STP, Distrito de Água Grande, 02 de Maio. Destino: Bôbo Forro, local em que foi construído o novo Mercado Municipal, passando por Água-Porta.
Na via de acesso, o cenário é o mesmo: casas humildes, (Ka)prédios de madeira sobre estacas e muitas árvores frutícolas nos quintais, destacando-se cajamangueiras e fruteiras (artocarpus altilis).
À volta e no interior do mercado, há lixo por tratar, mas menos lixo do que em mercados angolanos. Curiosidade: algumas vendedeiras usam balanças.
O meu guia explicou que o Mercado Municipal foi movimentado do centro da cidade (Rua Yon Gato) para a periferia, por causa da sujeira.
Andando pelas bancadas, um facto chamou-me à atenção: uma bandeira de Angola estendida no chão e usada como base para a venda de "matabala". Perguntei, discretamente, pela dona do negócio. Precisava de resgatar o símbolo da minha identidade patriótica. Disseram-me que era a Dona Luisa, mas achava-se momentaneamente ausente.
Fernando (o guia) e eu puxámos conversa com duas vendedeiras de trato fácil que prometeram procurar pela Luisa, caso pagássemos duas Rosemas ao preço de 35 Dobras cada. Depois encostou-se a nós a avó Adelaide, assim tratada carinhosamente por outras vendedeiras, uma anciã de 80 anos, boa faladora e conselheira das mais novas, conforme testemunharam.
Finalmente, a Dona Luisa apareceu. Para que ela deixasse de estender a bandeira de Angola para a exposição de matabala (tubérculos) era preciso comprar outro pano. Lá começou a negociação.
Ela, que disse possuir uma outra bandeira de Angola "nova e ainda plastificada", pretendia 100 Dobras em troca e uma Rosema (cerveja nacional). Fomos regateando por uns não menos de 30 minutos. Entre conversa séria e brincadeira à mistura, venceu o bom senso. O resgate da bandeira ficou por 70 Dobras. A Rosema amenizou a tensão inicial e facilitou a barganha. Outras 30 Dobras foram oferecidas à mamã Adelaide que, na sua missão de conselheira, recomendou as mais jovens a amarem e respeitarem os maridos.
"Eu já não ando no caminho de homem, mas sei que o respeito é a base de tudo", recomenfou sabiamente.
Foi então que, já mais descontraída, a própria Luisa contou um episódio curioso:
— Há uma semana, passou por mim uma mulher que demoradamente olhou para a bandeira e para mim. Não me disse nada, mas parecia aflita. Não entendi se era a matabala ou a bandeira em que estas se achavam que a fizeram parar por muito tempo.
A história ficou suspensa no ar, como um enigma. Talvez fosse apenas curiosidade, talvez fosse a consciência silenciosa de quem reconhece o peso de um símbolo nacional. O olhar daquela mulher, sem palavras, segundo o testemunho da própria Luisa, parecia carregar a mesma aflição que agora me movia: o desejo de ver a bandeira respeitada.
Antes de deixar o mercado, comprei fruta de cacau, lembrando o pedido do amigo Adebayo Vunge. Saí dali com a bandeira nas mãos e no coração, e com o sabor doce do cacau a selar o gesto de patriotismo.


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