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quarta-feira, julho 07, 2010

PARA QUANDO O FIM DA BI-CEFALIA NA FNLA?

A minha última reflexão sobre a política nacional aconteceu em 2008, depois das eleições legislativas onde eu sugeria à media para pôr termo às denominações bicéfalas nos partidos políticos, uma vez que a realização das eleições tinha nivelado a questão das lideranças ao aceitar determinadas candidaturas e chumbar outras. E parecia que as coisas estavam bem encaminhadas até que ressurgiu o caso FNLA, onde as eleições, por si só, não encerraram em definitivo o assunto, tendo o Tribunal Constitucional, em função das várias reclamações a ele dirigidas pelas partes envolvidas, comunicado um acórdão em que repunha a situação ao último congresso convocado pelo finado Holden Roberto.

Em 1998 Lucas Ngonda entrou em colisão com Holdenm Roberto por este nunca lhe passar pela cabeça a realização de um congresso. Ngonda criou uma quinta coluna e realizou um congresso que o elegeu presidente. Do outro lado permaneceu Holden e a sua entourage, com Ngola Kabango como actor principal da “orquestra”. O partido passou a ter duas sedes, uma na rua Samuel Bernardo e outra na Hoji-ya-Henda.

Uma mediação, composta por William Tonet, igreja e companhia, convenceu as partes para partirem para um congresso da unificação, realizado em 2004, onde a direcção ficou repartida entre as duas alas, ou seja: Presidência para Holden Roberto; 1ª Vice-Presidência para Lucas Ngonda; 2ª Vice-Presidência para Ngola Kabango e a Secretaria-Geral para Francisco Mendes (um correligionário de Ngonda). Este elenco teria de coabitar até à realização de um congresso ordinário nos dez meses seguintes, o que não aconteceu, pois o velho Holden assim não entendeu, resultando numa nova “rebelião” de Ngonda e parceiros que dois anos depois, realizou outro congresso à parte.

Com o líder fundador morto, Ngola Kabango, sentindo-se substituto natural, parte, finalmente, para um congresso em que não participam os da ala de Ngola e proclama-se presidente (herdeiro do programa de Holden). O congresso teve a participação e candidaturas de Carlinhos Zassala, Miguel Damião e um outro candidato. Todos eles reclamaram da organização e fraude, remetendo ao Tribunal Supremo a impugnação do conclave.

Em 2009, o Tribunal Constitucional, herdando os processos do Tribunal Supremo, através de um acórdão, remeteu a situação da liderança da FNLA ao congresso da reunificação, o último convocado por Holden Roberto, facto que fez transitar a presidência legal das mãos de Kabango para NGonda que acaba de convocar, nas vestes de presidente interino o congresso extraordinário, hoje (07.07.2010) terminado.

O que me inquieta é que mesmo os jornalistas e os órgãos de comunicação social conhecendo a realidade e a conturbada história desta formação política, em vez de procurarem por esclarecimentos legais e esclarecerem o povo, voltaram a embarcar na bi-cefalia do partido, ouvindo Ngonda e Kabango, ambos como presidentes.

E o povo que espera por um esclarecimento da media como fica? E pior é que Ngola Kabango grita aos quatro ventos ser o presidente legal prometendo um outro congresso para Novembro do ano que vem…

_ Continuará a FNLA ad eternum na condição de um partido onde as pessoas nunca se entendem?

_ E como fica a questão da obediência partidária dos deputados eleitos, dentre eles Ngola Kabango?

_ O partido continuará a ter uma sede na rua Samuel Bernardo e

Outra na Avenida Hoji-ya-Henda?

Eu, modestamente, até já sou pela extinção desta “batata podre” que pode contaminar outras “batatas” partidárias.

terça-feira, junho 29, 2010

REENCONTRO


Conhecemo-nos na infância, por volta de 1978. Eu com 4 e ele com 3 anos. Juntos nos ensaiamos na pesca à toqueia no riacho junto à casa do avô João dos Santos para aonde nos fomos acomodar depois de meus pais terem abandonado a fazenda Kitumbulo onde vivíamos. A fazenda Israel, que fora gerida pelo avô João dos Santos, era duma outra civilização. Estava mais próxima da estrada asfaltada E120 e na casa de João dos Santos, um assimilado, só se falava o português, hábito herdado do colono recém-corrido e que ainda fazia lei. Augusto dos Santos era neto directo e sendo eu indirecto, nascido duma sobrinha do patriarca da família. O velho era um homem de vários ofícios. Era enfermeiro, costureiro e agricultor.

Vivendo os seus filhos nas cidades do Dondo e Luanda João dos Santos cuidava com bastante apreço dos netos. O Augusto, o Santos e eu. Depois nasceram outros.

Na iniciação, o Augusto (na foto) fora famoso por ter rejubilado num jogo de batota quando depois de ter apostado 10 Kz recebeu de troco 9 Kz, sendo-lhe descontado 1kz. E o Augusto saltitava de emoção por lhe terem sido devolvidas várias moedas… Estava eu na primeira classe, um ano mais adiantado do que ele. Depois fomos à circuncisão cuja escola frequentamos apenas três pessoas, Augusto, um primo nosso e eu.

A nossa separação deu-se em 1983 quando a guerra civil se acentuou. O avô adoeceu e foi levado para a cidade de Luanda onde viria a falecer dias depois. Como se a perda fosse menor, uma doença estranha apossou-se do Augusto e o rapaz perdeu a audição e parte da fala. Embora o pai, António Infeliz dos Santos, vivesse em Luanda, o Augusto e os dois irmãos mais novos (Santos e Quituxi)permaneceram com a mãe, vivendo uma vida que só eles saberiam contar. Quanto a mim, segui em 1984 para Luanda e lá fiquei radicado até hoje.

Daquela data a esta parte, apenas por mais duas ou três vezes nos tínhamos cruzado de forma muito curta, sem podermos trocar mímicas que nos levassem a recordar o nosso passado comum: as nossas brincadeiras em casa e na escola, os mata-bichos da avó Emília, as pescas com cana improvisada e isca de gafanhotos, o medo das injecções que o avô nos aplicava, as roupas que a tia Santa (madrasta dele) nos dava, as boleias no IFA militar do tio Infeliz (pai dele) e doutras coisas.

Encontrei-o desta vez a viver junto da sua tia Maria Canhanga, na aldeia de Pedra Escrita, e no território que compreende a fazenda Israel herdada do pai, um finado tenente-coronel do exército governamental. O Augusto acompanhou-me à QB*, ajudou-me a plantar duas bananeiras, uma laranjeira e um abacateiro. Emocionou-se a ver o campo que eu tinha cultivado à distância e bateu-me no ombro, como fazia antigamente sempre que o acudisse de algum embaraço. Revezando-nos, carregamos ao ombro um cacho de banana-pão e caíram lágrimas na hora da despedida.

_ Primo, assim já vais? – Questionou-me ao ver-me a entrar no carro.

Apenas acenei a cabeça receoso de provocar um banho de lágrimas. Mas quem chorou fui eu!

domingo, junho 20, 2010

NOVA ESTRELA É KUANZA-SUL EM MINIATURA

Assuntos ligados à narração correcta da História e cultura dos povos que habitam o Kuanza-Sul, de onde sou originário, levaram-me a procurar, mais uma vez, pelo Reverendo Gabriel Vinte e Cinco que pastoreia a Igreja Metodista Unida em Angola, cargo-templo de Nova Estrela, em lUANDA.

Não encontrei o pastor que fora a uma missão religiosa no município de Cazenga, mas fui tratado de forma digna, como sempre o fizeram os metodistas de toda Angola. A saudação em várias línguas nacionais e estrangeiras, os cânticos que me lembraram os meus tempos na I.M.U.A-Moisés, e a excelente pregação sobre as consequências nefastas do imediatismo, fizeram de mim um homem com o dia bem vivivido neste domingo, 20.06.2010.

Senti-me na Igreja de Moisés e ao mesmo tempo no Kuanza-Sul.

terça-feira, junho 15, 2010

O MUNDIAL E A "SECRETARIA" DOS GRANDES

Servindo-me do exercício do silêncio, que pode resultar em grandes vozeirões, remeti-me a uma pausa na escrita destas prosas. Assediado porém pela realização do primeiro mundial de futebol no continente africano não me contive e sou "forçado" a debitar ideias sobre o grande acontecimento da Àfrica do Sul.

E tudo começou na sala de serviço com o Elias (meu assistente) que trouxe a conversa da secretaria. A secretaria é nas grandes empresas pouco burocratizadas o local onde todos vão em busca de formulários, foto-cópias, outros impressos e encadernações. O Elias trouxe a analogia da secretaria para se referir às equipas onde as demais vão, por força do poderio, buscar pontos. A análise recaiu ao grupo em que estão alinhados Brasil, Portugal, Correia do Norte e Costa do Marfim.

Tirando a desconhecida Coreia, a maioria dos angolanos conhece ou já ouviu falar do Brasil e Portugal, países com quem partilhamos história e língua, como também conhecem e têm afinidades pela Costa do Marfim, país que representa o orgulho e a esperança africanas neste mundial. Por isso, muitos angolanos como eu estão divididos e acham mesmo a Coreia como a "secretaria do grupo".

E o Elias começou por dizer que "tendo Portugal empatado com a Costa do Marfim e sendo o Brasil o papão do grupo, restava a Portugal e Costa do Marfim ganharem por a Coreia e perder por poucos golos no jogo frente aos penta campeões (brasil)". Seguindo a na lógica do Elias qual seria o caminho para se encontrar o segundo classificado já que todos iriam à secretaria buscar pontos, tendo Portugal e Costa do Marfim empatado no jogo entre si...

O meu assistente continuou que "vai à segunda fase quem mais golos entalar à secretaria (Coreia do Norte)" . Mas o Elias foi mais ousado e colocou uma questão nova. Nova porque nunca foi debatida de forma aberta por ser quase improvável o cenário desenhado: Perguntava-me ele: "_Chefe, e se todas as equipas terminarem empatadas sem golo e com três pontos, fruto de três empates".

No momento em que escrevo esta prosa o triplo empate está fora de questão, mas a secretaria deu mostras de que "não oferecerá nenhum modelo nem impresso" a Portugal e Costa do Marfim, como não o fez em relação ao tout puissant Brasil que se viu e desejou para vencer a partida por 2-1.

domingo, junho 06, 2010

COMO CONTER O RECURSO AO CARRO PRÓPRIO?

As estatísticas mais optimistas apontam para cerca de dez mil veículos automóveis que dão entrada todos os meses na capital angolana, contando-se, entre elas, viaturas novas e de “segunda-mão”.

Com os seus quatro milhões de habitantes, Luanda possui neste momento mais viaturas do que a população inicialmente projectada para a cidade, que era de 500 mil habitantes, inferindo negativamente na distribuição de espaços para circulação e estacionamento. Daí que, olhar de forma atenta e crítica ao crescimento desenfreado do número de veículos automóveis na capital do país não seja um exercício em vão.

Qualquer observador atento rapidamente concluirá que o débil sistema de transportes públicos urbanos (autocarros, comboios e ferryboats) está na origem do recurso, quase que obrigatório, ao carro próprio.

É certo que durante os 27 anos que antecederam a paz definitiva nenhum olhar atento esteve direccionado à reparação de vias de comunicação, quer terrestres, aeroportuárias, marítimas e ferroviárias, esforço que apenas agora começa a ser desenvolvido neste grande segmento.

Por outro lado, apesar de terem sido importados inúmeros autocarros pelo Governo e agentes privados, a degradação das vias urbanas e a inexistência delas em muitas das extensões da cidade capital fazem com que o serviço prestado pelas operadoras deste serviço esteja sempre abaixo do desejável e, mais uma vez, os ditos “candongueros e kupapatas”, mesmo com a sua onda de desordens, são tidos como os grande facilitadores das populações.

Bastará contar quantas estradas paralelas, em condições, existem em direcção a Viana, Cacuaco, Samba e outros destinos. Qualquer acidente ou impedimento na Deolinda Rodrigues será suficiente para bloquear o acesso àquele município, dando-se o mesmo em relação aos demais destinos que contam apenas com uma ou duas rotas viáveis.

Quando se julgava que o comboio, de Baia ao Bungo, viesse a resolver parte do problema, fomos brindados com apenas uma linha, o que impossibilita a circulação simultânea de várias composições como acontece em outros países.

Sem transportes públicos rodoviários eficazes e sem comboios de minuto a minuto, a utilização do transporte marítimo, através de ferryboats ao longo da costa, ligando a Samba e Cacuaco à cidade baixa, podia ser parte da solução, mas mais uma vez os potenciais investidores e empreendedores tardam em reagir, estando o Governo, também a braços com as inúmeros encargos financeiros e empreitadas, a "assistir" o povo a marchar e a cidade cada dia mais cheia de carros privados e em condições técnicas muitas vezes duvidosas.

Que soluções para os nossos congestionamentos, falta de transportes públicos e recurso ao carro próprio?

_ Como leigo aponto apenas:
1-Urbanizar a periferia e levar os autocarros aos musseques;
2- Criar vias alternativas às estradas principais;
3- Construir mais passagens superiores, inferiors e túneis para tornar o trânsito automóvel mais expedito;
4-Desenvolver imediatamente o transporte marítimo de passageiros;
5- Modernizar e expandir o transporte ferroviário até aonde seja possível.

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(Re)publicado parcialmente pelo Semanário Económico de 10 Junho de 2010

terça-feira, junho 01, 2010

O ÚLTIMO PASSEIO

=Homenagem ao Pedro Menezes=

Tentei ao longo dos 5 anos, completados hoje, não falar, nem escrever sobre os meus últimos momentos com o finado amigo Pedro Menezes. Foi por força da grande dor e vazio que deixou em mim. Porém, por nos terem atribuído acções inverídicas, trago à luz os nossos derradeiros momentos.

À hora da mudança de turnos (13horas) cruzámos no pátio. Polaco Pedro, Pedro Menezes, Lito Costa e eu.
_ Comué, hoje há? - perguntou o Pedro ao Polaco ao que ele acenou afirmativamente.

- Yá, então logo a concentração é aqui. - Continuou o Pedro, desta vez olhando para o Lito Costa. Próximo da cabine estava o Adilson Santos que é colega de Lito, sendo eu e o Pedro Menezes funcionários da mesma área. O Polaco é amigo comum, pois tem um programa independente na LAC e lida quer com jornalistas, quer com os técnicos (sonoplastas).

Lito e Adilson combinaram, à parte, a hora da largada. Cada um tinha o seu carro e não precisavam de favores. Pedro e eu combinamos na redacção, depois de termos, antes, reclamado das impertinências da Amélia de Aguiar sobre os estacionamentos do Pedro Menezes.

Momentos antes a Amélia abordara o Pedro sobre a sua manobra que, a seu ver, revelava inexperiência de condução automóvel. E tudo aí morreu.

_ Comué Canha, vais hoje ao colégio (ISPRA)? - indagou-me.

_ Não. Só na sexta-feira é que vou entregar o pedido para a confirmação da matrícula,  - respondi-lhe.

Estávamos no dia 31 de Maio. Tinha eu chegado havia dez dias de Lisboa e era o nosso primeiro momento de conversa.
_ Então, já ouviste a conversa do pátio... o teu carro está bom? - voltou a questionar-me o Pedro.
_ Ainda, mas... é melhor ir no teu...
_ Yá, então pede já a Elsa e depois confirmas.
_ Não tem maka, - respondi. Estou a me comportar pra caramba!

Assim nos separamos às 15h10. O destino seria a vila de Viana, à noite. À casa do Polaco ou à discoteca Múkua. Era a terceira vez que Menezes e eu iríamos procurar os amigos de Viana, o Polaco Pedro, O Zé Assis e o Zé do Múkua.

Posto em casa, pedi à mulher para me ausentar à noite. Ela não colocou entraves, pois sairia com alguém por quem tinha confiança. O Pedro não fazia uso de bebidas alcoólicas nem qualquer substância psicotrópica. Aguardei por ele e apareceu sozinho, às 22 horas, vestindo um terno preto, o que motivou a Elsa a aconselhar-me a usar um casaco preto que tinha trazido de Lisboa, devido ao frio. Minutos depois partimos. Era da LAC que sairíamos em coluna. Antes, aos congolenses apanhamos o Mateus Gaspar.

No local da concentração, no largo da LAC, onde o Adilson e um irmão mais novo nos aguardavam, decidiu-se que iríamos ao Cassenda visitar o Mário Inácio que fazia anos naquela noite. Assim foi. Uma hora e meia foi quanto gastamos em casa do Marito Perez Inácio. De saída, numa rua próxima do terminal de cargas da TAAG, uma festa tinha sido interrompida pela ausência de energia eléctrica. Dela saiam muitos jovens estarrecidos. Entre eles uma colega, Rosemary Vieira, acompanhada de irmã, Ana Vieira e uma prima.

Depois de se informarem do nosso destino as duas irmãs decidiram connosco seguir a Viana e passar o resto da noite, ao que acedemos. Rosemary e a irmã seguiram no carro do Menezes e o Mateus Gaspar passou para o carro do Adilson. Era a primeira vez que víamos a Ana Vieira que ao longo do percurso se mostrou indisposta queixando-se de uma dor de cabeça. Quase não conversou.

O destino era a discoteca Múkua. Lá estavam os nossos amigos. Foi uma noite muito animada, pois cairia num feriado, 1º de Junho. O Menezes procurava por motivos de reportagem cultural. Eu queria apenas distrair-me e tomei uns copos. Depois dos anos 90 em que frequentei "dancings" na Precol, nunca mais tinha tido noite semelhante.

Às três da manhã decidimos partir de volta a Luanda. Decidimos partir em coluna, tal e qual na ida. Ordenei que o Pedro seguisse em frente, devido à sua lenta condução que desencorajaria os demais colegas a acelerarem em demasia, e que os que seguissem atrás o não ultrapassassem. Ordenei ainda para que o Pedro não fosse para além dos 80km horários. Todos os condutores concordaram e assim foi até nas próximidades da FTU onde o Adilson ultrapassou o Pedro.

A estrada estava vazia. O Kia Avela inundava-se de frio e a música era suave, ao gosto do Pedro. A Rosemary, que sabíamos era namorada de um colega nosso, estava no banco da frente. A irmã, Ana, adoentada, estava no de trás comigo. Falava-se de coisas vãs, sem memória.

O instante final do percurso foi junto ao monumento ao camionista, à Avenida Deolinda Rodrigues, junto ao cemitério da Sant'Ana. A roda dianteira esquerda do carro transpôs o lancil. O Pedro despertou e puxou o volante à esquerda, mas em demasia e o carro subiu o lancil contrário. O exercício acontecia em fracções de segundos e nem tempo tivemos para palavras. Assisti lúcido aos acontecimentos. A terceira tentativa de pôr o carro no eixo da via foi a fatal. Uma árvore, à esquerda, acolheu-nos. A Ana e a Rosemary choravam. Eu as encorajava sem saber das lesões internas contraídas. O Pedro expelia o último fôlego da vida. Sem esperanças contive-me em assisti-lo partir...

Momentos depois, o Victor Hugo Mendes reportava para a Rádio Luanda o sucedido. Foi quem tudo fez para que houvesse socorro. Surgiu primeiro um carro patrulheiro da polícia e depois os bombeiros que tentavam, a custo, retirar-nos da viatura que abraçara a árvore. Primeiro arrombaram as portas, depois o tejadilho e nada conseguiam. O carro estava encolhido. Com a voz que me restava ainda aconselhei esticarem o carro, o que fizeram com sucesso.

Já mais de duas horas se tinham passado desde o acidente. Esticado o carro, levaram primeiro ao hospital o Pedro que já era cadáver. Seguiu-se-lhe a Rosemary e depois a Ana. Fui o último transportado numa carrinha de patrulha policial. Em vão, ainda pedi aos polícias que me levassem ao Hospital Militar.

No Josina Machel, jogados ao cimento, a Rosemary Vieira ainda chorava a sua dor e a perda do Pedro que estava inanimado. A Ana recebia os primeiros cuidados. E eu, aí na cadeira de rodas ou maca, sentindo as dores que me derrubavam a coragem.

Depois da cirurgia, e ainda sob os efeitos da anestesia, soube, pela Televisão Pública de Angola, que a Rosemary também tinha morrido. Da Ana nunca mais ouvi falar apenas os dizeres acusadores do povo sobre uma cumplicidade que nunca houve...

Luciano Canhanga

segunda-feira, maio 31, 2010

O PRÉDIO DA QUIBALA


"Deixar de sonhar é morrer". Ninguém, e nada mesmo, pode colocar fim à imaginação criadora do homem, sobretudo quando se sente em condições de realizar.

Alguém, um cidadão anónimo quibalista, quis construir um edifício de dois pisos. O homem sentiu-se encantado ao encontrar edificios daquela natureza na vila sede. Pensou emocionado em construitr o seu. Faltaram-lhe porém, a ciência, os recuros financeiros e materiais. Mas não desistiu.

Encontrou na aldeia um espaço com desnível de relevo. Um terreno subdividido com uma parte mais alta do que a outra. E pensou ele que aquele seria o local ideal para realizar o seu sonho, construindo duas residências geminadas que, vistas de longe, pareceriam pisos sobrepostos.

Bem pensou, partiu para a prática. Fabricou adobes, comprou chapas de zinco e ... mãos à obra!

A foto (gentileza de Maria João Neto) diz tudo.

terça-feira, maio 25, 2010

O QUE FAZER DEPOIS DA MEIA IDADE?

Hoje 25 de Maio, dia em que os africanos se rejubilam pela criação, em 1963, da OUA, agora transfigurada em União Africana, é também o meu dia de bodas. E faço 36 anos, o mesmo que estar mais para lá do que cá,  tendo em conta o que determinei como idade ideal para se viver que são setenta anos. Por isso, passo hoje à outra idade, a da razão pura, reflexão e comedição.

Não me cobrem se já não soltar sorisos rasgados; se me virem vestido a papá; se não vos responder na hora, temendo tomar decisão errada; se for comedido nas afirmações e nos discursos, ... Tornei-me um mais velho e "mu dikano dya muadyakime ki mutundu maka mabolo".

Actos aplausíveis e apupáveis terei sempre pois me sujeito à minha condição humana... E penso também hoje no que fiz, tenho de fazer e como viver os 34 em falta... 

terça-feira, maio 18, 2010

O DIA EM QUE OS BOMBEIROS CHEGARAM TARDE

Tornaram-se vezeiros os incêndios de grandes proporções na capital angolana e com prejuízos enormes, às vezes incalculáveis, se estendermos os danos aos morais.

Por descuido ou desleixo para com as normas básicas de segurança das instalações, todas as semanas são reportados incêndios em instalações comerciais e residências que deixam muito angolanos com dores físicas e bocas amarguradas. O mais recente incêndio de grandes proporções aconteceu no mercado do Roque Santeiro, ao Sambizanga, tendo consumido bancadas, barracas e casas onde era guardado material de construção em venda naquele mercado paralelo (feira).

Pelo que se ouviu das visadas, entrevistadas pela TPA, qualquer uma das vendendora terá perdido valores acima de USD 3.000,00, pois só com aquele montante se pode entrar para a comercialização de materiais de construção.  E não estamos a falar de empresárias. São pobres mulheres que pediram o dinnheiro emprestado de alguém conhecido, com o único objectivo de manter acesos os fogareiros e os fogões.

Mulheres  "vijunárias" que recorreram, agregadas, ao kixi-crédito e ou micro-crédito para poderem sustentar as famílias ao mesmo tempo que reembolsam os valores recebidos. E o fogo consumiu tudo o que encontrou encaixotado. Lavrou até o dinheiro que "por questões de segurança as senhoras nunca conseguiam levar para casa, deixando-o guardado entre as imbambas". Perderam-se "vidas" feitas ao suor de muitos dias de sol, frio e poeira no descampado do Roque Santeiro. E foi "graças a pronta intervenção dos bombeiros" pois, pelo contrário, "o chão teria ardido"...

Se com a "pronta intervenção" do corpo de bombeiros acontece o que a TPA mostrou (reportado como um infausto incêndio), gostaria de saber o que acontecerá no dia em que os bombeiros chegarem tarde?

domingo, maio 16, 2010

UM MITO CHAMADO LIBOLO

Antes dos três jogos que definiram o vencedor da taça de Angola em basquetebol ninguém, nem mesmo eu (acérrimo defensor da equipa da minha municipalidade) acreditava na vitória do Libolo frente ao "tout puissant" 1º de Agosto.

A primeira partida saldou-se numa pesada derrota para os libolenses que entraram na luta pela primeira vez, relegando o petro e ASA. Foram 116 pontos para os militares e 80 para os "atrevidos" libolenses o que fazia prever "um passeio" do D'Agosto na competição.

No jogo que seria da confirmação, o Recreativo do Libolo venceu por 3 pontos de diferença, 92-89, o que levou as duas equipas a disputarem uma finalíssima. Nem com isso a aposta se equilibrava a favor dos libolenses, pois há muito os militares são papões na modalidade e a turma da vila cafeícola do Kuanza-Sul apenas está na competição há duas temporadas.

Na finalíssima, disputada hoje, o 1º de Agosto auto-confiante defrontou um Libolo com elevado estado anímico e o resultado não podia ser outro: 66-64 a favor dos "miúdos" que conseguem o seu primeiro título no basquetebol masculino angolano. E está apenas há duas temporadas na competição, seguindo os mesmos passos que a e quipa de futebol que ao entrar foi terceiro melhor classificado do Girabola, subindo para vice-campeão na segunda participação (2009).

terça-feira, maio 11, 2010

O IMPACTO DO ATRASO SALARIAL NOS JUROS DE MORA

Há alguns anos o que mais aquecia o debate dos economistas angolanos radicados em Luanda era a bancarização salarial. Um imperativo que se afigurava de todo útil e inadiável, tendo em conta a possibilidade de regularização da economia nacional, a possibilidade que os trabalhadores teriam/têm de contrair empréstimos junto da banca comercial, as lera livranças (alguém ouve mais falar delas?) e etc., etc.

Bancarizados que estão agora os "kumbús" (dinheiro) de muitos angolanos, um outro muro surge bem "à frente dos trabalhadores": o atraso de salários na função pública e nalgumas empresas e mistas. Como era de imaginar, para além dos fogões que entraram num estado de ociosidade, cozinhando dias sim, dias não, o ordenado do mês em falta está já duplamente comprometido com o pagamento de kilapis (dívidas) contraídos para acudir o atraso salarial e com os elevados juros de mora, junto dos bancos credores.

Aqui chegados e sem que o "quem de direito" venha a público explicar o que, na verdade, se estará a passar como o salário e o como será vista a questão junto da banca credora, que descontará "um juro incrementado" em função da "nossa má fé (?)", enquanto devedores (culpa porém que nos é alheia), só nos restam  os jornalistas "independentes" para promoverem debates, juntando empregadores, Banco Nacional, bancos comerciais (pagadores de salários e cobradores de juros de mora), MINFIN, economistas, cidadãos afectados pelo atraso salarial e pagamento de juros hiper-altos e outros actores sociais e económicos para produzirem os esclarecimentos que se impõem. 

O que são juros de mora?

Quando alguém está obrigado, por um contrato ou pela lei, a realizar um pagamento dentro de um prazo determinado e, por sua culpa, não o faz, diz-se que essa pessoa se encontra em mora. Ao encontrar-se em mora, o devedor fica legalmente obrigado a indemnizar o credor pelos eventuais danos por este sofridos, decorrentes do não pagamento em tempo devido. Esta indemnização traduz-se no pagamento de juros de mora (em países com Portugal a taxa aplicada pode ir até 8% do montante em atraso. Em Angola desconheço os valores pelo que peço contribuições a quem as tiver). Assim, além da dívida propriamente dita, há que pagar uma compensação ao credor pelo atraso do pagamento.

Algum jornalista ou editor (dos M.D.M. e O.C.S.) segue este caminho? Haja coragem!

sábado, maio 08, 2010

A DÉBIL SEGURANÇA LABORAL NAS OBRAS CHINESAS

João Cipalavela é natural do Kuito. Forçado pela pobreza e pela guerra viu-se longe da escola e dos centros de formação profissional. Agora adulto, e com a formação da família em perspectiva, Chipalavela decidiu fugir da ociosidade e dos maus vícios (drogas, alcoolismo), empregando-se, em Luanda, numa empresa de fabricação de blocos de cimento utilizados na construção civil.

- "Aqui, óh mano, a vida é dura. O tal dinheiro mesmo que nos pagam é só vindi-e-um mili kuanza. Nó chega mesmo e ainda nos descontam lá a comida que comemos"._- Disse-me quando o abordei sobre a sua proveniência rápidamente denunciada pelo sotaque no falar.

Chuipalavela e amigos, todos de províncias do interior, labutam mais de 18 horas ao dia, com apenas 24 horas de descanço ao longo da semana. É um trabalho árduo. Carregar as betoneiras, controlar as máquinas, carregar os blocos húmidos para o sol, arrumá-los depois de secos, carregá-los nas camionetas que atendem os clientes e descarregá-los nas obras destes e outros afazeres domésticos no estaleiro.

- "Óh mano, ainda se você não tem força te mandam 'mbora sem te pagar. Só nós mesmo é que aceitamos. Os daqui (luandenses) num aceitam esse trabalho. Lhes mandam só um dia, já num vorta mais"- Contou-me.

Mas a vida dura de Chipalavela e companheiros tem outros capítulos. Um deles tem a ver com a insegurança no trabalho. Chipindi é de Boas Águas, no Catchiungo - Huambo. Trabalha na empresa de confecção de blocos, detida por chineses, há nove meses. O jovem reclama de maus tratos, da jornada contínua sem descanço e da falta de equipamentos adequados de protecção individual (EPI's), bem como da ausência de cuidados médicos em caso de sinistros. Chipindi conta que ao arrumar os blocos houve a queda de um monte,provocando-lhe escoriações no rosto e nos dois braços e antebraços. O patrão apenas deu-lhe duas coritas (adesivo) e nada mais.

_ "Nem só mesmo álcool ou tintura me deram, para não falar já de me levar no hospital". A mulher do patrão que senta aqui (indicava ele à cadeira ocupada habitualmente por uma senhora também chinesa) me disse vai se lavar com a água do tanque e depois põe essas duas coritas que me deu. Assim estou ainda a pensar se este mesmo é tratamento que se dá numa pessoa" - desabafou.

Notei ainda que mesmo com o sol ardente do meio-dia os motoristas chineses nunca permitem que os seus ajudantes angolanos (carregadores de blocos) usem a cabina da viatura, tendo de fazer-se transportar por cima da carga,recordando-nos cenas antigas de "mona ngambé" (filho de escravo).
Por tudo o que vivenciei nos três estaleiros que percorri na última quinta-feira 06.05.2010) em busca de matéria-prima para a minha obra, uma chamada de atenção aos fiscais do Ministério do Trabalho não seria pedir em demasia. Seria bom também que os SME passassem por essas empreiteiras e verificassem se todos têm autorização legal de permanência. É que se chega rápidamente à conclusão que para além da falta de respeito às normas elementares de saúde e tratamento humanos, há também muitos chineses e chinesas dispensáveis para o tipo de trabalho que se pratica.

Passem por lá, Srs do MAPESS e SME, e apliquem a tolerância ZERO.

Nota: O autor viveu os factos ao dirigir-se aos estaleiros paralelos à obra da SONANGOL DISTRIBUIDORA e cooperativa cajueiro, na estrada da Camama, bairro Viana II. A reprodução textual respeita o "linguajar" dos declarantes.

quarta-feira, maio 05, 2010

CRESCEM ASSALTOS NA PERIFERIA DE LUANDA

Até ao ano de 2002, quando a preocupaçao maior era acabar com a guerrilha, a questão da mitigação dos assaltos, à mão armada, em Luanda e noutras cidades do país, era tida como secundária. Os meios (humanos, técnicos e financeiros) eram quase todos eles canalizados para as "zonas quentes" e até mesmo delinquentes conhecidos eram recrutados para a "causa maior" da nação, a defesa da integridade territorial e da soberania.

Conseguida a paz, em 2002, começou-se a olhar um pouco mais distante da curva do nariz. Começou a falar-se sobre o policiamento de proximidade (o finado Isaias Chungufo foi dos primeiros a propagar entre nós o termo). A polícia viu-se apetrechada com novos meios técnicos e os homens recebem formação. Só que os defeitos  "de fábrica" se mantêm. É a preguiça quando não é o carro avariado, São os charcos que impedem a circulação das patrulhas, os mesmos homens que foram parar à polícia de forma acidental, enfim, os males de sempre emperram ainda a rotação máxima e desejável da engrenagem policial, e vezes sem conta somos confrontados com informações sobre assaltos à mão armada nas ruas, nas paragens de transportes, em residências e em lugares que a priori o incauto nunca desconfia.

O bandido está em todo o lado. Excepto a prontidão da nossa polícia. Ontem mesmo (04.05) dois individuos que seguiam atrás de mim (19h30) foram assaltados em Viana por dois meliantes armados que se colocaram em fuga depois de consumado o acto. Cantinas têm sido assaltadas dias sim, dias também. Os nossos homens de farda azul sabem disso e na prática nada!

Hoje de madrugada, na zona do SEIS, em Viana, três residências foram simultâneamente assaltadas à mão armada sem que a polícia movesse alguma palha. Avisado ao telefone pela minha irmã, ainda liguei para o nr.113, tendo o homem do piquete mostrado preocupação e sinal de que a polícia lá iria em socorro dos aflitos. Tudo o que sei é que os bandidos levaram o que queriam e inclusive "pintaram o diabo". Acordados pelos gritos os vizinhos compareceram e ofereceram compaixão... Apenas a polícia não se fez presente.

Que relação haverá entre os gatunos e aqueles que, sendo sua tarefa combatê-los, nada fazem?

sexta-feira, abril 30, 2010

A ALEGRIA DA MINGOTA E A INFELICIDADE DO KITEMBO

Alegre, ela. Sabe cativar e expandir sorrisos rasgados ao vento. Assim procedeu e atraiu o seu macho predilecto.

Gordo, ele. Fora esbelto num passado que apenas os amigos de infância e adolescência conhecem. Juntos os via caminharem da Central à Moisés, em dias do centenário Metodista ou a caminho dos ensaios do coro. Juntos também estavam, vezes sem conta, no Ngola Mbandi onde concluíram o ensino básico na década de noventa do século XX. Kitembo é amigo do Canhanga, diga-se, apesar das curvas e contra-curvas que os separa últimamente.

Domingas, ou simlesmente Mingota, Kitembo e Canhanga têm algo em comum. Ambos entendem de jornalismo. Cada um a seu nível de prática e conhecimento, pois foram sempre de formações e visões diferenciadas. Os dois primeiros no activo e na mesma rádio onde Kitembo é líder e o terceiro emprestado à comunicação institucional duma empresa de grande porte. Vez por vez encontram-se os rapazes, para trocar ideias, discutir o indiscutível ou até mesmo tomar uma pinga. Bons frascos já foram ambos no passado, mas as responsabilidades profissionais e a idade que pesa com o cair de cada sol vai atenuando a frequência com que se entregam ao que marcou o primeiro milagre de cristo.

Nestes anos de simples adepto do jornalismo, sem poder entrar em campo e marcar golos, Canhanga aprecia, com nostalgia, os lances mal efectuados de cada amigo, cada conhecido, cada voz que encanta e cada texto que encontra nas mãos dum ardina. E foi nesta pele que ouviu a voz do amigo vomitada pela caixa do carro anunciando que "infelizmente" os ouvinte não teriam a reportagem matinal da Mingota que "felizmente" contrairia matrimónio naquela manhã de sexta-feira.

O Kitembo (na foto) perdeu, no serviço, temporariamente a Mingota que se casou.

sábado, abril 17, 2010

A CANTINA DO KAMARÁ E A LEI DOS 3M

Sabe-se que quando da independência, havia um comércio retalhista estruturado, com lojas e cantinas (comércio precário) com um sistema de produção de bens considerado aceitável para aquela época. Importa também reconhecer que a economia angolana nem sempre esteve totalmente monetarizada, coexistindo o comércio monetarizado e a permuta (troca de bens/produtos por outros de valor equivalente). Três factores animam nos últimos anos o nosso comércio.

De um lado está o comércio informal, feito em locais impróprios e que prejudica a vida urbana (circulação, asseio, estética, etc). De outro lado está o surgimento de grandes e médias superfícies que vão cobrindo, nas cidades, um vazio que há muito se fazia sentir em termos de concentração de bens e serviços num espaço único. Para o caso de Luanda existem os Shoping’s e os "Nosso Super". A terceira variante, e preocupante, tem a ver com o surgimento de cantinas, nos subúrbios das cidades, detidas maioritáriamente por cidadãos expatriados. É aqui que os cientistas sociais são chamados para estudos sobre as causas e objectivos dos promotores deste tipo de “apropriação silenciosa”.

Sabe-se que à luz da legislação económica angolana, os estrangeiros são chamados para investirem em áreas que envolvam avultadas somas monetárias e para as quais os nacionais não estão in solo “preparados” para a demanda que se impõe. O comércio grossista é, por via disso, um pedaço em que são chamados a debitar esforços. O que se assiste, porém, é o contrário e várias vezes nos perguntamos: _ Porque será que as cantinas passaram todas às mãos dos Kamarás, Dialós, Diarrás e Diakités?

Um estudo (ainda inacabado) sustenta que por trás dos cantineiros expatriados estará uma mão invisível que usa os mesmos métodos praticados pelos europeus nos longínquos séculos XIV e XV, ou seja, os 3M: marché, missionnaire et militaire (aqui entendível apenas como povoir/poder). Os norte e oeste-africanos usam o comércio/economia para expandirem a sua religião (islamismo) e com ela (a religião proporcionará o aumento de prosélitos angolanos confessos) virão outras formas de exercício do poder. Sabe-se que a economia e a política andam sempre de mãos dadas.

Não se podendo pôr termo ao surgimento das actuais cantinas que encarnam o chamado comércio de proximidade, urge a necessidade de regular/definir e fiscalizar os que o fazem e em que circunstâncias exercem esta actividade. Por outro lado, assistindo-se ainda à permuta em algumas áreas do interior do país, fruto do fraco nível de produção e distribuição, entendo que só a autosustentabilidade em termos de bens e serviços nos levará à completa monetarização do comércio e ao equilíbrio entre a procura e a oferta que muito afecta os preços.

Estando, com certeza, o Governo atento ao debate e às prementes necessidades dos angolanos, o anúncio feito pelo Presild, de pretender levar ao interior mais de dez mil lojas de proximidade, é um valente passo que só peca por tardia.

Publicado no jornal "Semanário Económico" do dia 15 de Abril de 2010.

terça-feira, abril 13, 2010

UAUÉ: NVULÉÉÉÉÉÉ!!!

Ai-ué: É Chuva!
A interjeição, expressa em Kimbundu, indica preocupação devido à chuva que se aproxima. Em Luanda ela é solta quase sempre que São Pedro abre as portas. Choveu no domingo, 11 de Abril, e as consequências de uma urbanização precária estão à vista. Os danos materiais e financeiros estão por calcular e sabe-se mesmo de antemão que não haverá especialistas para os recolher um a um e os divulgar.

Quanto aos danos morais, estão todos os caluandas afectados. O transito ficou mais complicado (como sempre),  a água invadiu e arrastou tudo o que econtrou pela frente, enfim. Só quem vive em Luanda sabe o  que lhe acontece neste período. Dos políticos no governo apenas falatórios... Promessas de dias melhores que se repetem ano após ano...

"_ E agora?
_ Refazer tudo partindo do nada. Comprar novas moibílias, comprar novo carro, arrendar uma nova casa, reconstruir o que se destruiu.

_ Lamentar?
_ Nada. Pra quê meu mano? Mesmo que chore ninguém limpa as lágrimas.... vamos só é seguir em frente!"

Fim de citação.

domingo, abril 11, 2010

MALANGE OU MALANJE?

Disseram-me, nos tempos em que andei na Rádio, que o que mais valia em radiodifusão era a dicção e não a correcta redacção ds palavras, sobretudo homófonas. Para a imprensa, e se chamarmos a questão formativa, chego a conclusão de que estava perante um ledo engano. Escrever bem é uma arte. Os topónimos, antropónimos e outros nomes, devem ser escritos de forma correcta e exemplar para que não criem confusões aos novos membros da "família" (menores em processo de aprendizagem, visitantes, expatriados, etc.).

Quem lê a página "Regiões" do Jornal de Angola encontra grafado em diferentes formas o topónimo que designa a província da Palanca Negra Gigante. Nota também que os próprios repórteres, a partir do local dos acontecimentos, grafam-na a seu bel-prazer, tal qual o fazem os editores dos média em Luanda.

_ Como ler na mesma secção textos assinados por repórteres que escrevem a partir da mesma província grafados de forma diferente? Onde estará o erro?

Já vários debates foram feitos por linguistas nacionais e especialistas do CICIBA (Centro de Estudos da Civilização Bantu). A letra exprime melhor, e de forma correcta, o fonema deste topónimo. Para aqueles que não gostam de pesquisar bastará ir à página do Governo da Província em causa que tem a grafia correcta da palavra. Queira ver: http://www.malanje-angola.com/

terça-feira, abril 06, 2010

AINDA NÃO FOI DESTA

Choveram chamadas telefónicas e mensagens por sms, procurando confirmar se realmente era eu, Luciano Canhanga, que tinha ido "para melhor". É que circulou informação segundo a qual eu tinha sofrido um acidente fatal. Felizmente não foi desta.

Obrigado a todos quantos manifestaram a sua preocupação e atenção, demonstrando ser meus verdadeiros amigos do peito.

domingo, abril 04, 2010

REVIVER O ACORDO DE PAZ "DO LUENA"

A história faz-se com vários retalhos verdadeiros que são as narrações conforme vivenciado pelos participantes. Em Março de 2002, depois da morte "em combate" do líder da rebelião angolana, Jonas Savimbi, fui enviado em reportagem ao Luena (Moxico).

Viviam-se tempos de grande apreensão e carências na cidade do Luena. Angola inteira estava aprensiva quanto ao desfecho do que se acabara de ouvir/ver/ler. Muitos ainda não tinham acreditado no que a comunicação social veiculava. Os populares afectos à Unita e aqueles que eram resgatados das matas anteriormente controladas pela rebelião nem sequer se lhes passava pela cabeça o que acabavam de ouvir e assistir. "A Paz tinha chegado e Savimbi tinha sido morto". Outros receiavam outro recrudesceimento das hostilidades, caso houvesse vingaça dos "maninhos" pela morte do seu chefe. Eram dias de "ver para crer".

De Luanda ao Luena viajei num beachcraft do Programa Alimentar Mundial e na antiga cidade do Luso acomodei-me em casa de uns "amigos de ocasião", na rua do Instituto Médio Normal de Educação. As vitoriosas Forças Armadas Angolanas tinham um Estado Maior avançado onde decorriam as "negociações" e os "rendidos" chefes militares da Unita estavam uns hospedados na pensão Horizonte e outros num hotel.

As conferências de imprensa eram dadas na sede do Governo Provincial para onde eram chamados os jornalistas que cobriam para o país e o mundo os últimos desenvolvimentos das negociações para a paz selada oficialmente a 04.04.2002 (em Luanda).

Numa tarde de Março, ao passar pela pensão Horizonte, decidi tomar uma cerveja e comer algumas moelas. Era o que mais aparecia. Comida havia pouca para as grandes multidões que todos os dias chegavam, transportadas em carros militares e helicópteros, procedentes das matas... No interior do bar da pensão encontrei os generais Uambo Kalunga, Chiwale e outros militares a quem "atrevidamente" pedi uma entrevista. Os homens da Unita tinham um elevado gosto em falar para a média privada e estrangeira. Diziam que era segura, pois não deturpava as informações prestadas. A conversa ficou agendada para as seis horas do dia seguinte, uma sexta-feira (?) de muito frio e medo à mistura.

No primeiro andar da PH fui recebido por militares magros, mal uniformizados e de meter medo. Era tamanho o medo que se nutria pelos homens da Unita que meses antes tinham atacado um comboio na  ferrovia de Luanda/Dondo, provocado muitas mortes e feridas ainda não saradas. O responsável pela operação rebelde, o general Apolo, estava também no Luena... Os "guardas"depois de anunciar a minha presença aos "mais-velhos"(assim se tratavam) encaminharam-me a um quarto-caserna onde estavam os generais acima citados. bebiam whisky ao gargalo, manhã cedo, e estavam igualmente mal aprumados, mas desejosos de nunca mais voltarem às matas. Esta mensagem era facilmente legível nos seus rostos. Cansados, entretanto aliviados. Uambo Kalunga e Chiwale falaram demoradamente comigo antes de acederem à gravação do "discurso oficial".  

Disseram que as conversações eram sérias, que não se tinham rendido, mas apenas revisto a estratégia e reconhecido as vantagens de uma paz e reconciliação definitivas. O discurso oficial ou o permitido era o de transmitir segurança às populações e fazer com que aqueles que estivessem ainda nos "maquis" regressassem às cidades, onde seriam assistidos e cadastrados para posterior realojamento dos civis e acantonamento dos milicianos.

Tinha sido uma conversa de muito sucesso para a Luanda Antena Comercial, minha antiga patoa, que levava do Luena para os radiouvintes da capital angolana relatos, em discurso directo, de homens que estiveram com/ou próximo de Savimbi nos derradeiros dias da sua vida.

Uambo Kalunga e José Chiwale também estavam contentes por terem podido falar de forma aberta e informal, pois as únicas vezes em que tinham podido falar tinha sido no Comando Avançado ou no local das conferências de imprensa acima citado.

No Hotel Luena (ex hotel Luso na imagem) estavam os políticos e os militares de topo: Chitombe, Lucas Kananai, Vinama, Mário Vatuva, Marcial Dachala, Lukamba Gato, Alcides Sakala, Apolo e Kamorteiro. A execepção de Apolo, que era o "chefe da frente Norte", estavam todos desnutridos e gastos pela guerra e pelas carências vividas na selva e falavam à comunicação social apenas depois das jornadas de conversações. Outros porém, os civis, estavam piores: excassos de tudo. No edifício inacabado, que fica próximo da diocese, que albergava os "provenientes", senti mesmo tanta pena de um jovem professor das matas que me desfiz da camisa e voltei à casa apenas com a camisola interior. Era o dia-a-dia em todas as visitas que fazíamos aos campos onde estavam "provenientes" das matas.

Não se esquecerá das suas palavras o general Lukamba Gato, quando na altura dizia para a Comunicação Social (24/03/2002) que o momento que viviam, ao voltar à cidade, era de "muita emoção", mas o que importava era "perceber a dimensão humana deste processo".

Uma semana depois foi aprovada pelo parlamento multi-partidário a lei da amnistia para os militares da UNITA (02.04.2002) e assinada, a  04.04.2002, a "paz do Kamorteiro" (na foto à direita de Gato), pelos então Chefes de Estado Maior (das Forças Armadas Angolanas e Forças Militares da Unita), na presença do Presidente da República, Eduardo dos Santos, Ministros, parlamentares, representantes diplomáticos e outros convidados. Angola, sem intervenção directa de terceiros acabou por legar à história uma das suas páginas mais negras. A Paz era/é um facto construído sobre fortes alicerces. O culpado-maior pela guerra foi retirado do cenário a 22.02.2002...

São já passados oito anos.

quinta-feira, abril 01, 2010

LIBOL'AVANTE

AVANTE LIBOLO! Assim se canta no municipio do Kuanza-Sul que fica, desde o dia 01.03.2010, a 35 minutos de Luanda. Tudo porque  a municipalidade, que já dispõe de renovadas infraestruturas rodoviárias, conseguiu inaugurar o seu aeródromo, "novo em folha".

O empreendimento reveste-se "de capital importância para o desenvolvimento da região que fica assimmais perto de Luanda", a capital do país.

A nova pista aeroportuária de Calulo recebeu, pela primeira vez, duas aeronaves transportando a equipa de futebol do APR do Rwanda. Infelizmente, o jogo saldou-se em vitória para os forasteiros que transitaram para a eliminatória seguinte na liga dos campeões africanos.

De recordar que o antigo "campo de aviação" ficava no local em que foi erguido o estádio de Calulo, propriedade do Clube Recreativo do Libolo, equipa que faz sucesso no GIRABOLA.