Apossado de fome, às vezes combinada com a sede, já comi carne assada sem sal, depois de caçadas colectivas. Sabia bem. O suco da carne quente e meio assada cumpria o papel de desidratante em dias solarentos, em jornadas sob fogo e calor intenso. Carne totalmente crua, nunca!
Aprecio Moët & Chandon, mas J.C. Le Roux talvez se tenha inspirado nesse homem primitivo que descobriu o prazer da combinação entre fogo, sal e bebida doce e fermentada.
O gesto ancestral de assar carne e temperá-la com sal pode ser visto como o primeiro acto de cultura gastronómica, uma vitória sobre a natureza bruta. Como escreveu Lévi-Strauss, “o cru e o cozido” marcam a passagem do natural ao cultural. O fogo não apenas cozinhou a carne, mas também iluminou o espírito humano. O sal, por sua vez, tornou-se símbolo de aliança e permanência. “Vós sois o sal da terra”, diria mais tarde o Evangelho cristão.
Assim, entre fogo, sal e seiva fermentada, nasceu o alimento e a comunhão. A festa e a memória. Cada gole de espumante moderno, cada taça de vinho, carrega em si esse eco longínquo: a celebração da vida que começou à volta da fogueira.
Publicado no Jornal Pungo a Ndongo a 24.04.2026

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