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segunda-feira, março 23, 2026

FEIRA AGRO‑ALIMENTAR PRISIONAL EM LUANDA

Entre os dias 20 e 23 de Março decorre(u) em Luanda, junto à Escola Nacional dos Serviços Prisionais, a feira agro‑alimentar alusiva ao Dia dos Serviços Prisionais, celebrado a 21 de Março. O certame expõe produtos cultivados nos diversos campos prisionais das províncias, constituindo uma mostra da aposta do sistema penitenciário angolano na autossuficiência alimentar e na redução dos custos de manutenção dos reclusos. 

Entre os expositores, o destaque vai para o Campo Prisional do Cubango, dirigido pelo jovem e inovador Superintendente‑Chefe Prisional Sabino Salongue Catombela, que apresenta arroz, cana‑de‑açúcar, batata, feijão, cebola, rabanada, milho e mudas diversas de plantas frutíferas e ornamentais, sinalizando uma nova etapa na gestão penitenciária: transformar os estabelecimentos em pólos produtivos capazes de minorar despesas e contribuir para a reintegração social. 

“Atingir a autossuficiência alimentar em alguns produtos do campo é a nossa meta e foi a orientação que recebemos quando fomos promovidos do Campo do Kapolo, no Bié, a Director Provincial do Cubango”, testemunha Sabino Salongue, reforçando a visão de que a produção interna é parte da solução para os desafios financeiros do sistema.

Em Angola, manter um detido custa calculadamente cerca de 50 dólares por dia, o que representa mais de um milhão de dólares diários para o Estado (Ver Angola 2024; Forbes África Lusófona 2024). Este valor é superior ao de países vizinhos como a Namíbia, onde os custos rondam os 30 dólares (dados de 2012, ajustados pela inflação), e a Zâmbia, que apresenta valores ainda mais baixos (Dullah Omar Institute 2017). A diferença explica‑se pelas estratégias adoptadas: na Namíbia e na Zâmbia, os programas agrícolas prisionais e o uso de penas alternativas reduzem a pressão sobre os orçamentos públicos. 

Angola, ao apostar na produção agro‑alimentar nos seus campos prisionais, segue uma linha semelhante, procurando transformar a população reclusa em força produtiva, capaz de gerar alimentos e, em alguns casos, excedentes comercializáveis. Esta prática não só diminui os custos com a alimentação, como também promove dignidade, disciplina e competências úteis para a reintegração dos detidos na sociedade (Novo Jornal 2017; Serviço Penitenciário de Angola 2026).

Os campos prisionais mais produtivos em Angola, como o EP/Nkíende no Uíge, Capelongo na Huíla, Kapolo no Bié  e Cubango, demonstram que a agricultura penitenciária pode ser um caminho viável para equilibrar finanças e criar oportunidades. 

A feira agro‑alimentar em Luanda é, assim, mais do que uma exposição: é um símbolo de inovação e de esperança, mostrando que o sistema prisional pode ser parte activa da economia nacional. Ao transformar os estabelecimentos em pólos de produção, Angola aproxima‑se de modelos regionais que já provaram ser eficazes, e abre espaço para uma reflexão mais ampla sobre o papel das prisões na sociedade contemporânea. 

O desafio parece claro: reduzir custos, sem comprometer direitos humanos, e ao mesmo tempo criar condições para que os reclusos contribuam para o bem comum.


Referências  

- Ver Angola (2024). País gasta mais de um milhão de dólares por dia com reclusos.  

- Forbes África Lusófona (2024). Angola gasta mais de um milhão de dólares por dia com reclusos.  

- Jornal O Guardião (2021). Estado gasta mais de 700 mil dólares por dia nas cadeias.  

- Novo Jornal (2017). Sistema penitenciário reforça produção interna de alimentos.  

- Serviço Penitenciário de Angola (2026). Notícias sobre reforço da produção agrícola nos EPs.  

- Dullah Omar Institute (2017). Impacto socioeconómico da prisão preventiva em Quénia, Moçambique e Zâmbia.

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