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sábado, setembro 26, 2026

RAÍZES URBANAS

Em uma rua movimentada do casco urbano de Malanji ergue-se diante dos olhos uma casa colonial em ruínas, testemunho silencioso de tempos idos. À entrada, sobre a varanda que outrora se abrigava sob uma pequena pala, germinou uma semente de mulembeira. A chuva, a poeira acumulada e os tijolos húmidos ofereceram-lhe o berço improvável. Sem mãos que limpassem ou cuidassem, a árvore cresceu, descendo raízes firmes até ao solo, como se buscasse reconciliação entre o alto e a terra. Hoje, a borracheira impõe-se, abraçando as paredes frágeis e ameaçando o que resta da estrutura. É a natureza a reclamar o espaço que o homem abandonou.

Mas esta não é uma história isolada. Andando com mais atenção, vê-se que se multiplicam casas coloniais desabitadas, entregues ao tempo e à ruína. São património sem dono, ou talvez património esquecido? O olhar interroga: por que permanecem assim? Será que o mercado imobiliário pouco atrai? Ou que os terrenos urbanos não despertam interesse suficiente para serem reabilitados?

O paradoxo é ainda maior quando se observa que, além das casas abandonadas, existem terrenos devolutos em muitas ruas do interior da cidade. Espaços onde nunca se construiu absolutamente nada, que permanecem parados, como cicatrizes abertas no tecido urbano. 

Esses terrenos, se aproveitados, poderiam melhorar o rosto da cidade, dar lugar a praças, escolas, centros culturais ou habitações dignas. O vazio que representam apela ao reforço de políticas de ordenamento e completamento de uma urbe desenha a régua e esquadro.

A imagem da borracheira que nasce no alto e finca raízes no chão é poderosa. Representa a persistência da vida, mas também o esquecimento e a inacção humana. Cada raiz que se estende é um lembrete de que o abandono abre caminho à natureza e que o tempo, paciente, transforma ruínas em paisagens vivas.

Imagens como essa de Malanji, mui presentes em antigas fazendas, podem ser vistas em outras cidades e vilas. É tempo de lançar mão à obra, restaurando, vendendo a quem possa dar melhor aproveitamento ou doar a quem possa dar serventia.

E, quanto à serventia, há ainda outra interrogação: que utilidade é dada à Central Termoeléctrica de Malanji, junto ao rio que empresta o nome à urbe, tendo em conta que Malanji é actualmente a província de Angola com maior produção de energia hidroeléctrica em Kapanda e Lawuca? Se a província já se abastece de fontes hídricas abundantes, não seria racional transferir as turbinas e os depósitos de combustível da central para regiões como Muxiko Leste ou Kwandu, províncias neófitas no ordenamento jurídico angolano e com enormes carências energéticas? Tal medida poderia transformar o que hoje é redundância em solução, levando luz e desenvolvimento a zonas ainda mergulhadas na penumbra.

Mahezu, ngana!

Publicado pelo Jornal Pungo a Ndongo, a 31.07.26

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