Há episódios na vida que não se apagam. Não por serem grandiosos, mas por serem decisivos. No meu caso, foram duas cabeçadas que me ensinaram, em momentos distintos, o significado de protecção e de afirmação.
A primeira não foi minha. Foi da Josefa. No Kaputu da minha infância, na Rua da Ambaca, os bilos eram mais do que brigas de meninos — eram mecanismos de classificação social. Através deles se decidia quem mandava, quem resistia e quem precisava de protector. Quem não dominasse a basula, o kafrique ou outras artes da peleja tinha de escolher bem em quem se encostar.
Eu não era dos mais fortes, embora houvesse outros piores do que eu. Talvez por isso tenha aprendido cedo a observar os nomes que pesavam no bairro. Entre eles, o primo Ngoçalo, temido nas disputas do Kilwanji, e o Man Páscoa. Mas, verdade seja dita, quem realmente resolvia as coisas não eram eles. Era a prima Josefa.
Num desses dias banais, em que a brincadeira e pode terminar em provação, o Miguel, já feito jovem, katetense, espírito inflamado, decidiu fazer-me seu batuque. Corri. Como qualquer rapaz que conhece os próprios limites. Na tentativa de me derrubar, caiu ele próprio. E ali a coisa piorou.
A queda feriu-lhe o orgulho. E orgulho ferido, no Kaputu, não ficava sem resposta.
Ao entardecer, alguém me avisou: ele esperava-me na esquina. Caminhei com o medo colado aos pés, como poeira que não se sacode. Foi então que Josefa surgiu, informada, pronta e determinada.
— Hoje Kalulu se defende.
Havia ali mais do que coragem. Havia identidade. Um sentido de pertencimento que não se explicava, mas defendia-se.
Miguel apareceu, agarrou-me. E, antes que o destino se cumprisse, Josefa antecipou-se. A cabeçada foi seca, certeira. Miguel caiu. O confronto acabou ali, sem discurso e sem cerimónia.
Naquele dia em diante, não ganhei apenas protecção. Ganhei um tempo. Ganhei o direito de crescer sem a marca de uma humilhação desmerecida e a prima Josefa tornou-se uma lenda.
Dizia-se no bairro:
— Não te metas com a Josefa. Aquela tira dentes com cabeçada.
A segunda cabeçada levou anos a chegar. E desta vez, longe da prima Josefa.
Foi numa aldeia do Lubolu, chamada Bangu-de Kuteka (nome traduzido do Kimbundu local para Português), já no final da década de oitenta, num contexto mais duro, onde a vida deixava menos margem para inocências. Foi ali que o nome de Paulo Kambangela se impôs.
Kambangela — a cigarra, talvez pelo grito, talvez pelo temperamento — carregava uma fama construída a pulso. Desde os tempos em Kitumbulu, ainda miúdo a correr atrás de macacos no milho, até se tornar o lutador mais temido de Kuteka. Ágil, astuto, implacável.
Dizia-se dele:— A luta de Kambangela só acaba quando ele ganha.
E pior: se fugisses, ele perseguia. Se resistisses, ele esperava. Em Kambangela, a luta não era jogo. Era predestinação.
O destino, que gosta de costurar fios invisíveis, colocou-me no seu caminho através de uma herança que nem era minha: o ódio que ele nutria pelo seu antigo padrasto, meu avô paterno.
Eu era ainda um adolescente, aprendiz de costura, mais habituado a bainhas do que a punhos. Estava a trabalhar quando ele chegou. As provocações vieram primeiro. Depois, o insulto. E, sem transição, a agressão.
Tentei explicar. Não adiantou. Tentei evitar. Não foi possível. E, pela primeira vez, ao contrário da cena do Kaputu, não havia ninguém entre mim e o golpe.
A multidão estava, como sempre, presente: uns com vontade de intervir, outros com sede de espetáculo. Mas ninguém pisaria aquela linha. Todos temia Kambangela que queria fazer-me batuque.
E naquele instante, percebi algo essencial: havia momentos na vida em que não se herda protecção. Constrói-se.
Quando ele me pressionou, quando pensei que ficaria preso àquela força maior, aconteceu algo inesperado: ergui-me com ele às costas. O corpo reagiu antes do medo.
Já fora da sala, ele preparava o seu método: jogo de pernas, batidas no peito, golpe final.
Mas, dessa vez, eu não fugi. Agarrei-o pelos colarinhos, algo que não lhe passou pela cabeça. Nunca alguém ousara desafiá-lo àquela maneira.
E fiz aquilo que a memória guardava, silenciosamente, desde o Kaputu. Uma cabeçada.
O impacto levou consigo mais do que o equilíbrio de Kambangela. Levou um mito. Ele caiu. E com ele, caiu a ideia de invencibilidade que o rodeava.
O silêncio que se seguiu era diferente daquele da infância.
Ali, não havia lenda a nascer. Havia uma a terminar.
Mandaram-me fugir. Diziam que ele voltaria, que buscaria vingança. Mas algo já tinha mudado nele e em mim. No dia seguinte, no meio de uma caçada, evitámo-nos. E nunca mais lutou. Kambangela, o invencível, parou ali.
Hoje, quando olho para trás, vejo duas cabeçadas e um percurso. A cabeçada de Josefa salvou-me quando eu não tinha ainda ferramentas para me defender. Foi gesto de amparo, de pertença, de comunidade.
A que desferi a Paulo Kambangela salvou-me de permanecer preso a esse lugar de fragilidade e libertou a aldeia de um troglodita que a todos humilhava. Foi gesto de ruptura, de crescimento e de afirmação.
Entre uma e outra, a vida ensinou-me que todos precisamos de uma Josefa em algum momento, mas chega o dia em que temos de nos tornar, para nós próprios, essa força que intervém.
E, curiosamente, foi um gesto bruto, quase animal, que me ensinou a mais profunda das lições humanas: há batalhas que nos são poupadas e há outras que nos são confiadas.
As duas batalhas, à sua maneira, salvam-nos.

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