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sexta-feira, fevereiro 20, 2026

CONSCIÊNCIA E HIGIENE NAS RUAS DE VIANA

As ruas alcatroadas de Viana estão marcadas por um cenário desconfortável: lixo espalhado, urina em cada canto e paragens de táxi colectivo transformadas em depósitos improvisados de garrafas plásticas, coroas de ananás e outros descartes. Mesmo onde existem contentores, o lixo insiste em cair no chão. Alguns moradores e frequentadores da vila parecem ter perdido o respeito pelo espaço comum.  

Na Rua Hoji-ya-Henda, encontrei dois “operativos” que conversavam com uma vendedora ambulante de mandioca fervida. Um deles, após provar a porção que comprara, atirou para o asfalto a parte que não lhe interessava.  

Aproximei-me, decidido a intervir:  

— Operativos, bom dia!  

— Bom dia, senhor! — respondeu um deles, com ar grotesco.  

— Desculpem-me. Aquele balde de lixo é vosso? Pertence ao vosso posto?  

— Sim.  

— Então, se vocês têm balde de lixo, por que o seu colega jogou a sobra no asfalto? É para dizer que “o governo não limpa”?  

O homem avaliou rápido a situação. A altivez inicial cedeu lugar à humildade.  

— Desculpa, pai. Isso é questão de consciência individual.  

Retomei:  

— Pois é. Os mais lúcidos devem ensinar os menos lúcidos. Só assim teremos uma vila melhor.  

Os dois homens abanaram as cabeças em aprovação. Continuei a minha caminhada, desconfortável com o cheiro do lixo e da urina que impregna cada esquina.


Por: Soberano Kanyanga (munícipe há 20 anos)

Publicado no jornal Pungo a Ndongo a 30.01.2026

domingo, fevereiro 15, 2026

UM VOO SEM VOZ NEM IMAGEM

O silêncio dentro de um avião não é o silêncio da contemplação, nem o repouso da viagem. É um vazio que se impõe, como se a bordo tivesse sido decretada a ausência de música, de filmes, de anúncios, de qualquer sinal que nos situe entre a origem e o destino. O passageiro, entregue à monotonia, descobre que a única “performance” disponível é o ressonar da ocupante da cadeira da frente.

E como se não bastasse a falta de presente, o futuro também se anuncia comprometido: equipamentos de áudio danificados, botões arrancados, comandos sem tampas de cobertura, telas danificadas. Um cenário que mais parece palco de comício popular do que cabine de transporte aéreo.
É-nos pedido o patriotismo. Apelam-nos, a consciência e o dever, a amar as coisas nossas, antes das alheias. Todavia, o negócio exige contrapartidas e posicionar-se à medida da concorrência. Ou as empresas se diferenciam pela qualidade ou pelo preço. Cobrar o mesmo que outras companhias e servir menos é que não pode ser!
A indignação cresce. Por que apenas os “nossos aviões” se apresentam assim, sem divertimento, sem acompanhamento, sem cuidado? Que “onda” nos lançaram, que nos obriga a aceitar o desconforto como rotina?
Algo tem de mudar. Antes que os passageiros mais exigentes e conscientes dos seus direitos mudem de companhia, antes que a confiança se desfaça, é urgente que a "CAN" reencontre o compromisso com o bem-estar a bordo. Porque voar não é apenas deslocar-se no espaço. É também sentir que o tempo da viagem nos pertence, que a experiência é digna, que o futuro não se resume a um "lamaçal" de descuido.
Nota+: o pessoal de cabine esteve à altura (25.11.25)

domingo, fevereiro 08, 2026

CAMINHADA, LEITÃO E SOLIDARIEDADE MECÂNICA

Eram três angolanos: duas mulheres e um homem. Uma das senhoras tinha uma encomenda por despachar nos correios e o homem, já mais velho, acossado pela fome e pela sede de caminhar, encontrou companhia para satisfazer o desejo das pernas e o roncar do estómago. Rumaram da José Malhoa ao El Corte Inglês. Bons passos, marcados sem stress nem pressa.  

Adentraram a grande superfície — como chamam os tugas. A Fina, que também é fina no trato das questões laborais e profissionais, despachou a encomenda enquanto Suzana vasculhava a internet para confirmar que nada de anormal contra a sua organização circulava nas redes sociais.  

Cumprida a demanda, meteram-se a percorrer o longo corredor do piso inferior até ao “Forno do Leitão do Zé”.  

— Desculpem-me. Não resisto ao porco, embora a médica tenha recomendado “comer apenas o que nada e o que voa” — atirou o velho Soba.  

— Eu também gosto de porco — emendou a Fina, ao que Suzana acompanhou na decisão.  

Pediram três pratos, regados com água e refrigerantes. O preço era razoável e aceitável para a vida do “turista” com poucos dias ainda de estadia. Enquanto o velho Soba e a Fina acompanhavam os preparativos e entretinham com conversa jovem brasileiro que os atendia, a Suzana foi ocupar uma mesa de quatro lugares.  

Berta, jovem cafuça, ocupava uma das mesas. Inicialmente parecia cabo-verdiana. Depois, chamados por uma força invisível, juntaram-se à mesa próxima. Já eram quatro negroides. Chegou a amiga de Berta, Luísa, com sotaque ainda angolano. Depois, outra senhora negroide ocupou a mesa da mesma fila, perfazendo seis negros sentados espontaneamente lado a lado.

O ajuntamento não programado foi obra da lente da solidariedade mecânica _ conceito de Émile Durkheim _, sendo uma forma de coesão social baseada em semelhanças — culturais, linguísticas, raciais ou religiosas.  

Segundo a teoria de Durkheim, indivíduos que partilham origens ou identidades comuns tendem a se reconhecer mutuamente e a se agrupar, mesmo sem combinar previamente.  

Os angolanos e africanos, ao se encontrarem no mesmo espaço, foram atraídos uns pelos outros por afinidades de língua, sotaque e aparência. A proximidade espontânea criou uma pequena comunidade momentânea, marcada pela sensação de pertença e reconhecimento.  

O encontro no “Forno do Leitão do Zé” não foi apenas gastronómico: foi um retrato vivo da solidariedade mecânica, essa força silenciosa que aproxima pessoas semelhantes e lhes dá a sensação de estarem em casa, mesmo longe dela.

Publicado pelo Jornal de Angola a 23.22.2025

domingo, fevereiro 01, 2026

LYAMBA: PROIBIÇÃO, CONSUMO E REGULAÇÃO

Em Angola, o porte e consumo de lyamba permanecem proibidos por lei. O "Relatório Nacional sobre Drogas 2022" assinala que “a cannabis é a substância ilícita mais consumida no país, sobretudo entre jovens dos 15 aos 34 anos”. 

A norma jurídica vigente enquadra o consumo como ilícito, mas a realidade mostra que o uso se tornou mais visível em espaços públicos ou de frequência pública, contrastando com os tempos em que os fumadores se escondiam e envergonhavam de ser catalogados como "lyambeiros ou kangonyeros".

Nas ruas da Vila de Viana, junto ao residencial Kizomba, o consumo é perceptível em quintais onde se organizam festas e descampados, acompanhado pelo cheiro característico e pelo estalar das sementes queimadas. 

A lógica económica ajuda a explicar o fenómeno: quanto maior o número de consumidores, maior a procura; quanto maior a procura, maior o preço ou a produção. Assim, a lyamba torna-se um negócio lucrativo, ainda que clandestino.

Experiências internacionais:

- Namíbia: O consumo de cannabis é ilegal. A legislação herdada do período colonial prevê penas severas. Em 2023, o Namibian Legal Assistance Centre afirmou que “a criminalização da cannabis é discriminatória e desactualizada”, defendendo reformas legais.  

- África do Sul: Em 2024, o Parlamento aprovou a Cannabis for Private Purposes Act. O texto legal estabelece que “adultos podem cultivar e consumir cannabis em casa, desde que não haja crianças presentes”. A venda comercial continua restrita, mas a lei eliminou registos criminais de condenados por posse.  

- Holanda: Conhecida pela política de tolerância, permite a venda de pequenas quantidades em coffeeshops. Contudo, a posse acima de 5 gramas e o cultivo comercial permanecem ilegais. Em 2025, o governo iniciou um projeto-piloto para regulamentar toda a cadeia de produção e distribuição. O Dutch Ministry of Health declarou que o objectivo é “tornar o mercado mais transparente e controlado”.  

A comparação mostra três modelos distintos:  

- Proibição rígida (Namíbia) mantém o consumo na clandestinidade.  

- Legalização parcial (África do Sul) reconhece o uso privado, mas limita o comércio.  

- Regulação controlada (Holanda) integra produção e venda em sistema oficial.  

Angola enfrenta o dilema entre manter a proibição, que não impede o consumo, ou avançar para uma regulação que permita controlar, tributar e reduzir riscos sociais.  

Em síntese, a lyamba já é um negócio lucrativo na prática. A questão que se coloca é se o Estado angolano deve continuar a combatê-la apenas pela via repressiva (mas branda e incossistente) ou se deve considerar modelos regulatórios que conciliem saúde pública, economia e liberdade individual.  


Fontes:

_ Relatório Nacional sobre Drogas 2022 – Angola  

_ Namibian Legal Assistance Centre, 2023  

_ Cannabis for Private Purposes Act, South Africa, 2024  

_ Dutch Ministry of Health, Pilot Project on Cannabis Regulation, 2025.


Publicado no Jornal Pungo a Ndongo, a 24 de Janeiro de 2026