DE PEDRA E CAL
A pouco menos de dez quilómetros da cidade capital da Lunda –sul, Saurimo, está a aldeia do Luari. Entre nativos e deslocados, forçados pela guerra a abandonar as suas comunidades rurais no interior da província, Luari é hoje uma aldeia com mais de duzentas famílias camponesas que tudo fazem para perpetuar a cultura Lunda- Cokwe.
A mandioca, a ginguba (amendoim), o feijão e o milho são as principais culturas, sendo a pesca e a caça actividades complementares à dieta e ao lazer, ao mesmo tempo que se ensaiam outros produtos destinados à venda, como o abacaxi e o abacate, muito procurados pelas empresas que actuam na região.
Junto à aldeia, cresce um complexo turístico - Ciseke - que conta com uma esplanada e casas de campo, estando em construção um motel.

Informações recebidas no local dão conta que os antigos moradores de um ex-internato, em escombros, e os das casas vizinhas, serão deslocados, para dar lugar à construção de um motel, valorizando a área envolvente a uma atractiva lagoa natural .
“Já nos disseram que o Mwata comprou mais de três mil chapas de zinco para cobrir as nossas casas e também vamos poder trabalhar aqui mesmo quando ele precisar", referiu-nos um ancião, contactado no local,tendo-se escusado a apontar o nome do empreendedor e sequer o seu .
Fontes anónimas atribuem o empreendimento Txisseque ao actual Governador, Miji Itengo, tendo no âmbito da responsabilidade social da sua empresa, já erguido um estabelecimento escolar na comunidade .
Dia após dia a comunidade do Luari assiste à mudança para melhor do ambiente circundante adivinhando-se até dias ainda mais prósperos, já que "há empregos à vista”. Entretanto, o que não sofre alteração, mesmo sob a pressão da aculturação, é o modo de vida do seu povo. A principal referencia é o ritual da festa de iniciação, masculina e feminina - Mukanda wa Kandandji e Mukanda wa Pwo - que vêem sendo passados de geração em geração.
“Estar no Luari é estar com a nossa cultura”, afirmou Pedro Sacahumba, secretário do bairro.
Ritos como o Mukixe e o Kandangi (máscaras) e Cianda (dança tradicional), entre outros, são ensaiados de forma organizada e pedagógica, pela sociedade que pensa deste modo perpetuar os valores característicos à peculiaridade da sua cultura.
Crianças, ainda de tenra idade, ensaiam diligentemente os passos das danças e rituais que conferem original singularidade à sua cultura.
“Assim como fazem os nossos pais, nós também estamos a aprender para depois ensinar aos mais pequenos", confidenciou-nos Fernando Nuati, um adolescente que fazia o papel de comandante de dança Muquixe, rigorosamente mascarado .

Para Avelino Carlos - Muanga-saia - líder musical dos Astros da Lunda-sul “apesar da influência de outras culturas divulgadas pela televisão, a cultura Cokwe está intacta e como a aprendizagem acontece sempre na comunidade com os mais velhos não há nada que a afecta”. Disse acrescentando que tem sido função dos mais velhos, esmerarem-se na forma como acompanham a continuidade na execução dos ritos e máscaras pelos mais novos, preservando a sua pureza e integridade.
“Até agora continuamos a fazer a circuncisão que demora seis meses a um ano. As meninas também têm um ritual parecido e é aqui que se passam todos os valores". Concluiu.
Segundo, Ana C. G. Marques*, "entre os cokwe, as máscaras não são um disfarce mas sim uma instituição que contribui para a perpetuação das diligências sociais e Culturais, um veiculo de transmissão do conhecimento colectivo, a negociação das magnas preocupações e aspirações humanas. Através dela celebram-se a esposa, a irmã e a mãe, declarando-se a autoridade e o papel moderador da mulher na sociedade.

Mwana pwo é uma máscara confeccionada em madeira para a realização de rituais de passagem da puberdade. Na sociedade tradicional cokwe, a comunidade junta-se no centro da aldeia para assistir à mascara mwana pwo dançar, ela representa o ancestral feminino. A seu lado as mulheres aprendem as boas maneiras, os princípios éticos e a solenidade com que se devem impor na sociedade".
A sociedade cokwe sempre preservou a consciência colectiva da sua identidade histórico-cultural, através dos seus mitos de origens e de outras marcas culturais.
Luciano Canhanga (licenciando em Ensino da História pelo ISCED/Luanda)