Translate (tradução)

sábado, fevereiro 28, 2009

O RENTÁVEL NEGÓCIO DAS OPERADORAS E TV



O canal de televisão lança um concurso com prémios atractivos: carro, motorizadas, electrodomésticos e outras coisas. Para participar do concurso bastará enviar um sms ou telefonar.

Ao valor da tarifa normal 1 sms custa entre 1utt ou 1,25 utt, mas o concorrente terá de descontar 11,1 Utt’s que equivalem a AKz 80, ao invés dos AKz 7,2 equivalentes a 1Utt.

Parece nada de anormal, pois não?

É que para um concurso em que participem, por exemplo, 250.000 concorrentes estes acabam pagando em sms AKz 20 milhões quando na verdade a empresa de telefonia desconta uma média AKz 281.250.

Viu agora a diferença?

Com o troco compram-se o carro, as motorizadas, os electrodomésticos, paga-se a publicidade e resta ainda muito para encher as contas da TV.


Luciano Canhanga (reflectindo)

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

MONA-A-CHICO

Surgiu, nesta data, na imprensa angolana "um Mona-a-Chico", escrevendo temas económicos no "recém-surgido (ed. n. 1 do) "semanário económico Expansão.
Quem será o Mona-A-Chico?

Luciano Canhanga

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

A FESTA REGRESSOU AOS CAMPOS


Retornou, Sábado, aos estádios de futebol de Angola a festa do principal campeonato de futebol, o Girabola.

Eis os resultados da 1ª jornada:

Académica do Lobito-Petro de Luanda, 2-3

Bravos do Maquis-Recreativo da Caála, 2-1

ASA-Libolo, 2-2
Interclube-Kabuscorp, 0-0
1º de Agosto-1º de Maio de Benguela, 1-0
Desportivo da Huíla-Académica do Soyo, 0-1
Santos FC-Benfica de Luanda, 0-0

Classificação

1-Petro de Luanda 1 jogo/ 3 pontos

2-Bravos do Maquis 1/3
3-1º de Agosto 1/3
4-Académica do Soyo 1/3
5-ASA 1/1

6-Libolo 1/1

7-Santos 1/1

8-Benfica de Luanda 1/1
9-Interclube 1/1

10-Kabuscorp 1/1

11-1º de Maio 1/0

12-Desportivo da Huíla 1/0

13-Recreativo da Caála 1/0

14-Académica do Lobito 1/0.

Próxima jornada

Benfica de Luanda-Interclube

cadémica do Soyo-Santos FC

1º de Maio-Desportivo da Huíla

Petro de Luanda-1º de Agosto

Recreativo da Caála-Académica do Lobito

Recreativo do Libolo-Bravos do Maquis

Kabuscorp-ASA.


Luciano Canhanga

sábado, fevereiro 21, 2009

"MARIA CORAGEM"


"Mamãs ou Manas Coragem" houve e há muitas. Cada uma no seu meio, seu tempo e no seu jeito. Anália V.P. foi corajosa ao ser a primeira dama a desejar governar todos os angolanos (depois das coligações de Njinga Mbandi). Mas será que terão faltado "atrevimentos" semelhantes?
-Sempre houve. Faltaram os holofotes ou não precisaram de se manifestar, pois vejamos:

Uma senhora tem o marido doente. A guerra movida pela UNITA atinge a aldeia de Rimbe, no Libolo (comuna da Munenga). O filho mais velho está na casa-de-água(1) e não pode manter contacto com o mundo exterior (a comunidade).

Maria, a senhora, leva o marido ao hospital da Vila de Calulo e lá é transferido para o Sumbe. Na Justificar completamentecapital kuanza-sulina não tem familiares e ela nem tem dinheiro.

A saúde do marido degrada a cada hora que passa, receia o pior e decide levá-lo a Luanda onde tem um irmão e uma sobrinha que trabalha no hospital sanatório.

Para viajar era necessário destilar makiakia(2) cujo dinheiro, resultante da venda, serviria para pagar a passagem no autocarro da ETIM. Porém, um primo do marido, depois de embriagado, entorna o tambor da makiakia em destilação, mas a Senhora não desiste. Faz empréstimo e leva o marido a Luanda onde morre uma semana depois de baixa hospitalar.

Feito o funeral, volta viúva, desamparada, sem dinheiro, com dívidas por saldar e quatro filhos menores por cuidar. 0 mais velho, ainda na casa-de-água, tem oito anos e a menina mais nova tem dois. A tradição exige um novo funeral (fictício) e depois de um ano o sacrifício de um bode para tirar o luto.

Estávamos já no ano de 1984. A guerra aperta. Mais noites são passadas na mata, de baixo de chuva, mosquitos e outras feras, do que no casebre de pau-a-pique. Mãe e filhos refugiam-se na sede comunal da Munenga e no mesmo dia, 15 de Fevereiro, a UNITA ataca. Todos os haveres são levados pelos guerrilheiros e a família refugia-se na aldeia de Samba Caringe, onde por um mês vive a custa de trabalhos prestados em lavras de aldeões locais.

Com tudo perdido, Maria regressa, com as mãos à cabeça(3) à aldeia de origem (mais de 60Km). Junta forças, as últimas forças, junta trapos e arrisca a viagem para Luanda, com os filhos, onde o irmão os receberia.

Posta na capital angolana é-lhe dado um casebre de pau-a-pique, mas tem de se adaptar aos negócios madrugadores da capital angolana e sustentar os quatro menores. Abdica de amores e sustenta os filhos, ajuda o irmão mais novo desertado das FAPLA e sobrinhos abrangidos para a "vida militar".
Esmera-se nos negócios da fuba de milho, peixe frito e outros bens de primeira necessidade, comprados e revendidos na candonga(4).

Com a poupança melhorar as condições do casebre e junta dinheiro para recomeçar a vida destruída no campo.

Amenizada a guerra, em 1987, regressa à terra natal e recomeça a vida campestre, dividindo-se entre o campo e a cidade capital onde residem os filhos.

Esta Senhora anónima que responde pelo nome de Maria Canhanga é ou não uma heroína? É ou não uma "mamã coragem"?

Por isso digo: Cada uma no seu tempo, no seu meio e com as suas armas.

Na foto: Maria Canhanga à esquerda
1- iniciação masculina ou circuncisão
2- Também conhecido como Kaporroto. Bebida alcoólica destilada
3- mão vazias; sem nada
4- Venda ilegal ou informal (normalmente eram produtos desviados de lojas estatais no tempo da economia planificada)
Luciano Canhanga

domingo, fevereiro 15, 2009

PETRO ABATE LEOPARDOS E AGUARDA "TODO PODEROSO" MAZEMBE



O Petro de Luanda apurou-se para a fase seguinte das preliminares da Liga de Clubes Campeões Africanos em futebol, ao vencer em Mbabane, o Royal Leopards da Swazilândia, por 3-0, em jogo da segunda “mão” desta prova. Igual resultado tinha sido conseguido em Luanda na primeira mão. Nos 16 avos de final, os comandados de Bernardino Pedroto medem forças com os "Todo Poderosos" Mazembé, do Congo Democrático.

Abaixo alguns dados dos dois oponentes:
1-Atlético Petróleos Luanda:
Conhecido também como Petro Atlético Luanda, Petro Atlético, ou simplesmente Petro Luanda, é um clube tradicional de futebol de Luanda, Angola, fundado em 1980. O clube ganhou o seu primeiro título da Liga Angolana em 1982.
Títulos
• Liga Angolana: 1982, 1984, 1986, 1987, 1988, 1989 , 1990, 1993, 1994, 1995, 1997, 2000, 2001,2008
Taça: 1987, 1992, 1993, 1994, 1997, 1998, 2000, 2002
O Petro de Luanda faz os seus jogos no Estádio da Cidadela

2-Tout Puissant Mazembe: Inicialmente baptizado por "Englebert", é um clube de futebol congolês baseado em Lubumbashi e realiza os seus jogos no Stade Municipal de Lubumbashi.

O Tout Puissant Mazembe foi fundado em 1939, o clube foi reestruturado depois da independência daquele país, (30 Junho de 1960) e participa em 1996, no campeonato nacional do katanga e a taça do Katanga.
Palmarés • Taça africana dos clubes campeões (liga africana): 1967, 1968 e finalista em 1969, 1970
• Copa Africana dos vencedores das taças: 1980
• Liga Congolesa (Linafoot): 1966, 1967, 1969, 1976, 1987, 2000, 2001, 2006, 2007
• Taça do Congo: 1966, 1967, 1976, 1979, 2000.

Será que o Petro vence a eliminatória?

Luciano Canhanga

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

ERROS NA PUBLICIDADE: QUE REMÉDIO?


É sabido que muitos são deliberados (expressão oral), outros derivam do desconhecimento da língua de trabalho (no caso a portuguesa) e muitos ainda do desconhecimento das ferramentas publicitárias, confundindo a linguagem brejeira com o chamariz para a adesão ao produto...

Atendendo que uma das formas de aprendizagem consiste na imitação dos mais novos aos mais velhos (no sentido da idade, da exposição e do conhecimento). Sabendo que a media exerce uma grande influência sobre as crianças e adolescentes. Tendo em conta as muitas (des)coisas que se dizem nas rádios e televisões angolanas;

Podemos ou não melhorar a linguagem usada na Publicidade áudio-visual angolana?

Luciano Canhanga

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

OS AMBUNDU DO K-SUL: DELITOS, TRANSGRESSÕES E PENALIZAÇÕES NAS ALDEIAS RURAIS


"A autoridade tradicional é imposta por procedimentos considerados legítimos porque sempre teria existido, e é aceite em nome de uma tradição reconhecida como válida. O exercício da autoridade nos Estados desse tipo é definido por um sistema de status, cujos poderes são determinados, em primeiro lugar, por prescrições concretas da ordem tradicional e, em segundo lugar, pela autoridade de outras pessoas que estão acima de um status particular no sistema hierárquico estabelecido (Max Webber)" 1.

Para além dos meus primeiros dez anos de vida vivida em aldeias rurais do Lubolo (Libolo) e Kibala, tenho me servido de idas constantes à região que descrevo para “in situ” reviver o “modus vivendi e operandi” destes povos.

As comunidades rurais do Libolo, Kibala e doutros povos ambundu que habitam o território da província angolana do Kuanza-Sul, apesar de não possuírem uma pauta que tipifique o que são delitos e o que são transgressões nem tão pouco as penalizações para cada desvio de conduta social, têm um sistema jurídico baseado em mores e hábitos aceites universalmente pela comunidade e que têm o peso de lei.

Ùkambula é o termo que traduzido para português equivale a cometer delito ou desvio social. A autoridade administrativa e sua corte, no caso o rei/soba é também o garante da legalidade na sua jurisdição sendo auxiliado na administração da justiça pelo Ñgana Thandela (ministro da justiça)2 que é perante a corte o responsável pela aplicação da lei.

O delito maior é o assassinato ou seja a morte de alguém de forma voluntária, o que pressupõe dizer que o direito à vida é o principal que a sociedade atribui ao homem.
Roubos, furtos, violações, falsos testemunhos, agressões físicas e verbais, incêndios contra propriedades privadas e ou colectivas (como as coutadas) são frequentes, sendo igualmente os desvios às normas sociais mais conhecidos e punidos de acordo ao direito consuetudinário.

Fruto da sua crença no poder dos defuntos e antepassados e sua irreligiosidade (são grande parte animistas) os povos em referência têm uma grande crença no feitiço. Daí que acusações de feiticismo preenchem o dia-a-dia do soberano e das comunidades.

Entre as penalizações constam a simples censura, restituição de bens de terceiros (roubados ou danificados), indemnizações (pecuniárias e em espécie), castigos físicos, entre outros.

A autoridade do rei/soba é reforçada apelo animismo e pela ideia de feitiço. O rei é tido como o detentor do mais forte feitiço, daí que para além de respeitado é igualmente temido, sendo as suas convocatórias, normalmente de comparência obrigatória. Os povos destas comunidades apesar de professarem algumas crenças religiosas (católica e protestantes) têm uma ligação muito forte a seus ancestrais e retornos a práticas animistas.

No esforço de conciliação entre o moderno e o tradicional, muitas vezes os reis/sobas encaminham determinados “casos” às autoridades políticas e judiciais, sobretudo casos de homicídios voluntários, evitando-se assim que seja executada a justiça por mãos próprias, as autoridades policiais locais (as mais próximas) têm sido igualmente várias vezes chamadas para dirimir querelas que os soberanos julgam poder fugir fora do seu controlo. Outras vezes são os próprios cidadãos que recorrem ao direito positivo, sempre que julguem ineficazes os julgamentos comunitários.

1-http://pt.wikipedia.org/wiki/Max_Weber, consulta 05.02.09
2- VINTE E CINCO, Gabriel: Os Kibalas, Núcleo-Publicações Cristãs, Lda. Queluz, 1992
Na foto: Rei Katiopololo do Bailundo e o Jornalista Sousa Jamba

Luciano Canhanga

sábado, janeiro 31, 2009

ERROS ORTOGRÁFICOS E DE CONJUGAÇÃO VERBAL

Há vezes em que a origem e frequência dos erros ortográficos e de conjugação verbal (e falta de concordância) me levam a duvidar dos meus próprios conhecimentos e me pergunto:

Isto é mais um erro ou eu é que sempre estive enganado?

Luciano Canhanga

sexta-feira, janeiro 23, 2009

A INDÚSTRIA RURAL DOS AMBUNDU DO K-SUL


Texto em Construção

Ù-XILA (fabricar) utensílios de pesca, de cozinha, de caça, de canto e dança, de uso quotidiano é uma das actividades complementares para os Ambundu do Kuanza Sul.

Produzem-se para a caça arcos e flechas, cacetes, armadilhas diversas; para a pesca anzóis, redes, armadilhas diversas, nassas entre outros; para a casa e cozinha, xisa1, (esteira), Musalu (peneira), kinda (balaio), kualo (cesto), produtos de olaria como panelas e moringues à base de argila, almofariz e pilão; batuques e guitarras, chocalhos, dikanzas, entre outros instrumentos para o canto e a dança; para a agricultura charruas e arados puxados por bois; e ainda a destilação do makiakia (kaporroto) que aquecer as noites frias e "alegra os tristonhos".

A matéria-prima vem geralmente da natureza no seu estado mais puro, como árvores, fibras, junco e argila. O ferro e outros metais, retirado essencialmente de carros acidentados e restos de obras industriais, alimenta os foles dos ferreiros e a perícia dos funileiros que dão a forma desejada a pedaços de cada metal recolhido.

A destilação (kualula) complementa o rol desta actividade. A banana, a cana, a batata, o milho, a mandioca, o maluvo (vinho de palma), o ananás e outros frutos são as matérias primas para a destilação de bebidas alcoólicas, uma prática que vai perdendo peso na economia rural, tendo em conta a facilidade de obtenção de bebidas industriais através da compra ou da permuta por produtos campestres.

Nos anos recuados (década de oitenta e noventa do sec. XX) era comum cada família possuir o seu alambique (destilaria) que era igualmente uma unidade económica familiar na medida em que o makiakia não só era usado para oferendas em óbitos e outros eventos comunitários, mas também vendido ou permutado por outros produtos e serviços campestres. Estávamos perante comunidades com índices de monetarização extremamente baixos, sendo a permuta a principal actividade mercantil. Hoje o cenário é diferente e o que se vive é um meio termo entre o moderno e o tradicional.


1- na grafia ambundu e de acordo às regras do CICIBA a fonética do s, mesmo quando entre duas vogais, equivale a ss ou ç.

Luciano Canhanga

quinta-feira, janeiro 15, 2009

LEMBRANÇAS DE PESCARIAS FLUVIAIS NO LUBOLO E KIBALA


Texto em construção.

Os ambundu do Kuanza-sul, província angolana cercada pelo Bengo, Benguela, Huambo, Bié, Malanje e Kuanza-Norte e Oceano Atlântico, são tanto, agropecuários, quanto caçadores e pescadores, actividades que melhoram a dieta, de si já rica, visto serem povos há muito sedentários.
A pesca é feita normalmente em rios, visto inexistirem chanas e lagos na região. Rios como o Kuanza, Longa, Nhia, Phumbuiji, entre outros, oferecem variadíssimos peixes, alguns de grande porte. O nguingui/phonde (bagre grande), òlundo (bagre pequeno) icuso/ikele (tilápia), òtimpa, iriuriu, (tuqueia), phele (espécie de corvina), hála (caranguejo de água doce), entre outras espécies, abundam as águas destas paragens.

Os povos Lubolo e Kibala pescam durante todo o ano, independentemente da estação. Apenas mudam os meios ou instrumentos, embora os meses de Julho, Agosto Setembro e Outubro, devido à baixa dos caudais, sejam os de maior aproximação do homem aos cardumes e concomitantemente os de maior captura.

Os anzóis são usados em qualquer época do ano, quer como armadilha quer como instrumentos de pesca imediata. A par dos anzóis os ambundu do Lubolo e Kibala também usam as nassas (munjia/muzua), cestos (kuálo) e composições de determinadas ervas que depois de trituradas são jogadas à água (kuimba) para entorpecer os cardumes que seguidamente são apanhados com os cestos. Esse tipo de pescaria é usado somente em pequenos rios ou trechos do rio isolados pela seca. Usa-se ainda a "tarrafa" através de arremesso de redes (uanda) e armadilhas de redes.

Quanto à produção dos instrumentos de pesca, os anzóis são normalmente de produção industrial, mas na sua ausência improvisam-se os de produção artesanal. Um pedaço de arame ou fio metálico, desde que maleável, serve de matéria-prima. A cana é normalmente um caniço improvisado e a linha é normalmente de nylon. As comunidades rurais e tradicionalistas desconhecem o uso dos carretos na pesca, embora usem as chumbadas (o meu pai usava e foi com ele que aprendi a pescar no rio). A garotada, sobretudo, aprecia acoplar à linha um objecto flutuante (casca seca de cabaça) que sinaliza sempre que o peixe pique à isca. Isso torna a pesca menos frustrante e sobretudo relaxante. Quanto à isca, esta é normalmente à base de minhoca, salalé (térmita), pedaços de carne, peixe miúdo e outros condimentos. As redes são feitas igualmente de Nylon e de cordas silvestres (redes de arremesso) carregadas de esferas (matalhi/matadi) confeccionadas à base de argila. As nassas e cestos são feitos à base de fibras de junco ou palmeira.

Para o êxito da pescaria nocturna, os povos do Lubolo e Kibala jogam também com a posição da lua, pois enquanto mais luz houver, menor serão os resultados.

Ao contrário da caça, a pesca é normalmente individual ou familiar (pai e filhos ou sobrinhos). Há ocasiões em que é realizada de forma colectiva. A aldeia ou parte dela organiza a pescaria e os proventos são repartidos de forma quase equitativa, compensando-se os menos afortunados.

A sociedade rural, embora tenda a evoluir para o modelo patrilinear, vive ainda fortes resquícios do matrilinearismo, daí que o sobrinho ainda exerce grande influência e goza de regalias do tio (irmão da mãe) em relação ao filho. É ao sobrinho que ainda se contam os segredos e este vê igualmente o tio como o guardião das suas confidências e projectos. Aos cinco anos os rapazes iniciam-se na pesca com instrumentos simples.


Luciano Canhanga

quarta-feira, janeiro 07, 2009

A CAÇA ENTRE OS LUBOLO E KIBALA


Nunca é demais explicar que o meu engodo pela descrição de factos vividos e presenciados no Lubolo e Kibala resultam da minha descendência Lubolista/Kibalista.
Nestas linhas tentarei trazer à memória episódios distanciados há mais de vinte e cinco anos, mas que se mantêm intactos.

Embora sedentários, a caça entre os povos que habitam o Lubolo (Libolo) e a Kibala é uma actividade de importância transcendental, na medida em que permite o enriquecimento da dieta alimentar. Serve igualmente de exercício para aptidões mentais e físicas. Pois só homens dotados de inteligência e robustez são capazes de conseguir presas e desfazer-se de iminentes predadores.

Tal como em toda Angola, o ano é composto de duas estações: a estação chuvosa (
nvula) que é mais longa (9 meses) e a estação seca, também conhecida como (kixibo) cacimbo. É nessa última que mais se pratica a caça por meio de queimadas (ùximika muízo)1.

As grandes extensões de terras comunitárias, incluindo as de caça, são, na teoria, "pertença" do soba/rei. O direito consuetudinário impõe limites geográficos não muito tangíveis, mas invioláveis. Ninguém, sem autorização do soba/rei, deve atear fogo ao capim para a caça.
É o soba ou os mais velhos da comunidade que planeiam o programa de caças durante os três meses de tempo seco.

Antes da caçada são preparados minuciosamente os instrumentos de caça: la honji l'isongo (arcos e flechas), l'ombua (cães), salamba (cesto de junco para transporte de animais de pequeno porte), tubia/tibia (lume), lambala,(archotes), lungua (cone feito de malha metálica), mbuety/ñondo (cacetes), etc., bem como o roteiro. As instruções são passadas ao pormenor e o seu cumprimento é seguido à risca. Qualquer desvio pode, não só, perigar a vida dos caçadores, mas também fracassar a caçada.

Para a operação, grandes espaços de capim seco são cercados e é ateado o fogo. A operação é feita de tal forma que os animais que se encontrem no espaço tenham apenas uma escapatória. Geralmente áreas já queimadas, pequenas florestas, encostas de rios com pouca vegetação, etc. Terminada a queima do capim e com a ajuda de cães, arcos e flechas, e outras armadilhas passa-se à procura dos animais que tenham escapado ao cerco.

Enquanto os mais velhos da comunidade se responsabilizam por apanhar os animais, os mais novos têm por missão carregá-los até ao local combinado para a despelagem e divisão. Por cada animal carregado, qualquer que seja o seu porte, um pedaço de carne era/é destinado ao transportador. Uma parte (metade do animal) é/era para o caçador e outra para os integrantes da caçada que a repartem em pedaços mais ou menos iguais. Ù-tona é o termo que se aplica ao acto de repartir os proventos da caça entre os caçadores.

Ao (muen'axi) dono da terra (rei/soba) ficam igualmente salvaguardados os seus direitos. Importantes pedaços de carne vão ao "palácio real" (zemba) para o seu consumo e dos visitantes da aldeia, pois é para lá que se dirigem aqueles que estejam de passagem e que não tenham família na aldeia.

Existe entre os Lubolo e Kibala outras formas de caçar: No período chuvoso ou impróprio para queimadas usam-se armadilhas (óbolo, indamba, ótuela, nzomba) e também armas de caça. Aqui, sendo actos individuais, o produtos da caça isenta-se de obrigações sociais, salvo para com o muen'axi e familiares directos.

As armadilhas são normalmente colocadas nos atalhos, por onde passam frequentemente os animais para os locais de alimentação e ou abebeiramento, ao passo que com as armas procuram-se igualmente por locais onde se possam encontrar animais que procuram por relva fresca ou água.

Lebres, pacas, seixas, veados, corças, nunces, palancas (castanhas), pacaças, raposas, cabras de leque, javalis, porcos-espinhos, canta-pedras e outras espécies são abundantes, e por isso, os mais caçados. Predadores como hienas, leões, leopardos e onças também habitam a região.
As carnes de moma (jobóia) e de nguvo (hipopótamo) são igualmente apreciadas pelos ambundu do Kuanza-Sul. A onça (ongo), enquanto animal "sagrado", deve ser presente ao rei/soba da aldeia e com ele fica a pele, símbolo de poder.

1- muizo= coutada, extensão de terra cujo capim é queimado para a caça.

Luciano Canhanga

quarta-feira, dezembro 31, 2008

OLHANDO ATRÁS (2008)


Os últimos dois meses de 2007 e os primeiros 5 de 2008 foram tenebrosos.
Mas deu para equilibrar situações. Aliás, as crises são grandes escolas. Do ponto de vista familiar há a assinalar algumas consolidações e do ponto de vista material há igualmente pequenos avanços.

Há projectos em carteira como a da A-RIR (agência) e da FB (Fazenda) este com mais passos dados.

Os pés deixaram de gastar sola (mais graças ao patrão do que à poupança). Em 2008 voltei à renda, mas com dias contados. Consegui um espaço para auto-construção e se correr bem, pode ser que, em 2009 se resolva este défice.

Luciano Canhanga

terça-feira, dezembro 30, 2008

A CIRCUNCISÃO ENTRE OS KIBALA E LUBOLO

Tenho-me guiado na coragem do Reverendo Gabriel Vinte e Cinco que tenho como guia espiritual neste “reencontrar origens” e procuro dedicar-me à causa que é "trazer a verdade sobre os Ambundu do Kuanza Sul".

E tento hoje abordar de forma vivencial a circuncisão entre os Ambundu do Kuanza-sul (Lubolo, Kipala, Kissama*, Haco e Sende)1.

Ao contrário dos Bakongo que por norma efectuam a circuncisão à nascença, os povos do Libolo e Kibala mandam os rapazes para a "casa de água" (onzo-y-mema)2 na adolescência ou na segunda infância, aí entre os seis ou sete aos quatorze anos de idade.

O acto, a circuncisão, chama-se Ù-tina. Consiste no corte do prepúcio. Se nas sociedades modernas tal cirurgia é efectuada por um médico ou para-médico, nas comunidades tradicionalistas é chamado um "mestre" (mesene) para o fazer. Normalmente, o "mestre" fá-lo à sangue-frio. Aconteceu comigo em 1982.

Aos olhos dos garotos, o "mestre" é tido como um individuo de olhos ensanguentados, talvez devido à enorme quantidade de sangue que fez derramar e que seus olhos já viram. É um individuo muito temido pelos rapazes incircuncisos que se apavoram à sua passagem, sendo igualmente respeitado pelos pais. A enfrenta-lo ficam apenas aqueles que não têm outra saída senão este desafio de vida ou morte e que lhes dará um novo estatuto social na comunidade.

A operação acontece, normalmente, junto a um ribeiro e bastante isolado da aldeia, para que estranhos não visitem os circuncidados, tão pouco haja contacto entre mulheres gestantes e os cadetes . O makiakia ou kaporroto 3 serve de esterilizante da navalha do "mestre" depois de cada operação cirúrgica.

Um ajudante ou um parente próximo dos mancebos ajuda o mestre, agarrando as mãos e prendendo igualmente as pernas do “paciente”, imobilizado-o.

Terminada a operação, o cadete senta-se em uma pedra ou um tronco onde deixa escorrer o sangue da cirurgia e lhe são colocados alguns “milongos” à base de folhas medicinais . Durante os curativos são ainda usados medicamentos como o mercuriocromo, tintura de yodo e a penicilina.

O período que demora a cicatrização é também de aprendizagem de várias artes e ofícios, como: caçar e pescar e são também transmitidas aos noviços noções sobre a sexualidade, vida familiar e social, bem como a feitura de armadilhas e utensílios.

Njine é a designação atribuída ao pénis circuncidado, ao contrário de Kifutu (incircunciso). Um homem que tenha “passado pela faca” ganha na sociedade um novo estatuto. Torna-se um homem maduro. Por isso, a própria sociedade condena determinadas acções como: tomar banho desnudado e em público, pois o individuo circuncidado é tido como um homem que deve ser respeitado e diferente dos outros rapazes, ainda que da sua idade, que não tenham passado pela “casa de água”.

A alimentação dos cadetes é feita de forma cuidada e selectiva. Não se alimentam de ervas e só pessoas que não mantenham relações sexuais durante o “aquartelamento” podem cuidar quer da alimentação, quer da guarda, dos circuncidados. Ovos e sal (por excesso) estão fora da dieta. Dizia-se no meu tempo que não se comia do bem e melhor do que no acampamento dos circunciso.

Só depois de curado o último mancebos é que o grupo regressa à casa, mas antes, os "novos homens" da comunidade procuram encontrar uma bananeira, em cujo caule fazem uma perfuração em que enfiam a "pontinha" do membro (diz/ia-se que era para escurecer a cicatriz). Em zonas com existência de imbondeiros o orifício é/era feito no caule desta árvore (a lenda atesta que tal acto dá grandeza ao órgão reprodutor.)

No fim de tudo, quando cumpridos todos os passos e rituais, uma zagaia (arco) e uma flecha (honji li musongo) são entregues a cada um dos cadetes que perfilam e caminham até à aldeia... Cada mancebo exercita disparando a flecha contra a porta de casa (podem ser várias casas indicadas) e são-lhe dadas algumas oferendas.

É ponto assente que ao longo dos anos muitos cadetes não resistiram a hemorragias e sucumbiram, o que tem levado as comunidades a encontrar um meio termo entre o moderno e o tradicional. Um enfermeiro, em vez de um artesão; lâminas individuais em vez de uma faca colectiva; anestesia em vez de à sangue-frio; entre outras inovações de que sou apologista, mas sem que desvirtue ma vertente social e educativa da circuncisão.

Não há, nesta região, registos orais sobre ocorrência, mesmo em períodos muito recuados, de incisão genital feminina, tão pouco de acampamentos de iniciação de raparigas que entretanto se casam muito cedo, comparativamente aos centros urbanos. A sociedade rural Libolense e Kibalense é permissiva à poligamia, condenando, porém, veementemente o adultério feminino e a poliandia que são sancionados com avultadas multas pecuniárias ao homem infractor, bem como de castigos físicos.

O Soba, entidade administrativa da aldeia, também administra a aplicação da justiça comunitária com base no direito consuetudinário.

Os tempos modernos são de busca de combinação entre o moderno e o tradicional, encontrando-se já os sobas a trabalhar lado a lado com os secretários de aldeias, os administradores comunais e os chefes das esquadras policiais mais próximas, buscando um equilíbrio entre o direito positivo e o costumeiro.

*Kissama foi até à criação da província do Bengo foi território sob jurisdição da província do Kuanza Sul. Foi igualmente, tal qual o Libolo e outras, regiões ambundu, dependência do Rei Ngola.

1- VINTE E CINCO, Gabriel: Jornal de Angola, 28/12/2008

2- Local da circuncisão.

3- Bebida alcoólica destilada à base de cana, banana, milho e outros produtos fermentados.

Luciano Canhanga

quinta-feira, dezembro 25, 2008

MAIS ADULTOS MAIS “INÚTEIS” NOS SENTIMOS


ENQUANTO MAIS ADULTOS NOS TORNAMOS, MAIS “INÚTEIS” NOS SENTIMOS
A ideia de que se pode viver sozinho ou com base em nossas convicções se esvai. A cada ano que passa conclui-se que precisamos sempre de uma “muleta” que pode nem ser a desejável, mas apenas a aceitável.

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Na foto: Émile Durkheim, pai da sociologia contemporânea

Luciano Canhanga

segunda-feira, dezembro 22, 2008

INQUÉRITO D’ANGOP DIZ QUE PETRO É “PAI GRANDE”


Qual a sua equipa de futebol preferida?

1º de Agosto

ASA

Interclube

Petro

O universo de votantes é desconhecido, mas sei que o inquérito mora na página on line da Angop há já muitos meses.

E os números são esclarecedores. Um ponto percentual a separar os arqui-rivais. Se no voto popular a votação podia ser vista doutra maneira, aqui na net, onde mandam os alfabytezados é o Petro de Luanda quem manda. E o inquérito só peca por não ter o Recreativo do Libolo e o Kabuscorp do Palanca que têm arcaboiços para “surrar” o Inter ou mesmo o ASA. Quem vai aos campos de futebol vê isso. As enchentes falam tudo, ou não?

1º de Agosto

46.0%

ASA

6.0%

Interclube

1.0%

Petro

47.0%

Luciano Canhanga

sexta-feira, dezembro 19, 2008

UM ASSOBIO NA CASA DO REI


"KUMBI LYUTUNGA ZEMBA LYU XIKA MUIXI" (o dia de construir o palácio é o de tocar assobio). Assim dita a sabedoria Ngoya*.

Como descendente de família real do Kuteca (só quem é do Libolo terá ideia disso) sempre tive essa lição na mente sem a ter vivido de facto. E aconteceu agora, longe do "meu palácio" mas diante de um Palácio real lunda-cokue.

A maior diamantífera angolana decidiu construir, de raiz, uma residência oficial para o rei lunda-cokwe, Mwene Mwatxissengue Wa Tembo cuja entrega aconteceu a 18.12.08. Políticos, empresários, súbditos e jornalistas fizeram-se presentes ao acto. E de repente lembrei-me do dito popular lá da minha terra. "KUMBI LYUTUNGA ZEMBA LYU XIKA MUIXI".

Liguei a lâmpada p'ra ver se acendia e acendeu. Visitei os quartos que serão os aposentos da realeza. Experimentei a torneira do WC., etc.

Será que terá um súbdito desligado da realeza uma semelhante oportunidade naquele palácio?

"KUMBI LYUTUNGA ZEMBA LYU XIKA MUIXI". E assim puxei das cordas "o assobio meu" (sic Teta Landu).

* Há vozes discordantes quanto ao nome da língua que se fala em grande parte do Kuanza Sul.

Luciano Canhanga

sábado, dezembro 13, 2008

AGRICULTURAR(?)



Depois da queda acentuada da cotação internacional do preço do petróleo e do d(e)i(à)amante e todo o arrasto e arraso que isso provoca, muitos vociferam agora para "um olhar mais atento à agricultura".

Com certeza que podem baixar de valor o ouro negro e as pedras preciosas(?), mas os seres viventes sempre precisarão de comer.

Assisto também muitos idosos, reformados, rumarem para os campos de onde partiram há décadas, para em vez de usufruírem da pensão de reforma, aplicarem os míseros em compra de terrenos, lavoura e criação de instalações habitacionais.

Eu, desde 1984 em Luanda, procedente da aldeia de Pedra Escrita, Libolo (Kuanza-Sul), nunca me desliguei, na verdade, do campo. Lá está a mãe, os amigos de infância, das caçadas, das pescarias nos rios, das surras dadas pelos irmãos mais velhos e das incompreensões dos pais, quando mais atrevidos ou "olhudos" nos tornássemos. Que saudades do Faria esse meu grand'amigo!

Assim, de tempo em tempo e de prosa em prosa, tenho aos poucos investido no campo. Uma terra virgem com um pequeno ribeiro a cortá-la, umas mandioqueiras para começar e umas frutícolas para o médio prazo, é o que faço de momento.

Pena é que faltam tractores para alugar e dinheiro para os comprar... E se a Mecanagro tivesse olhos para negócios dar-nos-ia muito jeito, já que os muitos moradores que se dedicam exclusivamente à agricultura de subsistência, muito precisam de abrir novas picadas e novos campos que podem inundar de produtos agropecuários as cidades e vilas improdutivas.

Preciso apenas de fazer o inverso do que assisto. Preparar agora o meu ninho. Fazendo já a casa e a sombra que me há de acolher se lá chegar. À velhice, claro! Porém, uma pergunta me persegue: Sendo jornalista de formação e profissão, sem curso agrícola, mas com bastante conhecimento de senso comum e vivências agrícolas, devo continuar a "agriculturar"(?).

Na foto: A obreira Maria Canhanga (esq.) e sua sobrinha Rosiana da Cruz.

Luciano Canhanga

segunda-feira, dezembro 08, 2008

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: QUE FAZER?


O PORQUÊ DA POUPANÇA

ANGOLA produz(ia) 2 milhões de barris de petróleo ao dia que até Agosto eram comercializados ao preço MÉDIO de 147 dólares norte americanos. o barril de petróleo baixou para menos de usd 45 o que significa uma redução de usd 100 por unidade.

Multiplicando os 2 milhões de barris por usd 100, o país perde diariamente 200.000.000 (duzentos milhões de dólares. O mesmo se passa no ramo dia diamantes onde o valor do produto baixou um terço do seu valor.

A maior diamantífera angolana que produz(ia) 75% do total dos diamantes angolanos no mercado internacional e com cerca de 45% do total da facturação, perde UM TERÇO do valor total de receitas.

Se atendermos que a empresa tem cerca de 3 mil trabalhadores que mantêm todos os seus direitos adquiridos ( salários, subsídios e demais compensações pecuniárias) e se termos em conta que é fulcral a contribuição da Companhia no erário público, compromisso que não pode ser relegado para outro plano que não seja o primeiro, é caso para dizer. TEMOS DE POUPAR para não forçar a companhia a tomada de medidas como as que vêm sendo anunciadas por outras similares.

Lembro, por exemplo, que a VALE (Brasil) mandou p’ra casa mais de 1800 funcionários ao passo que outros 5500 viram-se “forçados”a gozar férias colectivas.

E para aqueles que diziam que a crise financeira internacional passaria ao largo de Angola, estão aí as contas, ainda que num ensaio menos profundo.

Ninguém está imune e a salvação depende do esforço colectivo e de cada um. Em casa, no serviço e nos serviços públicos. POUPAR E DIMINUIR CUSTOS EM TODAS AS VERTENTES!


Luciano Canhanga

segunda-feira, dezembro 01, 2008

GOVERNO SATISFAZ PEDIDO DE ALDEÕES NO LIBOLO


Já muito se escreveu neste semanário sobre o Libolo e os passos dados no desenvolvimento do município. No artigo que assinei em Agosto, edição de 27 a 03 de Setembro, foquei por exemplo da falta de uma escola e de um Posto médico na localidade de Pedra Escrita que conta com mais de 2 mil almas.


A fazer fé nas preces daqueles petizes que apenas queriam sentar-se diante de um mestre e dele “beberem” conhecimentos, o executivo de Serafim do Prado, o governador do Kuanza-Sul, tomou como preocupação atender a sscola e prom,eter para breve o posto médico. E é verdade que a escola aguarda apenas pela inauguração que pode acontecer antes do início do próximo ano lectivo.

“Disseram-nos que será em Janeiro ou no 4 de Fevereiro”, confidenciou Cornélio Njamba, o secretário da aldeia.

Construída raiz, a escola possui 6 salas de aulas, gabinetes para o director e para os professores, casas de banho para alunos e alunas e uma arrecadação, sendo mesmo a primeira escola do género construída na localidade desde a independência nacional.

Para Maria Massaca que pela primeira vez vai ver os seus netos a frequentarem a escola, depois de 1983, a satisfação é incontida. “Sempre pedimos nas reuniões e hoje Deus nos abriu a porta, com essa escola já não precisam de ir a Luanda ou ao Dondo para estudar”, disse a septuagenária.

A aldeia de Pedra Escrita fica a meio caminho entre o desvio de Calulo e a ponte do rio Longa, no sentido Dondo/Kibala.

Luciano Canhanga

sexta-feira, novembro 21, 2008

…TAMBÉM MEREÇO SER FELIZ…


… me desculpa só ué. Eu só a otra. Também mereço ser feliz…

A música alta, tocada num Toyota Hiace empanturrado de gente, transborda cá fora, cuspindo ritmos dançantes e reflexivos, enquanto no apertado recinto senhoras puritanas e libertárias se flagelam com farpas que se esticam ao autor material da proeza.

-Mas esse moço foi criado então aonde, que está a trazer essas suas modas de segunda? Interrogou dona Mingas António, devota católica e frequentadora assídua do santuário da Muxima para a retenção do fraudulento Ti-Xico.

_Mana Domingas deixa só. Retorquiu sua comadre e companheira de rezas e viagens, Madalena José, também procedente do santuário além Kuanza, onde pretende a guarda dum sepulcral segredo.

Madó, como é conhecida na paróquia, é devota, muito dada à caridade e trabalhos sociais na comunidade. A sua elegância contrasta com a vida pacata que leva. Mãe de dois filhos, sem pai, apenas confiados à benevolência do Padre Jacinto que os tem como afiliados.

Enquanto as devotas tentam se acalmar, ou no mínimo procurar fôlego para engolir o “também mereço”do Damásio, uma jovem põe “lenha na fogueira” e desbota:

- Hoje em dia homem já não é empresa privada. Se você tá dormir ou mbora engordar com as regalias, as "outras" também querem…

Mal tinha terminado a exposição, do lado da cabine, desata Manuela, dirigindo-se às devotas e acrescenta:

_ Mamã, os tempos mudaram e os gostos também. Os tios agora gostam coisas que vocês nunca imaginaram fazer…

Domingas António meneou a cabeça e exclamou:

- Issungi! agora é assim? já não há mais respeito das mais velhas, até marido das vossas mães tão a receber e ainda vos acodem com música que as p… também merecem? Deus Nossa Senhora!

Entre o “conversa puxa conversa” uma autêntica confusão se instalou no Hiace perante a gratidão do cobrador que ia distribuindo odores fedorentos aos mais próximos.

_Esses jovens nem higiene laboral têm, possas! Mal o mecânico termina os trabalhos juro. Nunca mais essa merda! desabafa desgostoso, um quarentão.

A viagem prossegue. Com ela a “música do momento” que passa e repassa. Entre prós e contras se fomenta multi-logo e aumentam os volumes bocais. O que, cá fora, sai é já um turbilhão de vaias e elogios e palavras desencontradas. Sons paridos pelos altifalantes, gemidos do carro cansado e sufocado pelo excesso de peso e gritarias que procuram espaço num chilrear humano. Jovens atrevidos assobiam ao desgosto da senilidade ortodoxa.

À primeira paragem, Domingas António decide abandonar o carro e aliviar-se do sufoco. Junto à berma, uma orda de larápios a aguardavam com passos de fuga ensaiados. Mal dona Minga, com sacola a tiracolo, poisou o primeiro pé no chão, um atrevido espectou-lhe uma kibiona para a desconcentrar.

Aflita, entre resguardar a sanidade moral e a sacola, preferiu a primeira opção. Aliás nem tempo teve para pensar e a sacola com os haveres já repousava em mãos alheias.

-Socorro, é ngombiri!, socorro sô polícia! me levaram a pasta. Vociferava aflita.

A confusão reinante no interior do pseudotaxi estendeu-se à rua Revolução de Outubro, onde nem polícias, nem fiscais se aprontaram para o solicitado SOS. Os tempos estão mesmo mudados, atirou aos botões.

A sociedade impiedosa assistia impávida ao filme. O ladrão caminhava impune. E os carros se sucediam na paragem. Aos soluços ficou Domingas António, seguindo o rasto da música que rumava ao São Paulo, destino daquele Hiace. Sempre com a “queta do momento” num vai e vem sem fim. Me desculpa só ué. Eu só a otra. Também mereço ser feliz…

O tema levado à Capela, ai na Dona Amália, virou motivo de reflexão caseira para um debate de mulheres de idade a ser moderado por Madalena José.

_ Valerá apenas ceder ou vamos continuar a "muximar" para reter os nossos maridos? foi a pergunta da noite.

Dias passados a comadre Madó que ficou de animar o debate também surpreendeu o padre Jacinto com a sua melhor amiga, Maria, e a resposta tarda em chegar.

Até lá, outras prosas.

(na foto o rei Jacob e as suas "outras")

Luciano Canhanga