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sábado, maio 17, 2008

NGANDU: UMA ESCOLA DE PATRIOTISMO


Ngandu é uma aldeia com cerca de 75 famílias no interior do município de Saurimo, na Lunda Sul. O povo desta pequena comunidade é eminentemente agrícola, com uma produção que raras vezes excede ao consumo. Porém, a aldeia que não tem latrinas (o soba explica que é por razão cultural), água canalizada, energia e sinal telefónico, tem uma lição a transmitir às grandes cidades.

É manhã, o secretário bate à porta da casa do soba, Luís Sakalongo. Depois da tradicional vénia, o secretário sai com duas bandeiras na mão. A primeira é a da República e será içada no mastro junto à escola da aldeia. A segunda é do MPLA e será içada num terreiro, não longe da casa do líder da aldeia. É assim todos os dias, conta o soba.

Sem necessidade de se tocar um sino ou coisa parecida, os habitantes colocam-se de pé, firmes e em silêncio, olhando para a bandeira que sobe vagarosamente. Até mesmo as crianças interrompem a sua traquinice e ninguém se movimenta. Os homens tiram os chapéus da cabeça e as mulheres arreiam as vassouras. É a norma.

Içada a cor que a todos representa de forma indistinta, é chagada a vez da bandeira do MPLA. Os que nela não se revêem são poucos e são os que partem para os seus afazeres. Os que a têm no coração mantêm-se de pé. Estáticos. Apenas olhares mirados para o pano tricolor que sobre. devagar, devagarinho. O secretário vai fazendo pequenas pausas, até atingir o topo e amarrar a corda ao mastro de pau.

O cenário é repetido à tarde, no dia seguinte, todos os dias, todas as semanas e todos os meses e anos. Os mais novos vão crescendo e sem que seja necessário o apelo, a comunidade vai, por via da repetição perpetuando o amor à bandeira e ao hino que a todos representam.

Do outro lado da aldeia está içada, de forma permanente, uma outra bandeira. É a do PRS, o partido que lidera a oposição ao MPLA nas Lundas. O soba explica que ela nunca esteve nem a meia haste nem retirada.

“Os homens chagaram aqui, pregaram a bandeira, plantaram o pau e nunca mais voltaram”, explica Sakalongo.

A tolerância é na aldeia o melhor caminho para a coabitação. “Todos dizem que ela devia também subir e descer como as outras, mas foi pregada. E ninguém diz nada. Apenas olhamos e até as crianças já sabem que não devia ser assim”.

Luís Sakalongo é ferreiro de profissão e já desempenhou a função de deputado à Assembleia Provincial do Povo na Lunda Sul.

O secretário da aldeia é seu irmão e fez parte do primeiro lote de jovens que foi a Cuba estudar. Já em Angola, as coisas não lhe correram bem, por razões que nem ele, nem o soba explicou. “Para não andar mal na cidade fomos buscá-lo e está aqui na aldeia connosco”.

O outro irmão é o adjunto do soba. Araújo Marianda, 68 anos, já foi membro e responsável da ODP (Organização de Defesa Popular). “Fui dos primeiros que fomos fazer o curso em Benguela e no Cunene. Estou aqui depois de muito ter lutado”, contou.

Ambos, Luís Sakalongo e Araújo Marianda, reclamam apenas o facto de não receberem nenhuma pensão como antigos combatentes, mesmo depois de terem escrito por diversas vezes às estruturas governamentais da província e do partido.

Como forma de chamar a atenção dos que por lá passarem, sobretudo os governantes e líderes do partido que defendem, o soba decidiu em rebaptizar o nome da aldeia para NGANDU LUFUNE KEXI CUNHONGA, que traduzido do Cokwe para português nos leva à ideia de “quem muito trabalhou mas que não é reconhecido pelos feitos”.

Ngandu é hoje uma das aldeias mais organizadas, graças ao empenho e sabedoria do seu soba, Luís Sakalongo.

Luciano Canhanga

terça-feira, maio 13, 2008

ROBOTEIROS: UM SERVIÇO ÚTIL


Desconhece-se quem assim baptizou os carregadores de produtos e mercadorias em carros de mão. Vemo-los em todas as cidades e, sobretudo em Luanda, sendo os mercados, as lojas e os armazéns grossistas os seus locais predilectos, devido à clientela.

Robota: Significa na língua russa trabalho, derivando daí o termo roboteiro para designar trabalhador.

Os roboteiros passaram a ser tão úteis na nossa sociedade quanto os demais profissionais liberais, como o sapateiro, o alfaiate, entre outros. As donas de casa, são as que mais recorrem ao serviço destes “facilitadores” para levar as compras à casa, sobretudo quando não se tem carro próprio.

Manuel Joaquim, é benguelense e deixou a terra natal aos 13 anos fugindo a guerra que afectou o pais. Em Luanda sem parentes que o podessem acolher, começou por viver na rua, enfrentando as mais amargas experiências da vida. A delinquência, a chuva e o frio foram algumas das barreiras que teve de ultrapassar, até decidir-se por lavar carros na baixa de Luanda. “Resto do dinheiro guardava e o resto comprava comida e algumas roupas”, conta. Assim, começou a nova vida de Joaquim, agora com 23 anos, vivendo no Sambizanga e já com família constituida.

Estória semelhante conta Manuel Umba, natural do Bié e residente em Luanda desde 1993. Umba disse que fugido do Chitembo devido ao conflito militar pós-eleitoral escolheu como “terra prometida” a cidade de Benguela, onde fazia pequenos serviços agrícolas e domésticos, mas vendo que os benguelenses também emigravam para Benguela, decidiu seguir-lhes as peugadas.

“Assim vim e estou agora em Viana”, contou. Encontramo-lo no mercado da Estalagem onde faz “robota” depois de ter tentado no Asa Branca e num armazém no Rangel.

Entre os roboteiros também há conflitos entre grupos constituídos. Umba conta que há bons lugares. Normalmente lojas ou armazéns com muitos clientes são bastante concorridos pelos transportadores.

“Quando já somos um grupo não admitimos mais que vem alguém nos tirar o pão”, explicou.

Segundo o interlocutor o período das chava é o mais produtivo devido à intransitabilidade em muitas ruas da capital. Os preços cobrados dependem do volume e da distância, variando entre kz 200 a 300 para cargas como geleiras e televisores. Um saco de cimento custa de kz 50 a 150, aplicando-se a mesma tarifa ao saco de arroz, caixas de massa alimentar e de óleo.

O consumo de bebidas alcoólicas é frequente entre os roboteiros. Facto que Umba justifica como sendo “para dar coragem e força”. Há também os que fumam liamba mas eu não, concluiu.

Benguela, Kuanza-Sul, Huambo, Bié e Malanje, são as províncias que mais roboteiros “forneceram a Luanda”. Quando nos dirigimos para as capitais provinciais notamos que o trabalho é efectuado maioritariamente por pessoas oriundas de municípios do interior. É o caso de Ernesto Upale que se dedica ao transporte de mercadorias no mercado do Chissindo, no Kuito. Upale é de Kamakupa e foi, também ele, forçado pela guerra a refugiar-se na cidade capital da província, onde reside até hoje.

Madalena Afonso é funcionária pública e faz preferencialmente as suas compras aos fins-de-semana. Madalena conta que serve-se frequentemente dos roboteiros para carregar as compras que faz, normalmente para duas semanas. Madalena contou que apesar de possuir carro prefere estes jovens porque a ajuda é mútua. “Eles precisam de viver do seu trabalho e eu preciso de poupar esforço. Dai que cada um ajuda ao outro.

José Almeida efectua obras de restauro na sua residência e para a compra do cimento vimo-lo também a fazer recurso aos roboteiros, argumentando que eles prestam um serviço útil à sociedade.

Luciano Canhanga
(Foto roubada do blog do Patissa)

quinta-feira, maio 01, 2008

RECONTRUÇÃO, INCIDENTES E ACIDENTES

(Crónica de viagem)

Aos poucos o país se vai cicatrizando. É tanta obra que não se sabe quando vai parar, como musicado por Yuri da Cunha. De norte a sul e do Oeste ao Leste cruzam-se caminhos. Vêem-se novas infraestruturas que brotam. Umas surgindo do nada e outras de antigos escombros.

Trabalhos de manutenção correctiva e preventiva também acontecem um pouco por todo o país. As novas estradas, talvez por se constituirem em novidade dos nossos tempos, tornaram-se “caminhos da morte”. São inúmeros acidentes registados todos os dias no país. Se ontem eram as minas e os buracos, hoje é a velocidade e a imprudência que mata.

Defendem os automobilistas, sobretudo os camionistas, que a noite é mais cómoda para a condução, embora as estradas não estejam iluminadas e completamente sinalizadas. Eles são os donos do ofício e não há que inventar argumentos contraditórios. Só não encontro motivos para a pressa e a imprudência que causam tantos acidentes em estradas novas. E mais. Ao lado dos acidentes perfilam também os incidentes.

Próximo do Waco-Kungo encontramos essa máquina retro-escavadora (na foto) que acabou por cair num buraco por ela mesma efectuado quando desentorpecia um aqueduto. Para retirá-la, a circulação teve de ser interrompida durante mais de uma hora. E mesmo assim não se resolveu a situação. São horas e recursos que se perdem. Milhares de kuanzas e muitas vidas, sobretudo, em acidentes de viação. Esta mesma estrada, a EN120, levou o nosso Armando Gomes “Culau” e muitos outros condutores anónimos. Mais prudência, meus senhores!



Luciano Canhanga

terça-feira, abril 29, 2008

TINTA E CIMENTO DÃO NOVA CARA AO KUITO


REPORTAGEM
Depois da guerra é chegada a hora da reconstrução. Na Avenida Joaquim Kapango, a principal do Kuito, as faixadas dos edifícios recebem novos rostos fruto do Programa Especial Mínimo de Reconstrução da Cidade do Kuito – PEMRK. Segundo o director provincial das obras públicas do Bié, João Marques Bango, o governo repara as partes frontais das residências de modo a conferir uma nova imagem à cidade.
Dentre os edifícios reparados, em reparação e por reparar consta o conhecido prédio da Gabiconta, por sinal o mais alto da cidade e que foi depois da guerra pós eleitoral o símbolo da destruição do Kuito.
O edifício reparado, volta a desempenhar o seu antigo papel de ex-líbris da cidade. Apesar da beleza que confere hoje à cidade, Marques Bango avança que outros trabalhos terão de ser feitos no seu interior, devido a ruptura dos esgotos.
Ainda no que toca à construção e reconstrução dos edifícios, Marques Bango avança outras novas frentes.
“As instalações que acolheram a Segurança do Estado serão completamente demolidas e construído um novo”, disse acrescentando que contactos estão em curso com os ocupantes dos escombros, de modo a abandonarem o recinto e permitir o inicio dos trabalhos. Para se garantir a eficácia e a segurança das obras em curso, uma comissão técnica foi criada pelo governador, Amaro Taty, cujo fim é vistoriar os edifícios e analisar os projectos técnicos antes da emissão das licenças de construção/reconstrução de mais de uma dezena de edifícios.
Para as famílias com escassos recursos, o governo, através do PEMRK, distribuiu mais de cem kits de construção contendo dentre outros meios, cimento, tintas, chapas de losalite, portas e janelas, mosaico e loiça sanitária, num valor calculado em kz 250 mil por kit.
Noutra vertente, segundo ainda o director das obras públicas do Bié, empreiteiros chineses vão construir cerca de duas mil e quinhentas residências de alta, média e baixa renda nos arredores do Chissindo, sendo que os trabalhos geológicos já foram efectuados.
AS ESTRADAS
A reparação das vias secundárias e terciárias da província do Bié é outra das apostas do Executivo de José Amaro Taty, devendo acontecer entre os meses de Maio e Agosto, segundo Marques Bango. “O Governo conseguiu equipamentos de terraplanagem e começar-se-á pela periferia do Kuito, estendendo-se os trabalhos às outras municipalidades, bem como a ligação entre as sedes municipais, comunais e aldeias”, explicou.
Também para breve está a reparação das estradas Kuito/Chinguar e Kuito/Menongue, ambas já consignadas e com conclusão prevista para o final deste ano. As rodovias Kuito/Kamacupa, Kuito/Kuemba, Kuito/Andulo e Andulo/Nharea aguardam pela consignação do Ministério das Obras Públicas.
O AEROPORTO JOAQUIM KAPANGO:
Encerrado há mais de 2 anos para obras de restauro a pista do aeroporto Joaquim Kapango tem já 1700m reparados, sendo o mês de Junho o apontado para a entrega da obra e consequente reabertura ao tráfego aéreo. Atrasada está a vedação do recinto aeroportuário, facto que leva Marques Bango a não arriscar a data da conclusão desta sub-empreitada. Quatorze milhões de dólares americanos é quanto custa a reparação do aeroporto que uma vez concluído servirá de alternativa ao Internacional 4 de Fevereiro, já que o aeroporto Albano Machado, do Huambo, entrará imediatamente em obras.
JOGOS ESCOLARES
A realização em Maio próximo na cidade do Kuito dos campeonatos nacionais escolares está a movimentar a cidade onde 15 espaços desportivos ganham novos rostos, com trabalhos de reparação e até mesmo a construção de novos recintos de jogos.
A iluminação pública em toda a zona urbana é já um facto e começa a ser extensiva aos bairros periféricos como o Kantiflas, Kamburukutu, Fátima, Santo António, Popular e Piloto. A falta de água canalizada nos bairros da cidade é compensada com a construção de fontanários e poços artezianos que aos poucos substituem as famosas cacimbas.
KUPAPATAS
Enquanto os transportes públicos não chegam à cidade do Kuito/Bié os taxis e as motorizadas, também conhecidas por Kupapatas, têm sido a solução para pequenas e médias deslocações dentro e fora do Kuito. Os preços variam em função da distância e da hora. Distâncias mais longas e à noite, por exemplo, cobram-se mais caro, sendo o valor mínimo o de Kz 50.
A diferença entre apanhar um kupapata e um taxi é que os primeiros levam até à porta de casa, ao passo que os segundos limitam-se a ligar os mercados municipal (na cidade) e o do Chissindo (à entrada da cidade, estrada do Huambo) ao preço de Kz 50.
ESTÓRIAS DE SUCESSO
A agricultura é dos pontos fortes da região central de Angola. A bata rena, o milho, o amendoim (ginguba), o feijão, citrinos, horto-frutícolas, entre outros produtos despontam nos campos sendo o Bié um dos principais fornecedores das cidades litorais. Entre os que apostaram na agricultura está Sabino Salongue, 67 anos, natural de Ekovongo e reside na cidade do Kuito desde a sua adolescência. Enfermeiro reformado, Ti- Salongue, como é carinhosamente tratado pelos mais novos da cidade, já dirigiu os hospitais provincial do Bié e municipal do Kuito.O sexagenário diz nunca ter saído do Kuito, mesmo nos tempos mais críticos das confrontações militares.
“Sempre vivi aqui, depois de curtas passagens por Malanje e Luena”, gaba-se ao mesmo tempo que aplaude os avanços que se notam na cidade e na província.
“Dedico-me agora à agricultura e este ano pode ser de boa colheita de milho”, respondeu quando interrogado sobre como passa a sua reforma.
Ti-Salongue conseguiu um tractor agrícola e é com os proventos do campo que custeia os estudos universitários de três de seus filhos na capital do país.
“Se tudo correr bem no próximo ano recebo mais dois doutores e já poderei ir feliz”, ironizou.
Tal como Sabino Salongue, Argentina Ernesto é outra reformada que aos 58 anos faz do campo a sua nova ocupação. Dona Argentina junta o valor da reforma da Função Pública e os proventos do campo para cuidar dos netos, enquanto as filhas se formam em Luanda.

“Se eu parei de estudar porque não houve possibilidades, penso que estando na reforma e com as filhas a estudar também é uma vantagem”, disse.
Dona Argentina diz que hoje é muito mais fácil cuidar dos netos do que ontem, enquanto trabalhava, facto que diz proporcionar-lhe muita alegria.
Luciano Canhanga

sábado, abril 26, 2008

GABICONTA: DE SÍMBOLO DA DESTRUIÇÃO A SÍMBOLO DA RECONSTRUÇÃO

Aqui neste prédio, contam os moradores da cidade do Kuito, foram travados os mais renhidos confrontos entre as forças governamentais que impediam a queda da cidade às mãos da rebelião e esta. Foram duros os dias mais quentes da guerra pós-eleitoral, felizmente terminada.

O edifício que está situado na Rua Joaquim Kapango, a principal do Kuito, foi até ao início da sua reconstrução o símbolo da força destruidora da guerra na capital biena e no país, depois das eleições de 1992.

À frente nota-se ainda o Igreja católica do Kuito também ela totalmente destruída e a aguardar por dias melhores.

A imagem mostra tão somente o esforço do governo em desfazer-se das marcas da guerra e legar para a História todos os acontecimentos tristes.
Exemplos como este há muitos pelo país.


Luciano Canhanga

quarta-feira, abril 23, 2008

MPLA NO BIÉ: “MUDAREMOS A HISTÓRIA DE 1992"

Afirma Joaquim Uanga, o Primeiro-Secretário provincial

Trabalho é a palavra de ordem do partido dos camaradas no Bié que, depois da amarga surpresa imposta pela UNITA em 1992, pretende redimir-se da derrota de 5-0 sofrida naquela província central do país.

Joaquim Uanga não esconde que a luta pelo voto será renhida entre as principais forças em jogo. O primeiro-secretário do MPLA não menospreza, por isso, nenhum dos adversários e diz que só com muito trabalho a safra cairá certinha para o seu “cesto”.

Pergunta (P): Estamos a cinco meses das eleições, qual é o estado de preparação do vosso partido para a corrida?

Joaquim Uanga (J.U.): O nosso partido está a gozar de uma boa saúde e preparado para todos os desafios que surgirem. Por isso correspondemos ao programa nacional de contacto entre os dirigentes e a base, no dia 05/04, isto para incrementar do trabalho que temos vindo a fazer, há muito tempo. Nesta base informamo-nos sobre quem são e onde estão os nossos militantes e simpatizantes, tomamos nota das preocupações das populações, informamo-las sobre os esforços do governo e as perspectivas do país com um novo governo do MPLA.

P: Está a dizer que o contacto porta-a-porta já começou?

J.U.: Esse trabalho já, há muito, tem sido feito. Aqui no Bié evitamos trabalhar com estimativas e desde o fim da guerra que temos vindo a desenvolver campanhas porta-a-porta com o fito de obtermos dados reais sobre com quem contarmos em Setembro.

P: E com que números conta o MPLA no Bié nesta altura?

J.U.: Os dados são positivos e satisfazem a direcção do partido. De momento não os vamos revelar, mas podemos dizer que os resultados de Setembro serão diferentes dos obtidos em 1992.

P: Grosso modo, quem melhor recebe a vossa mensagem?

J.U.: Nós estamos com 60% de mulheres e a juventude. As primeiras sofreram na pele e os jovens assistem as mudanças positivas que o governo do MPLA efectua na província e que podem ser ampliadas continuando no poder.

P: Olhando para os números de 1992, qual é a principal meta do MPLA?

J.U.: Para responder à sua pergunta devo dizer que nós estamos a fazer o nosso serviço sob a palavra de ordem “MPLA trabalhar para vencer”. É este o objectivo do partido.

P: A vitória incluirá inverter os 5-0?

J.U: Não gostaria de criar falsas expectativas. Tudo fazemos para que o voto seja livre e respeitamos todos os que participarão da corrida. A única coisa que lhe posso dizer é que nós pretendemos cumprir com os nossos objectivos e, para tal, vamos continuar a convencer o eleitorado sobre as vantagens do nosso programa de governo, esforços que nos levarão à vitória no Bié e em todo o pais. De momento preferimos falar sobre o trabalho que nos levará a colher bons números em Setembro.

P: Há ainda hoje no Bié espaços cativos do MPLA e da UNITA?

J.U.: Vou falar apenas de nós que estamos em todos os nove municípios, nas trinta comunas e em todas as aldeias e embalas onde a única coisa que muda são os números, devido à densidade populacional de cada aglomerado. Em termos de força e presença estamos em todo o território bieno.

P: Enquanto primeiro-secretário do MPLA na província, qual é o adversário que mais o preocupa?

J.U.: (Risos) Penso que não devo eleger nem o adversário mais forte nem o mais fraco. Todos são adversários e porque as eleições, às vezes, trazem alguma surpresas o respeito é para todos.

P: Os políticos da oposição queixam-se frequentemente da intolerância política por parte dos militantes do MPLA. Verdade ou mentira?

J.U.: Ouvimos com frequência, mas temos vindo a refutar esses vocábulos, porquanto nunca foi nosso apanágio incitar ninguém para essas acções. O que se passa, na verdade, tem sido a rejeição, na base, de determinadas mensagens e políticos que deixaram de cativar as populações. Nós ganhámos o nosso espaço, fruto das nossas obras e os que se queixam são aqueles que perderam espaços ou que não conseguem tirar sequer “migalhas do nosso bolo”.

P: Está a dizer que o MPLA domina agora as antigas praças-fortes da UNITA?

J.U.: Não é por aí. Nós não falamos em praças-fortes nem a sul nem a norte. O que posso avançar é que o MPLA no Bié está agora em toda a parte e instalado com muita aceitação. A tal dita intolerância não é mais do que a rejeição das populações que já tiveram sob o seu controlo no passado. Digo mesmo que não seria justo que o MPLA que abriu o país ao multipartidarismo estivesse agora a impedir a acção política da oposição.

P: Mas numa corrida eleitoral as regras são pouco claras…

J.U.: Sempre fazemos o jogo limpo.

P: Estamos em contagem regressiva e a educação cívica é importante...

J.U.: Essa questão sempre constou do nosso programa. O conhecimento dos nossos símbolos, por parte dos eleitores, e a sua mobilização para o voto é pão de cada dia.

P: Queixa-se também a oposição que o MPLA bloqueia as actividades de outras forças políticas realizando actos paralelos…

J.U.: Que eu domine essa informação não. Todos os partidos são livres de realizar as suas actividades, desde que não estejam fora da lei. O que não se deve reclamar é a concorrência que depende apenas da capacidade de mobilização. Nós nunca reclamamos sempre que outros se anteciparam às nossas actividades. É preciso que esclareçam o quê que os amedronta.

P: Discursos com vivas e abaixos são ou não perigosos à coabitação pacífica?

J.U.: Enquanto dirigentes actualizados, sempre jogamos com os contextos. Usávamos estas expressões para combater a guerra. Conseguida a paz não vemos mais razões para tal. Só as pessoas desactualizadas é que continuam a dizer abaixo ao nosso presidente, entre outras asneiras. Estas pessoas que ainda agem como se estivessem na década de 80 devem é ser perdoadas para se evitarem mais confusões.

P: Olhando para a cidade do Kuito e para a província no geral, há reconstrução, mas também há atrasos nas estradas, o comboio não apita e os aviões não pousam no Kuito. Isso preocupa ou não o partido que governa?

J.U.: Temos consciência de que não é possível a reconstrução, em seis anos, daquilo que foi destruído em mais de trinta anos de conflito e ainda fazer quilo que se devia ter feito e não se fez.

O nosso governo está com duas empreitadas: fazer e refazer. Nós estamos a acompanhar e a tranquilizar os bienos que as estradas terão novos tapetes, que a energia chegará à casa de todos, que as escolas e a saúde atingirão todas as aldeias e de igual forma a água. Quanto ao aeroporto, temos a garantia de que será reaberto em Junho, estando nesta altura concluídos mais de 50% da empreitada. Estou também certo de que as pessoas vão compreender que valeu apenas esperar pelo tempo que duram as obras, já que é um trabalho de profundidade. O Comboio também voltará a apitar.

Luciano Canhanga

domingo, abril 20, 2008

VER, OUVIR E DIZER COM RAZÃO


(Crónica de viagem)

Razão é o exercício da racionalidade, usando aquilo a que Aristóteles definiu como verdade. Dizer que é o que é, e que não é aquilo que não é.

Debico essas ideias a propósito do que vejo ao longo das minhas idas ao interior do país (sempre que me refiro ao interior é partido de Luanda) e sobre o que leio e oiço na comunicação social. O tema é: Reconstrução e Construção Nacional.

Surgem constantemente críticas segundo as quais o actual “governo é inoperante”. Outros dizem que quando forem eleitos farão o que o actual governo não faz. Nessa ordem de ideias colocam-se como desafios a construção e reconstrução de estradas e pontes, infraestruturas sociais básicas (escolas, hospitais, água e luz), habitação social entre outras tarefas de que o povo carece.

Uns apregoam a “inoperactividade” do actual governo por meros caprichos eleitoralistas. É o papel da oposição criticar. Mas se o fizer com razão será muito melhor. Outros porque desconhecem o que se faz. E porque até nunca conheceram o marasmo em que a guerra mergulhou o país.

Que não se tem ainda o país ideal, isso julgo ser verdade. Que o actual governo está a fazer muita coisa, isto julgo também ser verdade. Que o povo ainda não está satisfeito, isso também é verdade. E por que razão julgo serem estas verdades, segundo a definição aristotélica?

_ Houve um tempo em que o governo controlava apenas 30% do território nacional. A grande arma usada pela guerrilha para impossibilitar a acção e extensão do governo era a destruição de pontes, minagem de estradas e ataques até onde não havia presença de forças militares. Enquanto vivi na Munenga e em Calulo assisti a várias acções dessa natureza. Hoje, a acção governativa é um facto em todo o país e, com ou sem estradas desejáveis, os angolanos já se fazem transportar em carros de lés a lés, ou seja: de Cabinda ao Cunene e do Lobito ao Luau.

Outra verdade é que as coisas estão a ser mal feitas. A estrada que mais conheço é a EN120 que liga Luanda ao Huambo, atravessando as províncias do Bengo, Kuanza-Norte e Kuanza-Sul. Muitos trechos reabilitados ainda não foram inaugurados e já apresentam novos buracos. O asfalto e os lancís são colocados de forma tão superficial que à primeira chuva eles se descolam. Isso para não falar de outros aspectos técnicos. Disse-o, e muito bem, num artigo assinado no Novo Jornal, o deputado Jaques Arlindo dos Santos que “o asfalto colocado na EN120 muito se parece a uma lona que se descola à chegada da chuva". Vamos apontar esses erros. Chamar e apelar aos órgãos fiscalizadores para tomarem medidas pertinentes. Chamar os empreiteiros à razão, pois não basta fazer, mas sim fazer bem. Não podemos pagar duas vezes por uma mesma obra.

O povo agradece pelos trabalhos feitos e que facilitam as suas vidas, mas o povo também vê que se não houver maior sentido de Estado por parte dos fiscais das obras, se os culpados pela descartabilidade das obras não forem responsabilizados, podemos em curto espaço de tempo voltar à estaca zero. Daí que o apelo é para que se façam bem as coisas e que se critique com razão!

Luciano Canhanga

quinta-feira, abril 17, 2008

KIAMA FULO: UMA PRAIA COM DIAS CONTADOS


Estou sobre a ponte do rio Kuanza.
É a fronteira entre as províncias do Kuanza Norte (município de Kambambe) e Kuanza Sul (município do Libolo).

Ao fundo, para além do curso normal do rio Kuanza, mostrando também o início da albufeira da barragem de Kambambe, pode-se ver a praia fluvial de Kiamafulo, agradável local de recreio para os moradores de Kambambe, Dondo, Kambingo e doutras paragens.

Dizem que a nova reconfiguração da hidroeléctrica de Kambambe vai aumentar a albufeira e a praia de kiamafulo vai desaparecer, devido ao aumento do nível de água.


Antes da travessia da ponte a polícia nacional tem aqui um controlo. No passado, nenhum homem em idade militar o podia transpor sem que tivesse a situação militar regularizada. Hoje, o controlo permanece. A única coisa que mudou é que nenhum automobilista que faça o serviço de transporte de pessoas e ou mercadorias o transpõe sem pagar a “gasosa”. A excepção é feita apenas aos autocarros de empresas licenciadas para o transporte inter-provincial.

E se a dita "gasosa" fosse na verdade um refrigerante, uma caixa seria pouca para tirar a "sede dos polícias gasoseiros" que ficam normalmente em Kalomboloca, Zenza do Itombe, Desvio da Munenga, Kizouo, Ponte do Nhia e Alto Wama. Citei apenas os pontos "críticos" da estrada nacional EN120 de Luanda ao Huambo.

Perante o facto, uma questão se coloca: O alto comando da nossa Polícia Nacional tem ou não conhecimento da existência destas barricadas?


A foto foi tirada no dia 9 de Abril de 2008 de viagem ao Kuito/Bié.

Luciano Canhanga


terça-feira, abril 15, 2008

LUANDENSES TROCAM CARROS PELA MARCHA



Todos os dias milhares de cidadãos percorrem as estradas rumo ao serviço

Voltou a chover em Luanda. No interior dos bairros periféricos quase não se circula e até mesmo viaturas todo-terreno encontram enormes dificuldades em transpor charcos e lamaçal. Dos quintais às ruas, há áreas em que escasseia terra firme para se pôr o pé. Quando isso acontece, pedras para transpor os “obstáculos” são colocadas por jovens desempregados que cobram entre Kz 10 a Kz 50, para que se possa circular sobre elas.

Nas estradas asfaltadas, também invadidas pela água, lamas e lixo, o cenário é assombroso. Os engarrafamentos tomam conta delas das 6h da manhã às 23 horas. Sabe disso quem vive ou se desloca para os bairros Popular, Golfe-Correios, Cassequel, Viana, Cuca/Hoji-ya-Henda/Kunzas, Mabor/ Kikolo/Cacuaco, Tala Hadi/Cazenga/5ª Avenida, entre outros. Os taxistas, únicos que desafiam tudo e todos, encurtaram os troços e encareceram o custo da passagem de Kz 50 para Kz100, motivo que leva às estradas milhares de pedestres.

Alberto Massaca, 47 anos, vive no bairro do Grafanil-Bar e trabalha na baixa da cidade. Conta que prefere caminhar de casa ao largo da Independência (1º de maio) devido aos engarrafamentos e à carestia da passagem no táxi. “É que para além de se chegar sempre tarde sou obrigado a desembolsar perto de Kz. 500, só a ida”, explica. A solução, segundo ele, tem sido madrugar e ir conversando com os companheiros de percurso.

Madalena Joaquim e Abel Samukolo que são colegas numa casa comercial na rua Machado Saldanha, ao Bairro Popular, também caminham do Golfe ao serviço.
“Levo normalmente botas de chuva e sapatos normais que só uso no serviço”, contou Madalena.

O que a nossa reportagem pôde constatar é que muita gente, às vezes, nem chega ao serviço, pois a passagem de um condutor imprudente ou um passo em falso podem ser motivos para ter a roupa suja e ter de regressar à casa sem se ter chegado ao posto de trabalho. Abel Samukolo conta que já lhe aconteceu várias vezes não ter chegado ao serviço por esse motivo.

Os entrevistados relatam ainda que há anos que a situação vem piorando, existindo bairros como o Tala Hadi onde os moradores são forçados a abandonar as suas casas devido à intransitabilidade no seu interior, chegando a água da chuva inundar várias residências por falta de drenagem.
Quando interrogados sobre quem deve reparar a situação que se vive em Luanda em tempo de chuva, os entrevistados não hesitam em dizer que o Governo e/ou “quem de direito” tem de resolver o problema com urgência.

Joaquim Artur, 68 anos, é conhecido na rua 12 de Junho, no Sambizanga, pelos seus desabafos sarcásticos. Para ele, Luanda tem de ser evacuada e entrar imediatamente em obra geral. O sexagenário que diz ter vivido sempre no Sambizanga diz ainda que nunca se assistiu a degradação tão acentuada das ruas no seu município e um pouco por toda a capital.

Contactado o governo da província de Luanda, obtivemos a informação de que para além do alargamento de estradas como a que nos leva à Viana, a construção da via circular, Benfica/Viana/Cacuaco, entre outras, há outros esforços em curso ao nível das administrações municipais que começaram a receber meios técnicos para que a curto prazo se invertam as coisas. A fonte que preferiu não ser citada disse ainda que casos pontuais estão já a ser atacados pelas administrações municipais.

VIANA/LUANDA: COMBOIOS NÃO RESOLVEM POR COMPLETO


Matadidi Bernardo vive em na vila de Viana. Na terça-feira, 15 de Abril, saiu de Viana às 7h e só chegou ao largo Sagrada Família, onde trabalha, às 14 horas. Conta que a luta começa nas paragens onde se apanham o táxi ou o autocarro. “Conseguir pôr o pé dentro deles é já uma vitória”, conta, acrescentando que nesta "empreitada" muitos perdem as carteiras ou acabam com as roupas completamente sujas.

O nosso interlocutor conta ainda que de autocarro a viagem é muito mais demorada chegando a fazer entre 4 a 6 horas, isto é de Viana ao Hospital Militar. “Nessas circunstancias motivadas pelos engarrafamentos, muitos preferem abandonar os taxis e autocarros e terminam a viagem à pé”, explica.

Mais lestos e económicos são os comboios. Vinte minutos de percurso Viana/Estação dos Musseques ao preço de Kz.30 (comboio normal) e kz.150 (expresso). Este facto faz com que as enchentes sejam enormes junto ao término, nunca havendo lugar na segunda paragem. Nos comboios também se apontam males como o sujar da roupa, o suor, e o roubo de carteiras. Outro handicap tem sido o facto de os comboios não circularem todo o dia, fazendo apenas 4 viagens no período da manhã e igual número à tarde.

“Enquanto não for concluido o alargamento da estrada de Viana só os comboios podem resolver a falta de transportes e os engarrafamentos”, reclamam os entrevistados.
Joaquim Neto, oficial das Forças Armadas, é de opinião de que medidas educativas e repressivas devem ser tomadas contra os candongueiros (taxistas) que encurtam as vias e violam os espaços reservados, inclusive à circulação dos comboios do CFL. “Até quando se vai manter a situação”? é a pergunta que deixa para reflexão.

Luciano Canhanga

terça-feira, abril 08, 2008

PERCORRENDO O NORDESTE


Crónica de viagem

Quem acompanha estas crónica terá dado conta que já estive no centro do pais, saído da costa atlântica. Estou agora no nordeste, na região das lundas. Tal como no litoral, no centro e no sul, onde estive sobre rodas, aqui, o cenário pouco difere em termos de crescimento.

É certo que aqui é um extremo. Aqui terminou a colonização portuguesa, terminam as estradas, os apoios, enfim. Mas, mesmo assim, quem conheceu o nordeste ontem, e cá vier hoje, encontrará muitas mudanças. As cidades e vilarejos ganham novos rostos, as estradas vão sendo asfaltadas e alargadas com base no novo padrão. Os empresários vão acreditando e as novas edificações crescem de tempo em tempo. A vida vai melhorando e o custo dela vai baixando, fruto da transitabilidade por estradas. O governo através de programas específicos vai fazendo a sua parte e as populações também a sua.

Os aglomerados populacionais ganham escolas, centros médicos e outros serviços. Há aqui, no nordeste, um elemento importante: Os jangos comunitários, onde as populações se reúnem para tratar dos assuntos comunitários e legar a cultura aos mais novos. São também locais de lazer, contando alguns com a instalação de kits de TV(TPA) por satélite.

Quanto à disputa política, três bandeiras “dominam os ares”: Mpla, Prs e Unita marcam presença em todos os aglomerados ao longo da estrada Malanje/Saurimo e Saurimo/Luena, assinalando-se também a presença óbvia da bandeira nacional. Os aldeões contam que cenário idêntico se verifica no interland.

Outra nota de destaque é a falta de literatura no interior. Tudo se lê: cartazes propagandísticos, velhos jornais e revistas, enfim.

“É só para divertir os olhos e não ficar toda a hora a dormir”, disse um ancião na casa dos cinquenta, abordado à propósito, na aldeia de Kamundambala, 10km de Saurimo.

Luciano Canhanga

terça-feira, abril 01, 2008

VER, OUVIR E DIZER


A BANHA DE COBRA DA IURD

Inundam os jornais, espaços radiofónicos e inclusive Televisivos (TPA incluída), anúncios de uma igreja que “se arroga ao direito de ter substituido o Estado” no seu papel de socorrer as vítimas das inundações e doutras calamidades naturais.

Reporto-me à publicidade tóxica quanto e irritante passada pela IURD e que desagradaria até ao diabo.
-Quem ainda não se deparou com a falácia: “Igreja Universal doa mais de 200 toneladas de alimento”?

Há já mais de 1 mês que ocupa páginas inteiras na comunicação social, como se fosse a única que tem actos de caridade para com os necessitados, ou que estivesse a anunciar algo magistral e sem igual.

Não sendo notícia e atendendo que os veículos que o difundem não o fazem de graça, não teria sido muito mais frutuoso se se acrescentassem esses “rios de dinheiro” as 200 toneladas em vez de se estar a infestar os ventos com coisas que ningém lê?
- Onde anda a moral religiosa, meus senhores, quando a bíblia aconselha a orar baixinho e deixar que Deus, omnisciente, conte por nós e qualifique a importância das nossas oferendas?

Sem ter de falar da forma como é arrancado o dinheiro das mãos dos (in)fiéis, que já foi e é muito contestada, quero apenas dizer que não é, a meu ver, ético que andem por aí a publicitar, durante um mês, o que fizeram por gente aflita. Publicitar uma doação, é o mesmo que repontar qualquer outro acto. Melhor se não tivessem doado tais toneladas.

Tudo quanto sei é missão da igreja visitar os enfermos, dar de comer aos que têm fome e de beber aos que têm sede, algo que a patológica IURD há muito se esqueceu ,ou melhor, nunca soube.
É que chegam a ser enjoativos os anúncios desta –IURD- vendedora de banha de cobra. Fé e graça andam de mãos dadas e nem precisam de publicitação. Em qualquer denominação religiosa deve haver “mais graça em dar do que em receber”.

Luciano Canhanga

segunda-feira, março 10, 2008

TRANSFORMAR ARMAS EM ARADO

(Crónica de viagem)

Lembranças tristes da guerra para que servem?
Em museus talvez tenham alguma utilidade histórica, mas quando estendidas aos ventos, aos sóis e às chuvas, para quê mais cantar vitórias e chorar derrotas enterradas?

-Assim mesmo, procedem os ferreiros, serralheiros, funileiros e outros que se dedicam à transformação dos restos da guerra em algo valioso para a vida.

São incontáveis os carros militares, tanques e outras peças de artilharia pesada que os combates deixaram para trás e que seriam o constante cartaz de boas vindas àqueles que (re)descobrem as estradas d’Angola profunda.

Até a bem pouco tempo o cenário que nos era mostrado era exactamente este: Carros queimados, tanques destruídos, e outras peças de artilharia pesada ladeando as estradas de metro a metro e quilómetro a quilómetro, uma situação que tende a desaparecer.

Primeiro, pela acção positiva dos “homens das artes”. Funileiros, serralheiros, bate-chapas, entre outros que reaproveitam o que é possível retirar destes antigos meios de guerra, transformando-os em objectos de paz.

Estes homens, muitos deles levados às actuais profissões pela carência de quase tudo, não têm medido esforços, para com as chaparias de tanques e carros fabricar: arados, portas e janelas; com os chassis as pontes para transpor rios, entre outros fins. É no fundo também uma forma de aplicar os RRR: Reduzir - ReutilizarReciclar.

Uma forma inteligente de nos desfazermos das recentes tristes lembranças e tocarmos o barco para frente. Outra contribuição têm dado as construtoras das estradas que afastam estes pesadelos para longe da visão ou mesmo enterrá-los.

Bem haja ferreiros!

Luciano Canhanga

quinta-feira, março 06, 2008

DE LUANDA AO HUAMBO/KUITO

RASGANDO A SELVA I
Uma viagem inédita por terra, percorrendo centenas de quilómetros em estradas asfaltadas, terraplanadas e outras muito danificadas pela guerra e inacção humana, só se pode chamar aventura sobre rodas. Aliás, à primeira ideia de a fazer, o conselho foi desfavorável:

_ Toninho, vai de avião!

Teimoso, apanhei o autocarro Luanda/Huambo para depois fazer o Huambo/Kuito, num percurso total aproximado a 800 km.

Luanda/Maria Teresa (K-Norte) em Boa estrada, diga-se, foi o primeiro trecho a que se seguiu Maria Teresa/Dondo em estrada “andável” (muito estreita, porém já sem os buracos e em alargamento). O futuro pode torná-la numa “pista”, dizem os que a frequentam com regularidade.

Dondo/Kibala (K-Sul) é um trecho igualmente impecável sob responsabilidade da brasileira QG e que trás à memória dos mais velhos os tempos da “Junta”. Para os mais novos a lembrança é das manutenções que nos idos de 1980 trabalhadores afectos ao MCH efectuavam.

E seguimos viagem. Pelo caminho algumas paragens obrigatórias montadas pela polícia e sem explicação aparente. Zenza do Itombe, Desvio da Munenga/Calulo, só para citar exemplos. O pretexto é único: Dinheiro para alimentar os caprichos dos agentes da corporação.

-Sete mil. Pagar ou deixar a carta e apanhá-la em Calulo, disse descaradamente um sargento da corporação ao motorista, no desvio da Munenga.

Pretendendo evitar outros 42 km que levam à sede municipal do Libolo e o azar de encontrar o banco sem sistema para o pagamento da suposta multa, “paga” lá entregou o motorista a solicitada quantia aos resmungos.

A viagem retoma. Por enfrentar ainda os controlos do Kizouo e Nhia, antes do Waco Kungo. O sol atinge o “ponto G”, a traça apodera-se do estômago e a conversa bocal é sucedida pela conversa do motor a diesel até Kibala onde termina o novo asfalto. À música automóvel junta-se agora a dança dos buracos. Estamos a caminho do Waco.

A mesma QG e outras empreiteiras se esforçam em cumprir os prazos dados pelo governo, mas a chuva impede o andamento acelerado da empreitada. E as bocas voltam a ter motivos para comentar. A velocidade diminui e o sol acelera o seu passo para o poente. Passa-se pelo Waco, atravessa-se a ponte sobre o Queve e retoma-se a negrura asfáltica. Dizem os conhecedores da zona que assim seria até ao Alto Wama, Comuna do Londuimbali/Huambo, passando por Kassongue, Vila Franca, Ngalangue, entre outros aglomerados do Kuanza-Sul.

“Daqui também se vai ao Kuito passando por Bailundo”, aconselha uma nativa. Mas o anoitecer convida-nos, eu e meu tio Alberto, a seguir ao Huambo, cidade mais segura em termos de dormitório. A intuição transforma-se em razão, pois já passava da hora 22 quando o autocarro, com avarias pelo caminho, escalou a antiga Nova Lisboa, também em franca reconstrução.

E as primeiras informações davam-nos conta da paralisação da cidade no dia anterior, devido ao funeral do empresário Amões que morrera num acidente de aviação. Ele, contavam, era o maior investidor da província e da região central.

Entre sonhos e insónias a noite foi passada numa pensão citadina, com direito a pequeno almoço à saída (foi pena termos saido às cinco da manhã).

Já na sexta-feira 25 de Fevereiro, a maratona para o Kuito começou com os kupapatas (moto-taxi), do albergue à paragem dos carros.

Do Huambo à Vila Nova e Tchicala Tcholoanga a ferrovia de Benguela e os eucaliptos, que o ladeiam, apresentam-se como agradáveis companheiros de viagem que se prolonga até ao Katchiungo e Chinguar, perfazendo os primeiros 75 km do percurso, em estrada terraplanada. Daqui em diante, outros 75 km em território bieno.

A viagem mostra-nos obras e também desilusões. Muito ainda há por fazer. Caia chuva e a velocidade de 60/80 km/H reduziu-se para 20/30. Os buracos falam alto e o corolla quase rastejava. Precisamos de 3 horas para chegar ao Cisindo onde fomos acolhidos em apoteose pela família Salongue.

Luciano Canhanga

quarta-feira, março 05, 2008

DEMOCRACIA BI-PARTIDÁRIA

(Crónica de viagem)

Diz a teoria da comunicação que a Propaganda e o Marketing diferem uma da outra porque a primeira impõe conduta/comportamento e pretende objectivos a curto prazo.

Porém, ao longo do interior do país, sobretudo na região central de Angola, as duas formas de comunicação parecem estar casadas. Ou seja, a propaganda é também Marketing, na medida em que ela é feita não apenas para o hoje, mas também para colher amanhã.

As bandeiras partidárias, colocadas em quase todas as aldeias, têm como fim dizer a quem nasça e quem passe o que e quem elas representam, no caso o partido X ou Y, "marcando uma presença mental".

É assim que Mpla e Unita tentam perpetuar os seus nomes, suas marcas e seus ideais entre as populações da área mais habitada do país, o planalto, disputando (mesmo mudos) espaços territoriais e aglomerados populacionais. Nalguns casos esta disputa muda é notável em cada muro, faixada, rua, aldeia, lavra e até mesmo em descampados. Tudo serve para içar uma bandeira. Estacas, montanhas, cubatas, currais, etc. Quem viaja pelo interior contempla a beleza e assiste igualmente a esta luta fria de gigantes. Apenas os dois.

Mpla e Unita, poder e oposição, unicamente sós, num pais de duzentos partidos. Doutras cores, apenas tímidas aparições em cidades e vilarejos, sempre de forma envergonhada num mundo bi-polar.


Luciano Canhanga

terça-feira, março 04, 2008

KUITO/BAILUNDO/ALTO WAMA/LUANDA

RASGANDO A SELVA II

O regresso a Luanda foi surpreendente. Previa um trajecto semelhante ao anterior, revendo o troço Huambo/Alto Wama que a noite e o cansaço não permitiram ver. Mas quis o condutor da Hiace encurtar o caminho, para o gáudio da maioria, e contornar o Huambo. O meu objectivo era também ver coisas novas para contar, nada mal, e concordei.

Sete horas e trinta minutos. A mulher acompanha-me ao Cisindo, 2 ou 3 km da Cidade. Aqui, viaturas para Luanda, Huambo e outros destinos, aguardam paciente e ordenadamente por passageiros. A ordem de chegada é cumprid
a pelos condutores.

Sobre estrada esburacada e poeirenta, mas com asfaltagem à porta, transpomos marcos importantes. Primeiro o desvio para Chitembo/Kuando Kubango. Antes, passamos por uma ponte provisória que obriga o condutor a uma perícia. Um buraco ao longo da travessia tem de ser acertado ao meio da largura dos eixos.

O rio chama-se Kukema e lembra terríveis combates entre as forças governamentais e da rebelião nos idos anos de 1993 e 1997. Dos dois lados da rodovia objectos de guerra legados à história lembram combates mortíferos que nos levam à reflexão sobre o quanto perdemos ao longo de anos inglórios.

Os nativos esforçam-se em esquecer as mágoas e não comentam. Os visitantes também não perguntam , embora curiosos, evitando que alguém lance farpas. A única voz que se sobrepõe é a do motor diesel da viatura Hiace.

Mais adiante está o Chinguar. Aqui passará o comboio, na sua ligação ao Kunje, (outra localidade que a guerra tornou famosa) para abastecer a cidade do Kuito. São apenas 2 ou 3 km do Kuito ao Kunje.

Na vila do Chinguar o mutismo desaparece e contam-se pequenas estórias sobre os benefícios da paz e sobre as casas velhas que a juventude reclama a todo o custo para reabilitar, mas que o governo não dá.

Atravessa-se a ponte ferroviária e sugam-se mais alguns quilómetros. Não muitos e entramos na vila de Katchiungo, município da província do Huambo.

Aqui a construção de uma grande obra a mando do Ministério da Educação ressalta à vista.

_Um Instituto Médio, se calhar. Murmura-se.

A estrada não pára, nem o carro. Entre buracos e asfalto vai-se alterando a aceleração e o percurso conduz-nos ao Bailundo e não mais à capital do Huambo. O percurso é para mim novidade.

Por embalas e comunas, fazendas e casas de pequeno comercio rural ganham rostos.

De metro a metro estacas delimitam a nova largura da estrada. Dez metros de plataforma ao invés dos actuais oito. Reconstrução da via em curso até que atingimos um trecho da via pouco maltratado pelo tempo e inacção humana. Uma senhora da casa dos 35 solta a voz e resmunga no seu “portumbundu”.

-É graças ao mano Mais Velho que esta estrada ficou assim boa.

Insulto para alguns e elogio para outros. O auditório prefere que o vento se encarregue das palavras, o mesmo vento que leva a música tocada por um rádio tosco.

Terminado o bendito trecho, novamente se dança aos saltos. Adiante se vislumbra uma clareira.

_ É a pista do Bailundo, alertou o motorista, pelo que me lembrei lá ter estado por duas vezes.

No Bailundo contam-se também pequenas estórias sobre a pista, a morte de Valentim Amões que tanto investiu naquela circunscrição e que podia ali aterrar o avião que o matou, se a montanha não se tivesse antecipado. Fala-se ainda sobre o Bunker de Savimbi (na foto), e eu falo sobre a História da criação deste reino do Mbalundu: “foram os nossos ancestrais da Kibala que o fundaram”.

Uns crentes e outros descrentes, o vento mais uma vez se encarrega das palavras.

No largo cívico da municipalidade três placas indicam os destinos: Huambo, Mungo e Alto Wama.

Tomamos o destino frontal que vai ao Wama. De repente o telefone toca. Entre companheiros de viagem fazem-se caras dóceis e outras inamistosas. Levanto o rosto e cruzo olhares com uma bandeira da Unita. O toque de chamada do meu telefone era o hino do Mpla e entendi a mensagem.

A mulher que me pedira para que a pontualizasse sempre que chegasse a um sitio com sinal telefónico perguntou pela minha localização e o porquê do silêncio.

Argumento que no Bailundo só havia Unita (Unitel), telefone que estava sem saldo. O Mpla (Movicel) tocaria no Alto Wama uma hora depois.

ALTO WAMA/PEDRA ESCRITA

O 4 de Fevereiro estava ao meio. Mal entramos para a novel estrada, negra de riscas brancas no meio e laterais, o polícia mostra ser a sua vez de “matar a sede”. Pedem-se documentos do condutor e da viatura mas parecem dizer menos do que mil kuanzas. O motorista desfaz-se dele “pagando”.

Era a segunda vez naquela viagem e outras tantas se seguiriam no Waco, Kibala e desvio da Munenga. Desta vez fico na aldeia de Pedra Escrita onde reside a minha mãe.

O relógio marcava 16 horas. Cheguei. Meu espanto foi que o bairro estava reunificado. É hoje apenas uma unidade que dizem ter sido nada fácil. A minha curiosidade procura pela escola e o centro médico que julgava existirem e a população responde que não havia.

Enquanto aguardo pelo regresso da “minha velha” que foi à lavra, recordo os anos da minha primária, dos quilómetros percorridos à pé, das escolas construídas com adobes feitos pelos alunos mais velhos e pelos pais, das carteiras de munzaza, das lavras dos professores que cultivávamos e das palmatórias na hora da tabuada, e resmungo.

-Como isso regrediu! Bons valores diluíram-se com a guerra e já ninguém quer saber do futuro!

Luciano Canhanga

domingo, março 02, 2008

OS SENHORES DA OBRA

RASGANDO A SELVA III

QG, MC21, CIF, BCOM, entre outras construtoras, são nomes que fazem estórias e que deixarão história sobre a reconstrução das estradas angolanas.

De Luanda ao Dondo, do Dondo à Kibala/Waco Kungo/Alto Wama/Huambo/Bié, enfim, toda Angola, até onde pára a "civilização universal", são milhares de quilómetros em reconstrução e construção, serpenteando a selva.

Montanhas rasgadas, margens fluviais unidas ou reunidas, enhãlas (anharas) ou prados cortados, planaltos trepados, enfim. Uma Angola que ajudam a reencontrar-se.

Assim é a reconstrução do país saído de uma guerra de 41 anos (1961/2002) sem grandes obras e em muitos casos sem manutenção sequer. Uma reconstrução que se canta e conta sob várias versões e em várias línguas que a assiste.

O objectivo maior é fazer e refazer, permitir a comunicação e juntar povos. Aldeias antes ilhadas estão hoje unidas e fornecem ajudantes para as grandes obras de restauro. “Serão os mestres do amanhã e que garantirão a manutenção e continuidade da empreitada”, desabafa um encarregado brasileiro abordado sobre a mão de obra local.

Pois é. É a mais valia que se espera da cooperação estrangeira. Para quem tem 1.246.700 km dilacerados pelo conflito é tanta empreitada para poucos obreiros.

Bem haja!

Luciano Canhanga

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

PEDRA ESCRITA (LIBOLO): NOTAS ESPARSAS I


Aldeia de Pedra Escrita, 279 Km de Luanda, Estrada Nacional 120, há meio caminho entre Dondo e Kibala.

O fim da guerra serviu para juntar os vários povoados que se espalhavam pela região, numa extensão de aproximadamente 10 Km. A fusão é atribuída ao Tenente Coronel Infeliz, n’altura Comandante do Regimento das Forças Armadas estacionadas no município.

  • Conta-se que os aldeões foram forçados a abandonar as residências permanentes nas lavras e formar uma aldeia unificada, o que por si só pode resultar em muitos ganhos colectivos. Hoje, todos se orgulham deste facto, na altura mal encarado.

  • Habitantes de aldeias mais distanciadas da estrada asfaltada seguiram o exemplo dado pelos seus familiares, ainda nos anos oitenta do século XX, fazendo da Pedra Escrita uma das maiores aldeias da Comuna da Munenga, Município do Libolo.
  • Cálculos demográficos apontam para cerca de mil famílias que multiplicado pelo número de agregado, variável entre 5 a 7 indivíduos, nos dá a ideia de poder contar com uma média de 5 a 7 mil habitantes.
  • Para quem viveu na Pedra Escrita ou que lá tenha nascido, mas que há muito deixou de lá viver, o reencontro com a comunidade é sempre motivo de regozijo, quanto mais reencontrar uma aldeia que cresceu demográfica e economicamente. O fim da guerra e a consequente sedentarização permite hoje às famílias construir casas semi-permanentes, juntar alguns recursos e adquirir meios como: chapas de zinco, móveis, electro-domésticos, geradores, motorizadas e até viaturas, algo inimaginável no passado.
  • Porém, se nesse aspecto a comunidade parece ter evoluído, há aspectos em que a colectividade regrediu. Reporto-me à educação, cuidados médicos e sanidade do meio e outras preocupações comunitárias. É que não existem escolas, posto médico, latrinas nem espaços de lazer público.

    No passado, a que assisti como beneficiário, eram as comunidades que construiam a escola, cabendo ao comissariado comunal a indicação do professor que pelo facto de a sua actividade permanente ser o ensino, era alimentado pela comunidade.

  • E mais. Enquanto as nossas mães contribuíam com alguns alimentos, nós os alunos efectuávamos campanhas aos sábados na pequena lavra do professor, encurtando desta feita a sua dependência alimentar da comunidade.

  • Hoje, mesmo com a aldeia triplicada, estas iniciativas desapareceram. Escola, posto médico, Jango comunitário, fontanário, casas de banho e latrinas familiares e ou colectivas afiguram-se como necessidade urgente para diminuir doenças como as diarreias, bilharzioze, entre outras, educar as crianças, alfabetizar os adultos e tratar dos detritos, etc. Iniciativas comunitárias podem encorajar ONG e outros doadores à causa.

  • Repousam-me ainda na memória os quilómetros percorridos, à pé, da Fazenda Israel ao Calombo, do Rimbe à Fazenda Israel, do Rimbe ao que é hoje a aldeia de Pedra Escrita, entre outras peripécias, sempre à procura do aprimoramento intelectual. São distâncias que as crianças de hoje não têm necessidade de percorrer,dada a fusão dos aglomerados populacionais que circundavam a Fazenda Israel. Porém, falta a organização que tiveram os pais do antigamente, já que hoje, os mais pequenos perdem a possibilidade de usufruir de um dos seus direitos mais elementares, a educação.

  • Os pais de ontem já estão sem forças ou já se foram. E por incrível que pareça, os pais de "hoje em dia" esqueceram-se que têm de dar formação aos seus rebentos, sentam-se à sombra da bananeira apreciando um "bom" Kaporroto de dondi.
  • É pena que falte por lá quem provoque um debate e se encontre, sobretudo, "quem coloque o sino ao pescoço do gato". Enfim, falta organização e iniciativas por parte dos aldeões, um facto que deixa entristecido quem por lá tenha nascido e ou vivido e que, por amor ao cordão, anseia por uma vida digna aos seus.

  • Luciano Canhanga