(No Prelo)
O ano de 1984 corria apressado, como quem foge de dívidas antigas. Na Kalemba, a classe do Kwanza‑Sul acabava de se emancipar, erguendo-se em novo templo. Para os metodistas unidos — essa igreja protestante de raiz americana — cargo equivalia à paróquia, e classe, à pequena capela onde os fiéis mais próximos se ajuntavam durante a semana. O cargo era o espaço maior, o que acolhia os cultos dominicais, baptismos, casamentos e outras aglomerações necessárias ao espírito.
Domingos João António, depois de frequentar um curso teológico no Instituto Emanuel Unido, no Ndondi, fizera a travessia de mestre do coro da Kalemba a pastor do novo cargo, baptizado com o nome do profeta que guiou os israelitas das masmorras faraónicas até à Terra Prometida: Igreja Moisés.
O núcleo juvenil — Kitembu, o irmão mais novo; o sobrinho Kandungu; os amigos Kanhanga, Kapitia e Kilole; as meninas Celeste, ST, Tt; as irmãs Domingas e Henriqueta — enchia de canto a vizinhança do Nzamba‑1. Era comum ouvir dizer no quintal alheio: “Esses meninos de Moisés cantam como se tivessem anjos de reforço.”
O país, contudo, fervia: conflito armado, rusgas para o serviço militar obrigatório, filas nas Lojas do Povo, pedras e latas à espera dos “pioneiros” nas escolas… Mas tudo isso diminuía diante dos sermões do pastor Milocas, o Domingos João. Humor, realismo e uma esperança teimosa no futuro faziam da sua pregação um bálsamo raro. Muitas vezes a rua servia de nave auxiliar, porque a igreja, mês após mês, parecia encolher perante a multidão.
No meio da juventude, havia o Kandungu: meio‑mundano, meio‑mondano, mas fiel aos domingos — talvez porque o bairro, nesses dias, se tornava um poço vazio de conversa. Integrava o coro com um tenor afinado e um “Ámen” tão singular que até o pastor brincava: “Se o céu tiver porteiro, há-de abrir a porta quando ouvir esse teu Ámen.”
Ora, pelos becos do Cazenga ao Prenda, passando pelo Sambizanga, já corriam rumores de que o rapaz abusava, aqui e ali, de uvas fermentadas e cevadas baptizadas com lúpulo.
Naquela manhã, eram sete e meia no Sete‑e-meio, quando a porta tremeu de uns pum, pum, pum. Tt, apressada, amarrou o pano acima do busto e foi abrir.
Entrar ou não entrar? Tt, indecisa, preferiu ficar à porta. Lá dentro, o estado etílico do marido era um escândalo à espera de testemunha.
— Não, tio Domingos João. Dormiu de serviço. Este mês todo está a fazer fim-de-semana. O colega do turno está com problemas…
O pastor assentiu, mas os olhos não acreditaram.
— Muito bem, irmã Tt. Quando ele chegar, diz que o tio — e pastor dele — está preocupado. Que me procure em casa ou que compareça à igreja no domingo que vem.
Virou-lhe as costas e marcou passos de retirada, mas parou mais adiante, revezando mentalmente a agenda. Ainda era cedo para o culto das nove; havia outras ovelhas a visitar, outras almas a puxar para dentro do aprisco.
Tt aproveitou o silêncio para acender o ferro a carvão e preparar a beca que usaria no culto.
Foi então que, do quarto, talvez por pressentimento, talvez por faro, Kandungu perguntou:
— Tetéêê! O gajo do pastor já foi?
E quem respondeu não foi a mulher. A voz veio do lado de fora, serena, mas firme:
— Não, irmão Kandungu. O gajo do pastor ainda está aqui.
O pastor estava ainda a centímetros da janela do quarto, prestes a dobrar o beco. Ficou a frase no ar, pesada, e só então seguiu caminho.
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