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sexta-feira, setembro 11, 2026

ENTRE COLINAS E MEMÓRIAS NA ROTA WIZI–MAKELA

Viajar pela estrada que liga Wizi a Makela ma Zombo é mergulhar numa paisagem que mistura tradição e um aceno à "modernidade. O percurso mostra aldeias rurais que se alinham com harmonia, algumas lembrando as construções massivas das centralidades urbanas. Nsoso, Zulu, Damba, Kibokolo, Bwanga, Kisolongo, Kayndu Antigo, Kasaka, Kipaka, Kilanda e Bungu são exemplos vivos dessa arquitectura que se impõe ao longo da rota.

Logo pela manhã, com o sol ainda preguiçoso e o nevoeiro cerrado, homens e mulheres caminham com enxadas e catanas nas mãos, muitas vezes com crianças às costas e outras correndo em passo miúdo. “Vamos para as lavras”, dizem, enquanto seguem em silêncio ritmado, compondo um quadro humano que se repete diariamente.

As casas de adobes queimados emprestam cor de tijolo à paisagem. Quando rebocadas e pintadas, lembram as chamadas “casas dos colonos”, construções definitivas que marcam a memória arquitectónica da região. A rodovia, traçada em localidades montanhosas, corta colinas ou se ergue no topo delas, oferecendo curvas impressionantes e perigosas. “Aqui é preciso prudência, senão a estrada cobra caro”, alerta um morador, referindo‑se às curvas herdadas do antigo traçado das caravanas de carregadores, a famosa “estrada do cavalo”.

Há mérito no trabalho de eliminação das ravinas que afectavam a rodovia Negaje–Makela. Embora algumas ainda se avistem, de elevada profundidade e complexidade, são hoje poucas. “Já não temos medo de ver a estrada a desaparecer com as chuvas”, comenta um agricultor satisfeito.

A relação entre vivos e defuntos é intensa. As campas erguem‑se junto às residências, como forma de reverência. “Eles estão sempre connosco”, explica uma anciã, mostrando que a memória dos que partiram permanece no quotidiano dos vivos.

Ao contrário de outras bwalas, aqui não se vêem casas cobertas de capim. A rota Wizi–Makela distingue‑se por aldeias de alvenaria, ladeadas por abacateiros, safueiros e palmeiras. Contudo, as últimas árvores estão descuidadas: sem poda, sem colheita de dendém, acumulando ramos secos. “Se alguém acender fogo, a palmeira morre e leva os bichos que nela vivem”, lamenta um jovem, referindo‑se à “malavueira” que já não recebe os cuidados de outrora.

Entre curvas e colinas, casas alinhadas e memórias vivas, lavras crescentes e palmeiras esquecidas, a estrada Wizi–Makela permite ao viajante um retrato da vida que pulsa no interior do Wizi, onde cada detalhe revela a convivência entre o passado, o presente e o futuro que se desenha com o trabalho e suor de todos os dias.


Publicado pelo Jornal de Angola a 06.09.2026

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