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sábado, março 29, 2025

SOBRADOS DE CASÓRIO


Verdade ou mentira, Sembe cumpriu. Recebido com sobrados do repasto anterior, fez do estômago um saco elástico. Aliás, antes serviu uma aguardente para "matar as lombrigas".

_ É para abrir o apetite, manos. Não me olhem só assim. _ Argumentou.
Seguiu-se a pratada regada com vinho que degustou até ao fim. Quando o “mwene-a-bata” (dono de casa) chegou e se sentou à mesa da sala interior, o puto Sembe foi chamado também.

_ Come um pouco de funji. Ontem estavas muito ausente e quase ninguém te viu. _ Disse o comissário Sabalu, pai da noiva e tio de Sembe e Mangodinho.

Entre um dedo de conversa, uma garfada e um gole, tragou o que lhe fora apresentado. Uns copos de vinho e outros de aguardente que não o deixaram ébrio de momento.
Já no avião, máquina de ferro no ar, Sembe não se emporcou, mas no assento se transformou em pedra e roncador. Dormitou até que o pássaro poisou no chão da Ngimbi, não se dando conta que a sua carteira de documentos caíra para debaixo do banco.

Ao transpor a migração, mão no bolso, carteira com bilhete nada. Revista na pasta de mão, nada. Revista na pasta de roupa, nada.
_ Ai wê, môs docs! – Gritou.
Um polícia de fronteira se abeirou e sentiu o alambique em que sembe se tinha transformado.
_ O moço tem o canhoto da passagem?
- Sim chefe, tenho. Faxavor, me ajuda só ir nas aeromoças procurar debaixo do banco.
_ O moço tem certeza que veio com os documentos em mão?
_ Sim, sô polícia. Exibi o bilhete ao entrar no avião.

Diligente, o agente, três riscos em vê no ombro, subiu no pássaro e deu-lhe o achado, fazendo o sinal do “pode passar!”
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Publicado pelo JA a 02.02.2025

segunda-feira, março 24, 2025

CARTA AO REI MBALUNDU

Ó PAI, com todo o respeito ainda, meu quase culegu.

Tambula hãndi ovilamo vyange. 

Dizem que o pai ainda estudou lá direito. Eu não.

Se estudou mesmo direito positivo, então o pai sabe que o costume e a tradição não podem "se chocar" com a Constituição e a Lei. 

Essa parte ainda eu só ando a ouvir a falarem nos doutores de lei que estudaram.

Então, se o pai estudou mesmo Direito, se o pai sabe, se sabe também que Angola é Rés Pública e não monarquia (salvaguardado o respeito à remanescente autoridade pré-Estadual), como é que o pai foi se "ferrar" através daquele "julgamento mortal" que não salvaguardou o direito sagrado VIDA, e agora vem ameaçar seca severa ao coitado povo sofredor? Ainda bem que já choveu!

Assim mesmo que o "fitiçu" falhou, muitos estão a dizer que a "bazuca encravou ou explodiu na própria arma do bazuqueiro", nesse caso o próprio pai mesmo.

Na remessa das talas para a "sua inimiga juíza" será que já não sobrou nenhuma?

Assim, o pai quer mesmo só andar à pé, do Wambo a Lwanda, tipo é Xavimbi que voltou e ocupou de novo "Nova Lisboa"?

Pai, me ouve só ainda, faxavor!

Cada sete dias de caminhada, o teste da covid-19 caduca. Se onde o pai completar a semana não houver testadores, não vai avançar. E se o pai conseguir chegar à capital (que é mbora território do seu culegu kamundongu), mas encontrar o Chefe Grande foi gozar férias dele, fica como?

E se os pés do pai ficarem inflamados de tanto marchar e o povo pensar que "a tala virou contra o talador" fica como?

Papá, fica mbora na sua Embala de Mbalundu.

Não aceita só agitação desse povo que tem mais ar do que juízo na cabeça. Às vezes ter cabeça grande não é ser grande cabeça!

[01.03.2022]

terça-feira, março 18, 2025

VISITA RELÂMPAGO AO LONGA

(Comuna que passou à categoria de município)

Atraído pelas notícias sobre a fazenda que produz arroz em boas quantidades, ainda no tempo de Kwandu-nyi-Kuvangu, decidi chegar ao famigerado Longa, visto estar na capital "Menonge". Abro parêntesis para assinalar que grafo os topónimos como devia ser, em obediência ao que demanda a parca regulamentação angolana e a do CICIBA sobre as línguas bantu. A visita aconteceu há já dez anos, e foi durante as minhas férias de 2015, tendo saído a solo da "capital das capitais", Luanda" à sede da província do Sudeste angolano. 
Como antigo estudante de Didáctica de História, no ISCED que era anexo ao Mutu Yá Kevela e colaborador [entrevistador] no Projecto "Angola nos trilhos da Independência", tive de ir conhecer o local aonde muitos dos obreiros da nossa independência haviam sido "desterrados e a sofrer sofrimento" por terem ousado usar (por outras palavras) que "Angola é dos angolanos!".
Conhecer o passado é maravilhoso, pois quem conhece a história só tropeça nos erros registados se for tolo. Todavia, as estórias sobre o arroz impeliram-me a meter-me ã procura do Longa. Não se trata do rio que nasce no Lonye, atravessa Karyangu e se afunda no Atlântico, separando Lwanda do Kwanza-a-Sul. Falo do Longa que vem do Moxiku e empresta as suas águas ao Kalahari. 
_ Aqui travaram-se encarniçados combates pela defesa da pátria ameaçada. "Aqui tombaram camaradas" de várias procedências do nosso vasto país. Aqui se conta, nos dias que correm, estórias sobre resistência ao colono, na Sub-zona da terceira Região político-militar do Glorioso, estórias sobre a resistência heroica contra os invasores sul-africanos quando os homens de Roelof Pik e Pieter Botha pretendiam fazer em Angola um "passeio turístico" militar em socorro de amigos angolanos que a história se encarregou de catalogar. Hoje a luta é reerguer o que se destruiu durantes as várias guerras (contra ocupação colonial, contra a invasão sul-africana, contra a insurreição interna) e construir coisas novas. É produzir arroz, milho, leguminosas e tubérculos e aumentar o nível académico-cultural dos seus habitantes. _ Estas foram as palavras de boas-vindas do Professor primário com quem mantive curtos, mas inolvidáveis momentos de prosa.

Longa, com perto de cinco mil almas, era, à data, "uma comuna que perdoa o passado lúgubre", mas que "jamais o esquecerá para que não se repitam as atrocidades que apagaram vidas e transformaram em escombros casas, lojas, hospitais e outros haveres". 
A carcaça de um helicóptero militar danificado na cabeceira da sua pequena pista de terra batida e alguns edifícios coloniais convertidos em pedaços pela aviação e artilharia sul-africanas são registos históricos que devem passam de geração em geração, desconfortando-me o facto de ver muitos destes "documentos históricos" estarem a ser recortados e levados à fundição.

Os meninos do Longa contavam a história lida nos poucos livros existentes e jogavam à bola em um pedaço lateral do "campo de aviação". A língua que mais se fala é Ngangela, sendo a língua portuguesa a segunda língua, todavia, obrigatória na escola que foi felizmente poupada e reconstruída. 
Uma outra maior, de 12 salas, construída de raiz, aguardava pela inauguração, "devendo elevar o nível de ensino e o número de alunos escolarizados", contou João Mbambi, professor do primeiro ciclo do ensino primário que ganhou um livro "O relógio do velho Trinta".
Os petizes, uns vestindo calções e camisolas amarelos e outros de tronco à mostra, imitavam, emotivos e sonhadores, os craques do Girabola.
_Quero ser como Job ou Ary Papel, disse um deles quando convidados para a foto-testemunho.
O arbitro vestia calças jeans, uma t-shirt e calçava chuteiras, ao passo que os pequenos "artistas da bola" poucos mostraram ter o privilégio de jogar com os pés calçados. Alegres, sem temor, nem represálias. Hora pós-escolar, 5h30 da tarde. Girava alegremente a bola no Longa, enquanto me aprumava para a viagem de regresso a Menonge que é longa, cerca de 90 quilómetros de distância.
Moisés Sacinene, 14 anos, frequenta(va) a sétima classe. Foi meu companheiro de conversas e fotógrafo de ocasião. Não se fez ao campo por considerar aquele "um jogo de crianças".  O seu campeonato é outro. Naquele pedaço de terreno plano roubado ao aeródromo militar ou assiste apenas os putos a se trumunarem ou é convidado a ajuizar os jogos dos kandenges.
_ O nosso campo é no lado de lá da estrada, onde os colonos jogavam. _Contou.
Quem vai de Menonge ao Kwitu Kwanavale tem, no lado direito do Longa a pista, parte da aldeia e o quartel. Do outro lado da Estrada Nacional 280 ficam os edifícios administrativos e os equipamentos sociais como o mercado, as escolas, o posto médico e, por mais incrível que pareça, um campo relvado a reclamar por novas balizas.
_ Esse campo foi sempre assim desde que nasci. Contou o professor Mbambi, quarenta anos, mais ou menos (à data).  O campo é mesmo do Governo. É ele quem manda cortar a relva quando fica muito alta. _Argumentou.
Podem ainda ser vistos, no lado norte, a antiga quadra de jogos de salão e sobras da guerra como tanques blindados e "mwana kaxitu" (lança rokets) já recortados em pedaços e aguardando pelo transporte à siderurgia onde as "laças e canhões que serviram a guerra serão transformados em enxadas e arado" para lutar contra a fome e a pobreza.
Mais abaixo, junto ao rio que dá nome à circunscrição e à fazenda que é exemplo nacional em termos de produção de arroz, um vasto prado se espalha em milhares de quilómetros quadrados de área, ladeando longitudinalmente as margens do Longa cujas águas não só me convidaram para matar a sede, mas também para lavar a "Maria Canhanga" que me transporta nessa odisseia.
_ Tio não toma banho ali. Visita tem de ser acompanhado. _ Alertou-me um dos rapazes que desafiavam a lei de Pascal sobre a submersão, ao que obedeci.
Na verdade, embora o Longa me tivesse convidado, a intenção era apenas lavar o rosto e saciar do caudal corrente e límpido a sede que caminhava comigo desde Menongue.
Enfim, conheci a [então] Comuna do Longa, fruto da paz que o povo tanto pedia. E não fui em cumprimento da "vida Kwemba", nem em serviço forçado numa cadeia pidesca do kaputu ou disesca da ressaca revolucionária. Fui em desfrute desta nossa Angola e os benefícios da força da razão que sempre lutou mais forte do que a razão da força que fez de todos nós meros objectos. Que saibamos todos dizer "tri-ti-ti nunca mais", porque agora que a paz já chegou "vamos 'mbora no Kwitu, porque a guerra Já acabou". E a visita ao Kwitu Kwanavale, perto de 100 km a leste de Longa, fica na agenda a cumprir nas próximas férias de um ano por determinar.

quinta-feira, março 13, 2025

OS REFORMADOS E A VISITA APRESSADA A CRISTO

Todos os seres humanos nascem, (alguns) crescem e todos acabam por morrer. É dado adquirido. Uns nem chegam a reproduzir, por vontade própria, alheia ou por antecipação da morte. Sabemo-lo. Todavia, entre os que morrem, os aposentados constituem um bom número.

A aposentadoria, por limite de idade (60 anos em Angola) ou por tempo de serviço (420 meses de contribuição ou 35 anos de trabalho contínuo), é um direito que se adquire com a idade e/ou tempo de trabalho, algo que devia animar quem chega a tal meta.

Já se imaginou, você e seu(a) cônjuge; filhos crescidos; netos a chegar, ano sim, ano também; isentos de trabalharem por conta de outrem que vos impõe agenda (agora são vocês os donos do vosso tempo total); "árvore sombreira" crescida; pensão de reforma a pingar (embora tripliquem as idas ao médico). Imagine que a sua/vossa "árvore sombreira" esteja também a frutificar para acrescer moedas à pensão de reforma e possam "desforrar" os dias de estresse e trabalho intenso com saídas prolongadas ao interior e/ou exterior do país. Você quereria, com certeza, viver e desfrutar por mais 60 anos. 

O que vejo, no meu Kuteka umbilical, é que os aposentados morrem cedo, alguns tão logo depois de deixarem de trabalhar por conta de outrem. Por que será? 

Outros, reclamam do patrão por lhes ter dispensado do trabalho para o usufruto da reforma que é de lei e moral. Alguns chegam a manifestar repúdio em público e lançar impropérios contra o "ingrato" do patrão que "não mais o quer ver trabalhar", para descansar. O que vai mal?

Não será porque o trabalhador exímio e exemplar deixou de pensar no pós-patrão, plantando, em tempo certo (antes de se chegar à aposentadoria), a "árvore sombreira e frutícola", tornando-se num ser ocioso e enjoado de ver as cores das paredes da casa todos os dias?

Noutras latitudes, os idosos são os que mais desfrutam da vida, viajando, conhecendo novos lugares, enchendo os navios cruzeiros, ocupando os hotéis, cuidando da natureza ou abraçando causas sociais. 

No meu Kuteka, a coisa é diferente. Os aposentados morrem cedo. Será por caso da mísera pensão de reforma? Mas, que tal (e volto à questão da "sombreira") se tivessem levado metade do ordenado ao estômago e alguma porção em poupança ou investimento?

Não sei qual foi a causa que matou o meu homónimo que "ofereceu todo o seu sangue" a uma rádio, até adquirir o direito à reforma, tendo sido ouvido ainda a reportar algumas vezes, mesmo já na condição de aposentado.

Não tendo nenhuma outra utilidade ou justificação, esse apontamento visa apenas levantar interrogações sobre a morte "precoce" dos nossos aposentados. Por que não "lhes é concedido" tempo para usufruírem do direito de não mais trabalhar por conta de outrem?

Algo deve estar errado e é tarefa de todos, empresários e gestores de topo de empresas, gestores de Capital Humano e colaboradores, encontrar uma nova fórmula que nos leve a gostar da reforma e a ter uma vida saudável e prolongada depois dos 60 anos.

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Obs: o autor é jornalista, MSc em Ciências Empresariais e foi Dir. de um GRH.

sábado, março 08, 2025

UMA VISITA AO MUSEU DO CORAÇÃO

Num hospital público de Cape Town, em 1967, um homem economicamente realizado, de 53, padece de insuficiência cardíaca irreversível e ninguém acredita em sua salvação, não existindo outra saída que não fosse encomendar a sua alma àqueles em que acreditava dar-lhe existência ultra-tumba. Apenas um médico, o Dr. Christiaan Barnard se recusou a desligar a respiração assistida.
A cadeira do receptor e a viatura sinistrada

Corria o mês de Natal. No dia 02, mãe e filha, esta de 25 anos apenas e a fazer carreira em um banco de referência, são atropeladas por uma pequena e, "aparentemente, inofensiva" viatura. A mãe teve morte súbita e a filha com traumatismo craniano, sendo-lhe declarada morte cerebral, horas depois, embora tivesse o coração ainda a bombear.
Já sem forças, Edward Darvall, ainda sem se refazer da má nova sobre a partida da mulher Myrtle Darvall, recebe outro telefonema do hospital.

_ O que será desta vez? Já "não caíram o Carmo e a Trindade?" Que há mais por cair? - Terá pensado sem o dizer.
Do outro lado do telefone estava jovem médico cirurgião, com PhD nos EUA, exausto, triste pelas ocorrências, mas ganhou coragem, fez o anúncio derradeiro, seguido de uma pergunta.
_ Tudo tentámos para salvar a jovem Denise Darvall, mas fomos incapazes. Todavia, ela tem um coração ainda a funcionar. O senhor autoriza que seja transplantado em um paciente que dele carece há muito tempo?
Seguiu-se silêncio. Depois uma voz entre a fraqueza e a coragem determinante de quem quer que o mundo dê uma gigantesca volta (ao nível do conhecimento).

Denise: primeira doadora
_ Sim. Já que não conseguiram salvar a minha filha Denise, no mínimo, tentem salvar a vida de quem precisa_. Esta resposta dada por Edward Darvall ao Dr. Barnard, deu lugar ao primeiro transplante de coração humano, realizado a 3 de Dezembro de 1967. Antes já outras experiências haviam sido tentadas pelo Dr. Barnard e sua equipa usando, principalmente cães, um deles exposto no museu do coração.

O receptor, Louis Washkansky, um comerciante sul-africano de 53 anos que sofria de insuficiência cardíaca terminal, viveu 18 dias com o coração emprestado e morreu de outra causa não ligada ao coração [pneumonia].
Essa é a história que foi mostrada e contada à turma de angolanos que procuram reforçar o inglês naquelas paragens.

Atrás da colecção dos factos feitos, fotos e objectos está o curador e guia do Museu do Coração da Cidade do Cabo Hennie Joubert. 
Perguntado se as sensações e sentimentos são como antes do transplante, Joubert conta que "o coração leva o sangue ao cérebro que tem a missão de amar, interpretar coordenar e ordenar as demais actividades do corpo". Falou sobre alguns pequenos cuidados que observa em termos de medicação, todavia, negou qualquer limitação física por causa do "coração alheio" que agora é dele. "Eu jogo golfe".
Na cama: manequim do receptor

A história do Dr. Barnard é demais conhecida. Por isso, é de Hennie Joubert, homem quase incógnito, "dono do museu" que me atrevo a rabiscar algumas linhas [História de sua vida]. É um sul-africano, de Ceres, em cujo corpo "coabitam duas pessoas," ou seja, ele e um coração que lhe foi doado em 2006, inspirando-o para homenagear o Dr. Barnard, pessoa que conheceu de perto e amigo de seu pai. Heenie afirma que "trabalhou árduo", enquanto teve excelente saúde, quando adoeceu, teve sorte de encontrar um doador. Todavia, para recompor o cenário completo da sala de cirurgia (daquela noite) tive de gastar cerca de sete milhões de Rands para conseguir os direitos de autoria das imagens e a propriedade de alguns objectos que estavam em falta para completar o cenário. 

Ao assinalar-se os 40 anos do primeiro transplante humano de coração (2007), investiu pessoalmente no projecto, vendendo tudo o que tinha para montar o museu no hospital público de Cape Town, Groote Schuur, que tem ao lado uma universidade. E não foi fácil recompor as peças e produzir os manequins com as feições dos personagens reais. Até o carro envolvido no acidente, metade está no museu. O quarto da jovem Denise, os adereços, etc. A cama em que o receptor do coração se encontrava havia sido doada ao Hospital Católico Romano de Windhoek, mas consegui tê-la de volta em troca de uma nova. As luzes do "anfiteatro" ou sala operatória haviam sido doadas a uma instituição de medicina animal, foram resgatadas, assim como fotos, entrevistas do Dr. Barnard e muito mais.

Quanto à turma de angolanos, brasileiras e sauditas, da English Plus Academy, "a visita realizada a 27 de Fevereiro de 2025, foi espetacular", na medida em que permitiu conhecer uma página sobre a história da evolução da medicina humana e conhecer parte da vida daquele homem (Heenie) que vive com um coração emprestado.
O seu contrato de gestão do museu termina este ano, havendo dúvidas quanto ao destino do espólio pessoal acrescido ao do Hospital.


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Publicado pelo Jornal de Angola a 02.03.2025

terça-feira, março 04, 2025

CARTA DE UM HEREGE AO SEU KAMBA DO PEITO

Meu amado amigo da muxima, do peito e "das confianças", como decidimos nos tratar nos dias que correm, para diferenciar essa nossa "amizade-como-irmandade", espero que essa carta/desabafo te encontre bem. Na verdade, são aquelas palavras que sempre te quis dizer, mas que fui protelando e postergando em função desta ou daquela situação subtil e que podia, num ambiente mais aberto, macular a honra de nossas virgens-parturientes.

Como o dia é de festa, descaso e descanso, isso depende do que cada um gosta e faz nesses longos dias de ócio, decidi, no silêncio e recolhimento que te é característico, mandar-te essa mukanda.

Soube que hoje, por lá, é dia de Carnaval, merecedor de um longo período que já se vai arrastando há 4 dias de festanças e desbundas com o salário acabado de receber. Embora tu não precises deste aviso, mas tens gente à volta e conhecida que pode carecer, volta e meia, de uma forma de "remind": o salário de Fevereiro é para comer e curar-se durante o mês de Março que tem trinta e um dias.

Aqui, na South onde me encontro, não vejo Carnaval. "Somente" vocês que "amam mais a colonização mental/cultural do que o próprio colonizador" é que o vivem com a euforia de quem tem já todos os males curados. Aqui é dia normal de busca de pão. Lembraste daquela vez em que o teu filho, meu sobrinho, te perguntou "por que não estavas a levar o saco para pôr o pão", quando em vez de lhe dizeres que ias trabalhar disseste que ias à procura de pão? Pois é. Aqui é mesmo dia de procurar pão e não de beber umqombothi (cerveja caseira) como fazem os nossos kimbombeiros do México e do Sete & Meio.

A propósito do Carnaval, que por lá se diz "é festa popular" ou é "manifestação da nossa cultura", tive na última madrugada uma acesa discussão com a minha tetravó, a trisavó da minha mãe. Encontrámo-nos num espaço com pessoas de várias idades, proveniências e culturas. Uns que era na nossa terra e falavam a nossa língua, mas que se tinham "casado e amigado" com outros, começaram a ignorar as vivências dos nossos ancestrais e chamaram aquilo que veio de longe e imposto pela força das armas e de um deus alheio como "nossa cultura". Será que é mesmo essa a nossa cultura? Ou é a cultura dos que sentem vergonha da terra que lhes recebeu e guarda o umbigo?

Talvez por desgosto, vi a minha tetravó e todas as pessoas da sua era que me estavam a contar lindas estórias partirem sem se despedirem. Foram um a um, mulheres e homens.

Uma das lições com que fiquei, da curta conversa que mantive com ela foi que as nossas danças e os momentos festivos colectivos como as cerimónias dos "tundandji, cinganji, evamba, ekano, efundula, omwongo" e outras festas ligadas à iniciação femininas, como efiko, efundula e ufiko, ou ainda de entronização que têm seus períodos e nunca abrangeram/paralisaram o país todo.

Lembrei-me agora da expressão "izaji" do meu Kimbundu materno, que significava feriado/recolhimento. Nos nossos dias de feriado, nunca alguém simulou ter sido raptado e a pedir resgate.

Em 2019 estive na Áustria, terra alheia de brancos que pensam que o crescimento e desenvolvimento residem no trabalho e na inovação técnica e científica. Foi na semana do carnaval. Não vi nada, nadinha que se parecesse ao carnaval que vocês festejam à boca-larga e saia-curta. As pessoas foram trabalhar. Mesmo em Portugal, não se vive essa euforia dos "pretos que receberam e injectaram o ópio" no corpo, tornado perene a autodependência. 

Repara ainda no que acontece nas igrejas? Os brancos fizeram o seu papel. Introduziram o ópio, eles deixaram de consumir e nós abrimos igreja em todas as esquinas. Vai espreitar quantas missas realiza uma igreja na tuga e quantas pessoas lá vão. Depois, compara com as nossas. É colonização. Só que, desta vez, o cego tem olhos desvendados, entretanto que não quer ver!

sábado, março 01, 2025

FUNJI COM SALADA

[Mangodinho na estranja]

_ Não se mete na minha vida! _ Assim mesmo me respondeu o kota que só quis ajudar. Vou contar:

Mangodinho, desde que começou a se deslocar do Kuteka para a Ngimbi e da Ngimbi para a estranja, ficou estranho. Até a comida que come virou diferente. Desta vez, o indivíduo pediu lingua-de-boi com funji. Até aqui está mbora certo. Faltou apenas um kabucado de kizaka, jimbôa, myengeleka, súmate ou kandonda. Podia ser qualquer verdura ou coisa da horta, mas tinha que passar na fervura ou, no caso da kandonda, que na Lunda é coisa obrigatória no jantar de um mwana lunga, tinha de, pelo menos, passar em água fervida e quente. Mas, o Mangodinho, nessa nova mania dele, aceitou mesmo lhe darem salada que seria a comida para o tal boi, cuja língua lhe deram com ele no prato. Isso se faz?!

E, quando lhe fui perguntar, qual é o motivo que te fez comer funji com salada, o Mangodinho a me responder que é por causa do médico.


Primeiro, ainda, me disse não tenho que lhe tirar satisfações porque a boca que comeu e o estômago que recebeu são mbora dele. 

Mas, que médico é esse que recomenda dar ao outro funji de milho branco com salada e um kabucado de língua-de-boi? E você, um mais velho que os miúdos todos te seguem como exemplo da aldeia e do país inteiro, aceita uma coisa dessas?

Até a língua de boi também está a negar e a dizer que é de vaca. Ara xisa, pá!

Segundo, é porque, ah, o médico me falou tem que comer verduras. Segundo é porque o boi quando lhe matam vira vaca. Como é que vira vaca?

Mesmo no curral grande, com hama nyi hama jya jingombe [com centenas e centenas de bois], "o dedo que mata é aquele que aponta o animal" e "o boi morre no dia em que lhe apontam para o abate". Como é que um gajo aponta o boi e morre a vaca que é para fazer aumentar o curral?

Terceiro, como é que o Mangodinho, um gajo mesmo vivo, nascido e criado no nosso Kuteka, acredita na receita invejosa de um medico qualquer? 

Quando não tínhamos dinheiro para criar bois ou comprar carne, a kizaka e outras verduras de todos os dias era connosco. Agora que a vida evoluiu lá um kabucado, o médico te manda voltar à vida de kizakices e tu aceitas, ó Mangodinho?

Esse kota ou já lhe meteram na mayombola ou lhe cozinharam ou então temos que lhe levar no kurandeiro para saber e nos dizer o que se está a passar com essa boelice que está a lhe entrar na cabeça. 

Um homem de verdade não pode aceitar tudo o que lhe dizem!