Translate (tradução)

sexta-feira, junho 10, 2011

A SANTA DE KATETE!

Entre as muitas ideias preconcebidas que ouvi durante a infância, houve uma que encontrou eco na minha imaginação e demorou anos a ser desmontada da minha concepção do mundo: a de que "não havia sequer um katetense de bom coração".

Era uma crença repetida quase como verdade absoluta entre malanjinos, lubolenses e tantos outros povos que afluíram para Luanda nas décadas de 1960, 1970 e 1980. Dizia-se que os naturais de Katete, na região de Icolo e Bengo, alimentavam um sentimento de superioridade em relação aos demais povos, que consideravam menores ou menos importantes. Por essa razão, os mais velhos chegavam mesmo a desaconselhar qualquer enlace matrimonial com pessoas daquela região.

Lembro-me igualmente de certas provocações que, embora ditas em tom jocoso, revelavam preconceitos recíprocos. Uma vizinha oriunda de Icolo e Bengo costumava gracejar com a expressão: "Akwa Lubolu adya jinyoka" (os lubolenses comem cobras). A minha mãe, sem perder a serenidade nem o sentido de humor, respondia prontamente: "Makutu, kadyé jinyoka. Adya ngó jimoma" (é mentira, não comem cobras; comem apenas jibóias). Entre risos e trocas de palavras, reproduziam-se estereótipos que passavam de geração em geração como se fossem retratos fiéis da realidade.

Mas a vida, essa grande mestra das verdades, encarregou-se de desfazer perante os meus olhos aquilo que os preconceitos insistiam em construir.

Ainda menino, conheci uma mulher proveniente de Katete que, através dos seus gestos, da sua bondade e da sua capacidade de servir os outros, demonstrou que tudo quanto se dizia não passava de mera insinuação preconceituosa. Era a minha querida Tia Santa, esposa do meu finado tio António Infeliz dos Santos.

A sua generosidade era tão natural e tão abundante que dispensava proclamações. Fazia o bem sem esperar reconhecimento; ajudava sem medir sacrifícios; acolhia sem distinguir pessoas. A sua conduta era de tal forma exemplar que muitas religiosas poderiam encontrar nela uma referência de dedicação ao próximo. O nome assentava-lhe com rara perfeição: Santa.

Foi ela quem, sem discursos nem debates, derrubou uma das primeiras muralhas de preconceito que encontrei na vida. Ensinou-me, pela força do exemplo, que a bondade não tem origem geográfica, nem pertença étnica, nem fronteiras culturais. Os bons e os maus, os generosos e os egoístas, encontram-se em todos os povos.

Deus chamou-a na madrugada de hoje.

Partiu a minha Tia Santa de Katete, sem que eu pudesse retribuir plenamente o muito que fez por mim e por tantos outros. É uma das ingratidões da vida: por vezes, aqueles a quem mais devemos partem antes que tenhamos oportunidade de lhes expressar toda a nossa gratidão.

Fica, por isso, esta singela homenagem à mulher que honrou o seu nome e que, com a simplicidade dos justos, deixou marcas profundas na vida daqueles que tiveram o privilégio de a conhecer.

E se a morte é, de facto, o descanso dos que cumpriram dignamente a sua missão neste mundo, então descansa em paz merecida, minha Tia Santa.

Que Deus a receba em Sua glória.

2 comentários:

Val Du disse...

Oi, Luciano.

Os meus sentimentos pela passagem de sua tia.

Bom ler o seu testemunho a respeito dessa mulher que deve ter sido uma grande pessoa. Consegues passar muito carinho por ela, através de suas palavras.

Um forte abraço.

Soberano Kanyanga disse...

Lita, amiga,
Obrigado pelo conforto. Não a vi há já bom tempo, mas não me consigo esquecer do quão útil ela foi na minha infância, trando seus filhos e eu em igualdade de circunstâncias. Foi uma pena!