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segunda-feira, junho 15, 2020
A MORTE ENTRE OS AMBUNDU DO LUBOLU E ARREDORES
segunda-feira, junho 08, 2020
DACTIZAÇÃO COM RECURSO À ORALIDADE
Percorrer o interior de Angola equivale a descobrir mistérios que no contexto europeu podem parecer triviais. É encontrar, por exemplo, cidadãos cuja data de nascimento se desconheça, sendo aquela achada em seus documentos oficiais um cálculo aproximado achado/convencionado pelo agente do serviço de identificação civil ou dos parentes mais crescidos. Não se espante, pois, se se deparar com a resposta “não sei” ao perguntar a um aldeão “quantos anos tem”?
O meu primo[1] (irmão de todos os momentos) Sabalu-a-Soba e eu sempre tivemos dúvida em relação ao ano de nascimento do outro. Ele, sete anos mais velho do que eu, pensava que fui trazido à luz em 1973.
- Dizes coisas que aconteceram há muito tempo quando, feitas as contas, ainda não devias ter atitude racional. - Costuma afirmar, quando em meio a conversas regadas falámos sobre o passado e as memórias.
- Não podes ter nascido em setenta e quatro, lembrando-se de coisas de setenta
e cinco e setenta e seis. - Argumenta. Por outro lado, a minha mãe sempre dizia
que a progenitora dele (Sabalu-a-Soba) estabelecia um largo intervalo entre um
filho e outro. Sabendo eu que a irmã mais nova dele é de 1968, pois foi minha
colega de escola e turma, sempre inculquei na minha mente que o mano
Sabalu-a-Soba só podia ser de 1966.
- Ó mano, vê ainda a diferença de idade entre o mano Kakonda e o mano Ngunza; veja também a diferença entre o mano Ngunza e você e repara agora o intervalo entre o mano Sabalu e a mana Kakulu. Um ano só? Temos de rever essas datas. – Atirei várias vezes, ao que ele não dava costas ao debate sempre regado de boa uva.
Dúvidas por lá, que nunca chegamos a debater até à exaustão, e grande amizade e
companheirismo que nos acompanham desde que ele me viu nascer. Já fui seu
aluno, em 1984, na Escola Grande da Terra Nova, em Luanda (sala 18).
Aproveitando a folga que permite o Estado de Emergência, decretado em Angola
desde o dia 26 de Março de 2020, devido à pandemia da Covid-19, fui revisitando
a memória e rebuscando outros nomes por que éramos chamados e que coincidem com
os dias de semana em que cada um de nós nasceu.
Ele, Sabalu-a-Soba, nasceu num sábado. Por isso é Sabalu. O sufixo "a-Soba" significa filho do Soba[2]. Fui aos calendários dos anos de 1966, 1967 procurar qual dos anos tinha o 7 de Janeiro a coincidir com o Sábado. É o de 1967. Dúvida resolvida.
- O mano/professor teve sempre razão. - Falei para mim mesmo. Busquei, depois,
por aquilo que seria o meu verdadeiro ano de nascimento. Apesar de gerados por
mães iletradas, os nossos pais eram letrados e avisados. Jamais se esqueceriam
do dia e mês de nascimento, mas questões académicas e militares (retardamento
da chamada para o serviço militar obrigatório) podia tê-los impelido a recuar
ou avançar o ano registado como o de nascimento.
Ora, lembrei-me então que tenho uma prima, a Fátima Domingos, que é minha mais velha de apenas uma semana. Sempre brigávamos e brincámos até hoje sobre "quem é mais velho de quem". Ela nasceu num Domingo, na semana anterior ao meu nascimento. Fui procurar os domingos de 1973 e não coincidiam com 18 nem 19 de Maio (pois sou de 25 de Maio). Busquei pelo ano de 1974 (que sempre defendi) e verifiquei que 25 de Maio era exactamente sábado, sendo que no domingo anterior, dia 19, nasceu a Fátima (minha mais velha de apenas uma semana). Pronto está explicado.
Haverá muita gente ainda com data de nascimento calculada (sem que se tenha certeza do dia exacto). Felizmente, nem o mano Sabalu-a-Soba nem eu, Phande-a-Umba[3], estamos nessa situação. Quem tenha ainda dúvidas sobre o ano exacto em que nasceu pode perguntar aos progenitores ou aos mais velhos da aldeia o dia de semana em que foi trazido à luz. Com o uso do telefone ou computador consulte os calendários e desfaça eventuais enigmas. Funciona!
[1] Nas comunidades interiores de Angola, o primo é: filho da irmã do pai ou do irmão da mãe.
[2] Autoridade tradicional equivalente em regente de aldeia. O direito consuetudinário é pré-estadual.
[3] Que vem a seguir a Umba (antropónimo).
segunda-feira, junho 01, 2020
O HOMEM QUE ME SALVOU
Nascia o mês de junho de 2005. Viana, Terraço, tinha sido o destino depois de uma semana repleta de trabalho. Três colegas de serviço, em companhia da irmã de uma das colegas voltavam a Luanda sonolentos e cansados. O Vemba tinha aproveitado fazer as suas sempre oportunas reportagens que alimentavam a sua página cultural nos noticiários nocturnos da LAC. A viagem de ida, o convívio até ai corriam à feição.- Sigam com calma e não ultrapassem os cem quilómetros horários. A voz soberana fazia-se ouvir apesar de meio turva dada a madrugada. Reclamava caldo regadio para às seis abrir a emissão da estação Azul, também baptizada por 955.
Já a primeira das duas viaturas se tinha afundado no horizonte visual. A cidade sonhava ainda antes de acordar. Mal se fizeram anunciar as luzes da Avenida Deolinda Rodrigues, o Kia Avla, em que seguiam os quatro, decidiu ziguezaguear, levando-os à mortífera árvore que de sangue engordava nas barbas do que é hoje o Comando Provincial da Policia de Luanda.
Era ainda no tempo das vias estreitas entremeadas por um largo e longo "chourição" arborizado que separava os veículos a caminho de Catete e aqueles que visitavam a capital. Do outro lado da via, qual Lucifer vestido de branco, com os braços abertos, aguardava-os a Snt'Ana sepulcral com seus lúgubres lençóis.
- Sono? Embriaguez? Imperícia? Outra coisa não verbalizada? - As perguntas gritantes e mudas permanecem. Quem as podia responder já cá não está. Apenas a embriaguez e outras coisas meditadas em surdina posso descartar.
De repente, tão rápido quanto o acidente, curiosos, polícias, bombeiros e jornalistas fizeram-se ao local, qual maratona sabática em dias de campanha eleitoral. Choveram apelos na rádio Kyanda para que se mobilizassem meios e homens para salvar os infelizes.
- São jornalistas. Salvem os nossos colegas. - Verberou-se suplicante nos 999 de frequência e nas bocas atónitas dos presentes e ausentes preocupados.
Juntaram-se sinergias para o desencarceramento dos ocupantes do veículo encolhido abraçado à árvore máscula. Três dos quatro corpos ensardinhados suplicavam socorro às vidas que rapidamente eram sugadas pelo abismo faminto.
Machados, serras, tudo que os bombeiros usam e o povo guarda, pouco servia para cortar o volante, o tejadilho e desfazer as portas. O motor recuado no embate contra a árvore arrastou tudo para trás.
- Por favor, estiquem o carro porque temos os pés longe dos corpos. - A voz soberana, ainda distante do seu estado físico real, foi ouvida.
O Avla teria de ser esticado, amarrado de frente, à mesma árvore que também sangrava, e puxado pelo camião dos bombeiros.
Antes de terminar o desencarceramento, já um dos sinistrados, Vemba, desfalecia no terreno. Não se ouvira dele sequer um ai.
Chegados ao Maria Pia, levados em duas viagens pela carrinha da patrulha policial, primeiro os ocupantes do lado esquerdo e depois os do lado direito, encontrariam Leonardo Inocêncio, jovem chegado das terras de Fidel, mãos afinadas no bisturi, sem ordenado ainda, mas com a mente casada com Hipócrates, mostrava aí a sua proeza altruística.
- Doutor será que ainda viverei? - Perguntou-o o Soba preocupado, depois de confirmar o finamento do colega e amigo Vemba.
- Vives, meu amigo. Vives, podes crer. - Respondeu convicto no fim do seu trabalho.
Dez anos depois, sem que as imagens faciais pudessem ser revisitadas, ei-los, 23 dias, a frequentar um mesmo curso destinado a administradores da Função Pública. Em "conversa puxa conversa", médico e paciente revivem o dia do acidente e de imediato se identificam.
- És tu que estavas naquele acidente de jornalistas?
- Sim. Sou eu doutor. Éramos quatro. Morreram duas pessoas e sobreviveram duas. - Explicou o sobrevivo.
- Por favor, vamos sair e mostra a cicatriz. - Orientou o cirurgião com a mesma autoridade que usa no Hospital perante os pacientes.
- O esquerdo, Dr. Inocêncio. - Confirmou o Soba, mostrando também a cicatriz na perna que tinha o tornozelo quebrado.
- Pois é. És tu mesmo. - confirmou o médico.
- É meu paciente. É verdade. - Disse Leonardo à vintena de colegas que aguardavam pela perícia. - "A ferida é minha". Conheço as minhas impressões. - Ironizou.
Abraçaram-se perante o olhar pasmado da turma. Choveram agradecimentos e recomendações ao médico anestesista que com Leonardo trabalhou na madrugada daquele primeiro de junho.
- Obrigado Dr. Leonardo Europeu Inocêncio, por ter, com sua perícia, impedido que o abismo me sugasse ao seu leito negro.
PS: completam-se hoje 15 anos
domingo, maio 31, 2020
DIA D (XI)
quinta-feira, maio 28, 2020
GRANADA ENCRUSTADA (X)
Quando o grupo começou a se desintegrar em pequenos aglomerados de especialistas em qualquer coisa, sendo os líderes seguidos por curiosos e coleccionadores de afirmações alheias, eis que no meio da multidão surge um vozeirão:
-Aqui, há granada.
- O quê, chefe?! - indagou, com elevado espanto, um dos assistentes que tinha o corpo na mina e pensamento naquela enorme montanha plana que se fazia sobressair no meio dum mato desértico.
- Sim. Há granada no meio do mármore! - Clarificou o geólogo Ndandi.
- Granada que mata? Porra! Fujam. Pode explodir! - Gritou Ngandu, o ex-militar, tomando a dianteira dos pé-no-ngimbu.
Num abrir e fechar de olhos, a mina de mármore, calma em todos os dias de sua vida, tornou-se num corre-pr'aqui, corre-pr'ali, com homens e mulheres imitando cabras que se precipitam ante a presença de um felino.
-É mina que s'expludiu. - Açucarou Kuribota, uma senhora de falas largas, aumentando mais ainda a tensão.
- Bum!- Explosão foguenta e ensurdecedora.
- Wawéee?! Morri! - Um grito, mais um grito, mais outros. Pânico geral.
Um dos fugitivos, sem saber, arrastou o cordel detonador na exploração periférica que se dedicava à exploração de gness para pavimentação rodoviária.
O Ngandu, que de minuto a minuto se gabava "herói de muitas batalhas do tempo colonial e pós colonial", era um homem-pedaços borrifado por um misto de mijo e detritos alimentares.
Procuram-se ainda os fugitivos do "kibidi" e os que se decidiram, ali mesmo, se apresentar à contra-parte.
- Camarada terrorista, faz favor. Não me mata só. Apenas vim lhes acompanhar. Também fui raptado. Nunca andei com eles, nem sei o que é ser tropa. - Atirou dona Kuribota, prostrada ao vento, sentindo-se agarrada pelas costas.
Os espinhos duma árvore nua e sedenta impediram-na prosseguir o caminho da fuga, prendendo o seu largo casaco.
segunda-feira, maio 25, 2020
BALÁZIOS NATALINOS (IX)
sexta-feira, maio 22, 2020
BAZUCA PERDIDA (VIII)
- Kalulu estava tomada pelo "inimigo". A vila tinha resistido durante setenta e duas horas, mas, sem apoio da aviação, nada mais havia por fazer. Era evacuar as mulheres, os velhos, os feridos, queimar o armamento que não dava para levar, desmontar as agulhas das armas e deixar os gajos entrar. - Era essa a conversa dos mais velhos.
Matoumorro era ainda kandenge e, embora apreciasse as estórias, compondo um filme imaginário, idade da tropa, para ele e Etelvino, ainda não tinha chegado.
- Depois de três dias nas mãos dos "inimigos", a vila de Kalulu seria finalmente recuperada. - Era o que a rádio e o jornal diziam.
- Ngandu!
- Efectuar paragem no horizonte C3/D-2 e integrar o efectivo recuado.
Ngandu, bússola à frente, mapa na mão, calculou a distância, introduziu as coordenadas, soltou um curto alarme e soltou um morteiro e mais outro. Apenas os soltou sem saber o que havia no destino.
- Bum! - Rebentou o primeiro no meio do aquartelamento precário.
- Bum! Rebentou outro com maior intensidade, pois calhou numa pedra plana que levou estilhaços de aço e de brita ao encontro da companhia de civis armados na aurora para irem "fazer barulho com disparos" ao lado dos homens do Man-Babas.
- Ai wé, ndifa! - Gritou o chefe atingido, provocando a dispersão do povo-armado que voltaria às suas aldeias do makyakya e xilimina de todas as noites.
- Quando a morte te pode visitar a qualquer hora, todo o instante de vida deve ser festa. - Dizia-se pelas aldeias visitadas pela guerra e por isso, fosse em presença de forcas armadas do povo ou do inimigo, o povo comia o que conseguia, bebia se walende e fazia xilimina, folguedo com batuques e guitarras de fabrico artesanal.
Depois do lançamento das batatas, a Coluna de Libertação de Kalulu continuou a marcha. Infeliz, Kara Podre e suas tropas, todos conhecedores da geografia e das aldeias com propensão para acolher e apoiar logisticamente a rebelião, já estavam integrados na CLK.
Enquanto os comandantes da região faziam o balanço e o ponto de situação no terreno, bem como confirmavam as cartas trazidas por Bonifácio, Ngandu apensava no que podia ser a consequência ou a perda material daquelas duas bazucas perdidas.
- Aonde foram? O que encontraram? E se uma tiver caído na kinda duma velhota a caminho da lavra? E se outra matar um boi, quem vai se aproveitar da carne? E se cair na lagoa de um rio, quem vai recolher o peixe? - Era a última paragem. Aproximava-se o Dia D.
Publicado no Jornal de Angola de 01.09.19
terça-feira, maio 19, 2020
BALAS CRUZADAS: E AGORA (VII)
... DESENVOLVER ...
sábado, maio 16, 2020
TIROS MADRUGADORES EM NHUNDU (VI)
- Apenas? Você que nunca foi tropa de verdade diz apenas?
quarta-feira, maio 13, 2020
BALA PROVOCANTE (V)
- Mas, vocês aí então na confecção alimentar, qual é o azar desta água. Alguém falhou na panela e entornou no chão? Passem pelo menos uma vassoura e um pano-de-chão!
- Só pode ser. Será que encontrou alojamento na conduta que atravessa o quintal? Só pode ser.- Finalizou ...
domingo, maio 10, 2020
BALA PERDIDA ESTÁ FORMADA (IV)
Publicado no JA de 14.07.2019.
quinta-feira, maio 07, 2020
DOIS PERDIDOS: E AGORA? (III)
segunda-feira, maio 04, 2020
BALA ESCONDIDA (II)
- Xê?! O quê? Te duvido. Achas que sou civil ou quê. Vamos se cumprir. Ou melhor, eu te bondo primeiro e te cumpro, sô meu cão de merda.
Já não era o inicio da briga. Era mesmo o meio da confrontação verbal, da troca de argumentos não muito convincentes, e, sobretudo, de músculos e adereços que se achavam à cintura....
Pouca Sorte estava ali ocasionalmente. De passagem para o culto nocturno em sua comunidade religiosa de proximidade que os metodistas designam Classe. Ao passar pelo beco, dois kangonyeros aqueciam os motores com fogo de artifício.
- Pá, pá, pá, pá. -Estoiravam as sementes submetidas a fogo, seguidas de um "passa o mambo" que Matengó, outro transeunte, entendeu ser ordem para desmonta.
- Porra! - Gritou Matengó. - Sou kwemba e já vi muito sangue, mô ndenge. Noutras vandas, já fatiguei muitos putos. Mas aqui, sei que são kandenges da banda.
- O quê, kota? Cuidado, vou te fatigá! - Atirou im dos muzangala, empunhando uma baioneta.
Matengó, mexicano puro, antigo craque no desmobta tia zaikô que se tornou pistoleiro na tropa em Kahama, Kwamato e Xangongo. So faltou-lhe entrar em Môngwa e Ndjiva. Matengó, mesmo desmobilizado da greguice e da tropa, não deixava créditos em mãos de estagiários.
- Porra, pá. Filho da puta! Vais me quê? Eu? Sacou da "sua esposa", a "Tt" que se achava já com a patilha desguarnecida e fez dois balázios a queima roupa.
- -Mãos no ar, filho da puta!
Um dos bandidos que lyambavam no beco pôs-se a fresco. Teve tempo de pular umas aduelas e correr sem norte. Parecia ter sido atingido, mas o disparo de Matengó foi só de controlo. O outro que tentou torrar farinha com o kota estava banhado de mijo.
- Me balaziaste, kota. Só brinquei contigo e me fatigaste já? Assim mesmo está bom, mô kota da banda.
Sem a argúcia que a liamba e a baioneta lhe conferiam inicialmente, Nguma teve de entregar o corpo ao deleite de Matengó que era considerado em todo o bairro do Mexico como "bom em porradar".
Pouca Sorte viu tudo aquilo. Parecia um filme. Desistiu do culto e foi a correr à casa. Felizmente, aquela bala disparada por Matengó se escondeu na terra húmida do Beco 3 do Kaputu. Não estava perdida e não daria a reclamação futura de um ser vivente, senão da conduta de água ausente em que ela se alojou.
Veremos no que dará quando o SMAE, empresa que cuida do abeberamento, reabrir as torneiras.
sexta-feira, maio 01, 2020
BALA PERDIDA (I)
Naquele tempo de guerra apertada, a comer carne humana como porco no farelo, ir às frentes de combate para ver de perto o "ngongo-ya-mona-a-dyala" não era coisa para qualquer um.
Bernardo Manuel, seu nome de bilhete, já tinha sido das BPV e ODP, antes de se alistar nas FAPLA onde foi "transferido" para o periodismo pelos instrutores cubanos. A sua curiosidade aguçada em obter os porquês e a forma suave como arrumava as respostas que obtinha pela observação e fala dos "kwemba" levaram-no à tal "pouca sorte".
Para uns, ser desviado de tropa para jornalista era sorte grande. Porém, para ele e parentes, "jornalista dos tropas é tropa". Por isso, diziam "Bernardo é um pouca sorte", nome que lhe ficou colado ate hoje.
Numa dessas idas às zonas quentes de refregas animalescas, conheceu Avança, uma jovem militar bonita de meter os inimigos a se olharem sem disparar. É pena que não tenha sido fotografada no auge da sua beleza militar.
Conheceram-se numa noite de reabastecimento e de palavra e garfada farta. Com o passar do tempo, nas selvas de Savate, Avança e Pouca Sorte foram trocando uns olhares mais compenetrantes que não se ficaram por ali, até que um dia os seus corpos se tocaram até provocarem uma explosão.
Passou tempo. Muito tempo mesmo sem que Pouca Sorte soubesse das consequências daquele acto bom, de que não se lembra mais se houve ou não intermediação láctica.
As guerras mortíferas terminaram. Felizmente. Chegou o facebook a recordar guerras passadas e reencontrar caras do passado.
Nessas idas ao desconhecido, enquanto dedilhava, encontrou um rosto que lhe fez recordar os nove dias de Savate.
- Essa cara não é estranha. - Vozeirou alto, entre garfo e copo com amigos.
Vasculhou as fotos. Era uma jovem nos seus 30 anos. Avança? Não pode ser. Terá agora 50 anos como eu. Mas a cara é muito parecida. Aguçou a curiosidade e alcançou o ciclo de amizades e as fotos familiares.
Encontrou a imagem de uma mulher fardada, carnes fartas a congestionarem o verde-cinza-malhado que chamava de "coreana". Saltou -lhe o coração.
- É ela. Avança. Deve ser mãe da moça. Só pode ser.
Abandonou o amistoso em que se encontrava com os amigos e foi à casa contar aos filhos o achado.
- Sabem quem descobri hoje?
- Não. Conta, papá. - Pediram os filhos.
Mostrou a foto da mulher-militar, aquilo que ele aconselhava que a filha do meio, a "Faz Tudo", fosse.
Repararam nos detalhes da senhora que em 1984 travava valentemente ventos de morte ao lado de homens que choravam ao sopro de bala.
- Era dama corajosa, papá. - Atestou Faz Tudo.
Encorajado, Pouca Sorte mergulhou nas fotos baixadas no perfil de Avança. Avançou mostrando uma a uma até aparecer a da jovem aparente filha de Avança.
- E essa, quem é, papá?
- Deve ser filha dela. Repara nos traços. A tez, as maçãs do rosto quando ri. Conheci bem a Avança...
- O papá já reparou nos olhos e no nariz da moça? Deve ser nossa irmã. - Faz Tudo desse-lo de forma tão convicta e séria que o coração de Pouca Sorte se aproximou à boca.
- Vossa irmã? Como assim?
- Repara bem, papá. Repara. - Insistiu Faz Tudo, a "Tropa de Casa", como também é carinhosamente tratada.
Pouca Sorte recuou no tempo. Vieram-lhe à memoria os nove dias de Savate e os 12 dias em Nancova, sempre próximos ele e Avança. Cada dia mais próximos avançando-se com Avança. Baixou a cabeça e balbuciou qualquer coisa.
- Só pode ser consequência de Bala Perdida!
Publicado no JA de 07.07.2020

