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quinta-feira, abril 09, 2020

A ÚLTIMA LUTA DE PAULO KAMBANGELA

Em Kitumbulu dos anos setenta (fazenda, algures no Libolo), Paulo Kambangela era ainda miúdo que seu padrasto (avô paterno de Matoumorro) mandava correr com os macacos que davam cabo do milho.
O nome Kambangela (cigarra) está ainda por descortinar. Se calhar, quando nenê, gritava que nem uma cigarra estendida ao sol ardente do meio-dia. Quem é do campo já ouviu o grito estridente de uma cigarra.
Matoumorro, nascido depois do 25 de Abril (aquele Abril de setenta-e-quatro) conheceu Kambangela já aos 15 anos, embora soubesse da relação entre seu avô Ngana Muryangu com a velha Lulu, mãe de Kambangela.
Esguio, de altura média e com bom jogo de pernas e truques com as mãos que deixavam embasbacado o adversário da peleja, Kambangela ganhou, nos anos noventa (estamos a falar do século vinte) a fama de melhor lutador da aldeia de Kuteka. Que jovem não o reverenciava?
Kambangela, no dizer dos luandenses daquela época, "fazia ponta". Isto é, numa casa, podia surrar do mais novo ao mais idoso. À astúcia na peleja, juntava aspectos sádicos e virulentos.
- Éh, luta do mano Paulo só acaba quando ele ganhar. Se você lhe bate e foge ele te persegue ou te faz uma emboscada até te tirar sangue. É por isso que toda a gente lhe tem medo.- Diziam os púberes de então.

Por razões que nunca explicou, Kambangela nutria nutria um ódio visceral contra o seu antigo padrasto Ngana Muryangu, avô de Matoumorro. Assim foi que ao se terem avistado, em 1990, quando Matoumorro se refugiara na aldeia de Bango-de-Kuteka, fugido do ataque da Unita a Kalulu (25 Dez 1989), o lutador-mor encontrou no neto do antigo padrasto uma oportunidade de vingança.

Matoumorro, nos seus 15 anos, já era costureiro, profissão que aprendera dois anos antes com um primo com quem viveu em Kalulu. Estava, por isso, em casa do Ngunza-a Mbondondo, ajudando-o a colocar bainhas em alguns panos. Quando Kambangela, que era "kiphá" (contemporâneo) de Mbondondo, o viu começou a disparar em jeito de provocação.
- Xê, seu burro de merda, vais estragar a máquina de coser.
- Se o kota não saber, aprendi com o grande mestre Nguza-a-Soba e o kota Nando Mbondondo só me chamou porque sabe que posso ajudá-lo. Defendeu-se Matoumorro.
- Disseste o quê, neto de feiticeiro? Hoje vais me sentir que até o teu avô vai ressuscitar para te acudir.

Matoumorro ainda tentou justificar-se mas os cinco dedos calejados de Kambangela já tinham deixado marcas no seu rosto.

A audiência, conhecedora da malvadez do agressor, se conteve, embora reconhecendo que o rapaz nada fizera de errado para merecer tamanha agressão.
- Não te fiz, nada kota. Se me deres mais vou ter de me defender. - Atirou o rapaz, cujos nervos subiam à epiderme.
Ouvido isso, primeira vez em que Kambangela fora desafiado, o lutador da aldeia queria fazer do rapaz seu batuque.
- Lelo ngumuxika (hoje vou batucá-lo)! - Disse à plateia que aumentava minuto a minuto. Uns tentando acudir mas sem pretender se comprometer e outros com sede de ver sangue e um julgamento posterior na grande árvore do soba Mungongo.

Para o impedir de fugir, Kambangela pressionou Matoumorro pelos ombros, impossibilitando-o de se levantar da cadeira. Jamais tinha imaginado que o seu peso diminuto era vantagem para o adolescente que se pôs em pé com o adversário pendurado às costas.
Kambangela parecia estar lyambadu. Seus olhos eram sangue. Espumava pela boca à medida que rebuscava o mais profundo disparate contra o avô, o pai e a mãe de Matoumorro, por sinal sua parente.
Já fora da sala, levado às costas pelo adolescente, Kambangela tentou usar a sua táctica de sempre. Jogo de pernas, como fazem os pugilistas, e batimentos no peito que terminavam, sempre e certeiramente, com um golpe ao adversário.
Atento e já destemido, Matoumorro agarrou-o pelos ombros e espetou-lhe uma valente cabeçada que atirou o "Golias" ao solo rígido.
- Ewe?! - Gritou a plateia entre júbilo, pela derrota de kambangela, e medo do porvir.
- Corre. Vai. Fecha-te em uma casa. O Kambangela vai te matar. - Aconselharam outros.
A Cena seguinte foi Matoumorro a correr, seguindo os conselhos dos familiares mais directos e Kambangela a correr em direcção à sua casa, como se fosse em busca de algo contundente para se desforrar. Já não foi visto naquela tarde e noite.

No dia seguinte havia uma caçada pelas montanhas de Kitumbulu (junto à fazenda do avô paterno de Motoumorro (ex padrasto de Paulo Kambangela).
Não vai. Quando voltarmos vamos associar carne para ti. O mano Paulo pode te flechar. - Desaconselharam o rapaz a sair de casa.

Sem medo e com o atrevimento da idade, Matoumorro meteu-se a caminho do sertão, mesmo sem zagaia e flechas. Evitaram-se durante a caçada que durou 6 horas. Foi mais Kambangela quem andou distante do infante. De lá para cá nunca mais Paulo Kambangela lutou e ficou desfeito o seu mito de lutador invencível do Kuteka.


quarta-feira, abril 01, 2020

COMPORTEM-SE AGORA QUE REGRESSARAM AO "CEMITÉRIO"

Alguns compatriotas lembravam-se de Angola apenas para o descanso "post morten", levando toda a sua vida, preferencialmente, na Europa ou América, para os de gostos mais rebuscados.
A Portugal, diziam, vão os de "costumes moderados".
O covid-19 fez-nos todos (amantes da terra mãe, pródigos ou fugitivos e maldizentes) filhos duma mesma pátria.
Porém, àqueles que Angola era apenas país útil para o sepultamento de restos cadavéricos importa uma chamada de atenção. Quem saiba oiçam e a experiência do regresso forçado pelo Covid-19 lhes faça pensar em possíveis pragas mais severas e numa estada mais demorada em Angola.
Alguns levaram daqui tudo quanto não ganharam por via do suor. Longe da terra usurpada, fizeram suas vidas e morada (formação, trabalho, constituição de empresas, depósito de fortunas, aplicações financeiras, consultas médicas, festas de aniversário, "affairs", etc.).
Voltaram agora que a temperatura angolana ficou provada mais favorável à luta contra o covid-19 ou que a eminencia da morte vos trouxe para um funeral com carpideiras, caldos e komba-ditôkwa que jamais algum angolano teria na Europa ou nos Estados Unidos do Tramp.
Peço-vos:
Comportem-se. Pensem. Tragam o dinheiro. Não importa se vosso, ganho com suor, ou se suados a rouba-lo (vezes há em que o gatuno também se considera dono do acaparado e reclamar se alguém dele botar mão). Invistam em cemitérios (o que mais vos anima em Angola). Agora que estais aqui, pensem em melhorar a saúde, pois se ela melhorar a vossa ida ao Alto das Cruzes pode ser postergada. Pensem na melhoria das escolas para os vossos filhos corridos da estranja pelo Covid-19. Invistam aqui o dinheiro que levastes, mesmo que seja para acudir vossos parentes pobres e carpideiras que vos hão de chorar lágrimas verdadeiras. Aprendam com a crise e o "tunda-mambundu" causado pelo Covid-19.
Aproveitem também interiorizar as nossas vivências solidárias com a dor alheia e abstenham-se de plantar o pânico, o medo e a incerteza.
Para nós, que temos um único pais e uma única pátria, tudo se vai recompor e todos sairemos sãos dessa fúria do coronavírus.

Se não poderem se conter na fabricação e difusão de fake news, ao menos deixem-nos viver as nossas vidas de pobres miseráveis e gente honesta comprometida com a verdade e um futuro melhor.

sexta-feira, março 27, 2020

MANGODINHO E O "KOHONAVÍRU"

Mangodinho que estava na capital, quando aqueles voos internacionais chegaram e quando chegou a notícia do Coronavírus em Angola, apressou-se em regressar à aldeia natal, no Lubolu.
- Estou a pressentir que vamos voltar ao tempo da kitota em que cada um ficava na sua lavra (apenas com a família de casa), aldeia, vila ou cidade, sem poder sair para terras distantes, a menos que fosse autorizado e com guia de marcha. - Explicou quando a mulher perguntou por que havia regressado tão cedo e sem as compras do costume.
- Epá, se prepara. A coisa pode ficar quente. Esses meus cabelos brancos que não me deixam mentir estão a me transmitir coisas futuras que podem acontecer em breve.

A mulher ainda tentou associar as premonições à força da kapuka que tinha bebido de véspera. No dia seguinte, quando ele já falava à população da sua aldeia sobre a nova doença que os doutores das cidades estão a chamar "Kohonaviru" (kohona=tosse) chegou, através da rádio, a orientação do Mwen'axi (PR) sobre a proibição de as pessoas fazerem o entra e sai no país e depois nas províncias. - Estão a ouvir bem nê? Chegou uma doença muito perigosa tipo tosse convulsa mas não é. Pessoa fica a kohonar sem ar e com fortes dores de cabeça. Mais pior ainda é que outras pessoas podem ficar doentes sem sentir nada mas passam a doença perigosa aos outros. Se pega velho, pessoa já doente com tuberculose, falta de sangue ou que tem problemas nos rins é óbito. Estão a ouvir bem, nê? O Estado disse que lavar as mãos é de hora em hora.  
- Mas, Mangodinho, lavar de hora em hora, como assim? - Perguntou Sembe, o puto atrevido de sempre. Único que nesses dias torra farinha nas discussões de sabedoria com o Mangodinho.
-Ouçam bem, meu povo. E você Sembe põe na cabeça e explica bem os teus amigos. Com essa doença, os cuidados são assim: mijou, lavou (as mãos). Evacuou, lavou. Se encostou toma banho imediatamente. Aliás, é proibido se encostar. Temos de nos distanciar um metro. Não há se dar kisende ou se abraçar. Não há se ajuntar nos óbitos. Não há mais se emprestar banheira ou toalha. Os miúdos tem de ter cada o seu cobertor. Se tapar toda família na mesma manta já está proibido.
- Mas, Mangodinho, se os filhos são da mesma casa também não podem se cobrir juntos? Não podem dormir juntos? Não podem comer no mesmo prato? E os nossos hábitos? Os nossos costumes? - Interrompeu a Amélia, uma miúda que estudou no Ngunza e que voltou com o marido professor.
- Ouve bem, meu povo. Amélia, ouve também. Vocês que têm estudo na cabeça e que são jovens vão explicar melhor. Os nossos hábitos e costumes vamos guardar um bocado. Eles não vão fugir. Para combater o kohonaviru temos que cumprir. Se muitas pessoas dormem juntas, basta uma apanhar para todos ficarem contaminados. Se as pessoas comerem no mesmo prato estão a se transmitir calor, saliva, ar e muito mais. Se um apanha, outros apanham. Se os filhos e as filhas se taparem o mesmo lençol ou dormirem debaixo do mesmo cobertor já viu nê? Basta um ficar contaminado, todos ficam contaminados. Bem, já falei tudo que ouvi. Daqui a pouco a Rádio vai dar noticiário. Todos devem ouvir as notícias e cumprir as recomendações. Amanhã, voltaremos a estar juntos no terreiro para sabermos o que cada um vai fazer para se preservar. Amanhã, cada fica afastado do outro um metro. Se vem a mulher, o marido fica em casa e a pessoa que vier à reunião tem de ir tomar banho, antes de se juntar à família. Se todos cumprirmos, o Kohona vai voltar aonde saiu e vai nos deixar vivos e completos. Sembe e Amélia, pegam o carro e vão à administração buscar os panfletos para colar na escola e no posto médico. Até ao próximo Domingo!

quinta-feira, março 19, 2020

E SE...

Por conta da expansão do COVID-19, o país tem as fronteiras fechadas, uma Decisão Presidencial bem acolhida.
O que ainda pode ser decretado, em reforço, é incógnito, alimentando os "sês" e as possíveis consequências dos "sês".
Vejamos:

1- Não pode a TAGG voar nem o Angola receber voos de passageiros. Se a situação se prolongar por muito tempo, quem vai pagar os ordenados dos funcionários da TAAG?
Quem vai pagar os ordenados de eventuais trabalhadores de embarcações de passageiros que liguem Angola e outros países?

2- Se as escolas vieram a fechar, é obvio que o governo continuará a pagar os professores, pois já o tem feito. Porém, quem vai pagar os colégios? os encarregados de educação que terão os filhos em casa? e se os encarregados de educação forem colaboradores/professores de outros colégios e ou de empresas que, por consequência das medidas contra o COVID-19 também não possam trabalhar e ser convenientemente remunerados?
Se as creches fecharem e os meninos estiverem em casa, pagam os pais? quem paga os educadores sociais?

3- Se for orientada a quarentena de alguém que tenha chegado de "países endémicos", ele fica com a família? Fica isolado? Onde? Como? As famílas estão a ser treinadas/informadas sobre como proceder no caso de um dos membros ter de observar quarentena? Ficam todos expostos?

O que é, afinal, quarentena domiciliar?


"Pior do que o covid-19
É ouvir dizer e difundir sem checar"!
SK

domingo, março 01, 2020

O DISCURSO JORNALÍSTICO DE ENTÃO

1- A coca-cola faz publicidade todos os dias, conciente de que todos os dias há novas pessoas que ganham consciência de consumo e de branding.

2- A media angolana do último quartel do Sec. XX fazia de seus lugares comuns temas de conhecimento transversal, a exemplo da água, sol, chuva, estrelas e lua que não precisam ser recordados aos novos seres pensantes.


Ora vejamos: a Resolução "quatro_três_cinco, barra setenta e oito, do Conselho de Segurança da ONU" era citada todos os dias na Rádio Nacional (única na década de 80 do sec XX), sem que os jornalistas se dessem ao trabalho de explicar o que ela mandava.

Meninos curiosos e interessados em política como o autor dessa prosa limitavam-se a recitar tais chavões a que se acrescentavam adjectivos e epítetos.

Vou citar alguns exemplos:

- Aviação racista sul-africana (os aviões eram racistas?)

- Bombardeamento a sul do paralelo 14 (onde é?)

- Violação do solo pátrio (hum?)

- Os fantoches do imperialismo (traz o dicionário)

- Caudilho (tem cauda?)

- Megalómano (homem grande?)

- Guia imortal (levava os meninos à pratica de salto imortal?)

- Processo 105/83 (quem eram e que faziam?)

- Nós somos a "classe proletariado" (ah, afinal só sabiam fazer filhos?)

- O Ministro na penitenciária trata os detidos por "camarada presos" (ah, são da igualhagem?)


Cite você outros lugares comuns de que se lembre.