Os pais, católicos devotos, sonhavam vê‑la de véu e grinalda a subir a calçada da missão. Mas Turbina, apóstata confessa, não lhes concretizou o sonho — nem enquanto vivos, nem depois de terem regressado ao pó. Durante anos foi mulher da vida; e, na vida, ganhou quase tudo: casa, carro, filhos e fama de mulher‑produto.
Com a idade a avançar e os filhos já a perguntar pelos muitos rostos que entravam e saíam da casa, Turbina abandonou a casa‑loja e ensaiou outros modelos de negócio. Mas os revezes económicos do país foram minguando as oportunidades. Vieram os dias de fome; os “arranjos” que lhe conferiam beleza foram rareando; e as picanhas, antes recauchutadas e bem apertadas nos vestidos, entregaram-se baloiçantes ao léu, como cão sem dono. A carroçaria, embora ainda avantajada, já mostrava sinais visíveis de desmazelo.
— Esse mercado está agressivo… — lamentava Turbina. — Umas coladas aos maridos que nem nesga deixam, outras largadas, outras em vida de pedra… Como vou conseguir meu homem? Como manter cama quente?
Foi assim, aflita, que se dirigiu à reza — dessas igrejas que prometem o mundo e mais algum recheio.
Ao voltar, reparou num ajuntamento estranho no segundo quarteirão. Ligou as antenas, e logo veio a informação: na aldeia, as notícias correm ao vento.
— A fila andou na rua de baixo — disse uma vizinha, ela própria coleccionadora de tesouros alheios.
— Aquela mana de cabelo longo morreu? Ai meu Senhor! — reagiu Turbina, com um grito capaz de molhar o bairro inteiro. — E o mano Jordão? Quem vai cuidar dos filhos pequenos? Ai sofrimento!
Turbina e Jordão — ou melhor, Turbina e Kimbundaria — já tinham trocado olhares… e algum calor. Ele, em tempos, fora cliente assíduo; e, no auge do descompasso do êxtase, chegara a propor-lhe casa e lar. Agora, com dona Eunice doente de morte, Turbina passou a espiar a casa do viúvo, visitando a vizinha com desculpas ensaiadas, enquanto engolia hectolitros de cuspo à espera do milagre: migração do homem alheio.
Chegada a noite do velório, Kimbundaria balançava a sua “turbina” como quem afia as armas. Parecia mais preocupada com a hora do funeral — ainda incógnita — do que com a dor de Jordão, que fingia, com a mesma destreza de sempre, os seus apetites kimbundásticos.
Entre suspiros teatrais e mão no peito, perguntava, volta e meia:
O funeral deu-se na tarde do terceiro dia. No sétimo, Jordão já caminhava mais solto, e Kimbundaria, vendo a porteira da “migação” entreaberta, apertou o cerco. Armou-se com um decote ousado, o arsenal turbinado de que era detentora desde miúda.
Ela conhecia os gostos do homem: funji de bombó, verduras, pevide e boa pomada. Sem delegação, assumiu o comando da cozinha, enquanto os parentes iaos chegando. Parecia chefe de logística: levava e trazia tachos, organizava as visitas, conduzia familiares ao quarto onde Jordão recebia condolências.
Mais tarde, quando os parentes mais distantes começaram a dispersar, e antes mesmo da missa do sétimo dia — marcada para aquela noite — Kimbundaria, vendo a migração quase confirmada, preparou o ataque final.
Enfrascou-se até tropeçar na sombra mais próxima. Depois, fingindo ser protocolo, anunciava entradas e saídas, enxugando lágrimas imaginárias. Aproximou-se do viúvo, encostou‑se a ele e soltou o último cachorro:
— Ó mano Jordão… as visitas para a missa de logo já estão a chegar. Não acha que já é tempo de me amigares? Me faz só esse favor, hoko?!
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