Translate (tradução)

quinta-feira, abril 09, 2020

A ÚLTIMA LUTA DE PAULO KAMBANGELA

Em Kitumbulu dos anos setenta (fazenda, algures no Libolo), Paulo Kambangela era ainda miúdo que seu padrasto (avô paterno de Matoumorro) mandava correr com os macacos que davam cabo do milho.
O nome Kambangela (cigarra) está ainda por descortinar. Se calhar, quando nenê, gritava que nem uma cigarra estendida ao sol ardente do meio-dia. Quem é do campo já ouviu o grito estridente de uma cigarra.
Matoumorro, nascido depois do 25 de Abril (aquele Abril de setenta-e-quatro) conheceu Kambangela já aos 15 anos, embora soubesse da relação entre seu avô Ngana Muryangu com a velha Lulu, mãe de Kambangela.
Esguio, de altura média e com bom jogo de pernas e truques com as mãos que deixavam embasbacado o adversário da peleja, Kambangela ganhou, nos anos noventa (estamos a falar do século vinte) a fama de melhor lutador da aldeia de Kuteka. Que jovem não o reverenciava?
Kambangela, no dizer dos luandenses daquela época, "fazia ponta". Isto é, numa casa, podia surrar do mais novo ao mais idoso. À astúcia na peleja, juntava aspectos sádicos e virulentos.
- Éh, luta do mano Paulo só acaba quando ele ganhar. Se você lhe bate e foge ele te persegue ou te faz uma emboscada até te tirar sangue. É por isso que toda a gente lhe tem medo.- Diziam os púberes de então.

Por razões que nunca explicou, Kambangela nutria nutria um ódio visceral contra o seu antigo padrasto Ngana Muryangu, avô de Matoumorro. Assim foi que ao se terem avistado, em 1990, quando Matoumorro se refugiara na aldeia de Bango-de-Kuteka, fugido do ataque da Unita a Kalulu (25 Dez 1989), o lutador-mor encontrou no neto do antigo padrasto uma oportunidade de vingança.

Matoumorro, nos seus 15 anos, já era costureiro, profissão que aprendera dois anos antes com um primo com quem viveu em Kalulu. Estava, por isso, em casa do Ngunza-a Mbondondo, ajudando-o a colocar bainhas em alguns panos. Quando Kambangela, que era "kiphá" (contemporâneo) de Mbondondo, o viu começou a disparar em jeito de provocação.
- Xê, seu burro de merda, vais estragar a máquina de coser.
- Se o kota não saber, aprendi com o grande mestre Nguza-a-Soba e o kota Nando Mbondondo só me chamou porque sabe que posso ajudá-lo. Defendeu-se Matoumorro.
- Disseste o quê, neto de feiticeiro? Hoje vais me sentir que até o teu avô vai ressuscitar para te acudir.

Matoumorro ainda tentou justificar-se mas os cinco dedos calejados de Kambangela já tinham deixado marcas no seu rosto.

A audiência, conhecedora da malvadez do agressor, se conteve, embora reconhecendo que o rapaz nada fizera de errado para merecer tamanha agressão.
- Não te fiz, nada kota. Se me deres mais vou ter de me defender. - Atirou o rapaz, cujos nervos subiam à epiderme.
Ouvido isso, primeira vez em que Kambangela fora desafiado, o lutador da aldeia queria fazer do rapaz seu batuque.
- Lelo ngumuxika (hoje vou batucá-lo)! - Disse à plateia que aumentava minuto a minuto. Uns tentando acudir mas sem pretender se comprometer e outros com sede de ver sangue e um julgamento posterior na grande árvore do soba Mungongo.

Para o impedir de fugir, Kambangela pressionou Matoumorro pelos ombros, impossibilitando-o de se levantar da cadeira. Jamais tinha imaginado que o seu peso diminuto era vantagem para o adolescente que se pôs em pé com o adversário pendurado às costas.
Kambangela parecia estar lyambadu. Seus olhos eram sangue. Espumava pela boca à medida que rebuscava o mais profundo disparate contra o avô, o pai e a mãe de Matoumorro, por sinal sua parente.
Já fora da sala, levado às costas pelo adolescente, Kambangela tentou usar a sua táctica de sempre. Jogo de pernas, como fazem os pugilistas, e batimentos no peito que terminavam, sempre e certeiramente, com um golpe ao adversário.
Atento e já destemido, Matoumorro agarrou-o pelos ombros e espetou-lhe uma valente cabeçada que atirou o "Golias" ao solo rígido.
- Ewe?! - Gritou a plateia entre júbilo, pela derrota de kambangela, e medo do porvir.
- Corre. Vai. Fecha-te em uma casa. O Kambangela vai te matar. - Aconselharam outros.
A Cena seguinte foi Matoumorro a correr, seguindo os conselhos dos familiares mais directos e Kambangela a correr em direcção à sua casa, como se fosse em busca de algo contundente para se desforrar. Já não foi visto naquela tarde e noite.

No dia seguinte havia uma caçada pelas montanhas de Kitumbulu (junto à fazenda do avô paterno de Motoumorro (ex padrasto de Paulo Kambangela).
Não vai. Quando voltarmos vamos associar carne para ti. O mano Paulo pode te flechar. - Desaconselharam o rapaz a sair de casa.

Sem medo e com o atrevimento da idade, Matoumorro meteu-se a caminho do sertão, mesmo sem zagaia e flechas. Evitaram-se durante a caçada que durou 6 horas. Foi mais Kambangela quem andou distante do infante. De lá para cá nunca mais Paulo Kambangela lutou e ficou desfeito o seu mito de lutador invencível do Kuteka.


quarta-feira, abril 01, 2020

COMPORTEM-SE AGORA QUE REGRESSARAM AO "CEMITÉRIO"

Alguns compatriotas lembravam-se de Angola apenas para o descanso "post morten", levando toda a sua vida, preferencialmente, na Europa ou América, para os de gostos mais rebuscados.
A Portugal, diziam, vão os de "costumes moderados".
O covid-19 fez-nos todos (amantes da terra mãe, pródigos ou fugitivos e maldizentes) filhos duma mesma pátria.
Porém, àqueles que Angola era apenas país útil para o sepultamento de restos cadavéricos importa uma chamada de atenção. Quem saiba oiçam e a experiência do regresso forçado pelo Covid-19 lhes faça pensar em possíveis pragas mais severas e numa estada mais demorada em Angola.
Alguns levaram daqui tudo quanto não ganharam por via do suor. Longe da terra usurpada, fizeram suas vidas e morada (formação, trabalho, constituição de empresas, depósito de fortunas, aplicações financeiras, consultas médicas, festas de aniversário, "affairs", etc.).
Voltaram agora que a temperatura angolana ficou provada mais favorável à luta contra o covid-19 ou que a eminencia da morte vos trouxe para um funeral com carpideiras, caldos e komba-ditôkwa que jamais algum angolano teria na Europa ou nos Estados Unidos do Tramp.
Peço-vos:
Comportem-se. Pensem. Tragam o dinheiro. Não importa se vosso, ganho com suor, ou se suados a rouba-lo (vezes há em que o gatuno também se considera dono do acaparado e reclamar se alguém dele botar mão). Invistam em cemitérios (o que mais vos anima em Angola). Agora que estais aqui, pensem em melhorar a saúde, pois se ela melhorar a vossa ida ao Alto das Cruzes pode ser postergada. Pensem na melhoria das escolas para os vossos filhos corridos da estranja pelo Covid-19. Invistam aqui o dinheiro que levastes, mesmo que seja para acudir vossos parentes pobres e carpideiras que vos hão de chorar lágrimas verdadeiras. Aprendam com a crise e o "tunda-mambundu" causado pelo Covid-19.
Aproveitem também interiorizar as nossas vivências solidárias com a dor alheia e abstenham-se de plantar o pânico, o medo e a incerteza.
Para nós, que temos um único pais e uma única pátria, tudo se vai recompor e todos sairemos sãos dessa fúria do coronavírus.

Se não poderem se conter na fabricação e difusão de fake news, ao menos deixem-nos viver as nossas vidas de pobres miseráveis e gente honesta comprometida com a verdade e um futuro melhor.

sexta-feira, março 27, 2020

MANGODINHO E O "KOHONAVÍRU"

Mangodinho que estava na capital, quando aqueles voos internacionais chegaram e quando chegou a notícia do Coronavírus em Angola, apressou-se em regressar à aldeia natal, no Lubolu.
- Estou a pressentir que vamos voltar ao tempo da kitota em que cada um ficava na sua lavra (apenas com a família de casa), aldeia, vila ou cidade, sem poder sair para terras distantes, a menos que fosse autorizado e com guia de marcha. - Explicou quando a mulher perguntou por que havia regressado tão cedo e sem as compras do costume.
- Epá, se prepara. A coisa pode ficar quente. Esses meus cabelos brancos que não me deixam mentir estão a me transmitir coisas futuras que podem acontecer em breve.

A mulher ainda tentou associar as premonições à força da kapuka que tinha bebido de véspera. No dia seguinte, quando ele já falava à população da sua aldeia sobre a nova doença que os doutores das cidades estão a chamar "Kohonaviru" (kohona=tosse) chegou, através da rádio, a orientação do Mwen'axi (PR) sobre a proibição de as pessoas fazerem o entra e sai no país e depois nas províncias. - Estão a ouvir bem nê? Chegou uma doença muito perigosa tipo tosse convulsa mas não é. Pessoa fica a kohonar sem ar e com fortes dores de cabeça. Mais pior ainda é que outras pessoas podem ficar doentes sem sentir nada mas passam a doença perigosa aos outros. Se pega velho, pessoa já doente com tuberculose, falta de sangue ou que tem problemas nos rins é óbito. Estão a ouvir bem, nê? O Estado disse que lavar as mãos é de hora em hora.  
- Mas, Mangodinho, lavar de hora em hora, como assim? - Perguntou Sembe, o puto atrevido de sempre. Único que nesses dias torra farinha nas discussões de sabedoria com o Mangodinho.
-Ouçam bem, meu povo. E você Sembe põe na cabeça e explica bem os teus amigos. Com essa doença, os cuidados são assim: mijou, lavou (as mãos). Evacuou, lavou. Se encostou toma banho imediatamente. Aliás, é proibido se encostar. Temos de nos distanciar um metro. Não há se dar kisende ou se abraçar. Não há se ajuntar nos óbitos. Não há mais se emprestar banheira ou toalha. Os miúdos tem de ter cada o seu cobertor. Se tapar toda família na mesma manta já está proibido.
- Mas, Mangodinho, se os filhos são da mesma casa também não podem se cobrir juntos? Não podem dormir juntos? Não podem comer no mesmo prato? E os nossos hábitos? Os nossos costumes? - Interrompeu a Amélia, uma miúda que estudou no Ngunza e que voltou com o marido professor.
- Ouve bem, meu povo. Amélia, ouve também. Vocês que têm estudo na cabeça e que são jovens vão explicar melhor. Os nossos hábitos e costumes vamos guardar um bocado. Eles não vão fugir. Para combater o kohonaviru temos que cumprir. Se muitas pessoas dormem juntas, basta uma apanhar para todos ficarem contaminados. Se as pessoas comerem no mesmo prato estão a se transmitir calor, saliva, ar e muito mais. Se um apanha, outros apanham. Se os filhos e as filhas se taparem o mesmo lençol ou dormirem debaixo do mesmo cobertor já viu nê? Basta um ficar contaminado, todos ficam contaminados. Bem, já falei tudo que ouvi. Daqui a pouco a Rádio vai dar noticiário. Todos devem ouvir as notícias e cumprir as recomendações. Amanhã, voltaremos a estar juntos no terreiro para sabermos o que cada um vai fazer para se preservar. Amanhã, cada fica afastado do outro um metro. Se vem a mulher, o marido fica em casa e a pessoa que vier à reunião tem de ir tomar banho, antes de se juntar à família. Se todos cumprirmos, o Kohona vai voltar aonde saiu e vai nos deixar vivos e completos. Sembe e Amélia, pegam o carro e vão à administração buscar os panfletos para colar na escola e no posto médico. Até ao próximo Domingo!

quinta-feira, março 19, 2020

E SE...

Por conta da expansão do COVID-19, o país tem as fronteiras fechadas, uma Decisão Presidencial bem acolhida.
O que ainda pode ser decretado, em reforço, é incógnito, alimentando os "sês" e as possíveis consequências dos "sês".
Vejamos:

1- Não pode a TAGG voar nem o Angola receber voos de passageiros. Se a situação se prolongar por muito tempo, quem vai pagar os ordenados dos funcionários da TAAG?
Quem vai pagar os ordenados de eventuais trabalhadores de embarcações de passageiros que liguem Angola e outros países?

2- Se as escolas vieram a fechar, é obvio que o governo continuará a pagar os professores, pois já o tem feito. Porém, quem vai pagar os colégios? os encarregados de educação que terão os filhos em casa? e se os encarregados de educação forem colaboradores/professores de outros colégios e ou de empresas que, por consequência das medidas contra o COVID-19 também não possam trabalhar e ser convenientemente remunerados?
Se as creches fecharem e os meninos estiverem em casa, pagam os pais? quem paga os educadores sociais?

3- Se for orientada a quarentena de alguém que tenha chegado de "países endémicos", ele fica com a família? Fica isolado? Onde? Como? As famílas estão a ser treinadas/informadas sobre como proceder no caso de um dos membros ter de observar quarentena? Ficam todos expostos?

O que é, afinal, quarentena domiciliar?


"Pior do que o covid-19
É ouvir dizer e difundir sem checar"!
SK

domingo, março 01, 2020

O DISCURSO JORNALÍSTICO DE ENTÃO

1- A coca-cola faz publicidade todos os dias, conciente de que todos os dias há novas pessoas que ganham consciência de consumo e de branding.

2- A media angolana do último quartel do Sec. XX fazia de seus lugares comuns temas de conhecimento transversal, a exemplo da água, sol, chuva, estrelas e lua que não precisam ser recordados aos novos seres pensantes.


Ora vejamos: a Resolução "quatro_três_cinco, barra setenta e oito, do Conselho de Segurança da ONU" era citada todos os dias na Rádio Nacional (única na década de 80 do sec XX), sem que os jornalistas se dessem ao trabalho de explicar o que ela mandava.

Meninos curiosos e interessados em política como o autor dessa prosa limitavam-se a recitar tais chavões a que se acrescentavam adjectivos e epítetos.

Vou citar alguns exemplos:

- Aviação racista sul-africana (os aviões eram racistas?)

- Bombardeamento a sul do paralelo 14 (onde é?)

- Violação do solo pátrio (hum?)

- Os fantoches do imperialismo (traz o dicionário)

- Caudilho (tem cauda?)

- Megalómano (homem grande?)

- Guia imortal (levava os meninos à pratica de salto imortal?)

- Processo 105/83 (quem eram e que faziam?)

- Nós somos a "classe proletariado" (ah, afinal só sabiam fazer filhos?)

- O Ministro na penitenciária trata os detidos por "camarada presos" (ah, são da igualhagem?)


Cite você outros lugares comuns de que se lembre.

sábado, fevereiro 29, 2020

O NJANGO DOS "PECADORES"

Está situado numa zona plana, de fácil acesso e aonde se dirigem todos os caminhos da City Center. No seu interior, aguardam-nos mesas, sofás e sorrisos convidativos. A luz é tosca. Leva à impressão de se tratar de um lugar semi-escuro, onde a intimidade parece estar salvaguardada. A música, sim, é quente. Animada e mexida, ou melhor, faz todos se mexerem em movimentos que vão do simples contorcimento do corpo a outros mais ousados, mais eróticos que fazem erguer fechas e inundar cascatas. Diria: o ambiente é mesmo caribenho. Alguns homens chegam acompanhados. Outros apenas indicam o lugar do encontro e aguardam, enquanto "chicham" (essa nova moda de fumar sem cheirar fumo), pelas donzelas que tornarão sua noite diferente, talvez mais quente ou nem isso.
Essas, dengosas, prontas ao combate e insinuando batalhas campais, chegam dóceis e provocadoras. Lábios carnudos e avermelhados, cabelos longos que escondem maracutaias e "viradas" de matar o cavalo...
E nas algibeiras e carteiras... não queiras espreitar. E todos, perdidamente todos, se entregam desalmados aos copos e aos corpos como se dia seguinte não houvesse. É assim no Cubaña. Cape Town, 2020.

sábado, fevereiro 22, 2020

LALAMA: TÃO PRÓXIMO E TÃO DISTANTE

Zona ribeirinha ao rio Zenza, em Icolo e Bengo. Tão próximo, mas também tão distante.
Zona agrícola, próxima de Luanda, onde imperam casotas feitas de chapas. 
- Será pela facilidade de sua montagem ou uma cultura "arquitetónica" que se instala entre os meus "conterrâneos" catetenses? 
Ao que pude ver, naquele rio e naqueles angolanos não correm apenas água e sangue. Corre também o desejo e o empenho  de todos os dias de irrigar a terra fértil e alimentar as comunidades, as vilas e a grande cidade.


Zona "tão distante" de nosso curto imaginário que durante décadas fomos inculcados a cultura de impossibilidade da agricultura em Angola, nem mesmo à volta de cidades (por causa das minhas: uma per capita), tudo para alimentar o bolso com os desvios da importação. 

Tão distante para gente que pensa que a agricultura familiar precisa ser feita com muitos recursos subvencionados pelo Estado magro que já mama na teta do arruinado cidadão. 

Tão longe, Lalama, nas mentes de gente que nas suas cercanias ergueu luxuosos risorts e quintas de fazer turismo para que os exauridos, extorquidos e distraídos com festas de "sempre a subir e tchilar" não descobrissem onde repousam os dinheiros da sua fome e miséria imposta pela falta de patriotismo dos que se colocaram no leme do navio.
Em Lalama, antes terras agrícolas de mamãs "tembuás" sem trabalho em casas de sô ´tor ou funcionários da administração (Catete de Cima, Catete de Baixo, Domingos João, Kinzau, Mazozo, e etecetras), observei um cruzamento de procedências:
- Eme ngangw'Epala-kya-Samba, Kotofe katundu (sou da Kibala vim de Katofe).
- Ame nda kitiwila ko Vye (nasci no Bié)
- A ngivalela ku Kaxikane, ngeza mu sota wengi (nasci em Kaxikane e vim procurar negócio)
- Yami nguli kacokwe. Cihunda ca Nuryeji (Sou procedente de Muryeji, sou kacokwe)

É. Lalama mostra em miniatura o que Angola precisa: mulheres e homens que trabalhem e que digam não à ociosidade e ao furto da banana e mandioca alheia!


Observei atento, o que um (hoje) desconhecido investidor (meu filho disse que só podia ser branco pelo tamanho das edificações) erguera em Lalama. Casa de dois pisos e um miradouro, campos irrigados, no vale do Zenza, pocilgas e casas para "assalariados" ou contratados (escravos camuflados doutra era) que ali trocavam suor por peixe, fuba e cobertor. Bem podiam ser aproveitadas as instalações e revitalizados os campos de produção intensiva e permanente. Mas o fogo da revolução, o "partitudismo" que a "independência trará coisas novas e melhores", tudo derrubou, obrigando as pessoas a começarem do nada.
Também conheci, finalmente, a rodovia que liga Viana-Catete-Kifangondo-Cacuaco-Viana.
Tão próximo, mas também tão distante (para quem não anda)!

sábado, fevereiro 15, 2020

UM ÓPIO CONTRA A FEROCIDADE LIBERAL CAPITALISTA


No "capitalismo liberal", segundo politólogos, impera a soberania do mercado e do eleitor.
Por outras palavras, há liberdade e sem intervenção política na economia que é "governada pela lei do mercado de bens e serviços. Quem escolhe os políticos é o cidadão eleitor. 

Quando o político não intervém, prosseguem os pensadores políticos modernos, é um "laissez fair" que "obriga" o político a pensar no legado para a próxima geração em vez de pensar na próxima reeleição. 

O sistema capitalista, mesmo que liberal, tem, porém, seus males. Os ricos (detentores do capital), com a exploração dos pobres (força de trabalho), tornam-se mais ricos e os outros (explorados) mais pobres. Isso leva as pessoas a olharem simplesmente para si e não para os outros. 

A aposta em programas sociais ou de nivelamento social é fraca ou inexistente, resultando em muitos indigentes. É o que constato nas ruas de São Paulo.

Entretanto, perante situações dessa natureza, é preciso encontrar mecanismos para entreter ou distrair aqueles que, sem oportunidade de mudar o quadro, se entregam ao proxenetismo, ociosidade por falta de ocupação, mendicidade e outros males. Surgem os "ópios" sociais.

A Avenida Paulista, que abre aos domingos, das 10h00 às 18 horas, é um desses meios para distração/lazer/turismo. Aos que sobrevivem, é um ópio. Aos que vivem, proporciona lazer. Aos visitantes de outros Estados, é espaço para lazer, sendo toda ela, nos seus perto de 3 quilômetros de extensão, uma festa no horário acima apontado.

E o pobre, que já é pobre, queima as únicas moedas que serviriam para a poupança, o pão ou mesmo o transporte para nova e penosa jornada da segunda-feira imediata.
É o ópio que faz olvidar a própria existência humana!

SP, 20.10.2019

sábado, fevereiro 08, 2020

UM XIXI QUE ME ATRASOU 6 ANOS

Corria o ano de 1978, "Ano da Agricultura" nas denominações daquela época. Todos os anos, a minha mãe visitava os seus irmãos em Luanda: Ferreira Ganga que cuidava de Alberto Canhanga, levando, sempre, um galo grande para presentear o irmão kasule que "passou de ano"(acadêmico).
A viagem daquele ano, iniciada no Lussusso, tinha já perto de 30 quilómetros feitos, a caminho de Luanda. Estávamos já na pousada do alemão Walter Kruk, também conhecido por Ngana Mbundu. Nunca tinha visto, de uma só vez, tantos carros, autocarros, pessoas com ares de importantes, camaradas chefes e brancos que não tinham sido colonos.
De repente, aquele ambiente, primeiríssimo na minha vida, encheu-me a bexiga, ao ponto de me aliviar nos calções,  ante a incontinência momentânea e, eventualmente, algum mutismo.
  • Falo Kimbundu num ambiente em que todos falavam português e outras línguas estranhas (eventualmente alemão)?
E, como "é o dedo que contém ferida que mais tropeça nas pedras", para o meu azar (desconheço as razões até hoje), a minha mãe abortou a viagem, regressando à Fazenda Israel (próximo da actual aldeia de Pedra Escrita, Libolo) onde vivíamos há poucos meses, saídos do Kitumbulu.
Passaram mais seis anos, até que, forçados pela Unita, em 1984, fui "contemplado" com a viagem que me fez conhecer Luanda, sendo as minhas irmãs mais novas quem sempre acompanhavam a mãe à capital, gozando comigo, em cada regresso, entoando a célebre expressão: ewô, mu Lwanda úwabe!
  • (Quão linda é Luanda!)
Passados 41 anos, posto em Cape Town, ponho-me a ver os encantos dessa urbe e a imaginar o que se pensava de Luanda por aqueles que não a conheciam.
Se seis anos depois do "fatídico" mijo cheguei à capital, ainda creio que com empenho e boa governação, em menos de sessenta anos poderemos aproximar Luanda à sua congênere sul-africana,  em termos de benfeitorias sociais e serviços turísticos, fazendo com que quando os nossos responsáveis provinciais forem questionados por seus superiores, os governantes, sobre os serviços e produtos turísticos em cada região, deixem  de confundir o turismo "indústria da paz" com os carros para turismo, como respondeu um certo responsável provincial ao seu ministro.
- Então,  senhor delegado provincial, como está o turismo?
- Chefe, ainda estou mesmo a andar com aquele camião que está  a ver aí à frente. O turismo avariou!


Texto publicado pelo Jornal de Angola. 18.09.2022

sábado, fevereiro 01, 2020

CAMINHANDO POR "ANGOLA EM PAZ"

Depois de um périplo que os levou ao Médio Oriente, Ásia, América e Europa, já no fim do percurso e com estala em Lisboa, Mangodinho e Niva (que ganhou o nome por via daqueles carros soviéticos que sucederam os Lada=levamos analfabetos destemidos angolanos; Não importa, vamos alfabetizá-los=Niva), discutiam sobre as cidades e países evoluídos e aqueles que "estavam a apenas um metro de ANGOLA" como é o caso da cidade que Mangodinho chamou de "Angola em paz".
- Isso aqui, deixa só - dizia Mangodinho - em comparação com o que vimos, está com nada. Nada mesmo. Isso é, no meu entender de pessoa viajada, Angola em paz!
- Mas, Mangodinho, Angola já está em paz e ainda estamos a patinar para chegarmos a esse patamar. - Ripostou Niva, jovem reguila nos debates de não deixar conversa adiada.
- Patamar. Patamar de quê Niva? Patos no mar se calhar eles têm. Patamar que é de estar acima dos outros, nada. Nada que se vê. Já que achas que não é Angola em Paz, então fica só Angola sem maribondos-sanguessugas-do-erário. Quando limparmos a casa com o exemplo da Singapura que partiu sem dó nem piedade contra os larápios, garlas e peculadores vamos, sem demora, atingir o degrau deles e lhes espetarmos de rajada, uma cinco voltas de avanço!
Niva preferiu puxar a cara para outro lado e soltar um pouco do sorriso que forçava os lábios com vontade de sair.
- Oh, Mangodinho! Achas mesmo que em dez, vinte anos chegarmos a ter ruas limpas e sem buracos, árvores saudáveis e não atropeladas pelos carros, carros limpos e sem deitar fumo, prédios pintados e sem esgotos a transbordar, comboios superficiais e undergrounds, ciclovias e postos de carregamento eléctrico, nas ruas poucos jovens, muitos velhos e poucas crianças e grávidas?
- Vendo bem, Niva. Tocaste num bom ponto. Só cavavós a andar sôfregos pelas ruas, tipo aqui, não precisamos. O resto é questão de luta-contra-bandidos. Mas o ponto afiado da tua colocação é mesmo a ausência de grávidas. Porra! Quê quêsses mizangala todos saudáveis e a mostrarem músculos nas caminhadas andam a fazer às noites? Só futebol, birra e tabaco? Têm de ir aprender connosco. Isso sim. Vamos propor no relatório...