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sábado, maio 02, 2026

ENTRE RUÍNAS E MEMÓRIAS






Dia 1º de Maio de 2026. Parti rumo ao Norte de São Tomé, guiado pelo solícito Arlindo Fernando, jovem santomense nascido na Ilha de Príncipe, que me servia como motorista e intérprete da paisagem. À entrada do quartel militar, Arlindo apontou à esquerda:  
— Aqui está o Condomínio da Sonangol. Vivendas inconcluídas, obra abandonada. É desperdício.  

Apenas meneei a cabeça, como quem guarda silêncio diante da evidência. A estrada resselada corria entre um mar de verde. Bananeiras, cajamangueiras, cacaueiros, abacateiros, jaqueiras, fruteiras (artocarpus altilis), palmeiras, mamoeiros, gajajeiras, mangueiras, coqueiros, caroceiros (figueiras) e goiabeiras, misturadas a árvores não frutícolas, compunham um cenário de floresta tropical que parecia respirar eternamente.  
— Este clima é bálsamo para os olhos e descanso para o coração cansado de Luanda — murmurei.  

No Bairro Santo Amaro, distrito de Lobata, Arlindo mostrou a Central Eléctrica. Casas de madeira surgiam no meio da floresta, erguidas sobre estacas, como se a arquitectura dialogasse com a natureza.  
— De tanto que nos falta, temos pelo menos a madeira. Essa é nossa — disse o guia.  

A vida pacata confundia-se entre rural e urbano, numa simbiose que parecia natural. Arlindo explicou a distribuição dos povos: os forros, descendentes de escravos libertos que se tornaram proprietários; os tongas, mestiços de contratados africanos; os cabo-verdianos, trazidos como mão-de-obra; e os angolares, cuja origem é atribuída a escravos naufragados ou fugidos no século XVI, que formaram comunidades costeiras independentes. Todos se entrelaçam hoje na identidade santomense. 


A primeira paragem foi em Fernão Dias, onde a 3 de Fevereiro de 1953 muitos santomenses morreram às mãos da repressão colonial portuguesa, no episódio conhecido como Massacre de Batepá. Fernão Dias foi o local de depósito de cadáveres saídos de Batepá. No local foi erguido um monumento que homenageia os heróis da liberdade. De Abílio Costa a Zinóglio de Ceita, centemas de nomes gravados em páginas de pedra. Ao lado, a ponte cais desactivada guarda memórias de embarques e desembarques.  
— Querem aproveitar estas condições para um porto de águas profundas — explicou Arlindo.  
— Vejo aqui o esboço de uma nova ponte, mais extensa, capaz de receber navios maiores — observei.  

Mais adiante, a Praia do Governador. A zona chama-sde Micolô, um bom miradouro para o Ilhéu das Cabras. Aqui, a costa pedregosa alterna com praias de areia clara, mais límpida do que a da Praia das Sete Ondas que é bastante concorrida na zona Sul.

Seguimos até à Roça Agostinho Neto, antes chamada Rio do Ouro, fundada em 1865 por Gabriel Constantino, português de origem brasileira. Com 16 aldeias, 2.500 serviçais e 75 administradores portugueses, cultivavam-se 5 mil hectares de cacau. Após a morte de Neto, em 1979, o presidente Pinto da Costa renomeou a roça em sua homenagem.

Hoje, cerca de mil pessoas vivem ali, descendentes amestiçados de contratados de Angola e Moçambique, sobrevivendo da agricultura de subsistência.
_ Aqui já somos mistura. Origem pura já não existe _ Explicou o Willy.

À entrada do pátio da antiga roça, a Embaixada de Angola em São Tomé reabilitou o jardim, colocando um busto do patrono Agostinho Neto, relva, sinal de internet e um mural que retrata a liberdade. Os moradores agradecem e atestam:  
— É um activo turístico onde os visitantes param para fazer foto e se conectarem ao mundo.


O guia turístico Willy Mendes, filho de cabo-verdiano e angolana, contou histórias da roça, enquanto Dona Antónia, descendente de cabo-verdianos, relatava a sua vida no antigo hospital da roça:  
— Vivemos do campo e do suor. Permutamos mandioca, milho e outros produtos, vendendo os excedentes na cidade.  

O almoço foi simples e saboroso: concon e fruta-pão, iguarias que resumem a alma da terra.  

Seguimos para Neves. Pelo caminho, alguns “micondôs” (imbondeiros) despertavam a curiosidade, junto à Lagoa Azul. A rodovia era contígua ao mar, desenhando-lhe as entranhas e saliências.  

Em Neves existiram as roças Planta Caiá, Mira Fontes, Diogo Vaz (felizmente ainda activa e dedicada à produção de cacau e chocolate biológico) e Ribeira Funda, hoje todas abandonadas. O Distrito é Lembá. 
_ Se o trabalho escravo do antigamente foi desumano e deplorável, o abandono das roças piora o desemprego _ reclamam os moradores do Distrito de Lembá, que alberga as cidades de Neves e Santa Catarina. 

Em Neves fica a cervejeira Rosema e encontram-se instalações de combustíveis da  ENACOL, comparticilada pela pública angolana Sonangol. As duas bandeiras flutuam juntas e quem conhece as cores da Sonangol rejubila-se. 

Um túnel, há dois quilómetros, serve de ex-libris: Santa Catarina, última cidade do Distrito de Lembá. De lá em diante, há somente ondas do mar, vida solitária, sem mais vilarejos urbanos e sem mais asfalto. É o fim da Zona Norte.  

Em 21 de Dezembro de 1470, os navegadores portugueses Pêro Escobar e João de Santarém acharam a ilha de São Tomé, no local chamado Anam Bô, distrito de Lembá. É parte histórica da Ilha.

Aqui a maioria são angolares. Pela ginga intimidatória no andar e atitude comportamental, fizeram-me lembrar os "gregos do Sambila" do antigamente, com quem um não residente não podia “torrar farinha”. Arlindo Fernandes confirmou:  
— Chefe, esses são complicados. Se disseres um português que alguém não entender, pode aparecer outro a insinuar que lhe faltou respeito muito e ser motivo de zanga.

Observei em silêncio. Como estávamos parados junto de uma loja com a designação de Manga Zébê que o Arlindo traduziu para "manga grande", pedi duas Rosemas (cervejas) para amainar o calor.

Além das roças já visitadas, a memória da ilha guarda outras referências incontornáveis: a Roça Monte Café, fundada em 1858, que se tornou o maior centro de produção de café e hoje abriga um museu dedicado à história agrícola; e a Roça Água Izé, fundada em 1854, pioneira na introdução do cacau, que chegou a ser uma das mais prósperas do país. Ambas, ainda que em ruínas, são testemunhos da época em que São Tomé foi chamada “a ilha do cacau”.  

Se Porto Alegre é a cidade a sul onde termina o asfalto, Santa Catarina, Distrito de Lembá, é extremo norte. A rodovia escavada na encosta curvilínea e alta do Atlântico encontra o seu epílogo. Daí em diante não há veículo que avance.

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