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sábado, julho 11, 2009

LIBOLO VULGARIZA D’AGOSTO APESAR DO EMPATE

Foi diferente ouvir um jogador do Recreativo do Libolo afirmar, no fim do jogo frente à equipa militar do Primeiro de Agosto, que o resultado, empate a um golo, “sabe à derrota”, já que o objectivo da equipa libolense eram os três pontos.

Há bem pouco tempo o normal seria ver os jogadores de equipas como a do Libolo transbordantes de alegria por terem conseguido um empate em Luanda. Por isso, apesar de o “tout puissant” 1º de Agosto ter vencido o jogo da primeira volta do Girabola 2009 em Calulo, este empate e as afirmações do jogador da equipa do município cafeícola do Kuanza-Sul mostram "um leão sem rugido", daí que ninguém mais o teme, até mesmo o lanterna vermelha, Académica do Lobito, com quem perdeu por 0-1.

Com o empate desta tarde (11.07.09) na cidadela, em Luanda, os militares nem souberam aproveitar o empate do líder Petro de Luanda, a zero, diante do Santos, nem o deslize do segundo classificado, Académica do Soyo, frente ao Interclube (2-0), mantendo-se a diferença pontual em relação ao líder de 13 pontos (31-44).

Assim sendo, d’Agosto e Académica do Soyo somam 31 pontos, o Libolo e o Benfica de Luanda têm 29 pontos e disputam a ascenção à segunda posição.

Com a questão do título já há muito arrumada a luta vê-se renhida pelo alinhamento da segunda posição à despromoção ou disputa da liguilha, já que há fortes hipóteses de o próximo Girabola contar com 16 equipas, disputando as três últimas classificadas da presente edição uma liguilha com os segundos classificados dos três grupos de apuramento ao campeonato nacional de primeira divisão.

O CD Huíla e o 1º de Maio, ambos com 16 pontos, e a Académica do Lobito, com apenas 7, são de momento os candidatos à despromoção ou disputa da liguilha.

PRÓXIMA JORNADA: Rec. Libolo-Desp. Huíla; ASA-Ac. Lobito; 1º de Maio-Ac. Soyo; Bravos Maquis-Interclube; Petro Luanda-Benfica Luanda; Kabuscorp-1º Agosto e Rec. Caála-Santos FC.

Luciano Canhanga

quinta-feira, julho 09, 2009

REVIVIDAS "AULAS" DA PROFESSORA GABY ANTUNES

Ex-alunos do curso médio de jornalismo do IMEL (agora curso médio de Comunicação Social), ex-estudantes e estudantes do ISPRA (agora UPRA) que passaram pelas "mãos" da finada professora Gabriela Antunes renderam ontem, dia 08.07.09, uma homenagem àquela que consideram ser a sua professora-mãe.

A sala de projecções do IMEL, em Luanda, acolheu o acto brindado pela presença do vice-Ministro da Comunicação Social que procedeu à abertura do vento. Miguel de Carvalho "Wadijimbi" recordou que também foi aluno da professora Gaby e que ela foi pioneira do curso médio de jornalismo, fundado em 1983 no então Instituto Karl Marx Makarenko. O governante apelou aos presentes para a criação de uma associação sem fins lucrativos, Gabriela Antunes, como forma de perpectuar a sua memória.

Jorge Antunes Gomes, professor universitário, filho e também aluno esteve presente e falou sobre a experiência de ser filho-aluno da homenageiada.
Mais de meia centena de pessoas marcaram presença, destacando-se, alunos da professora, convidados e outros interessados na tertúlia em que foram recordados os bons e os "maus" momentos vividos na relação com a docente. Uma aula gravada foi ouvida e uma mensagem dos organizadores foi lida no fim do acto. Eis o texto redigido e lido pelo autor deste blog:

“Baptizaram-na Maria mas, dizia que seus alunos não podiam ser marias nem casar com marias.

Quer viessem da cidade ou da periferia, tratava os seus alunos de igual forma e quando não soubessem o obvio tratava-os por atrasados mentais.


Incentivava-os à leitura, quer viessem de famílias com nome ou sobrenome. Apelava à ambição. Uma ambição medida que tivesse por base apenas a competência, e que respeitasse a ética e os competidores, quando esses existissem.

Fez da elevação da cultura das novas gerações o seu cavalo de batalhas. Escreveu livros, ministrou aulas e seminários, promoveu eventos e fez homens.

Homens e mulheres que hoje desenvolvem o país, nas ares do pensamento e saber, no ensino, na medicina, nas ciências e até nas engenharias. Basta polhar para as redacções dos órgãos de comunicação social e nos CDI's dos ministérios e empresas. Em cada canto há um que dela bebeu conhecimentos técnicos e académicos e ensinamentos da vida.

A sua obra é estudada além fronteiras em universidades de Renome...
É de Maria Gabriela da Silva Antunes que falamos. A Professora Gaby. A nossa mestre-mãe.

Tratava-nos a todos como filhos. Pois ela tinha um único ventre: A formação do homem novo dotado de responsabilidade e “bien fair”. E cá estamos hoje para lhe render a merecida homenagem neste que seria o dia do seu 72 aniversário.

Quis Deus levá-la mais cedo. Antes mesmo de nos dar a última aula aqui no IMEL ou na UPRA. Mas tê-la-emos presente sempre que nos lembrarmos de onde viemos, onde estamos e para onde vamos.

Queremos ressaltar as qualidades daquela professora que procurava inculcar a excelência entre os seus pupilos.

A instrutora abnegada que não olhava a salários nem a pertences materiais para cumprir a sua missão.

Gerações várias por ela passaram. Connosco ficou o legado. Vamos levar avante o estandarte desta bandeira.

Se a sua partida para o descanso foi para nós uma tristeza, estar aqui hoje para recordar os feitos da Professora Gaby é a melhor prenda que atribuímos a cada um de nós.

E é dentro de nós que resiste a pergunta que em uníssono lançamos àqueles que fazem o país acontecer: Se com vida Portugal lhe “deu” uma rua, porque tarda tanto surgir uma escola ou Centro Cultural Gabriela Antunes?”


Luciano Canhanga

domingo, julho 05, 2009

ANACRACIA E SUCESSÃO ENCOMENDADA

A sucessão de factos sociais/políticos conduz-nos ao surgimento de fenómenos. Porém, essa transformação de factos em fenómenos nem sempre é visível aos "olhos" de todos, quanto mais porque os factos são precedidos de ebriantes campanhas propagandísticas e ou soft promotion da media ao longo de muito tempo. Assim, surgem as grandes fuguras que emergem do quase nada, à custa da venda de bijuterias ou organização de eventos caseiros.

Sendo África um campo fértil de mesmices, falemos da Anacracia que se resume na ausência de valores democráticos (demo= povo; cratia/cracia= poder) por arte das populações. Os poderes instituídos, desejosos da sua eternidade ou da passagem do mando de forma hereditária ou clientelar nunca se esforçam em informar/formar os governados sobre os seus direitos. Apenas se limitam a exixir deveres à Demo.

Os detentores de cargos públicos da magistratura nem sempre criam delfins fora da sua prole, família serventia ou clientela, criando um estadopermanente de dependência e incerteza em caso de vacatura natural. Isso torna-os omnicientes, omnipresentes, omnipotentes, sendo acatadas apenas as suas orientações, nulguns casos mesmo quando no "post mortem".

Assim foi na RDC, no Togo e está a ser preparada a mesma canja no Gabão de Bongo, podendo o tumor expandir-se para outras lactitudes do continente onde existem "anacracias" longevas.

Pois, mesmo nos casos em que a vacatura é provocada pelo poder divino e se cria uma hipetética transição balizada na constituição, é o herdeiro quem "de facto" governa e dita as leis, pois ha muito o processo foi (vem sendo) preparado.

Que dizer dum governo de filhos, primos, cunhados e sobrinhos ou dum parlamento de filhos, serventes, compadres e amantes? As premissas são preparadas à preceito e todo o resto é p'ra inglês ver.

A propaganda toma conta do cenário promocional do "príncipe" a quem são concedidas todas as facilidades pelo pseudo governo de transição que igualmente se encarrega de afastar todos os que se afirmem como potenciais vencedores do pleito contra o filho do "monarca". Os demais candidatos aceites para a corrida ou são da escolha do candidato da situação e surgem apenas para animar a festa, ou são tidos, a priori, como impotentes em chegar ao cadeirão maior.


Há que buscar um novo sentido ou um novo despertar do continente!

Luciano Canhanga

quarta-feira, julho 01, 2009

THAMBI IUK'UAKIME*

Justino Wandanga, músico do Huambo, canta numa de suas melodias a morte do tio. Diz em umbundu que "em Setembro recebeu cartas e nelas apenas saudações e óbitos"... Com o Kambuta foi em Junho.

Apelidado de malote (porta bagagens), Kambuta fez a última viagem no dia terceiro. Viagem calma até que ao chegar ligou o telefone de onde caiu imediatamente a má nova anunciando a morte do sogro.
Até aqui, nada de anormal. Era morte esperada... O hospital tinha-o devolvido à casa para dar o último suspiro vital junto dos seus que aguardavam pecientemente pelo adeus ao mundo vivo.
Kambuta só não sabia que para os ambundu a condição de genro (ex-genro até) obrigava a deveres especiais para com o finado.
_Hábitos são hábitos e muitos fazem Cultura!
Recebeu de conselho.


* Óbito de sogro

Luciano Canhanga

sábado, junho 27, 2009

HÁ PEITO PARA ROUBAR O TÍTULO AO PETRO?

Terminada a décima quarta jornada, primeira da segunda volta, estamos hoje perante ao clássico do futebol nacional que pode desenhar o campeão desta edição do Girabola. Petro e Primeiro de Agosto, o prato quente desta tarde, estão separados por oito pontos, uma diferença que pode ser dilatada para 11 ou diminuída pra cinco.

Se o resultado ditar uma vitória para os petrolíferos estaremos próximos da evidência de um Petro campeão, mesmo faltando 11 jogos por realizar (atrevo-me a afirmá-lo). Porém se a vitória sorrir para o lado militar (1o de Agosto), teremos um campeonato mais equilibrado, quanto ao topo da tabela. Se empatarem, teremos tudo na mesma, ou seja, um Petro desejoso de se distanciar cada vez mais dos "mais próximos" concorrentes (D'Agostp e Académica do Soyo) e estes desejosos de encurtar a distância pontual e assaltarem o comando da nau.

E quanto à jornada finda, parece que a "ordem" deixada pela primeira volta foi restabelecida na tabela, pelo menos no topo e na cauda, já que os da frente venceram e/ou empataram, acontecendo o mesmo em relação às equipas pior classificadas.

Vejamos: Petro de Luanda, D'Agosto e Académica do Soyo (1o, 2o e 3o classificados venceram e mantêm as posições que traziam da primeira volta.
No meio da tabela, o Libolo, o Bravos do Maquis e o ASA empataram.
No fim da contagem, a Académica do Lobito, o 1o de Maio e o Desportivo da Huila perderam, ao passo que o Kabuscorp venceu o interclub, deixando a penúltima posição.

Foram insignificantes as alterações introduzidas à classificação, exceptuando a vitória do Kabuscorpo sobre o Interclub que lhe permitiu subir três posições na tabela. O Girabola mantêm-se emotivo e cada vez mais.

Jogo de Cartaz da 15 jornada:
D'Agosto- Petro
Quem leva a melhor?


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Actualização a 29.06.2009
Resultados: D'Agosto 0-1 Petro
Bravos Maquis - Rec. Libolo, 1-4
Desp. Huíla - 1º Maio,
1-1 Santos FC - Ac. Soyo, 1-3
Ac. Lobito - Rec. Caála, 1-0
ASA - Kabuscorp, 1-1
Interclube - Benfica Luanda (por realizar )
Classificação:
Petro de Luanda 40
Académica Soyo 31
1º de Agosto 29
GDR Libolo 25
Benfica de Luanda 22
ASA 20
FC Bravos20
Interclube17
Kabuscorp 17
Santos FC 17
CR Caála16
CD Huíla 16
1º de Maio 15
Académica Lobito 7
PRÓXIMA JORNADA (16ª):
Académica do Soyo - Benfica Luanda,
1º de Maio - Santos FC
Recreativo da Caála - 1º Agosto,
Recreativo do Libolo - Académica Lobito,
Kabuscorp - Bravos Maquis,
Petro de Luanda - Desportivo Huíla,
ASA - Interclube.

Luciano Canhanga

quinta-feira, junho 25, 2009

O JET-SETista NÃO MORRE?

Fiquei com a impressão de que os Jet-Set não morrem ou que os acidentes só acontecem e afectam o "povo em geral". Os Jet_Set não! Quem ganha ou tem milhões não se fere, mesmo que acidente e o seu corpo esteja exposto a ferimentos profundos não morre.
As televisões portuguesas, e a reboque as nossas também, exibiram, vezes sem conta, o ex-CR7* a entrar e arrancar com o seu carro vermelho, feito a preceito, sem, no entanto, accionar o cinto de segurança. E ninguém teve a “ousadia” de censurar aquele momento que pôde servir de mau exemplo para milhares de jovens que o têm como ídolo. E lá foi ele exibindo importância, sem usar o protector cinto de segurança que uma vez o salvou.

Onde está o papel catalisador dos figuras públicas para uma mudança de atitude? E se a estrela meteu água onde estavam aqueles que deviam omitir os maus exemplos da estrela?

Aqui, entre nós, cenas como essas são o nosso pão-de-cada-dia. O mesmo figura pública que na rádio empresta a sua voz para uma campanha pró-mudança de atitude é o primeiro a puxar o pau e direccioná-lo a uma árvore, regando-a de mijo. A mulher que na TV empresta a sua cara para moralizar as jovens a absterem-se da prostituição é a mesma que horas depois aparece com os sobrolhos ensanguentados, por ser a outra do marido alheio, a soldo dumas viagens roubadas ao povo, um luxuoso carro ou uma lojeca de quinquilharias num musseque qualquer.

O político que apregoa rigor é o primeiro a fazer desvios. O pastor que apregoa a moralidade é o primeiro a sexuar com jovens rapazes e freqüentar cabarés. O professor que apregoa empenho dos alunos é o primeiro a cabular teses alheias. O jurista que apregoa o primado da lei é o primeiro a enveredar por condutas incorrectas. Até o ombundsman talhado para a promoção do direito é o primeiro a andar pela esquerda da via.

E assim vamos dizendo o que nunca fomos nem somos capazes de ser. Pois o nosso mau comportamento está no sangue. O Jet-Setista não morre!

*Cristiano Ronaldo. A foto é de um carro seu destruido num acidente em Inglaterra.


Luciano Canhanga

quarta-feira, junho 24, 2009

CONCURSO DA VOZ DA AMÉRICA


Amigos leitores desta página,

Chamamos a vossa atenção para o concurso que o serviço em português da VOA está a promover:


Trata-se de um concurso de fotografia digital…enviem fotos dos vossos lugares, das vossas cidades, dos vossos países, de pessoas, de coisas, de eventos, fotos interessantes…



Das fotos recebidas serão escolhidas seis fotos por grupo: Angola, Moçambique, Cabo verde, São Tome e Príncipe, Guiné-Bissau, Brasil e o resto do mundo…dessas seis a melhor será parte do nosso calendário de 2010, claro com a autorização do fotógrafo, e com crédito dado.


O concurso vigora de 1 de Maio a 31 de Julho. Em Agosto escolhemos as seis melhores. A melhor das melhores fotos receberá um rádio de manivela, e ira figurar no nosso calendário de 2010. As outras cinco receberão um relógio de mesa. Gostaríamos depois de colocar todas as fotos no nosso site e de as podermos usar, dando, evidente crédito ao seu autor.



Requisitos: fotos originais, de alta resolução (para uma boa reprodução), e com tamanho de uma foto normal.



Enviem as vossas fotos por correio electrónico para português@gmail.com (de preferência) ou para português@voanews.com . Se enviarem por correio/papel a reprodução da foto será um pouco mais difícil.




Participe e passe a palavra sobre o concurso à família e amigos. Contamos com a vossa participação.



Luciano Canhanga e Anabela Guedes (da VOA em português)

domingo, junho 21, 2009

UMA ESCOLA DE ANGOLANIDADE

Conheci, na década de noventa do século ido (XX), um oficial do exército angolano, pai de dois casais, na altura, com nomes "estranhos".

Era eu professor/superador numa sala improvisada no meu quintal, ao Rangel. Assim conheci os 4 menores que tinham orgulho dos nomes por que respondiam, numa altura em que ser apelidado de Canhanga era motivo de xacota por parte da inculta sociedade luandense. Os meus alunos respondiam orgulhosamente, e faziam questão de apresentar-se por: Quilombo, a mais velha; Ebo, a mais nova; Mundombe, o rapaz mais velho e Ngonga, o caçula.


Pensar como pensavam naquela altura o casal Luisa e Quilundumuna era obra! Hoje, felizmente, já se nota o retorno às origens que se não fosse a nossa hipocrisia em pretendermos ser mais católicos (nomes santos) do que os romanos nem teríamos necessidade do retorno à casa cultural, pois teríamos preservado os nossos valores, as nossas nomenclaturas e a nossa cultura.


Os nomes identificam os povos. Um Issá nos leva aos árabes, um José à Europa e um Dan Gan à Ásia... e para nós africamos os nomes têm significados próprios.



Aos meus antigos alunos e seus pais, pelo orgulho demonstrado num tempo difícil, a minha vénia!


Sigamos-lhes o exemplo.

Se você tem um nome africano, e com significado, deixe aqui o seu comentário e outros nomes que conheça.


Luciano Canhanga

sábado, junho 20, 2009

BEM VINDO SR GIRABOLA

O Girabola, campeonato angolano de futebol de primeira divisão, está de vola depois de um interregno de quase um mês.

Na 14a jornada, primeira da segunda volta, o Benfica de Luanda venceu o Santos Futebol Clube (equipa apurada para a fase de grupos da Taça CAF) por 2-1 e desalojou da quarta posição o Recreativo do Libolo (21 pontos) que joga apenas na próxima terça-feira, dia 23.06.09, diante do ASA. Os benfiquistas somam agora 22 pontos.

No Namibe, a Académica do Soyo venceu o Desportivo da Huila por uma bola sem resposta e passou para a segunda posição com 28 pontos, menos 6 do que o Petro de Luanda, líder da prova, que ainda não jogou. O D'Agosto que também ainda não entrou em campo nesta segunda volta tem 26 pontos agora na terceira posição.

Pelos desacertos causados à tabela, pelas vitórias do Benfica e Académica do Soyo, antevêem-se embates renhidos para se "repor a ordem" deixada pela Primeira Volta.
Será que haverão pernas e peito?

Emparceiramento e resultados*
1º de Maio de Benguela-1º de Agosto (2-3)
Petro de Luanda-Académica do Lobito (5-1)
Recreativo da Caála-FC Bravos do Maquis (0-0)
Recreativo do Libolo-ASA (1-1)
Kabuscorp do Palanca-Interclube (2-1)
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*Resultados colocados depois dos jogos
Luciano Canhanga

quarta-feira, junho 17, 2009

FENOMENAL


Nove de Junho de dois mil e nove. A região leste de Angola com o seu clima tropical húmido habitua-se com a secura do vento do cacimbo. Há já 25 dias terminou a estação chuvosa embora o céu teime em, aqui e acolá, ameaçar um desabamento hídrico. O relógio aponta religiosamente vinte horas e dezoito minutos. A cobertura de zinco da estrutura metálica que os acolhe desacta, de repente, aos gritos.

_É chuva chefe, alertou o chauffer de si já aborrecido pelo tempo extra sem pagamento. Mas recupera-lo-á com dispensas e batidelas no ombro...

Os pingos principiantes caiam preguiçosos, anunciando apenas o desfazer-se de sobras guardadas para ocasiões especiais. Fechada a sala de trabalho, chefe e subordinado, correm de lebre em direcção aos aposentos que distam seiscentos metros. À medida em que Kambuta e o seu pupilo Sabalo aceleravam o passo, a chuva lhes seguia o gesto. Os pingos nenés, passam a adolescentes e furiosos. Ganham forma e intensidade e ninguém mais os enfrentar.

Desprevenidos casebres, na aldeia ao lado, cedem. Adobes virgens para novas moradias se fundem e se transformam em lamaçal. Na cidade, não muito distante, surpreendidas tendas, paridas de chuvas abrilenas, renunciam ao papel protector e bombeiam fluídos. A chuva preencheu três horas duma noite de estrelas opacas para o gáudio dos lavradores que inesperadamente revêem os campos florirem, ainda que por dias contáveis, e o sorriso rasgado dum pecuarísta que encontra na selva agreste a verdura abundante para os seus rebanhos.


Fenomenal! declamam os homens perante o silêncio da Tina Mente que nem pôde prever tamanha chuva junina que aos olhos dos povos nordestinos se comparava ao milagre de Txibinda Ilunga, o estrangeiro guerreiro/rei.

Caiu chuva, mas sobre ela ninguém reportou, nem mesmo o "Acorda país" ou o "Boca louca". No dia seguinte mais chuva vespertina e os anunciadores sempre em silêncio sepulcral. E nada se disse!

Luciano Canhanga

domingo, junho 14, 2009

O TESTE E A PRESTAÇÃO DO TI-MANEL


"Para dez dias de treino, acho que foi bom. Apesar do maior controlo da Guiné as mehores oportunidades foram nossas. Isso mesmo disse o técnico português ao serviço dos Palancas Negras, Manuel José, no fim do jogo treino entre as selecções de Angola e da Guiné-Conacri, realizado em Amadora, Portugal.

Com 48% de posse de bola contra 52% dos guineenses de Conacri, o Ti_Manel acha que jogou bem, só porque não perdeu... Até que acha e bem, pois não tem certeza porque aquilo que se viu dentro do relvado foi mais Guiné do que Angola. E quando o nosso malanjino de lá (Portugal) diz que "são apenas dez dias de treinamento" parece que até os jogadores é ele quem os está a produzir, quando o que está em questão é apenas a convocação dos "melhores" e a adopção de um esquema táctico ao seu feitio.

Vejamos os cruzamentos para a pequena área e remates à baliza com algum perigo efectuados por cada um dos conjunto ao longo dos noventa minutos:

ANGOLA: 3', 7', 31', 37', 44', 77', 85' e 85:23".

G. CONACRI: 12', 15', 22', 30', 31', 34', 41', 47', 50', 54', 60', 62', 62:12"71'75 e 87'.

Apesar de Angola não ter perdido o jogo (EMPATE A ZERO), a produção em campo não foi das melhores, pois se melhorou a defesa que não permitiu que a nossa baliza fosse violada, a ligação entre os três sectores não foi ainda das bem conseguidas e não nos podemos contentar com um mal menor, quando o que precisamos são vitórias.

Hoje perdoamo-lo, mas amanhã terá de mostrar algo melhor do que a sua estreia. E melhor do que um empate é uma vitória convincente diante de um adversário do nosso quilate ou até superior.


Luciano Canhanga

sábado, junho 13, 2009

OS PALANCAS, O SONHO DO TI-MANEL E O NOSSO


Malanjino é “gajo vivo” em qualquer parte do mundo malanjino é malanjino. Procura amealhar um pouco mais e se possível não paga a renda de casa. O Malanjino constroi habitações, sonhos e riquezas também. O malanjino é por si só diferente do seu filho kibalista e do neto mbalundu*

Mas é do Ti Manel Zé de que vos falo hoje. O Ti-Manel (na foto) é vivo tipo malanjino. Trocou a reputação no Al Ahli do Egipto, terra de reis de renome, pelos nossos Palancas que também são de malanje e terra dos reis Ngola (ou mentira?).

Nessa sua nova roupagem de “treinador de bi-pedes omnivóros” o Ti-Manel, que é de Malanje do Putu, nada mais fez do que trocar a fama/reputação que tinha no Nilo por dinheiro do Kuanza. Ku Malanje Kitadi yango (em Malanje o dinheiro é capim). Assim é que o Ti Manel aceitou vir sem mais olhar atrás/pestanejar. E a mordacidade do Ti_Manel pelos nossos Kwanzas foi bem patente que para "lhe aceitarmos de graça" até espectou kibiona no cú do árabe que foi o antigo patrão dele.
Casa de favor já lhe deram. Dinheiro na conta já entrou. Uns kwanzas bebe e outros Kwanzas come, mas o resultado ainda não vimos. Amanhã mesmo, domingo santo 14.06.09, será o teste do Ti-Manel, o português de Katepa de lá. Queremos ver e saber se os manos todos que passaram no pasto dos Palancas eram bwazezas** ou o Ti-Manel, ele que é malanjino de Putu, é que sabe o caminho do capim fresco de Kangandala. Queremos ver se o que falta aos nossos Palancas é a garra do macho que lidera a manada ou se é o curral, na hora de planear o dia-seguinte, que está a meter água tipo Kalandula. Vamos ver se o dinheiro que o Ti_Manel já começou a comer é mesmo de suor ou se é de favor.
E o Ti-Manel vai ter de mostrar que ele é palanca macho amanhã, depois de amanhã, dias vindouros, até ao CAN!

*Os Kibalas descendem dos malanjinos e os ndulo e mbalundu dos kibalas (ver VINTE e Cinco e MALUMBO).
** boelo, burro, fraco, impotente...

Luciano Canhanga

quarta-feira, junho 10, 2009

O PRÉMIO MABOQUE E O JORNALISMO DIGITAL


A necessidade dos cidadão leitores em ser servidos, sem limitações temporais, nem censuras e autocensuras editoriais, faz crescer a cada dia que passa o jornalismo digital, aqui surgido na forma de blogs e portais.

A nossa bloguesfera está cheia de páginas informativas e analíticas detidas por jornalistas angolanos (a residir no país), conhecidos e anónimos, que trazem todos os dias uma complementariedade informativa útil e inegável aos habituais tablóides e audio-visuais, e há mesmo quem diga que "nos blogues a informação chega primeiro".

Aberta que está a campanha de publicitação do regulamento e concurso "público" ao Prémio Maboque de Jornalismo, edição 2009, uma pergunta urge oportuna:

_ A Maboque tem olhos para o Jornalismo Digital ou as novas formas de comunicar lhe são alheias?


E você o que acha da inclusão, no referido prémio, de uma categoria dedicada ao Jornalismo Digital?


Luciano Canhanga

sexta-feira, junho 05, 2009

AMANTES DE LOVE OU DO D'AGOSTO?


Mal o neófito "pastor" dos Palancas Negras, o português Manuel José, lançou à luz os nomes da pré-selecção que estagia no Algarve (Portugal) para o embate amistoso frente à Guiné de Sekou Touré, cercaram-se-lhe vozes "lovísticas" discordantes que o amaldiçoaram de todos os cantos e formas possíveis por ter deixado de fora o Love de suas vidas futebolísticas.

Entendo que uma seleccção faz-se com os homens do momento e nisso estamos todos de acordo. Apenas inquietou-me a imensidão do "barulho" feito à volta de Love que com mais calma percebi que não era apenas o Love. Havia gato com rabo de fora.

Vejamos: Bastará um pouco de atenção para notar que a nata do jornalismo desportivo angolano esteve/está directa ou indirectamente ligada ao defunto JDM, afecto ao clube militar angolano, do qual sairam os actuais expoentes máximos e formadores da nova geração de escribas e oradores dos audio-visuais que falam de desportos.

Se quisermos analisar com mais frieza ainda notaremos que quer Love quer David (que é do Petro) estavam/estão em condições semelhantes: inicialmente fora da convocatória, ambos lideram a lista dos melhores artilheiros do Girabola, sendo o primeiro jogador dum clube apurado à fase de grupos da taça CAF e o segundo a militar na equipa que lidera o campeonato nacional. Ambos foram repescados pelo técnico português que alegou desconhecimento do estado de forma dos atletas...

Por que se terá falado tanto da ausência de Love na selecção do que do seu colega David (referenciado apenas nas boleias de Love)?

A resposta é simples: Muitos fingiam morrer de amor por Love quando na verdade é o D'Agosto que esteve/está em jogo, ou seja, o seu Love é/era pelo 1o de Agosto.

Luciano Canhanga

domingo, maio 31, 2009

A FESTA, A LUTA E O LIXO


Já há muito não se ouve a buzina aguda de um camião recolector de lixo ou as toscas acelerações de um tractor agrícola adaptado às crateras periurbanas para o saneamento doméstico.
Quaquer moda não custa pegar e os miúdos dos musseques, cumprindo as orientações paternais e da Tv, em que muita confiaça depositavam, se tinham habituado a deixar o lixo à porta para ao primeiro sinal de presença do carro ou do tractor correrrem de lebre com o balde ou o saco preto à cabeça.
Os dias se foram sucedendo e os homens da câmara ora passavam de manhã, ora à tarde, ora à noite, ora nunca. Depois vieram as semansas e era dia sim, dia não e dias nunca até que o povo desabituou.
Da porta inundada e a pôr vergonha nas visitas de longe, o lixo foi ganhando pernas. Foi sendo levado à rua. À berma, junto ao lancil ou mesmo disputando espaços no passeio ou no pavimento asfático carcomido pelas águas sem esgotos e os Hiaces apressados amassava-o fazendo das estradas lagos de podridão. Homens, ratos e vermes paridos por insectos disputavam soberanias caseiras. E a solução escondida nos gabinetes tardava libertar-se, até que um dia vieram homens.

***
De colectes reflectores, cones ensaguentados, fardas multi-cores e vassouras empunhadas em braços cansados. Sófregos, sedentos e mal-nutridos, andajosos até. Calcanhares ao sol numa rua poeirenta duma cidade já sem nome. Ninguém encontra nela as condições duma capital ou ninguém, com vergonha, o quer pronunciar. À noite olha-se para o céu, claro ou escuro, e logo se descobre na presença ou ausência do astro o nome da cidade. Apenas a empresa em que pertence o mahindra com o atrelado rebentado de lixo e dezelo tem nome. Mas o tractor vai plantando-o pelas ruas em que passa, qual rastilho de cal num alinhado campo de futebol. E assim se dá continuidade fétida, à pódrida Avenida da Brigada. Aquela brigada de varredores tinha tudo menos a missão de higienizar.
E vários dias foram passando aumentando os sacos pretos, à berma, que aumentavan as dificuldades aos pagadores de taxa de circulação. O mahindra repassava hora e hora sem nunca parar. Os homens nele pendurados fingiam-se cegos aos montes que diasputavam os alpes. O mahindra limitava-se a deixar cair outros restos trazidos de cadiengues caseiros. Esferovites, papelões, entulhos e restos de betão inutilizado. Das letras que restavam na memória das crianças apenas se podia descortinar a palavra Solamber que era o nome da empresa.

***
Na madrugada da semana seguinte sacos, papelões e restos de carros vergastados pelo tempo repousam ali. Na rua Sardão Mariano, ao bairro do Soares, espera-se pelos homens das pás e camiões de caixas sanitárias, mas a única vida que se faz presente é uma Hilux de dupla cabina, climatizada e com dois cipaios de luvas sujas. Atiram os possiveis sacos, bem tratados, à carrinha e seguem o seu caminho. O resto repousará aí mais uns dias, senão mesmo semans, até que as larvas fecundem ratos e estes comam gatos.
–Devem ser da fiscalização, admiram-se os moradores. Mas onde estará o grosso da equipa? Interrogam-se ainda. Alguém viu a etiqueta dos que passaram por aqui? Ninguem responde, ninguém viu, apenas as lunetas dum zungueiro benguelense para soletrar na distância.
_ Mano, parece que é Kixiarrasquem. Essa empresa é bué. Até o lixo vai no carro de luxo...
E o que ficou quem o leva? Perguntam-se ainda hoje.
***
Nas Perninhas e na rua do escravo Lino os dias são de disputas renhidas entre ratos famintos e gatos fartos. Gatos que fingem correr com os ratos mas que se abastecem destes. Ao raiar do sol aparecem primeiro os verdinhos empurrando barrigas. Tentam sencibilizar que o local não é para nguendas. Instruem o Zé Pequeno que, de chapéu feito balaio na igreja, recolhe as gorjetas a troca de paz.
Surgem depois os cadetes aos pares e cacetetes. Gato e gata ontam postos ou posições. Agitam os porretos e corre-se sem nexo.
Cai-se. Atropela-se. Cobra-se. Paga-se. Maltrata-se. Cansados, cadetes e verdinhos retiram-se para uma tasca ou taberna escondida e sorvem líquidos multi-efeitos.

O porreto volta a falar a sua língua predilecta. Os aflitos obedecem correndo, deixando para trás os seus pertences e o jantar dos ratinhos desprovidos do matabicho, mas não tarda reúnem-se à volta dos gatinhos, também eles desinteressados no filme.
De repende desponta um homem gordo, de casaco preto, se calhar conseguido numa zunga ou numa cobarde rusga e transportado num Prado de favor côr de cinza. O homem exibe ares de chefia e pergunta autoritário aos dois gatinhos azulados:
- Estão a dar rebuçados?
_Não chefe! Respondeu o que se achava mais atrevido ou menos constrangido à pergunta do chefe à paisana.
-E então? Voltou a questionar o homem exibindo um grosso fio de ouro no braço direito e os dentes amarfinados.
_Chefe de cada vez que enxotamos parece que estão a vir mais outras.
Fingindo não ouvir a resposta o inspector acenou ao chauffer para seguir a marcha em velocidade lenta. E foi vendo a cena coçando a barbicha algodoada de muitas ordens acolhidas ao vento.

E o povo vê no retrovisor do Prado a contínua luta entre os ratos famintos e os gatos desinteressados.
=
Depois do anoitecer, são dezanove e cinquenta e nove. Na nacional toca o ti-rim-rim, rim-rim-rim-rim! Dentro de segundos será o pioc-pioc-pioc. Carlitos Vasculhães vai pegar no comunicado superior e começar as kuribotas do dia. Hoje o povo está atento porque já andou ao adivinho todo mês para lhes dizer quem entra e quem sai na nguvulação. Desta vez querem gente que sabe trabalhar. Gente que vive nos bairros e que sabe como é viver na mesma cama com o mosquito da lama do tubo rebentado, com o rato do lixo não recolhido, com a barata da fossa entupida e com a constipação da poeira da obra suspensa... Esses sim, merecem a nossa comemoração.
E o povo está atento ao noticiário enquanto outros estão na internet do português magalhães. E a lista começa. Sua excelência o comandante de tropa e sobra grande usando da faculdade que lhe é conferida nos termos da alínea X do artigo Y da lei K... e o locutor avança na contextualização da jurisprudência perante a impaciência da Tia Zefa e clientela da barraca.
_ Possas, mas sempre os da mesma faculdade já ninguém mais que estudou aqui no IMEK ou no Makarenko?
Mas o radialista não liga à crítica, até porque não os houve. Mantém-se atento à ordem do papel e atira: Dr. Nza Kutimbe para o cargo de administrador do Kilamba Kiaxi. No cabrité vizinho umas palmas e entornam-se goles de Primus pela sorte do conterra e a possibilidade de mais umas facilidades. Na barraca da tia Zefa uns muxoxos e dores de cotovelo. _Mas esse então mora aonde. Faz o quiê? Sempre a se puxarem sacanas de merda...
O rádio vomita outros nomes e o povo reage quase de forma combinada. Estalidos bocais e assombros nuns, palmas e assobios noutros locais.
Engenheiro Francisco Mala Grande para admisnitrador do Rangel... Para Viana foi nomeado o camarada Povo Mulato...
Já tonto de nomes desconhecidos o povo reclama:
_Sempre os mesmos. Cipaios de onteontem, chimbas de ontem e fiscais de hoje. Nada mais sabem fazer do que correr com as nossas mamãs no Tira Cuecas e no Bota Larga, quando os empregos que surgem, mesmo nas obras, são apenas para os filhos e afilhados deles e as bancadas das praças do povo para as amantes e outras rabujentas... Tia Zefa, dá-me uma Soba Catumbela que vou festejar a desgraça do lixo que está sempre a subir!
***
E a festa continua. Uma cratera, um cabrité. Brotam moradias, brotam mercados. Novas estradas, novos charcos. Mais convivas se juntam à festa, vindos de distâncias incontaveis.

Luciano Canhanga

segunda-feira, maio 25, 2009

PALAVRA MINHA

Hoje apago velas. Aos cinco anos ingressei na OPA. Era um ingresso directo que coincidia com a entrada na pré-escolar ou iniciação. Foi em 1981 na aldeia de Calombo, que distava sete quilómetros da fazenda Israel onde meus pais residiam e trabalhavam que tomei o primeiro contacto com um professor.
Depois mudamo-nos para o Rimbe. Terra nova, pouco habitada e sem escola. O percurso para fazer a primeira classe era de aproximadamente 4 quilómetros, pois a aldeia/fazenda de Israel tinha ganho um professor que trabalhava num antigo estábulo bovino improvisado de sala de aulas que acolhia pioneiros da pré à quarta classe. Era nosso guia o Zé Borracha.
Depois mudou-se o professor e o local da sala de aulas. Sempre uma para cinco classes. Estávamos no ano de 1983 e era professor Jorge Manuel Carlos "Caconda", também ele meu primo, tal como o Zé que fora marido duma prima minha, a Rosa Manuel. Estudávamos na mesma fazenda, mas noutro acampamento, junto ao campo de aviação. Quem conhece a Pedra Escrita conhece os locais. Em 1984 ainda com o professor Jorge a escola mudou-se para um descampado que intermediava a aldeia de João Salomão e do Velho Azevedo. Frequentava eu a terceira classe. Foi o melhor ano do ponto de vista do aproveitamento, mas o pior em termos de estabilidade miliotar. E começava a compreender as tantas vezes que o professor se escondia e furtava-se à missão de nos ensinar o que ele dizia ter vointade de transmitir. Queriam-no para as matas e ele negava-se curvar-se. Mantinha a verticalidade e sofriamos todos. Várias noites foram de regadio chuvoso, nas matas. Muitos quilómetros, à pé. Deslocamentos e refúgios até que fomos a Luanda, ainda em 1984, carregados nas traseiras de um Ural militar...
Quem vive ou for a Luanda se perguntar a alguém que esteja acima dos trinta anos o que é/foi sabão "cocó", certamente encontrá alguém que lhe explique.
Sabão cocó eram restos industriais da fábrica de óleos e sabões Induve, em Luanda que os populares apanhavam, acrescentavam mais água e soda e desta mistura obtinham uma espécie de detergente líquido, mas bastante agressivo para a pele. Este produto eu comprei e vendi com os meus 10/11 anos.
Eram tempos difíceis, tal como retratam as peripécias vividas pela "Maria Coragem". Baptizado nas vivências de Luanda durante 3 anos, fui, contra vontade, enviado a Calulo onde a diferença social me transformariam no "jovem ideal" e vivi com um primo alfaiate (Gonçalves Carlos) tendo com ele aprendido a arte de talhar tecidos e costurar. A alfaiataria marcou os anos de 1987/90.

A guerra, porém, e o desejo de transpor a sexta classe fizeram-me viajar, mais uma vez para Luanda, tendo feito continuidade à alfaiataria com outro tio, Ramos Ngunza, e feito um curso de electricidade de baixào tensão. Transcorriam os anos de 1991/92. Luanda vivia a euforia dos acordos de Bissesse que puzeram fim à guerra entre MPLA/Governo e UNITA.
O povo fartava-se de rir, pelo menos em Luanda quando no interior o medo tomava conta daqueles que se tinha abstido das matas e das rapinas. De repente os militares de farda verde, e comandos castrados tomaram conta dos hoteís onde bangozamente viviam vidas nunca ensaiadas em solo pátrio. Os comités pilotos substituíram o trabalho da polícia e uma simples queixa podia resultar em morte sumária. Da televisão e radiofusão ecoavam ameaças de somalizar ou incendear...
Em 1992 fiz a minha estreia como educador primário. Primeiro dando aulas de superação (explicação) e depois no ensino público. Da minha improvisada escola de superação nasceram empregos para amigos.

Em 1997, terminado o médio de jornalismo, comecei a trabalhar como jornalista na LAC e hoje já são tantas as publicações em que tenho impressão digital ou vocal. Hoje estou aqui como responsável da área de comunicação institucional de uma grade empresa (risos), pelo caminho fui estudando e parando, mas sempre pensando no avanço. Parar é morrer!

Tenho duas licenciaturas por defender; uma no ISCED e outra na UPRA mas se houver vida uma delas conseguirei.

Tal como muitos sofredores e vencedores desta Angola, sempre defendi que filho de pobre tem apenas duas saídas: aprender profissão/ões e aumentar o nível técnico/académico.

Deus e o meu esforço permitiram com que homens de boa vontade me pudessem ajudar (mantendo=me empregado), mas tal como diz um ditado popular da nossa região, "quem se afoga deve ajudar o socorrista".
Um abraço.

Luciano Canhanga

sábado, maio 23, 2009

FOTO PARA MINHA GENTE

Uma aldeia em Foto. Um povo que reconstroi tudo partindo do nada. Uma vida que se reergue... Quem viaja encontra:
Pedra Escrita (entre o desvio da Munenga e Lussusso, EN 120)

Comuna da Munenga

Município do Libolo

Província do Kuanza Sul



Autor: Luciano Canhanga

domingo, maio 17, 2009

BARATOS & INFERNAIS


Se tivesse de viajar num azul-e-branco teria de gastar, ao fim do percurso que separa o Aeroporto 4 de Fevereiro ao Bairro Vila Nova, Akz. 400,00 divididos em 4 trechos de igual valor. Foi a pobreza momentânea que o forçou, naquele dia último da tolerância, a optar pelo transporte colectivo urbano.

Há muito não fazia tais enfrentamentos. Contava o seu calendário dois anos e meio desde que propositadamente fez o percurso Rangel/Viana para registar os cânticos anónimos. Mas de lá para cá muita coisa mudou. Pelo menos, dizia-se nos jornais,Rádio e Tv que muita coisa havia evoluído. Apregoaram-se autocarros limpos, equipados com AC, cômodos e silenciosos, com mais jornais em leitura do que falas soltas.

O primeiro machimbombo que por ele passou tinha as iniciais Segura a Gola d’Outro e estava apinhado de gente. Tudo quanto ouvira levaram-no e pensar que se tratasse de um funeral e não desistiu da espera. O segundo, da companhia Tira o Colete e Ultima a Luta, também rebentava pelas chaparias.Desesperado tentou enfiar-se por um espaço que restava entre pernas mal colocadas na pequena escadaria do pesasdo, mas sem sucesso. Desistiu.

Pagou os primeio Akz.100,00 para um percurso aproximado de 2km. Encontrou uma agência bancária com multi-caixa e tentou a longa fila. Os Kuanzas acabaram e a reposição tardava com a mesma persistência com que o sol atingia o epicentro.

À saida da agência, colocou a mala sobre o lancil, à sobra duma velha acácia húmida de mijo. Riu de forma aberta, espantou os nervos e caminhou mais um trecho. Agora sem dinheiro e sem força nas pernas, Kambuta limpa a mala, esconde os óculos que o identificam com facilidade e mistura-se num aglomerado que aguarda pelos autocarros. Estava perante o último recurso.
_ Nao há escolha! introspectou.

Ao primeiro, da companhia Tira a Ultima Risada e Anda, atrasou-se e faltou-lhe fprça [para a peleja da entrada, mas ao segundo machimbombo, da Nossopaistral, não titubeou e nem mesmo os passageiros à boca da porta o fizeram desistir. Estava já há duas horas na capital, tempo superior ao da viagem aérea em que transpôs mil kilómetros.

_ Tomara que seja mesmo climatizado, falou aos botões.
Já dentro, os empurrões e os cheiros desencontrados davam-lhe as boas vindas. Gelados de múcua, kikuanga, makayabo, kapuka madrugador, vômitos mal lavados e outras náuseas imundas fazia o coktail fedorento.
-Moço, mi disculpa paizinho! toca à frente! ordenou a cobradora.
Num lugar não distante da porta frontal, que servia de entrada, uma jovem nos seus virginais 15 aninhos reclamava:
_Possas! até cheiro de liamba? Para quê que não vão mbora à pé? Alguém tem de ver isso, disse desesperada.

Entre reencontros provocados pelas travagens repentinas e contorsões da viatura que soluçava ao encontro dos enormes buracos deixados pela chuva abrilena na estrada repavimentada, os passageiros iam tomando contactos mais íntimos. Corpo a corpo e suor no suor, qual molhados de fogo da paixão.

Não longe da porta de saída, uma velha, nos seus mabelas azuis, gritava apavorada: Mano, me meteram kibiona! É bandido. Motorista vai na polícia.
Aflito, o infractor tenta escapar pela janela gradeada do machimbombo, mas é agarrado pelas pernas e castigado conforme a lei mosaica e jogado ao longo da avenida Cristina Rodrigues.

Mais se parava, mais se falava e mais se ia trocando salivas das falas dispersas, deixando fervilhar no ar um perfume de aromas desconhecidos. E tudo mudava.

Os penteados desfeitos pareciam noites intermináveis de amor da puberdade, ao passo que outros cabelos, industriais ou herdados de indianas, jazziam também sapato abaixo, naquele chão, evocando aos fios o sofrimento que é uma viagem nos machimbombos de Luanda.

Foi nesse clima que Kambuta reencontrou a capital, a horas da declaração da Tolerância Zero aos desmandos dos automobilistas. Os cintos de segurança, os porta-bebés, os macacos, os colectes reflectores, as chaves de rodas e outros apetrechos passam a ser obrigagórios e as penalizações vão até ao tecto de 2 anos de salário mínimo.

Na ruas as más línguas apregoam para o Primeiro de Maio um parlatório candongueiro no largo que acolheu a missa campal de Bento XVI na sua peregrinação por Luanda, à Cimangola, para reclamar das vindouras multas policiais.

As boas línguas, porém, reforçam na media que ninguém mais abortará a aplicação da Mudança. Apregoa-se também, nos altifalentes públicos e privados de vocação pública, a inundação da cidade de novos autocarros. Políticos, empresários e pseudo-empresários revezam-se nas promessas e a “Revolução Viária” se torna palavra de ordem. A mesma ordem que ainda se confunde com a “gasosa” das multas adiadas em conversas de cavalheiros.

Já em casa, Kambuta, maltratado pela viagem, é recebido apenas por uma das filhas que o reconhece pelas rugas no rosto.
_ Como foi a viagem papá?
_ Terrível filha, terrivel! Os autocarros são baratos mas bastante infernais, respondeu aborrecido.

Luciano Canhanga

quarta-feira, maio 13, 2009

AKUKU MAKAYA YA TEMA!

À mesa um despertador, à corda, barulhava no seu tic-tac-tic-tac a cada segundo que passava. No fundo ele era também um relógio destinado a marcar apenas a hora do almoço.

Os meus conhecimentos, aos 4 anos, se limitavam à hora treze. Era naquele momento em que ele gritava furiosamente, como um comboio descarilado.

_Trimmmmmmmmmmmmmm! vibrava ensurdecedor, às vezes, que a avó Kikumbo, já no limiar da sua maioridade, chegava a não perceber o mundo à volta.

_Nde no Ka muasene*, vociferava a velha aflita.

O almoço, este, estava sempre pronto antes daquela sineta que nos punha voluntariamnte de pé e a correr, rumo à baixa, ao riacho inseminado de peixe de água doce que meu pai se gabava de ter sido o obreiro.

Estávamos na Fazenda Kitumbulo do meu avô Fernando Dambi ou Ngana Muriango onde se diz me terem encomendado para nascer, no ango de Kuteca, no óbito doutro meu avô, o materno, Canhanga Massaca ou Ngana Ñunji que era soba grande da Banza de Kuteka.

É pena que as minhas vivências com o avô Dambi tenham sido na primeira infância e o meu "saco" do passado carregar muito pouca informação, mas escreverei, um dia, sobre o toque de chamada daquele velho empenhado em trabalhos campestres ou consulta de adivinhação".

Primeiro tocava o despertador a que chamávamos de relógio de mesa, depois alguém tinha que pregar um enorme berro, à distância, com o código secreto:
_Akukuééééé, o makaya ya teméééé!'**

E lá vinha ele, meio satisfeito por poder matar o bicho, meio aborrecido por não ter terminado a empreitada. E todos, filhos, netos e visitantes que eram frequentes, sentávamo-nos à mesa para o repasto seguido de makiakia para os mais-velhos.
A tarde, normalmente, era passada em conjunto no terreiro*** ou no corte de ngando (papiro) material para a confecção de esteiras e outros objectos de cestaria.

Enquato aos sábados e domingos os homens adultos (sempre o avô, o pai, o tio César e outros visitantes) iam à caça com arcos, flexas e cães, nós, os miúdos, acompanhávamos as nosssas mães à pesca com cestos ou aproveitavamos a ausência dos pais para as nossas aulas práticas de armadilhar perdizes, pacas, macacos, pássaros e pescarias com nassas e anzóis carregados de salalé e minhoca.

O Atenção, cão pastor alemão que meu pai tinha conseguido do patrão da Fazenda Roussel, era o que mais caçava e por isso o mais querido da comunidade. Mas havia ainda o Tigre, o Tunga Laó, o Kelula e outros de cujas façanhas me lembro pouco. O meu querido Atenção, que teve durante a minha infância muitos charás, foi morto por uma onça depois de renhida peleja que deixou ambos em estado crítico. Tanto o meu pai o curou que não resistiu aos ferimentos. Teve funeral humano com uma caixa e campa em reconhecimento dos seus feitos. Do lado oposto, os caçadores da comunidade encontraram-na esqueléctica debaixo duma árvore, onde ventualmente tentava, também, curar-se das mordeduras do Atenção.

Às noites, à volta da fogueira, os adultos eram autênticas bibliotecas de secular saber. Contavam-se adivinhas, estórias de animais e histórias de factos ocorridos num tempo de ouvir dizer. Da escrita pouca importância se dava, mas a oralitura era obrigatória. Saber desvendar a genealogia era uma perícia apenas dos bons filhos. Eram esses os interpretes nas conversas adultas e nas longas viagens. Os mais velhos deixavam os monitores começarem com as perguntas e respostas dos mais novos... Uma aprendizagem que se processava por meio da repetição diária de um rosário costumeiro a que os anciãos acrescentavam novos elementos. Novos contos, novas fábulas e novas experiências que complementavam os já absorvidos pelos noviços... E havia pedagogia!


* Vão chamá-lo!

** Avô, o tabaco à beira do lume quase que queima!
*** Local onde se secava e ensacava o café

Luciano Canhanga

terça-feira, maio 05, 2009

A FRONTEIRA E O NADA


Quem ouve com regularidade relatos radiofónicos de jogos de futebol do nosso Girabola entra em contacto com novas expressões e com novos significados. Eis alguns:

1- O estádio do Inter Clube de Angola que fica entre a fronteira do Rocha Pinto e Morro da Luz...
2- O jogador não fez dada...

No primeiro caso deveremos estar perante uma nova geografia. Se fronteira é o limiar/limite entre dois espaços, estar entre a fronteira de dois espaços distimntos deve ser muito complicado.
O dicionário livre wikipédia define fronteira nos seguintes termos: é o limite entre duas partes distintas, por exemplo, dois países, dois estados, dois municípios, etc.

O correcto seria: O campo do Inter Club fica entre o Rocha Pinto e o Morro da Luz. Ou o campo serve de fronteira entre o Morro da Luz e o Rocha Pinto.


No segundo caso estamos perante a negação de negação que em filosofia equivale à afirmação em vez de negação. Mesmo nas ciências exactas, menos com menos é igual a mais.
A Wikipédia define o nada como: um signo, uma representação linguística do que se pensa ser a ausência de tudo.


O Correcto seria: O jogador fez nada... ou nada fez...
"Não fez nada" significa, filosoficamente falando, que "fez algo".

Luciano Canhanga