No sábado, 4 de Abril, choveu torrencialmente em muitas partes de Luanda. No bairro Vila Nova, em Viana, as consequências foram pesadas: prejuízos materiais, financeiros e morais. O volume da água que invadiu as casas chegou a um metro de altura, com força suficiente para pressionar portões e portas. As tampas das sargetas desprenderam-se, vencidas pela pressão da macro-drenagem. Quintais e
cómodos ficaram irreconhecíveis, cobertos de lama.
Alguns vizinhos, mais atentos, pensaram:
“É preciso reparar os estragos de hoje e prevenir repetições no futuro.”
A maioria, porém, preferiu procurar por um culpado.
— É culpa do vizinho Mona-a-Chico, último a chegar, que ergueu a sua casa onde a água passava — acusavam, sem nexo.
Na manhã seguinte, domingo de Páscoa, Maria, conhecida vizinha simpática de há muitos anos, bateu à porta:
— Com licença, vizinho Mona-a-Chico! Hoje não dormi. Vivo aqui há vinte e cinco anos e a minha casa nunca inundou. Os vizinhos têm de partir o vosso muro para deixar a água passar. Vou à igreja, mas os demais virão falar convosco.
Transtornada pelos prejuízos, lia-se-lhe nos olhos que a mulher precisava de atenção e compreensão. Não adiantava falar-lhe de aquecimento global, ciclos pluviais ou qualquer outra catequese.
— Está bem, mana Maria. Estaremos aqui até às onze horas e falaremos com os vizinhos — respondeu o acusado Mona-a-Chico.
Não chegou a hora marcada. Ao redor do portão juntaram-se meia dúzia, uma dezena e outros que foram chegando depois.
— Vizinho, viemos para conversar. O volume de água, ontem, foi intenso e os prejuízos enormes. Só juntos poderemos minimizar os efeitos futuros. O vizinho aceita fazer parte da solução? — perguntou o mais velho, com voz firme.
— Aceito, desde que envolva a todos. Qual é a proposta? — indagou Mona-a-Chico. Já tinha percorrido a cercania da casa e observado a quota de transbordo da lagoa de Termbembe, os bancos de areia escavada e o lamaçal nas ruas e quintais. O dele, apesar de alicerces altos e porta de esacape para água excedente,estava entre os afectados.
— Notamos que, se colocarmos uma barreira transversal e altearmos as três ruelas, poderemos conter a entrada da água e lidar apenas com o que cai das coberturas das nossas casas. Para isso, temos de nos unir e contribuir.
Concordámos. Fizemos uma ronda colectiva, criámos um grupo de WhatsApp, medimos a largura das ruelas e avaliámos a quantidade de material necessária. Dois vizinhos ofereceram blocos de cimento e malha-sol. As contribuições financeiras seriam definidas após cálculo dos valores. Vizinhos que nunca se viram, ou que se vendo nunca se cumprimentaram, juntaram-se para a mesma causa.
Enquanto o grupo procurava consenso, surgiu o camarada Cipriano, Presidente da Comissão de Moradores do bairro Vila Nova, homem de mais de sessenta anos, que exerce o cargo há mais de uma década.
— Bom dia, senhores e camaradas! Sou o Presidente da Comissão do Bairro Vila Nova. Estou a percorrer as ruas para aferir os estragos. Peço que me remetam imagens para que eu as faça chegar à Administração — apresentou-se, com voz segura, anunciando de seguida que tem o mandato a terminar e que a escolha do seu substituto seria na semana seguinte.
Conhecido por poucos e reconhecido por um, Cipriano identificou, antes de se retirar, o camarada Mona-a-Chico, que em tempos propusera uma acção solidária para abrigar uma idosa vizinha, cuja casota sofria constantemente com a passagem da água da chuva. Infelizmente, a iniciativa morreu por falta de consentimento do dono do terreno, mas ficou conhecida pela vizinhança como exemplo de solidariedade.
É que da inundação nasceu a comunhão.


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