Eram todos idosos, ou quase isso, e muitas das conversas já giravam em torno da prostatite — a que alguns tinham, outros temiam vir a ter, e outros só conheciam de ouvir falar nas visitas à “oficina dos homens”, como chamavam aos hospitais. E foi no meio dessa sabedoria de bengala e experiência que Kaxikana, bem calibrado pela cevada, largou a teoria que incendiaria o velório:
— A próstata vem da prostituição! — garantiu, firme, enquanto os amigos arregalavam os olhos, pedindo mais explicações.
— É verdade! Vocês não vêem que as duas palavras têm a mesma base? Eu explico… — insistia ele, orgulhoso da descoberta etimológica parida no fundo da caneca.
O velório decorria na rua da Ambaca, junto à pracinha do Kalisange (calissangue). Lá estavam todos os conhecidos da Igreja Moisés: Kitembu, Kanhanga, Kilole, Kapitia, Tina da Saia Longa, Aida, Laurinda, os anciães Pequenino e Domingos João… e, claro, Kaxikana, sempre ele, estrela maior do desatino.
No quintal pequeno e apinhado, os mais velhos discutiam a razão da vida com a Bíblia aberta no colo e cânticos para elevar a alma do falecido.
Lá fora, encostados à parede de uma casa de madeira, estava a turma de Kaxikana: uns defendiam o desfrute da vida, outros atiravam os Dez Mandamentos como travões aos exageros.
— Não adulterarás, diz a Bíblia — lançou Kanhanga.
— Tens razão, Kanhanga — respondeu Kaxikana, conhecido por amigo da espuma. — Eu cá acho que mulher é o pior dos males. Por isso é que me casei com a minha curtinha e espumosa!
— Vocês sabem que relação existe entre certa doença dos homens e certa prática de mulheres sem norte?
Aida, esposa de Kapitia, tentou puxar luz:
— Não, mano Kaxikana. Explica lá isso enquanto passo o café.
Café baptizado, claro — carregado de aguardente.
Kaxikana limpou a boca, empurrou o frango com um gole de cevada e retomou:
— Essa falta de géneros nas Lojas do Povo está a levar nossas irmãs à prostituição. Basta parar no Nzamba‑1, à noite, e ver quem apanha o autocarro 33 para a Baixa, atrás dos cooperantes. O resultado para esses estranjas vocês nem imaginam…
— Termina isso, homem! Conta lá essa cena das cooperantes!
Kaxikana inclinou a caneca, agora mais torpe do que lúcido:
— Yáh! Todos os cooperas que conheço têm problema na próstata. Tenho certeza de que isso vem da prostituição!
Entre gargalhadas, “tsês”, palmas e apupos, Kaxikana concluiu a sua tese “científica”.
Chegou ao grupo, pousou os olhos em Kaxikana, e sentenciou, com ironia paternal:
— Ó Kaxikana… vai, meu filho. Empurra. Bebe tua cerveja. Ninguém está a te ver!
No domingo seguinte, todos foram chamados ao gabinete do pastor Domingos João para a inevitável reprimenda.
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