Entre as muitas ideias preconcebidas que ouvi durante a infância, houve uma que encontrou eco na minha imaginação e demorou anos a ser desmontada da minha concepção do mundo: a de que "não havia sequer um katetense de bom coração".
Era uma crença repetida quase como verdade absoluta entre malanjinos, lubolenses e tantos outros povos que afluíram para Luanda nas décadas de 1960, 1970 e 1980. Dizia-se que os naturais de Katete, na região de Icolo e Bengo, alimentavam um sentimento de superioridade em relação aos demais povos, que consideravam menores ou menos importantes. Por essa razão, os mais velhos chegavam mesmo a desaconselhar qualquer enlace matrimonial com pessoas daquela região.
Lembro-me igualmente de certas provocações que, embora ditas em tom jocoso, revelavam preconceitos recíprocos. Uma vizinha oriunda de Icolo e Bengo costumava gracejar com a expressão: "Akwa Lubolu adya jinyoka" (os lubolenses comem cobras). A minha mãe, sem perder a serenidade nem o sentido de humor, respondia prontamente: "Makutu, kadyé jinyoka. Adya ngó jimoma" (é mentira, não comem cobras; comem apenas jibóias). Entre risos e trocas de palavras, reproduziam-se estereótipos que passavam de geração em geração como se fossem retratos fiéis da realidade.
Mas a vida, essa grande mestra das verdades, encarregou-se de desfazer perante os meus olhos aquilo que os preconceitos insistiam em construir.
Ainda menino, conheci uma mulher proveniente de Katete que, através dos seus gestos, da sua bondade e da sua capacidade de servir os outros, demonstrou que tudo quanto se dizia não passava de mera insinuação preconceituosa. Era a minha querida Tia Santa, esposa do meu finado tio António Infeliz dos Santos.
A sua generosidade era tão natural e tão abundante que dispensava proclamações. Fazia o bem sem esperar reconhecimento; ajudava sem medir sacrifícios; acolhia sem distinguir pessoas. A sua conduta era de tal forma exemplar que muitas religiosas poderiam encontrar nela uma referência de dedicação ao próximo. O nome assentava-lhe com rara perfeição: Santa.
Foi ela quem, sem discursos nem debates, derrubou uma das primeiras muralhas de preconceito que encontrei na vida. Ensinou-me, pela força do exemplo, que a bondade não tem origem geográfica, nem pertença étnica, nem fronteiras culturais. Os bons e os maus, os generosos e os egoístas, encontram-se em todos os povos.
Deus chamou-a na madrugada de hoje.
Partiu a minha Tia Santa de Katete, sem que eu pudesse retribuir plenamente o muito que fez por mim e por tantos outros. É uma das ingratidões da vida: por vezes, aqueles a quem mais devemos partem antes que tenhamos oportunidade de lhes expressar toda a nossa gratidão.
Fica, por isso, esta singela homenagem à mulher que honrou o seu nome e que, com a simplicidade dos justos, deixou marcas profundas na vida daqueles que tiveram o privilégio de a conhecer.
E se a morte é, de facto, o descanso dos que cumpriram dignamente a sua missão neste mundo, então descansa em paz merecida, minha Tia Santa.

2 comentários:
Oi, Luciano.
Os meus sentimentos pela passagem de sua tia.
Bom ler o seu testemunho a respeito dessa mulher que deve ter sido uma grande pessoa. Consegues passar muito carinho por ela, através de suas palavras.
Um forte abraço.
Lita, amiga,
Obrigado pelo conforto. Não a vi há já bom tempo, mas não me consigo esquecer do quão útil ela foi na minha infância, trando seus filhos e eu em igualdade de circunstâncias. Foi uma pena!
Enviar um comentário