Translate (tradução)

terça-feira, setembro 01, 2026

BUGANVÍLIAS COLONIAIS MARCAM PRESENÇA EM NANA KANDUNDU

A viagem de Lwaw a Kazombo e vice-versa, nos dias 29 e 30 de Junho, levou-me a atravessar Nana Kandundu, lugar que se ergue discreto no sertão, mas carregado de memórias. O silêncio quase absoluto da telefonia acompanhava o percurso, como se a própria terra guardasse segredos antigos.

Ao entrar na vila, os escombros de casas coloniais, ainda ornados por buganvílias que resistem ao tempo, revelavam a marca de um passado em que ali se desenvolveu uma vida intensa, centro de decisões administrativas, de trocas comerciais e de convivência humana.
Nana Kandundu já foi Capitania-Mor em 1909, passou ao regime militar em 1912, transformou-se em posto civil em 1919 e, em 1922, chegou a ser sede da Circunscrição do Alto Zambeze, antes de perder esse estatuto em 1927, quando Kazombo retomou a centralidade. Cada mudança deixou cicatrizes e memórias que ainda hoje se percebem nas ruínas, nas velhas construções e na atmosfera melancólica da localidade.

Após a independência nacional, e sobretudo durante os longos anos da guerra civil, a região foi progressivamente mergulhada no isolamento. A distância dos principais centros urbanos, a destruição de infraestruturas e a precariedade das vias terrestres transformaram a região do Alto Zambeze num dos territórios mais esquecidos de Angola. Em muitas épocas do ano, chegar a Nana Kandundu equivalia a uma autêntica expedição, sujeita às condições das picadas e à imprevisibilidade das chuvas. O abandono forçado pela guerra interrompeu dinâmicas económicas, travou o crescimento populacional e contribuiu para a degradação de patrimónios que testemunhavam a importância histórica da localidade.

Essa condição de isolamento continua a ser um dos maiores desafios da região. Contudo, já se observam sinais de mudança. A asfaltagem da Estrada Nacional 250, no troço Lwaw–Kazombo, está em curso e constitui uma das mais importantes apostas para a integração territorial do Muxiko Leste, encurtando distâncias e facilitando a circulação de pessoas, bens e serviços.

Neste novo contexto administrativo, a escolha de Kazombo como capital da província do Muxiko Leste representa uma oportunidade histórica para todo o corredor territorial que liga Lwaw a Kazombo. Situada entre estas duas localidades, Nana Kandundu poderá beneficiar da sua posição geográfica estratégica, deixando de ser apenas um ponto de passagem para se afirmar como um polo intermédio de serviços, comércio e valorização cultural. O próprio Governo Provincial tem destacado Nana Kandundu como um território de elevado potencial histórico, turístico, agrícola e cultural, sublinhando o seu papel na nova configuração administrativa da província.

Nana Kandundu possui um peso simbólico muito superior à sua dimensão demográfica. O município é reconhecido como um importante centro da cultura luvale, acolhendo referências tradicionais de grande prestígio, entre as quais a Rainha Nyakatolo, considerada uma das mais altas autoridades tradicionais dos povos Luvale

Hoje, a vila é pequena, mas não desprovida de sinais de esperança. Um pouco adiante das ruínas coloniais surgem escolas, postos médicos e outros equipamentos sociais, fruto do esforço do Estado, das autoridades locais e de cidadãos que continuam a investir na terra onde nasceram ou à qual regressaram. São sinais discretos, mas firmes, de crescimento e persistência.

O lema provincial “União, Trabalho e Desenvolvimento” encontra eco em Nana Kandundu. A localidade, elevada recentemente à categoria de município da província do Muxiko Leste, simboliza simultaneamente memória e futuro. Entre buganvílias que florescem sobre paredes em ruínas e novas infraestruturas que despontam no horizonte, o visitante percebe que a história não terminou. Pelo contrário: depois de décadas de esquecimento, Nana Kandundu parece reencontrar o seu lugar no mapa do desenvolvimento regional, alimentando a esperança de que as estradas, os investimentos e a nova dinâmica provincial lhe devolvam parte da importância que outrora conheceu.
=
In: Viagem a Muxiko Leste. Texto publicado pelo Jornal de Angola de 19 de Julho de 2026.

Sem comentários: