Em busca do desconhecido e alimentando a curiosidade, viajei entre Santa Catarina e Porto Alegre. A ilha de São Tomé guarda um silêncio que não é apenas geográfico, mas também histórico. Pela Zona Norte, cheguei ao túnel de Santa Catarina, onde a estrada costeira que vem de Neves reclama reabilitação, interrompendo-se na aldeia de Monte Forte, sem prosseguir para sul. Do outro lado da ilha, saído da capital, caminhei até à Praia das 7 Ondas, já na zona de Malanza, pouco antes de Porto Alegre, onde a estrada que vem de Santana e Angolares também se extingue. São limites aparentes, não finais, porque além deles existe apenas a floresta cerrada, o maciço central e os trilhos antigos que, em tempos, ligavam comunidades através de caminhos pedonais usados por caçadores, agricultores e andarilhos.
A ausência de ligação directa entre o norte e sul da ilha não é fruto de esquecimento, mas da própria natureza de São Tomé. O Pico de São Tomé ergue-se como muralha, rodeado por florestas do Obô, cuja densidade e valor ecológico tornam qualquer obra rodoviária um desafio técnico e ambiental. No período colonial, as estradas foram desenhadas para servir plantações e o porto da capital, nunca para unir os extremos da ilha. Assim, Santa Catarina e Porto Alegre permaneceram como pontos isolados, ligados apenas por rotas costeiras que obrigam o viajante a contornar pela cidade de São Tomé.
No passado, havia caminhos de terra batida e trilhos que atravessavam o interior, mas nunca se consolidaram em vias formais. Hoje, quem deseja ir de norte a sul precisa de regressar à capital e daí seguir pela outra costa, multiplicando distâncias e tempo. Há planos discutidos em documentos de desenvolvimento nacional para integrar os extremos da ilha, mas o custo elevado e o impacto ambiental têm travado qualquer execução. Angola, parceira histórica e permanente, já apoiou hospitais e projectos energéticos em São Tomé e manifestou interesse em infraestruturas rodoviárias.
O que está em jogo não é apenas uma estrada: é a possibilidade de unir comunidades que vivem em extremos opostos, de facilitar o comércio interno, de abrir novas rotas turísticas e de reforçar o sentimento de pertença nacional. Alguns defendem que, antes do asfalto, seria mais viável reforçar a ligação marítima costeira, com barcos que unam Santa Catarina e Porto Alegre. Outros acreditam que a estrada, mesmo cara, seria um gesto de integração definitiva.
Assim, entre Monte Forte e Malanza, permanece um vazio que é ao mesmo tempo barreira e promessa. A ilha, que se orgulha de sua unidade cultural, ainda não se encontra fisicamente inteira. O viajante que percorre seus limites descobre que o coração verde da ilha é guardião da memória e da biodiversidade, mas também obstáculo à comunicação. O futuro de São Tomé talvez esteja em decidir se esse vazio deve permanecer como muralha natural ou se será vencido pelo traço humano que unirá norte e sul.
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Publicado pelo Jornal de Angola a 07.06.2026

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