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domingo, outubro 05, 2014

O TIO, O PASTOR E O GREGO DO "SETE & MEIO"

(In: O gajo do pastor)

Depois de a “Classe de Kwanza-Sul” se ter emancipado do cargo de Kalemba, eu virei motivo de disputa aos domingos entre o casal que me adoptara. Cada qual queria puxar-me para o seu lado, qual galinha a proteger pintainho tresmalhado.

Órfão aos oito anos e deslocado de guerra — ou recuado, como se dizia nos anos 80 para designar quem fugira dos tiros para aterrar nas cidades protegidas pelo Governo da República Popular de Angola — eu era como vergôntea fina: qualquer vento me dobrava.

Entre os Metodistas Unidos, a Classe é o local para encontros semanais no bairro; o Cargo, a “Igreja” grande do domingo. Era nessa geometria espiritual que eu crescia, sem ainda perceber bem por que razão a fé também tem caminhos distintos.

De 1972 a 1983, um grupo de kwanza-sulinos espalhados pelos templos de Luanda decidiu fundar a sua própria classe, que mais tarde viria a ser cargo. A malta era variada — havia malanjinos, kwanza‑nortenhos e gente do centro-Norte — mas os kikís dominavam. Talvez por isso o nome “Classe Kwanza-Sul” nunca tenha provocado celeuma.

A Classe subordinava-se à Igreja de Kalemba, ali atrás do cemitério de Sant’Ana. Quando ela se emancipou, separou também o casal que me criava: ele ficou em Kalemba, ela seguiu para a nova Igreja Moisés. E, como quem dá de comer é a mãe, lá fui eu atrás dela. Do tio recebia o costumeiro sermão e o dinheiro do ofertório — entregue religiosamente antes de cada um seguir o seu caminho.

A tia ia com as amigas; eu, com os meus kambas da EBF e do Pavilhão Infantil. O regresso juntava-nos de novo, entre compras no Nzala Ikola e paragens na Praça das Corridas.

Numa dessas manhãs, a tia faltou ao culto por razões que o tempo, generoso, tratou de apagar. Segui com os meus amigos em direcção à Moisés. À altura do Nzamba‑1 vimos uma roda de gente: curiosos, devotos, passantes… todos colados a um homem que falava desenfreado. Era um novo pregador — desses que o meu amigo Murtala cantou em música como pastor murras.

No púlpito improvisado tinha um livro “Verbo Divino”, tão verborrágico quanto ele próprio. Até quem saía de outras ngelús parava para “comer um koxitu” do sermão que, aos mais treinados, lembrava o Sermão do Monte.

Pregava assim:

— Irmãos e irmãs, um bom cristão deve dar a face esquerda depois de levar a galheta na direita… fui enviado pelo nosso Pai, tal qual os profetas da antiguidade…

A multidão ia aplaudindo, assobiando, entusiasmada. Até que, do meio da massa, saltou um grego do Sete‑e‑Meio com um:

— É mentira!

O pastor perdeu o fio e devolveu:

— Vai para o car(v)alho, seu bandido!

Foi como desligar o gerador. A multidão, antes efusiva, virou-lhe costas. Do aplauso passou‑se ao mixoxu.

Continuámos caminho até ao Pavilhão Infantil, onde ainda chegámos a tempo de cantar o “Kasanje‑Kasanje” do tio Farias, a “Margarida Morena” da mana Cândida e “o elefante que incomoda muita gente”.

À tarde, esperei pelo tio, como sempre às duas. Contei‑lhe o episódio e perguntei:

— Tio, pastor que é quase Deus também ofende?

Ele ergueu os olhos:

— Como assim, sobrinho? Na Igreja Kwanza-Sul o vosso pastor mordeu a língua?

— Não, tio. Foi um pastor de rua… respondeu com palavrão ao grego do Sete‑e‑Meio.

O ancião ajeitou o chapéu e procurou não quebrar o encanto da fé nem desautorizar o pregador:

— Meu sobrinho… faz sempre o que eu te digo, mas nem sempre o que eu faço. O diabo anda à espreita. Tanto o tio como o pastor podem errar. Aliás, não foi o pastor quem ofendeu o grego. Foi o diabo que se serviu da boca dele.

E assim ficou explicado o deslize — não da carne, mas da boca emprestada.


Obs: Publicado pelo Semanário Angolense

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