeiro Secretário?


Por: Soberano Canhanga

quinta-feira, janeiro 26, 2006

10ENCANTO II


Repouso deitado num sofá já velhinho do Hotel Delta Phiramids de Cairo. Estou na região de Gize, lá onde o vento gasta força contra a imponência das três representações do saber secular egípcio. Vim do estádio olímpico da academia militar egípcia onde os Palancas Negras maltrataram no pasto os ferozes Simbas do ex-Zaire.

Na cama partilhada no quarto de Hotel com um quibalista, solto um grito e um chuto que lhe cai bem no cú. Acordo e noto que era um sonho. Exactamente um sonho que contrariava aquilo que tinha acabado de viver minutos atrás. A cama era o acento do autocarro, o quibalista da fiscalização de Luanda tinha sido trocado por um jovem Malanjino, e pior; os Simbas nem deixaram os Palancas pastar.

Como soldados que perdem o comandante, os Palancas que acabei de apoiar e ver a jogar não fizeram senão fartar-se de falhar golos e deixar que os Simbas trocassem a bola sem a devida oposição que se esperava. Notei também que enquanto no lado de lá, no relvado, o pasto se mostrava complicado, no lado de cá, no cimento e plástico, os apoiantes empurravam os já sem força “antílopes” ao prado, mas sem como.

E no fim, bem no fim, quando, depois do intervalo e os Simbas já sem um compagnion, se esperava pela imponência dos antílopes ruminantes, o pastor não fez mais senão insistir na defesa, causando um desespero total entre os apoiantes que só não atravessaram o campo para pôr o Torra e o Makaba no campo por força dos “alicates faraónicos” disfarçados a apoiantes d’Angola.

Do “Ou vencemos, ou quê...” passou-se ao “Oliveira, fora”, entre outros gritos que não impediram o nosso “recolhimento” imediato ao aeroporto de Cairo e posterior “desterro”. É que ficara por se cumprida a missão dos Palancas, enquanto que mesmo cansados e tristes, os excursionistas se gabavam da missão cumprida, tal como os organizadores da tour que tinham prometido mais dois dias em caso de vitória e regresso imediato se o desiderato não fosse atingido.

Já no autocarro da Ghassist, no 4 de Fevereiro, o pedido das centenas de excursionistas a cairo parecia dirigir-se ao “quem de direito” que nesta altura não estará desatento, a quem repasso apenas o que ouvi.
- "Ou lhe troquem, ou quê".
Por: Soberano Canhanga

terça-feira, janeiro 24, 2006

10ENCANTO



1984, Luanda, bairro Rangel. Oiço todos os dias no rádio a canção que fala “sul’africano um dia pagará...” e aguardo que nos venham saldar a dívida e que me atribuam a minha parte. Já desde 1980, ano em que entrei na pré que me ensinam a seguir o exemplo de Ngangula e transformar-me num homem novo. Já conseguiram Incutiram em mim a amizade pelos internacionalistas cubanos e SWAPOS e a odiar os kuachas, o imperialismo e os sul-africanos que têm de nos pagar.
Estou agora na capital, a tão bem falada lá no mato, a menos de um ano. Todos querem vir, pelo menos uma vez, mas nem todos podem, até porque é preciso ter família que te receba e dinheiro para pagar no carro ou nos autocarros da ETIM e ETP.Antes só conhecia a vida na comuna de Cacuaco através do livro de leitura da 2ª classe que fala do Dudú, o Beto, o Tito e a prima deles Ana que é do Úcua. Por isso dizem que sou mbalo, mas é pura mentira, porque no mato já nasci a ver lâmpadas acesas, água na torneira, carros grandes e pequeninos, muitos tractores, asfalto e até mesmo bomba de gasóleo e bares. No Lussussu há o bar do Olímpio, do Miguel Neto e do Falcão, aquele mulato da Vila que nunca mais deu comida no bar dele.
A diferença é que aqui há estradas grandes com luz nos dois lados e filas de carros que não acabam e prédios compridos que quase falam com Deus. Parece que mesmo juntando a Munenga, a vila de Calulo e o Dondo Luanda é maior. Vamos ainda ver.
Cheguei num Oral das Fapla. Um motorista cacimbado trouxe-nos do Dondo, minha mãe, minhas duas irmãs e eu sem parar para descansar. A outra mana que puxa a caçula já está cá há muito tempo com o tio que quis aliviar a mãe do foge- e-regressa de todos os dias.No caminho quando encontrasse-mos macacos ou outro bicho qualquer o motorista das fapla parava um bocadinho para fazer o gosto ao dedo.
-Ra-tá-tá-tá-trá-trá-tá-ta... e pronto.
Ou matava ou não, ficando rodeado pelo fumo da pólvora, enquanto que as balas vomitadas pala kalache procuravam alojamento num corpo qualquer. Uma árvore, um animal distante, um camponês, ou mesmo um kuacha disperso, daqueles que gostam de ir à estrada para queimar os carros e aproveitar a comida do povo.Bala na câmara, mudança no carro, sai a vuzar. Pior ainda quando não conseguisse matar nada de perto. Vontade dele parecia que era atropelar tudo o que lhe atravessasse à frente, só que eram mais o vento e as árvores que se espreguiçavam na estrada que quase nos matavam a visão.
Já aqui em Luanda desde 1 de Maio, dia de feriado dos trabalhadores, não oiço mais os recuas nem avanças das fapla e dos inimigos. Vejo apenas os migs da fapa que passam mais baixos do que no mato e a arder em voo sem cair. Para além dos autocarros tipo jibóia que andam sem descansar do Baleizão ao Nzamba 1 e Condel, passando pela Cáritas e Mutamba, também conheci novos amigos. Todos eles cacimbados. O Mingo tem oito anos e já fuma kangonha. O Nando aleijado, filho do Madureira bebe kapuca. O Raimundo parece que é bandido do México. Gosta muito de andar com uma faca no bolso e de receber dinheiro aos miúdos que vão à praça. Ontem mesmo lhe bateram porque espetou uma kibiona numa mana que estava a vender sabão cocó no kalissange. Aos sábados quando o comboio de Malanje chega, os miúdos todos da rua e do beco 1, gostam de levar-me à estação dos musseques para me ensinarem a magoelar e a destacar do comboio ou ainda roubar kissungo de cana às tias que estão ‘mbora atrapalhadas.
Estamos agora em Dezembro. Todo o mundo daqui está de férias. Nas lojas do povo há muita comida e também muita luta para ter géneros. Dizem que é o mês da guerra. Fazem muitos tiros contra ninguém e toda a gente se esconde debaixo das camas para não apanhar um tiro disperso.
Hoje, dia 24, todas as casas viraram padarias. Micates, bolos, broas e outros mambos que ainda não lhes conheço os nomes é só comer. Em cada casa, é só passar em frente para ouvir a chamada.-Pioneiro, filho da mana fulana, toma! É bom. Estou a passar assim o meu primeiro dia de fartura. Filhos de caluandas e de recuas, em Dezembro, na hora do natal, parecem todos iguais. Festa como essa, tive apenas quando passei da pré-kabunga para a primeira classe com o pai ainda em vida. Só que não vi quase nada porque me deram maluvu e dormi cedo. Quem se fartou foi a minha família que festejou noite fora. Só que aqui na capital é diferente. A festa é colectiva. Todos têm géneros e fazem as mesmas comidas. Até as donas de Catete ficam com favor e já não mandam mais tomar banho e pôr roupa da escola na hora de assistir ao Robim dos bosques ou D. Quixote na TPA. Se assim continuar, vou mesmo dizer que Luanda é cuiosa.

***
Agora que está a ficar escuro, vou já dormir. Não tarda, a mãe já me disse que é hoje o dia do kibulo....
-Rá-tá-tá-tá-tá-trá...trá..trá. crá-crá. Bum! Bum-bum! Cá-cá-cá. Crácrá-cá.
Céus! O espaço está todo avermelhado de balas incendiárias. Acordo medroso e banhado de mijo. A mãe puxou-me para debaixo da cama. As baratas agitam-se e fazem-me companhia ao lado do bacio enquanto a mãe e as minhas duas irmãs mais novas procuram refúgio debaixo duma velha mesa, já sem cadeiras.
Apesar do susto, puxo na memória a veterania que conservo de me esconder das balas perdidas. De repente, vieram recordações frescas do ataque a Munenga, em Fevereiro, quando o falar umbundu e o francês do meu mano Arnaldo nos salvaram do rapto. Os atacantes indicaram-me para a alvorada porque era o único que já estudava a terceira e sabia ler e escrever uma carta. O Mano que falou francês com o chefe dos inimigos, que tinha botas castanhas e patente de primeiro-tenente, foi indicado para a jura onde também nunca ficou. Lembrei-me então que estávamos num kibidi em plena Luanda. E como se estivesse na viagem dos meus pensamentos a mãe fez-me o sinal de aprovação e enfiei mais ainda a cabeça ao fundo da cama para evitar que uma perdida qualquer me atingisse dos céus.
A minha coragem só foi cortada pela rajada curta largada atrás da casa.
-Rá-tá-tá-tá-tá.
Alguém debaixo da mesa pôs um peido. Era para mim o último suspiro de quem tinha perdido uma batalha, mas não chorei ainda. Preferi esperar que terminasse a guerra. Felizmente ninguém se magoou era apenas o medo.
De repente, a rua antes deserta encheu-se de gente, como no assalto às casas do povo depois da vitória do inimigo e recuo das fapla. Camaradas e vizinhos de todos os becos e ruas trocavam beijos e abraços.
-Epá, chegamos lá. É natal, boas festas pá!
Muitos saíam de casa com as canecas repletas de vinho ou Cuca e Nocal e serviam partilhando com os outros, que diziam apenas igualmente obrigado. A Eka estava difícil devido aos ataques na estrada de Maria Teresa.A emoção vivida na rua, sem igual ao longo da minha capitalização, puxou-me da toca e perguntei bem alto se a guerra tinha acabado, ao que a mãe respondeu:
_Não é guerra. É festa de natal, meu filho.
-Afinal aqui é assim?
_Sim Felito, dorme já.
Tentei o sono, mas foi novamente difícil, pois vieram recordações do enfermeiro Mateteu que vendia kapuka misturada com álcool etílico roubado do hospital e combustível paraaviões que meteu muitos kotas cegos até hoje. Dizem que é por causa da bebida que era pouca na quadra festiva.

Por: Soberano Canhanga

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Iª EPÍSTOLA À TERRA


Amigos meus que ficastes. Graça e paz e votos de que abram os olhos. Eu, por cá, na carne vosso irmão e kamba do munhungo, estou na área intermédia entre o inferno e o paraíso, onde se fazem os julgamentos. Convivo todos os dias com um espírito que teve na carne o nome de Feliscesco Dicopai. Contou-me que tem vários amigos, ainda no activo, na terra, sobretudo por aí onde estais.

O Dico, um dos primeiros a ser julgado, contou-me que fora em vida terrena pobre e filho de um homem beberrão que nem dera conta do seu nascimento, foi por isso criado pela mãe e pelo irmão mais velho já que o pai fora mobília de bar onde gastava tudo.

Vós que andais ainda como ele estejais atentos para que o vosso julgamento não comece na terra.

O Dico, também conhecido por Ditador, contou ainda que na sua primeira audiência com o meritíssimo juiz, que sempre teve ambição pelo poder e que quando o conseguiu jamais o largou até ser despachado.

Tão desavergonhado como eu, em vida terrena, o Dico contou ainda que fez amizade com chinese e coreanos aos quais ele e Paulina sua Esposa imitaram o mando e controlo.
Digo isso porque sei que vós ainda gostais de ser controlados. Mas não contem mais com o Dico que está por conhecer a sentença.

Avisem também a todos os distraídos do munhungo que aqui a vida é boa. Mas custa saber em que bairro se está a viver. Por isso, enquanto estiverdes naquela vida, não vos esqueçais de erguer as vossas casas e que não deixeis que as troquem por vivendas urbanas públicas como as do meu novo amigo Dico.

Quanto aos que se apressam na vida terrena, avisai-os que ainda é cedo. Deixem que os muros se desfaçam por si. Comprem computadores, façam cartas e gritem alto aos Dicos.

Também vos falo sobre o alimento. Comais carne e não bebeis mais vinho que vos aliena. Da cevada aproveiteis apenas a farinha porque está escrito num livro qualquer. Do vinho te embriagarás e não mais te levantarás.

Amigos meus que estais nas terras de kassanje, irmãos na liamba e no Kapuka, não mais perguntem quando termina a independência que roubou as benesses da idade média. Trabalhais e orais sem cessar porque assim fizeram os romenos nos seus templos para que possais ver um novo dia de sol e chuva abundantes.

O Dico que comigo vive em zona intermédia conta bons exemplos de dias longos em que todos trabalhavam sem nada exigir e noites frias sem luz nem transportes. Conta exemplos de despachos que ficaram no papel e de visitantes que substituíram os doentes no leito por causa da doença contraída nos próprios hospitais. Fala também de homens que pensam para outros dizerem e de mulheres coroadas sem honra. O Dico pede também que quando estiverdes no munhungo lembrai-vos das vossas obrigações. Lembrai-vos de que a terra permanecerá para sempre. Sem demora é a nossa vinda.

Amados irmãos amai a fidelidade e quando não poderdes abstenhai-vos da luta corporal.
Abraços de vosso irmão e kamba na carne, Felito So-Bra-do-Caixão.

Luciano Canhanga

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Cânticos anónimos VI

A minha nguvulação

Lembro-me de ter lido, ainda nos meus tempos de undengue, uma coluna sobre os chefes ou chefiação a que os angolanos estão sujeitos. Crónica ou artigo tão bem escrito, dele resta-me apenas a exactidão do colunista em enumerar quantos chefes tinha; uma vintena.

Classifiquei de imediato o jornal como “documento" e escrevi no topo "Não retirar da K”. Mas, quis alguém dar-lhe um destino por mim indesejado.
Busquei e rebusquei tudo quanto pude e não encontrei pista alguma que me permitisse citar com exactidão o autor do texto sobre os chefes. Disseram-me alguns próximos trata-se do Ismael ou Salas. Seja quem for, o meu reconhecimento pela "chuva que provocou o rio".

Quis agora que é chegada a minha vez de nguvular e de ser nguvulado descrever também até que ponto vergo o joelho para reverenciar.
Começo então pela casa da minha mãe que tem por hábito tratar o primeiro Neto saído do filho varão por chefe. Este rapaz de apenas oito anos é quem mais manda em mim. Ora cadernos, ora livros, ora BD, ora concerto de bicicleta, ora computador que ainda não dei, ora etc., ora vídeo game, enfim. Está descrito o meu primeiro chefe, o meu filho.

Ainda em casa tenho a chefe do governo que me exige sempre que quer o reforço do OGC. Entenda-se orçamento geral de casar. A chefe Elsa.

Fora do lar, mal saio, tenho na porta ao lado o chefe da célula e o chefe do núcleo. Se for cinco ruas mais adiante, no Comité Municipal, encontro outros dois chefes: O da Juventude e o do partido. A estes se juntam os chefes da província e seus adjuntos nos dois escalões. Ainda no partido, vou para o escalão nacional e encontro vários chefes. Os chefes dos meus chefes.

No campo académico, tenho o chefe de sala ou delegado e o chefe da associação de estudantes. Como frequento duas universidades, tenho quatro chefes, tirando aqueles que por mérito demonstrado ao longo dos anos de coleguismo ou consideração não deixam de ser chefes.

No serviço, tenho superiores hierárquicos que até ficam chateados quando não se prefixa a expressão chefe ao seu nome. Gostam do epíteto como se de nome próprio se tratasse: Chefe Amélia, Chefé Bibi ou chefe Dê. A estes se juntam o chefe de secção ou editor, o chefe de sector ou Editor-chefe, o director de Informação, e os demais directores que são três.
Ao nível de Estado tenho o chefe grande, a quem todo o país verga o joelho, aliás parte o joelho para a vénia.
Feitas as contas, tenho mais de trinta chefes entre os directos e indirectos.
Posto a reflectir, notei que cada um de nós tem um número exagerado de chefes a quem presta subserviência e sem poder reclamar. Apenas nos cânticos anónimos se ouve algo relacionado à chefiação, sendo o nome do Chefe grande o que mais soa nas canções.

Lembro-me que no tempo do Carnaval da vitória quase todas as canções levavam o nome do chefe. Em Calulo, no Carnaval escolar lembro-me termos cantado “Zuzéduardoé uol’ótuma kiambote, kolenu povué tuondó kina kiavulo...”.
Talvez uma cópia mal feita de um cântico original, talvez não.
Hoje, no candongueiro da Mutamba ao Rangel, um jovem introduziu na conversa ocasional o tema “chefe grande”.
Dizia o cidadão anónimo que “o Chefe inaugura demais”.
Uma senhora da casa dos vinte, mas com aparência de muitos partos pelo caminho, perguntou se “o quê que o presidente inaugurou e que não seria para ele”.

A resposta inesperada pela assistência de doze camaradas de viagem veio do cobrador: “os três bebés”. Levou tempo para me aperceber que o gerente do Hiace se referia ao edifício AAA inaugurado num dia em que o Primeiro Ministro teve de adiar o corte de fita do Instituto de Património Cultural para não chocar com o chefe grande que tinha um dia completo de “tesoura, fita e prato”.

Na conversa de candongueiro que geralmente não tem dono cada um foi apimentando do seu jeito, sempre na ânsia de puxar o auditoria para o seu lado. Já na paragem da cidadela entrou uma jovem que não deixando o “caldo” esfriar rematou:
-Sabem quem inaugurou as casas de banho (urinóis públicos) da Mutamba e do Porto? - O chefe!
Mais gargalhadas e mais banalização do papel dos chefes. Fiquei apenas sem conferir o desfecho da questão sobre “o chefe da casa de banho”, porque para mim a Cáritas tinha sido o fim da viagem.
Fiquei porém, com a lição de que é importante fazer-se uma boa nguvulação e boas inaugurações, porque enquanto for chefe lá em casa, da minha mulher, do meu filho e do minha irmã com quem partilho os cantos da casa, pode acontecer que me deêm champanhe e tesoura para cortar a fita no dia da troca da sanita que já não tem cor.
Por: Soberano Canhanga

terça-feira, dezembro 20, 2005

Cânticos anónimos V

A verdura da kamanga


Hoje, (03.12.2005) a minha viagem até que foi de avião. Preferia que fosse de candongueiro para ouvir os inúmeros cânticos anónimos possíveis somente em casa de ninguém. Desta vez não. A distância que separa o Atlântico do nordeste do país tirou-me o gostinho que criei pelos mujimbos.
Fui ao terminal da SAL onde um trabalhador de uma diamantífera “despacha” os seus colegas e visitantes da empresa.
Um manifesto em lista dá acesso ao talão de embarque. Até aqui nada mau. O meu espanto foi, porém, saber que o abandono da sala de espera nunca é anunciado. Os passageiros têm de cercar “o homem da lista” para não perder o voo porque o "mwata" pode, quando quer, pôr outros nos lugares dos distraídos. E aconteceu mesmo com alguém que até conheço.

Quando comentei o que vi com um frequentador da Lunda-Sul a resposta seca foi:
_“Aquilo não é Angola, é muito concorrido e não se avisa ninguém”. Fiquei buamado.

Uma vez próximo da “mina”, já em território katchokue, deparei-me com um outro espanto.
- Um enorme planalto a esbanjar o verde.Um verde selvagem composto apenas de capim e árvores. Não se via, quer pelo ar, quer por terra, uma bananeira sequer.
Mais uma vez perguntei o porquê da incultura dos campos, e, novamente ríspida e pronta a resposta dos habitantes não se fez demorar:
-“Habituaram o povo a viver da kamanga e já ninguém quer esperar pela colheita”.

O canto que se canta em qualquer canto das Lundas é a kamanga, a ocupação das terras ancestrais pelas empresas e garimpeiros nacionais e estrangeiros, a extinção da agropecuária e a condenação à fome dos idosos, deficientes e mulheres que têm na prostituição e no comércio informal o único ganha-pão.
Vivi os dias que vivi, comi o que comi, mas tudo de fora. O pior é que nem uma pedra vi.
Ouvi no cântico dum idoso ovimbundu que “quando eles chegavam destruíam as lavras e até os bairros para cavar kamanga… quando acabavam deixavam tudo assim (aberto), mesmo quando íamos longe e eles descobriam que tem kamanga vinham de novo… até que parávamos também”.
Noutro refrão captei que “aqui escola para os filhos não tem, hospital também não. Medicamentos, mesmo, é tudo na praça da cidade. A pessoa pede emprego no governo também não tem. Se não tem filho que trabalha na kamanga, você fica só assim mesmo”.
No mercado paralelo de Saurimbo (Saurimo) vozes desafinadas desafiavam o sol e a chuva, que cai sem avisar, com outros cânticos à memória das filhas.
_"Assim que está a escurecer, daqui a pouco vão já começar a chegar das minas. É assim todas as sextas e sábados. Se trouxessem ainda comida era normal. É só mesmo disbunda e SIDA. É só mesmo assim…”.
Como o fel que inadvertidamente se mistura à jinguinga, em hora de fazer contas com a lombriga, sorvi o desabafo e deixei-o comigo. Somente comigo.
Uma vez no ar, de regresso a Luanda, deparei-me novamente com o verde que se espreguiça num vale sem que alguém se lembre em botar-lhe um machado, uma enxada ou uma catana para dar outro verde que pinte e encha os pratos vazios. "Tanto verde para tanta fome é realmente muita kamanga".

Por: Luciano Canhanga

quarta-feira, dezembro 14, 2005

HOJE NÃO HÁ ESCOLA

(Cânticos anónimos IV)


Há muito que não desafiava a distância numa viatura. Viajei, esta semana, de carro Luanda/Munenga/Lussusso, mais de 290 km.

Zangado com os solavancos na picada, o carro gritava ao vento, no seu roncar, a angústia que lhe provocavam as crateras no moribundo asfalto. O serpentear do caminho multiplicava as indignações, com o desandar das coisas que vira intactas na meninice.

Antigos bairros abrigam apenas fantasmas e nas “cantoneiras” da junta de estradas, feitas escolas no calor da revolução, restam apenas o soar do chicote largado pela mão leve do professor de quarta classe, sem a pedagogia recomendada pelo checo Comênius, e as marcas de balázios de homens sem economia. Tentei a pergunta sobre o paradeiro das carteiras e tal como na descuidada infância, na pré, a resposta veio gritada:
-“Hoje não há escola”.
Frase que já não ouvia há muito, desde que deixei a iniciação escolar ou pré Kabunga, quando desabituados ainda com a vida escolar festejávamos as ausências do professor, cantando em coro e correndo os dez quilómetros que separavam a escola da casa.

“Hoje não há escola” é também estrofe dum cântico anónimo solto pela garganta duma angolana iletrada que na inauguração do país ficou sem os filhos nos afazeres agrícolas, e ela mesma, sem tempo para o jantar do marido, gasto na alfabetização. Desse tempo apenas a nostalgia das primeiras lições do a, mbê, cê, ndê naquela garagem da fazenda Israel do Libolo.

Vinte e cinco anos passados, já não é fazenda aquele campo de ananases, girassol, laranjeiras e bananeiras. Tudo desapareceu.

Os pais de outrora transformaram-se nas tumbas neófitas que ladeiam o caminho. E o pior é que hoje “não há escola” de verdade. Não é apenas a ausência da educação formal com o professor Jorge Kaconda, o Giz e o Chicote para a burrice na matemática, mas também a escola informal do Velho Chica Yango no ndjango.

Desapareceram os idosos e com eles as anedotas, as canções, as fábulas, as Estórias e a História do meu povo, o nosso povo. O livro das linhagens escrito na memória e assim reproduzido sem tinta e papel.

Visitei o largo que acolhia os nossos serões à volta da fogueira quando fossem boas lenhas. Hoje só fumaça. Lenhas que não fogueiam, conservando apenas nas cinzas o lume para o amanhã incerto, sem isqueiros de fricção, nem gasóleo dos tractores queimados pela guerra.

Desesperado, recuei para Munenga, a sede comunal. Ali, onde em Setembro de cada ano se juntavam todos os “comunas” para o exame final da quarta classe. A antiga sede do posto administrativo reclama reconstrução e já não é cerâmica a casa da montanha. O Sangue Frio desapareceu com o seu bar e o Ferreira, ai que pena! Do Ferreira ficou apenas o nome.

Procurei então pelo administrador para que me indicasse a escola geral. Queria saber se restavam ainda retalhos da minha infância escolar. Novamente a resposta duma anciã:
-"Filho, hoje, já não há escola".


Conclui então que os ditos do passado não morrem. Conservam-se apenas noutros estados, noutras falas do mesmo povo, noutras vestes do mesmo corpo. Não há, realmente, escola que chegue para tanta maternidade!

Soberano Kanyanga, 14 Dezembro 2005

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Cânticos anónimos III

“Ai ué, me tarracha só...”, “Fica só comigo, só mais um pouquinho...”,etc. São cânticos conhecidos e que geram outros Cânticos anónimos quando reproduzidos de forma ensurdecedora a céu aberto e dançadas em hasta pública como a ignorância ordena.
Passei hoje, depois de uma aula de moral, no meu bairro, pelo largo adjacente à Emissora nacional. Notei que é um lugar onde as campanhas de civismo sonoro gritadas na rádio, televisão e nos jornais continua a encontrar o seu mais directo violador.

A céu aberto e com robustos altifalantes virados a todos os ventos, os homens do civismo que promovem nos media o uso apertado de “decibês” em casa, fazem na rua o pior. E pior ainda porque promovem também a bebedice.

Há muito que assisto à cena e oiço anónimos reproduzindo as músicas e outros cânticos de teor atentatório à moral pública.

Decidi então avançar. Para as bandas do Catambor ver um velho amigo. O Velhinho. Dois passos depois, cruzei com as preces de um idoso na casa dos setenta, mais ou menos. O meu cálculo é apenas pela forma trôpega que não evitou o desabafo perante ao que assistia.
_ “ Perdoe-me Deus, mas estes homens já não ouvem mais”.

O ancião anónimo olhava para as cores conhecidas dos promotores do civismo, as mesmas que revestiam o largo barulhento. E não era só na baixa. O Muceque todo estava inundado de maratonas ruidosas.
-“Que civismo meu Deus, afinal estes homens são assim?”
- Outra interrogação duma beata que se dirigia ali ao lado, no Reino de Deus Rico.

Casada com o barulho a promoção cívica estende-se à tarracha, a dança do esfrega-esfrega, exercitada no descampado, também conhecida por irmã gémea do strip tease.
_“Esta dança pornográfica ganha corpo e ninguém move palha?”- "Issunji!" Conclui a beata anónima.


No meu andar e ouvir despreocupado soube depois que um jornal Capital(ista) lhe tinha dedicado páginas de reflexão que aguardam ainda pela mão leve do “quem de direito”.

À boca da Igreja idosas conservadoras suplicavam se “ vamos continuar a ver nossos filhos e filhas a se aquecerem o “matrindindi” à nossa frente ou se vão indicar locais apropriados para a moda deles”?

Sem chatices, o jardineiro do hotel Estrelas Lavadas cantava o seu canto, cachimbando malambas e recordações de um tempo bom que o tempo levou.

_“É Revolução, kota”, gritou um rapaz que respondia ao amigo sobre o título do filme em exibição na casa de vídeo, ali naquele Muceque insular do Alvalade.

E eu, sem tempo ainda para a reflexão dos cânticos ouvidos, segui o meu caminho até à casa que o Velhinho me tinha mostrado. Felizmente, já lá não vivia. Estava empregado numa petrolífera.

Por: Soberano Canhanga.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Canticos anónimos I

Cânticos anónimos I

Ontem mesmo andei num autocarro, (transporte público urbano). Há muito que já não o fazia, pois tinha um carro velho que dava para as minhas curtas saídas.

O meu espanto foi que nos autocarros cobram-se valores mas não se passam os bilhetes de passagem. Ainda ontem (27.11) andei num candongueiro (espécie de táxi com destinos predeterminados, mal conservados e com pessoas enlatadas). Todos os passageiros, dos mais variados extractos da sociedade, reclamam o andar inverso das coisas em Luanda e no país.

Ruas feitas pocilgas neste tempo chuvoso, lixo nas ruas e mercados paralelos, aos olhos cegos dos governantes, delinquência aberta nas "barbas da polícia", e pior, ninguém faz nada porque ninguém vê nada! Os que deveriam ver e fazer, andam em carros luxuosos e com vidros fumados onde nem o cheiro nauseabundo penetra, nem os saltos os incomodam. O resto é Selva!

Parece-me que vivem duas categorias de pessoas em Angola. Os Homens (governantes e clientes) e os Selvagens (nós os simples mortais).

Uma coisa parece ser certa, já ninguém suporta a degradação da vida em Angola!!! Todos os dias há novos contratos de concessão de exploração petrolífera. Mais kimberlitos descobertos. Mais carros luxuosos dão entrada nos portos de Luanda, Namibe e Lobito. Porém, mais sem tecto nascem, mais desempregados, mais crianças morrem na pediatria por falta de medicamentos e camas, mais jovens se entregam à prostituição e äs drogas.
É absurdo notar que entre as jovens já é lema "prostituir-se pelo menos uma vez para subir na vida".

Estas são as crónicas de viagens ou canticos anónimos do povo, gritados aos ventos soltos nos autocarros públicos, nos candongueiros, nos bares, nas casas de liamba, enfim, onde o povo desabafa...
Essas crónicas que pretendo ver transmitidas ao grande público, sao a descricao de tanta anormalidade a que assistimos todos os dias. Quem as quiser ouvir é só meter-se num autocarro, num candongueiro ou num prostíbulo.
O caricato é que os próprios "louva corte" também já reclamam.

Por: Soberano Canhanga

quinta-feira, dezembro 01, 2005

CÂNTICOS ANÓNIMOS II


Tenho andado agora nos candongueiros (táxi), nos autocarros públicos e a pé. Não porque me apraza, mas porque fiquei sem o meu “rolante”, cansado de tantos remendos. Andar a pé e de candongueiro até dá gozo. Vive-se a vida verdadeira do povo.

Cruzo todos os dias com zungueiros, gatunos de telefones, estivadores em mercados paralelos, biscateiros de toda a sorte, Doutores de todas as áreas, caídos na desgraça, militares, polícias, enfim, todos os que não andam em carros luxuosos e com vidros fumados.

Oiço todos os dias músicas, ou melhor cânticos, alguns alegres, bafejados pelo vinho entorpecente. Outros de angústia causada pela vida que não anda.

Hoje, do aeroporto para o meu local de serviço, meti-me num azul e branco (táxi) onde o cântico era sobre as estradas que dão acesso à baixa.
"Muitas obras, estradas sempre estreitas, muito “engarrafamento” e notícias que só falam sobre milhões na comunicação social, quando o povo definha".

Vi também um coronel na conversa e conclui que os generais só não falam porque ainda não os ouvi. MAS QUEM SABE…

Do Hospital militar ao mercado dos “congolenses” (assim se diz ao contrário de congoleses que seria ideal) andei num autocarro da TCUL. O cântico foi sobre a vida difícil que “o povo leva”. Ouvi homens e mulheres a reclamarem a destruição pelo governo (?) do mercado do ASA Branca*, no Cazenga.

Ouvi dizeres como:
-" O povo vai morrer de fome".
- " A vadiagem e a droga vão aumentar".
-" Os assaltos vão piorar ".
-" Esse governo vai nos matar", etc.

Ouvi também argumentos como:
-“se eles passavam a vida a biscatear, vender qualquer coisa ou mesmo indicando o caminho para a compra disto ou daquilo em troca de um cem ou cinquenta, agora que acabaram com o mercado, a coisa vai ficar complicada”.

Ouvi ainda interrogações várias no mesmo cântico tais como:
- Como é que vamos fazé?
-Onde é que vamos cume?
-etc.

Ouvi outros cânticos anónimos na viagem, também de táxi, dos congolenses ao mercado da Estalagem e deste à Boa fé, ida e volta.

Ouvi apelos a “quem de direito” em expressões como:
-Mas quê que anda então fazé o quem de direito?
-Mas o presidente tá então a fazé só o quê, que não toma ja medida?

Ouvi depois argumentos como:
“o próprio presidente sabe”, e insinuações como:
“Deixa-lá, no Zaire também foi assim, mas chegou o dia”.

Um jovem demonstrando atrevimento ainda rematou:
-“ Isso só muda mesmo quando o kota bazar. De velhice ou de eleição”

*O mercado do ASA branca chamava-se "Ajuda o Marido" e foi assim rebaptizado em 1987 quando a TPA passava a novela brasileira Roque Santeiro. Na sua missão de ajudar o marido naquele tempo da ração planificada, ombreava com o também extinto " Tira biquini" ou "Cala a boca" e a praça das Corridas, actual "Tunga-ngo" (em kimbundu = constrói só). A extinção do Cala a boca deu lugar ao surgimentos dos mercados dos Kuanzas e do Roque santeiro.

Luciano Canhanga