Governantes idos de Lwanda e do Muxiko Leste, ao lado dos responsáveis da mineradora Anglo American, formaram uma roda. Os oradores, escolhidos por voluntariado ou consenso, procuravam dissipar dúvidas: as boas‑vindas, as apresentações, as demandas e as rotinas do dia passavam em revista antes da partida para o campo.
Três línguas se alternavam: o Lunda‑Ndembo da terra, o português oficial e o inglês dos empresários e colaboradores zambianos e sul-africanos que ajudam a perseguir o copperbelt, essa faixa de cobre que atravessa Zâmbia, Congo e Angola, e que a Anglo American tenta inscrever no mapa mineiro nacional.
Confirmando os dados, na região também se fala o Luvale, o Cokwe e o Ngangela, línguas bantu que convivem com o português, havendo adultos e crianças que pouco experimentam a língua veicular angolana. Como observa o linguista Ezequiel Pedro José Bernardo, a realidade multilingue de Angola exige políticas que valorizem as línguas nacionais e reconheçam a diversidade como riqueza e não como obstáculo.
E tudo correu bem. Sem dúvidas, apenas o tempo se via triplicado. Mas, como repetem os da indústria extractiva, “nada é mais precioso do que a segurança das pessoas, dos equipamentos, do ambiente e das finanças”. A frase ecoava como um provérbio moderno, lembrando que o cobre, por mais valioso que seja, não supera a vida. Ainda assim, se encontrado em quantidade significativa, o cobre poderá transformar a região: gerar emprego, dinamizar a economia local e nacional, abrir caminhos de desenvolvimento. Os trilhos abertos para prospecção já servem os habitantes, permitindo circulação antes impossível; árvores cortadas para acessos são aproveitadas como lenha e carvão; pontes, antes inexistentes, facilitam hoje a travessia de rios e riachos, aproximando comunidades.
Foi mais uma experiência, um dia bem passado com prospectores de cobre, debaixo das árvores frondosas e do chilrear permanente dos pássaros. E, como diria Ruy Duarte de Carvalho, “há lugares onde a língua se faz ponte e o trabalho se faz memória”. Cifwe, naquela manhã fria de Julho nascente, foi exactamente isso: um espaço onde o rigor da mineração se encontrou com a pluralidade das línguas, a serventia prática das obras e a persistência da esperança.
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In: Viagem ao Muxiko Leste

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